O que é autocompaixão e por que somos tão cruéis conosco
Autoconhecimento e Espiritualidade

O que é autocompaixão e por que somos tão cruéis conosco

1. O que é autocompaixão e por que somos tão cruéis conosco

Autocompaixão é, em termos bem objetivos, a capacidade de tratar a si mesmo com gentileza, respeito e compreensão, principalmente quando você sente que falhou ou não foi “bom o suficiente”. Em vez de entrar automaticamente no modo de cobrança, julgamento e punição, você reconhece que está sofrendo, admite que errou ou que algo doeu, e responde a isso com cuidado, não com agressão interna. Não é passar pano, não é inventar desculpa, é assumir o fato e, ao mesmo tempo, escolher não se massacrar psicologicamente por causa dele.

Você aprendeu ao longo da vida que ser duro consigo mesmo é uma forma de se manter na linha, de garantir desempenho e de evitar fracassos. Só que a pesquisa em psicologia mostra justamente o contrário: autocrítica excessiva tende a aumentar ansiedade, medo de errar e até depressão, o que acaba prejudicando seu desempenho e minando sua motivação. É como se, na tentativa de “cortar custos emocionais”, você estivesse destruindo também os ativos que sustentam sua capacidade de crescer, aprender e se arriscar.

Muitas pessoas são mais bondosas com amigos e colegas do que jamais conseguem ser consigo mesmas. É comum falar para outra pessoa “todo mundo erra”, mas por dentro nutrir a crença de que, no seu caso, errar é inadmissível e prova definitiva de incompetência ou fracasso pessoal. Esse padrão se torna tão automático que você nem percebe o quanto a sua voz interna é cruel, seca e desproporcional diante dos fatos.

1.1. A diferença entre se cobrar e se maltratar

Se cobrar significa assumir responsabilidade, olhar para os resultados, medir o que deu certo, o que não deu, e ajustar a rota, como qualquer contador faria ao revisar um balanço. Já se maltratar é transformar qualquer desvio de meta em prova de incapacidade pessoal, em rótulo de fracasso, em sentença definitiva contra você mesmo. Uma coisa organiza os números para tomar decisões melhores, a outra distorce as contas para reforçar a ideia de que você “não presta” ou “nunca vai dar certo”.

Na prática, se cobrar envolve frases como “ok, isso não saiu como eu queria, o que eu posso fazer diferente na próxima vez?”. Já se maltratar vem com pensamentos do tipo “eu sou ridículo”, “não faço nada direito”, “sabia que eu ia estragar tudo mesmo”. O primeiro foco está no comportamento e no ajuste de rota, o segundo está na identidade, na sua essência, como se um erro apagasse tudo de bom que você já fez.

Quando você se mantém apenas na cobrança equilibrada, há espaço para aprendizado, melhoria contínua e, inclusive, satisfação quando você enxerga evolução. Quando você cai no maltrato, cada erro vira material de acusação interna, e a sensação é de estar sempre devendo, mesmo quando as contas reais da sua vida mostram esforço, responsabilidade e progresso. É como auditar uma empresa que melhora os resultados, mas insistir que ela está quebrando só porque você não suporta ver números que não são perfeitos.

1.2. O papel da autocrítica na sua “contabilidade emocional”

A autocrítica em si não é um vilão absoluto, assim como um auditor interno não é inimigo da empresa. Ela ajuda a identificar pontos de atenção, riscos, erros que precisam ser corrigidos e até padrões que podem comprometer o futuro. O problema começa quando esse auditor interno vira um fiscal punitivo que só enxerga falhas, ignora resultados positivos e trata qualquer desvio como fraude imperdoável.

Quando a autocrítica toma esse lugar rígido, ela passa a distorcer os “relatórios internos” que você faz sobre quem é e do que é capaz. Pequenas falhas ganham peso exagerado, conquistas são desvalorizadas ou atribuídas à sorte, e o foco recai sempre no que faltou, nunca no que foi feito. Assim, você cria uma espécie de balanço emocional permanentemente negativo, mesmo em cenários em que, olhando objetivamente, há consistência, esforço e crescimento.

Esse tipo de contabilidade emocional viciada aumenta a sensação de culpa e de inadequação, tornando você mais vulnerável a ansiedade, procrastinação e paralisia diante de desafios. Ao invés de funcionar como um relatório para apoiar a tomada de decisão, a autocrítica vira um dossiê acusatório usado para justificar por que você “não merece” descanso, afeto, reconhecimento ou novas oportunidades. A autocompaixão entra justamente para recalibrar esse sistema, permitindo uma visão mais justa, precisa e humana dos seus números internos.

1.3. As raízes culturais e familiares dessa dureza interna

Essa crueldade interna não nasce do nada, ela é aprendida em vários contextos ao longo da vida. Famílias muito rígidas, ambientes altamente competitivos e discursos que glorificam a perfeição e o “dar conta de tudo” alimentam a crença de que qualquer fraqueza é inaceitável. Em muitos casos, você aprendeu ainda criança que amor, atenção ou elogios vinham mais facilmente quando estava rendendo, produzindo, tirando boas notas ou sendo “forte”.

Na cultura atual, há uma espécie de pressão permanente por alta performance, produtividade e autocontrole, como se ser humano tivesse virado sinônimo de não poder falhar. Isso gera um ambiente em que a autocrítica parece uma ferramenta natural de sobrevivência: “se eu não me cobrar, vou relaxar demais e perder espaço”, “se eu não for duro comigo, ninguém vai me levar a sério”. Só que essa equação não fecha a longo prazo, porque o desgaste emocional vai se acumulando e, com o tempo, o custo dessa brutalidade interna fica muito alto.

Em relacionamentos também é comum você internalizar padrões de crítica, rejeição ou comparação que vieram do outro. Comentários aparentemente pequenos sobre seu corpo, seu jeito, suas escolhas ou sua carreira vão se somando e se transformam em uma voz interna que repete essas mensagens mesmo quando a pessoa já nem está mais na sua vida. A autocompaixão é uma forma de reestruturar esse legado, questionando o que realmente faz sentido e criando novas bases para o seu valor pessoal.


2. Os impactos de ser cruel consigo mesmo

Quando você é constantemente cruel consigo, não está fazendo só “comentários duros”, está mexendo na base da sua autoestima e da forma como se enxerga no mundo. A autocrítica severa está ligada a maiores níveis de ansiedade, sintomas depressivos e sensação de inadequação generalizada. Com o tempo, essa maneira de se tratar passa a afetar não apenas como você se sente, mas também como age, decide, se relaciona e se permite viver.

Essa crueldade não é neutra nem “motivadora”, ela tem custo real no seu bem-estar mental. Pesquisas mostram que o excesso de autocrítica corrói a confiança, reduz a sensação de autoeficácia e aumenta a tendência a se isolar, achando que ninguém entenderia o que você sente. É como se você criasse um ambiente de trabalho interno tóxico, em que nada é suficiente e qualquer tentativa pode virar motivo para bronca.

Quanto mais você alimenta essa postura severa, mais difícil se torna reconhecer boas experiências, acolher elogios ou se permitir descansar. A mente fica condicionada a prestar atenção apenas ao “erro”, ao que faltou, ao que poderia ter sido melhor, e isso drena sua energia emocional. No campo dos relacionamentos, isso pode gerar dinâmicas de autocobrança, ciúmes, comparação constante e dificuldade de acreditar que alguém possa te amar exatamente como você é.

2.1. Efeitos na autoestima, ansiedade e depressão

A autoestima vai sendo desmontada aos poucos, não é de uma vez só. Cada frase interna que diz “você não presta”, “você não se esforçou o suficiente”, “qualquer um faria melhor do que você” vai registrando um lançamento negativo na sua conta de valor próprio. Com o tempo, esses lançamentos viram um saldo emocional que diz: “eu sou menos, eu mereço menos, eu preciso sempre compensar”.

A ansiedade aparece tanto na forma de preocupação constante com o julgamento dos outros quanto na antecipação catastrófica de erros. A sensação é de estar sempre na beira de um “rombo” que vai revelar o quanto você é insuficiente, então você tenta controlar tudo e todos para evitar qualquer falha. Isso cansa, desgasta e, ironicamente, atrapalha o foco, a criatividade e a capacidade de se adaptar quando algo foge do plano inicial.

A depressão pode entrar quando o peso dessa conta negativa se torna grande demais. A pessoa começa a acreditar que não adianta tentar, que nada do que faz tem valor, que os erros só comprovam uma ideia antiga de inadequação. A autocompaixão, por outro lado, está associada a menos sintomas depressivos e a uma visão mais equilibrada de si, reconhecendo falhas sem transformar tudo em condenação pessoal.

2.2. Como a autocrítica afeta seus relacionamentos e decisões

A forma como você se trata por dentro transborda para fora, inclusive sem você perceber. Quem é muito duro consigo tende a ser mais crítico com os outros, exigir padrões elevados e ter pouca paciência com falhas alheias, como se tudo fosse uma extensão daquela cobrança interna. Isso pode gerar conflitos, ressentimentos e afastamento em relacionamentos afetivos, familiares e profissionais.

Na tomada de decisão, a autocrítica excessiva cria um medo constante de errar, como se qualquer decisão equivocada viesse acompanhada de um julgamento interno implacável. A consequência é hesitação, procrastinação ou escolhas muito conservadoras, porque arriscar significa se expor a mais uma rodada de ataques internos caso algo saia fora do ideal. Assim, você pode recusar oportunidades, evitar conversas importantes ou adiar projetos pessoais com medo da própria reação se algo não der certo.

Ao mesmo tempo, a dificuldade em receber amor, reconhecimento e cuidado genuíno aumenta. Quando você não acredita que merece compreensão e gentileza, tende a desconfiar quando elas aparecem, a minimizar elogios ou a desviar o assunto. A autocompaixão ajuda a criar um solo interno em que essas experiências positivas podem ser registradas como crédito, não como erro de sistema.

2.3. O ciclo vicioso: erro, culpa, punição e paralisia

Existe um padrão bastante comum: você erra, sente culpa, se pune mentalmente e, depois, fica com mais medo ainda de repetir qualquer coisa parecida. Em vez de usar o erro como dado para aprendizado, você usa como arma para se bater, e isso torna o próximo passo ainda mais pesado. A mente associa tentativa com dor, e a tendência é evitar novas experiências para não ter que lidar com a própria violência interna.

Esse ciclo muitas vezes é vendido internamente como estratégia de “alta performance”. Você pode pensar algo como “se eu pegar pesado comigo, eu não vou repetir o erro”. Mas o que a prática mostra é que o medo excessivo de errar reduz a experimentação, restringe a criatividade e leva a uma postura defensiva, que tenta apenas não perder, em vez de buscar crescer.

A paralisia aparece quando a soma de culpa, vergonha e medo de julgamento interno fica grande demais. A pessoa até sabe o que precisa ser feito, mas trava, adia, se sabota. A autocompaixão quebra esse ciclo ao permitir que o erro seja encarado de frente, com honestidade, sem negar dores ou consequências, mas também sem transformar tudo em uma acusação eterna contra quem você é.


3. Os pilares da autocompaixão na prática

Autocompaixão não é um “jeito fofo de pensar”, é uma prática estruturada que se apoia em alguns pilares. Um deles é aprender a falar consigo como falaria com um amigo em sofrimento, outro é lembrar que falhar faz parte da condição humana, e o terceiro é desenvolver atenção plena para perceber o que acontece dentro de você sem se perder naquelas histórias antigas. É como se você tivesse que atualizar o plano de contas da sua mente, incluindo novas categorias de registro emocional mais justas.

Estudos indicam que pessoas mais autocompassivas tendem a ser mais resilientes, mais motivadas e mais aptas a aprender com erros, justamente porque não ficam congeladas na culpa. A gentileza interna vira um ambiente de trabalho emocional em que é possível experimentar, revisar, corrigir e seguir em frente. Em vez de negar a dor ou o erro, a autocompaixão reconhece o impacto deles e, ao mesmo tempo, amplia a visão para além daquele momento crítico.

Esses pilares não dependem de você “sentir vontade” de ser gentil consigo, até porque muitas vezes essa vontade não vem naturalmente. Eles exigem treino, repetição, ajuste de linguagem e uma disposição ativa para tratar a si mesmo como alguém que merece respeito, mesmo quando está longe do ideal. Como qualquer rotina de fechamento contábil, no começo dá trabalho, mas vai ficando mais natural com a prática.

3.1. Gentileza consigo: falando com você como falaria com um amigo

Pense em uma situação recente em que você errou ou se sentiu aquém do que esperava. Agora imagine que quem passou por essa situação foi uma pessoa querida, alguém de quem você gosta muito e que você sabe que se esforça. Muito provavelmente, as palavras que você usaria com essa pessoa seriam mais suaves, equilibradas e encorajadoras do que aquelas que costuma dirigir a si.

A gentileza consigo não é um luxo nem um mimo, é um ajuste de justiça. Se você consegue ser compreensivo com o contexto, as limitações e as dores de alguém que ama, não há uma razão racional para negar esse mesmo tratamento à própria experiência. O que existe, em geral, é uma crença enraizada de que você precisa de dureza para funcionar, enquanto os outros “merecem” cuidado.

Começar a praticar autocompaixão passa por substituir frases internas de ataque por expressões de suporte, sem fugir da realidade. Em vez de “sou um desastre”, algo como “isso doeu, eu errei, mas eu posso aprender com isso e me apoiar nesse processo”. É um tipo de linguagem que mantém a responsabilidade, mas corta o exagero punitivo que só aumenta o sofrimento.

3.2. Humanidade comum: você não é a única pessoa com falhas

Outro pilar importante é lembrar que errar, sentir medo, ter vergonha e se sentir inadequado faz parte do pacote de ser humano. Quando você esquece isso, entra em um lugar de isolamento em que parece ser a única pessoa que sente o que sente ou que “compromete tudo” quando falha. Essa sensação de exclusão emocional aumenta muito a dor, porque, além do problema em si, você passa a acreditar que há algo de fundamentalmente errado com você.

Reconhecer a humanidade comum não é relativizar a sua experiência nem dizer “ah, todo mundo sofre, então para de reclamar”. Pelo contrário, é admitir que a sua dor é válida e, ao mesmo tempo, lembrar que não é um sinal de defeito único, e sim de participação em uma condição compartilhada. Isso reduz a vergonha, porque o foco deixa de ser “eu sou o problema” e passa a ser “estou vivendo algo humano, mesmo que difícil”.

Essa perspectiva ajuda também a diminuir a comparação tóxica, tão comum hoje. Enquanto você se cobra por não estar “no nível” de certas pessoas, esquece que também está vendo recortes, histórias editadas, bastidores ocultos. Lembrar da humanidade comum é reconhecer que até quem parece seguro e bem resolvido lida com dúvidas, medos e erros, mesmo que você não veja isso nos números que aparecem nas redes.

3.3. Atenção plena: percebendo a voz crítica sem se confundir com ela

A atenção plena, ou mindfulness, entra como ferramenta para você conseguir perceber o que acontece dentro da sua mente sem ser engolido pelo conteúdo. Em vez de acreditar cegamente em cada pensamento de autocrítica, você começa a notar padrões: “olha, minha cabeça está repetindo de novo aquela história de que nada que eu faço é suficiente”. Essa pequena distância é fundamental para que você possa escolher respostas diferentes.

Sem atenção plena, a voz crítica soa como verdade absoluta e imediata. Você pensa “sou um fracasso” e sente como se tivesse acabado de receber um laudo técnico incontestável sobre a sua vida. Com prática de presença, você passa a reconhecer “esse é um pensamento de fracasso, ele está aqui, ele é muito familiar, mas não necessariamente corresponde à realidade”.

Esse treino permite que a autocompaixão aconteça no meio do processo, não só depois. Quando você percebe que está começando a se atacar mentalmente, pode interromper o fluxo e escolher conscientemente falar consigo de outra forma. É como identificar um lançamento indevido na contabilidade e corrigir antes que gere um relatório completamente distorcido.


4. Estratégias práticas para cultivar autocompaixão no dia a dia

Trazer a autocompaixão para a rotina é como implantar um novo sistema de gestão: exige ajustes, testes e um pouco de paciência até começar a rodar com fluidez. Não se trata de um projeto que você conclui em uma semana, mas de uma forma diferente de olhar para si, que vai sendo consolidada em pequenas atitudes. Quanto mais você pratica, mais familiar esse modo de se relacionar consigo se torna.

No início, pode parecer artificial, como se você estivesse “forçando” gentileza. Isso acontece porque o padrão antigo de dureza está tão consolidado que qualquer movimento em outra direção parece estranho. Com o tempo, porém, o cérebro vai se acostumando a esse novo tipo de diálogo interno, e o que antes parecia ensaiado passa a ser mais espontâneo.

Essas estratégias não exigem horas de prática nem um ritual complexo. São ajustes de linguagem, de atenção e de comportamento que você pode encaixar no seu dia a dia, em situações onde normalmente seria muito mais cruel consigo. O objetivo é criar um ambiente interno minimamente seguro para que você possa errar, aprender e seguir, sem transformar tudo em processo interno punitivo.

4.1. Reestruturando seu diálogo interno

Um dos primeiros movimentos é identificar as frases mais recorrentes da sua autocrítica. Elas costumam ser curtas, absolutistas e carregadas de julgamento, como “eu nunca acerto”, “eu estrago tudo”, “ninguém me aguenta”. Perceber essas frases é como levantar as principais contas que estão desequilibrando o seu balanço emocional.

Depois de identificar, você pode começar a testá-las, quase como um auditor independente. Perguntas simples ajudam: isso é um fato ou uma interpretação? Há dados que mostram o contrário? Eu falaria isso para alguém de quem gosto, do jeito que estou falando comigo?. Muito frequentemente, a resposta mostra que você está generalizando a partir de episódios específicos, sem considerar o contexto ou o histórico completo.

A partir daí, entra a reestruturação propriamente dita, substituindo essas frases por versões mais honestas e menos agressivas. Em vez de “eu nunca acerto”, algo como “nesse caso não saiu como eu queria, mas eu posso revisar o que aconteceu e tentar de outro jeito”. Isso não elimina a responsabilidade, mas retira a carga de condenação eterna que só atrapalha.

4.2. Pequenos rituais de autocuidado que não são “mimimi”

Autocuidado muitas vezes é visto como frescura ou indulgência, especialmente por quem tem uma mentalidade muito voltada para produtividade e resultado. Mas cuidar de si, de forma prática e concreta, é uma forma de mostrar para o seu sistema interno que você importa e que não é só uma máquina de entregar desempenho. Isso ajuda a diminuir a sensação de que você só tem valor quando está produzindo.

Esses rituais podem ser simples: reservar alguns minutos do dia para respirar com atenção, escrever sobre o que está sentindo, tomar um café com calma, caminhar sem olhar para o celular. Não precisam ser experiências caras ou longas, o importante é que sejam momentos em que você deliberadamente se trata com respeito e cuidado. É como se, em meio ao fechamento do mês, você garantisse pequenas pausas para revisar se o sistema ainda está funcionando bem.

Autocuidado também inclui dizer não para demandas que extrapolam seus limites e reconhecer quando você está perto do esgotamento. Isso pode ser desafiador para quem sempre aprendeu a se colocar por último, mas é parte da autocompaixão reconhecer que o seu “caixa” de energia é finito. Quando você cuida desse caixa, consegue sustentar melhor os compromissos e as relações, em vez de funcionar no vermelho permanente.

4.3. Criando limites saudáveis com pessoas e situações que reforçam a culpa

A forma como você se trata é influenciada também pelos ambientes que frequenta e pelas relações que mantém. Se você está constantemente cercado de pessoas que reforçam a crítica, o deboche, a comparação e a desqualificação, fica muito mais difícil sustentar um olhar mais compassivo consigo. Por isso, parte da autocompaixão é revisar que tipo de contexto você ainda está aceitando.

Criar limites saudáveis pode significar conversar abertamente com alguém sobre o impacto de certos comentários ou atitudes. Em outros casos, pode significar se afastar gradualmente de relações que se baseiam apenas em crítica e cobrança, sem espaço para apoio e acolhimento. Esses movimentos não são fáceis, especialmente se você tem medo de desagradar ou de perder vínculos, mas são importantes para proteger a sua saúde emocional.

Da mesma forma, prestar atenção a conteúdos que você consome é fundamental. Se você se alimenta diariamente de mensagens de “alta performance a qualquer custo”, comparações irreais e discursos de perfeição, a autocrítica encontra terreno fértil para crescer. Ao escolher conscientemente ambientes, relações e conteúdos mais alinhados com uma visão realista e humana da vida, você fortalece a prática da autocompaixão.


5. Exercícios guiados de autocompaixão (com gabarito)

Para consolidar o que conversamos, trazer exercícios práticos é como montar um demonstrativo financeiro depois de estudar a teoria da contabilidade. Sem prática, fica tudo abstrato, difícil de aplicar no seu dia a dia. A ideia aqui é que você tenha ferramentas concretas para começar a ajustar o seu diálogo interno e, aos poucos, reduzir essa crueldade direcionada a si mesmo.

Os exercícios a seguir foram pensados para trabalhar diretamente com a autocrítica e com a forma como você interpreta erros e falhas. São propostas simples, mas que podem gerar insights profundos sobre as histórias que você conta para si sobre quem é e o que merece. Como qualquer processo terapêutico, o mais importante não é acertar a resposta, e sim se permitir ser honesto e curioso com o que aparece.

Depois de fazer, vale guardar o que você escreveu e reler em outros momentos. Assim, você começa a acompanhar a evolução do seu olhar sobre si, como se estivesse analisando relatórios de períodos diferentes para ver se a saúde da sua empresa interna está melhorando.

5.1. Exercício 1: Reescrevendo a sua autocrítica como um contador consciente

Proposta:

  1. Escolha uma situação recente em que você se criticou bastante.
  2. Escreva, em detalhes, o que aconteceu e quais foram exatamente as frases de autocrítica que surgiram.
  3. Em seguida, imagine que você é um contador responsável por fazer um relatório honesto, e não um promotor de acusação. Reescreva essas frases de forma mais precisa, humana e justa.

Exemplo de resposta:
Situação: você entregou um projeto com atraso e, ao perceber, começou a pensar “sou totalmente irresponsável, ninguém pode contar comigo, eu estrago tudo”.

Autocrítica original:
“Sou totalmente irresponsável.”
“Ninguém pode contar comigo.”
“Eu estrago tudo.”

Relatório de um contador consciente e autocompassivo:
“Eu atrasei essa entrega, isso tem impacto e eu preciso assumir a responsabilidade por isso.”
“Esse erro não define todo o meu histórico, já cumpri muitos prazos antes e posso revisar o que aconteceu agora para melhorar o meu planejamento.”
“Eu posso me desculpar com quem foi afetado, ajustar o que for possível e criar estratégias concretas para reduzir a chance de isso acontecer de novo, sem me tratar como se eu fosse um caso perdido.”

Perceba a diferença: o erro continua sendo reconhecido, não há fuga da realidade, mas o foco sai da condenação da sua identidade e vai para a responsabilidade prática e para a aprendizagem. Isso é autocompaixão aplicada ao dia a dia.

5.2. Exercício 2: Carta de autocompaixão para um “erro imperdoável”

Proposta:

  1. Pense em um erro ou escolha do passado que você ainda carrega como se fosse quase imperdoável.
  2. Escreva uma carta para você, como se fosse um terapeuta experiente ou um amigo muito leal, respondendo a esse erro com honestidade e gentileza.
  3. Nessa carta, reconheça o impacto do que aconteceu, mas também traga contexto, humanidade comum e a possibilidade de seguir vivendo sem se reduzir apenas a esse episódio.

Exemplo de resposta:
“Eu sei que você ainda sente vergonha quando lembra daquela situação. Sei que, na sua cabeça, aquilo é a prova de que você não presta, de que é egoísta, de que nunca vai ser uma pessoa realmente boa. Mas eu preciso te lembrar de algumas coisas. Naquele momento, você estava cansado, confuso, tentando dar conta de muita coisa ao mesmo tempo. Não estou dizendo que o que você fez foi certo, nem que não teve consequências, só estou dizendo que nenhum ser humano toma decisões perfeitas o tempo todo.

Você fez escolhas que hoje não faria, porque hoje você sabe mais, enxerga mais, amadureceu. Isso não apaga a dor do que aconteceu, mas mostra que aquele episódio não é um laudo definitivo sobre quem você é. Você não é um resumo dos seus piores momentos, assim como nenhuma empresa é definida apenas pelo pior trimestre da sua história.

Se você quiser aprender com isso, o caminho não é se torturar para sempre, e sim olhar de frente, assumir o que é seu, reparar o que for possível e usar o que sentiu como base para agir diferente daqui para frente. Você merece seguir vivendo, construindo coisas boas, se permitindo receber carinho e respeito, inclusive de você. Não porque você é perfeito, mas justamente porque é humano.”

Esse tipo de carta ajuda a sair do lugar de crueldade automática e a experimentar, ainda que por alguns minutos, um olhar mais inteiro sobre a sua história. Você não deixa de ser responsável pelo que fez, mas também não precisa se condenar a uma prisão emocional perpétua.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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