Quando eu penso em tudo o que a terapia me ensinou sobre responsabilidade afetiva, vejo quase um grande balanço patrimonial emocional: de um lado, as intenções, do outro, o impacto real que eu gero nas pessoas que se relacionam comigo. A terapia vai apontando, linha por linha, onde há crédito demais de expectativa e débito de atitude, onde a conta não fecha entre discurso e prática. E é aí que a responsabilidade afetiva deixa de ser uma expressão bonita e vira um compromisso muito concreto com o jeito como você entra, permanece e sai da vida de alguém.
Ao longo das sessões, o que mais aparece não são grandes vilões ou grandes vítimas, mas pessoas com boa intenção e pouca consciência do peso das próprias atitudes. Gente que nunca aprendeu a comunicar limites de forma adulta, que foge de confrontos, que promete demais para não magoar, e acaba magoando muito mais quando não sustenta aquilo que deixou subentendido. A terapia convida você a olhar para isso com honestidade: não é sobre se culpar o tempo todo, mas sobre aceitar que suas decisões e omissões têm efeito direto no emocional do outro.
Responsabilidade afetiva, nesse contexto, é quase como ter uma contabilidade mínima da sua vida emocional: registrar o que você promete, o que você entrega, o que você retém, o que você posterga. A terapia vai pedindo notas fiscais emocionais: “quando você disse isso, o que realmente queria?”, “quando você ficou, o que esperava em troca?”, “quando você sumiu, o que imaginou que a outra pessoa sentiria?”. À medida que você consegue responder com mais sinceridade, começa a entender que maturidade afetiva não é não errar, mas topar revisar processos, corrigir rota e, principalmente, não ignorar o impacto da sua presença na vida de alguém.
Entendendo responsabilidade afetiva além do “modismo”
Responsabilidade afetiva ficou famosa nas redes, mas na terapia ela aparece muito antes de virar termo da moda. Em linguagem simples, é o compromisso de cuidar do bem-estar emocional de quem se relaciona com você, sabendo que suas atitudes mexem diretamente com as emoções do outro. Não é sobre corresponder todas as expectativas, o que seria impossível, mas sobre não brincar com aquilo que você sabe que tem valor afetivo para o outro.
Quando a gente tira o filtro do “conceito da internet”, responsabilidade afetiva passa a ser algo muito cotidiano. É avisar quando você não quer mais seguir numa relação, em vez de sumir silenciosamente. É alinhar desde o começo se você está disponível para algo sério ou casual, em vez de se esconder num “vamos vendo” que, na prática, só deixa o outro confuso. É saber que cada mensagem que você manda, cada demonstração de interesse, gera expectativas que não desaparecem só porque você decidiu que para você “não é tão sério assim”.
Na clínica, a gente percebe como a ausência de responsabilidade afetiva contribui para quadros de ansiedade, baixa autoestima e até sintomas depressivos em quem recebe esse tipo de tratamento. A pessoa começa a duvidar do próprio valor, a achar que está pedindo demais, que é exagerada, quando muitas vezes só está reagindo a sinais contraditórios e promessas veladas. Quando você entende isso, responsabilidade afetiva deixa de ser uma exigência “dramática” e passa a ser vista como questão básica de saúde emocional nas relações.
A diferença entre sentir muito e se responsabilizar pelo outro
Um ponto que a terapia esclarece rápido é a confusão entre intensidade emocional e responsabilidade afetiva. Sentir muito, mandar mil mensagens, ter ciúmes, se preocupar demais, nada disso por si só significa que você está sendo responsável afetivamente. Às vezes, você só está despejando em cima do outro aquilo que não consegue organizar em você.
Responsabilidade afetiva não é assumir o controle da emoção alheia, é assumir o controle da sua parte da relação. É você conseguir dizer “isso aqui eu dou conta de oferecer, isso aqui eu não consigo” em vez de tentar compensar com exagero de atenção, promessas ou presença, algo que você sabe que não será sustentável. Do ponto de vista de um contador, é como não maquiar o balanço: não adianta inflar ativos emocionais se, no fim, você não tem caixa interno para honrar.
Na terapia, quando alguém diz “mas eu fiz tudo por ele” ou “eu me entreguei inteira”, a conversa quase sempre vai para a qualidade desse “tudo”. Você cuidou do outro ou tentou se livrar da culpa? Você ofereceu espaço ou ocupou todos os espaços com a sua necessidade? Você ouviu o que o outro dizia ou só reagiu ao que imaginava? A responsabilidade afetiva entra exatamente aí: na capacidade de se regular, de não transformar o outro em depósito da sua carência, nem de se colocar como salvador ou salvadora de uma história que não é sua para consertar.
Como a terapia ajuda a enxergar seu papel nos vínculos
A terapia costuma ser aquele lugar em que você chega com a narrativa bem organizada: “o outro fez isso comigo”. À medida que as sessões avançam, o foco vai, aos poucos, migrando para “e o que eu fiz comigo quando o outro fez isso comigo?”. Essa virada não é para isentar ninguém, mas para resgatar sua parte de autoria nas relações, inclusive nas que doem.
Aos poucos, você começa a perceber padrões: sempre escolhe pessoas indisponíveis, sempre aceita menos do que gostaria, sempre evita dizer o que sente para não “pesar o clima”. A terapia, como uma boa auditoria, vai apontando onde estão essas repetições. Não para te condenar, mas para te mostrar que, se o roteiro é sempre o mesmo, talvez esteja na hora de reescrever a maneira como você entra numa relação e negocia os termos afetivos dela.
O aprendizado sobre responsabilidade afetiva vem quando você entende que não é só sobre o que fazem com você, mas também sobre o que você aceita, mantém, alimenta ou silencia. Você descobre que pode e precisa ter critérios: de comunicação, de respeito, de coerência. E, ao mesmo tempo, passa a se perguntar com honestidade se você tem oferecido ao outro o mesmo nível de clareza e cuidado que exige receber.
Autoconhecimento: o ponto de partida para a responsabilidade afetiva
Responsabilidade afetiva sem autoconhecimento é como fechar balanço sem saber de onde veio o dinheiro nem para onde foi. Na terapia, a primeira grande lição é olhar para o seu próprio mundo interno com menos julgamento e mais curiosidade. Você começa a identificar suas emoções, gatilhos, medos e expectativas que levam você a agir de certas maneiras nos relacionamentos.
Esse processo não é rápido nem glamuroso. Muitas vezes, parece uma conciliação trabalhista com seu próprio passado: antigos vínculos, histórias mal resolvidas, promessas que você fez a si mesmo, tipo “nunca mais vou sofrer assim”. A partir daí, sua forma de se relacionar hoje começa a ficar mais clara, e a tal responsabilidade afetiva deixa de ser só sobre o outro e passa a incluir como você se trata dentro dos relacionamentos.
Autoconhecimento, nesse contexto, não é um luxo, é o básico para não transferir a conta dos seus processos internos para quem se relaciona com você. É reconhecer seus limites, suas inseguranças, seus medos de abandono ou de rejeição e, ao invés de escondê-los, aprender a conversá-los.
Mapear suas emoções como um balanço afetivo
Na prática da terapia, uma coisa que funciona muito é aprender a “mapear” suas emoções como um balanço afetivo mesmo. Que situações geram ansiedade em você? Em que momentos você se sente em débito com o outro? Em quais episódios você percebe que está tentando compensar alguma culpa antiga com uma entrega exagerada?
Quando você cria esse mapa, fica mais fácil entender por que reage como reage. Talvez você se perceba aceitando migalhas porque, lá atrás, aprendeu que precisava merecer cada demonstração de afeto. Talvez você se veja exagerando na atenção porque não aguenta a ideia de ser visto como alguém que “não se esforça o suficiente”. Esse olhar tira os relacionamentos da zona do improviso e coloca você num lugar de mais consciência.
Na terapia, muitas vezes o exercício é quase contábil: listar situações, identificar emoções, nomear pensamentos automáticos, reconhecer crenças. A partir disso, você começa a separar o que é do presente e o que é resquício de experiências anteriores. É essa separação que ajuda a diminuir projeções em cima do outro, o que já é um passo enorme em direção à responsabilidade afetiva.
Identificar padrões de relacionamento que se repetem
Outro ponto central é perceber padrões que se repetem, quase como lançamentos recorrentes no extrato emocional. Pessoas diferentes, histórias parecidas. Tipos de parceiros que se repetem, dinâmicas familiares que voltam em relacionamentos amorosos, reações automáticas que você nem percebe que é você quem está escolhendo.
Na terapia, você começa a ver como esses padrões se montam. É a forma como você se encolhe para caber na expectativa do outro, ou como se agiganta para assumir um papel de salvador. É a tendência de ignorar sinais vermelhos no início para não perder alguém, e depois reclamar que foi “pego de surpresa”.
Identificar esses padrões não resolve tudo de uma vez, mas é como encontrar um erro sistemático na contabilidade: se você não vê, ele corrói por anos; quando começa a enxergar, pode tomar decisões diferentes. Você passa a entender que responsabilidade afetiva inclui escolher com mais critério onde você investe sua energia emocional e com quem tenta construir algo.
Assumir autoria das próprias escolhas emocionais
Autoria é uma palavra que aparece muito na clínica quando se fala de responsabilidade afetiva. É sair do lugar de quem “só foi levado pelas circunstâncias” e assumir que, mesmo com limitações, você tem participação ativa na forma como suas histórias se constroem. Isso não significa culpar-se por tudo, mas reconhecer que a sua parte é a única sobre a qual você tem, de fato, algum controle.
Assumir autoria é admitir que você escolheu ficar quando já estava doendo, que preferiu não perguntar o que o outro queria para não ouvir uma resposta desconfortável, que aceitou menos clareza do que desejava porque tinha medo de perder aquela relação. Quando você começa a nomear essas escolhas, a responsabilidade afetiva ganha corpo: passa a ser não só o cuidado com o outro, mas também o compromisso de não se abandonar para tentar segurar alguém.
Na linguagem de um contador, é quando você assume a assinatura do relatório: não controla o mercado, não controla o comportamento dos outros, mas responde pela forma como registrou, interpretou e atuou sobre os dados que tinha. Na vida afetiva, isso se traduz em decisões mais conscientes, conversas mais honestas e, sobretudo, mais coerência entre aquilo que você sente, fala e faz.
Comunicação clara: alinhando expectativas antes que virem prejuízo emocional
Na terapia, fica muito evidente como a comunicação é o centro da responsabilidade afetiva. É ali que expectativas são alinhadas ou completamente distorcidas. O que você não diz, o que você diz pela metade, o que deixa subentendido, tudo isso vira espaço para projeções, fantasias e mal-entendidos que machucam.
Responsabilidade afetiva não é prometer o mundo, é comunicar com honestidade o que você está disposto a construir. Às vezes, a atitude mais cuidadosa não é “fazer de tudo pelo outro”, e sim ter a coragem de dizer “eu não quero a mesma coisa que você”. Dói? Dói, mas dói de forma limpa, em vez de gerar uma dor longa, alimentada pela confusão.
Quem passa pelo consultório aprende, com o tempo, que silêncio raramente é neutro. Quando você evita uma conversa difícil, está escolhendo que o outro lide sozinho com a própria dúvida. Quando você mantém gestos carinhosos sabendo que já decidiu ir embora, está empurrando para frente um prejuízo emocional que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai ter que contabilizar.
Dizer o que você pode oferecer sem “maquiar” o vínculo
Uma parte essencial da responsabilidade afetiva é aprender a dizer, com clareza, o que você pode oferecer. Se você quer algo casual, falar isso desde o início. Se você está em fase de se reorganizar emocionalmente e sente que não consegue assumir grandes compromissos, deixar isso explícito. Se sua disponibilidade de tempo é limitada, não criar uma imagem de presença que você não terá como sustentar.
Na prática, isso significa resistir à tentação de “maquiar” o vínculo para agradar ou para não perder alguém naquele momento. Fazer promessas vagas, como “vamos ver no que dá”, quando, por dentro, você já sabe que não quer nada sério, é uma forma de irresponsabilidade afetiva. É como inflar um ativo que você não tem intenção de manter em carteira.
Na terapia, muitas pessoas descobrem que não aprendem a dizer “não posso”, “não quero” ou “não estou pronto” porque associam essa sinceridade à rejeição ou à culpa. Só que o custo de não dizer é alto: gente magoada, histórias confusas, autoestima abalada. Quando você escolhe ser claro, inclusive sobre suas limitações, está praticando responsabilidade afetiva também por não vender uma ideia de relação que não vai entregar.
Como a falta de clareza gera “passivos emocionais”
Quando você não alinha expectativas, cria aquilo que podemos chamar de passivos emocionais: dívidas não pagas na relação. São conversas que não aconteceram, decisões que você empurrou com a barriga, sinais contraditórios que foram se acumulando. Cada vez que você deixa alguém na incerteza, uma linha nova aparece nesse balanço.
Na clínica, esses passivos se manifestam em frases como “eu não sei o que a gente é”, “parece que estou sempre pedindo demais”, “ele diz uma coisa, mas faz outra”. A pessoa vai se sentindo insegura, confundida, sem saber em que terreno pisa. Isso não acontece só em relações amorosas, mas também em amizades, no trabalho, em contextos familiares.
Responsabilidade afetiva, aqui, é revisar esses passivos: retomar conversas, esclarecer o que ficou implícito, assumir quando você alimentou expectativas que não podia corresponder. Não é simples nem confortável, mas é a forma mais honesta de reduzir danos e evitar que pequenas omissões virem grandes ressentimentos.
Aprendendo a dar más notícias com cuidado e respeito
Um dos momentos em que responsabilidade afetiva mais aparece é na hora de dar más notícias. Dizer que não quer continuar, que não sente o mesmo, que mudou de ideia. Muita gente foge desse momento com estratégias clássicas: sumir, ser frio de propósito para o outro “entender sozinho”, começar a tratar mal para induzir o término.
Na terapia, trabalhamos muito a ideia de que dar uma má notícia com respeito é uma forma profunda de cuidado. Você não controla a reação do outro, nem consegue evitar a dor, mas pode cuidar da forma. Pode ser direto sem ser cruel, honesto sem ser agressivo, firme sem ser indiferente. Isso é responsabilidade afetiva porque reconhece que há uma pessoa do outro lado, com história, expectativas e sentimentos legítimos.
Do ponto de vista desse olhar de “contador da vida emocional”, dar uma má notícia com responsabilidade é apurar o resultado de forma transparente. É não esconder prejuízos, não empurrar problemas para o próximo exercício, não maquiar números. Em relacionamentos, isso se traduz em encerrar ciclos com a dignidade mínima que qualquer vínculo merece.
Limites saudáveis: onde termina o seu CPF emocional e começa o do outro
Na terapia, outro aprendizado fundamental sobre responsabilidade afetiva é o papel dos limites. Sem limites, você corre o risco de se responsabilizar por tudo e todos, se colocando numa posição de exaustão. Com limites rígidos demais, você se fecha tanto que não consegue construir intimidade real. Responsabilidade afetiva vive nesse meio do caminho.
Limite saudável é um acordo interno que diz: “até aqui é meu, daqui para frente é do outro”. Você cuida do impacto das suas atitudes, mas não assume a tarefa impossível de evitar qualquer desconforto emocional do outro. Você aceita que frustração faz parte da vida e que ser responsável afetivamente não é sempre dizer “sim”, e sim ser honesto sobre o que pode e quer oferecer.
Esse equilíbrio é trabalhado sessão após sessão. Muito frequentemente, quem chega ao consultório dizendo “eu tenho muita responsabilidade afetiva” está, na verdade, falando de um padrão de se colocar sempre em último lugar, carregando o emocional alheio nas costas. A terapia ajuda a diferenciar cuidado de autoabandono.
Distinguir cuidado de controle nos relacionamentos
Uma confusão frequente é entre cuidar do outro e tentar controlar o que o outro sente. Cuidado é perguntar como a pessoa está, levar em conta os sentimentos dela nas suas decisões, ajustar atitudes quando percebe que algo está machucando. Controle é vigiar, decidir pelo outro, conduzir a relação de um jeito que evite qualquer desconforto, mesmo que isso custe autenticidade.
Responsabilidade afetiva se aproxima mais do cuidado do que do controle. Você reconhece que suas ações têm impacto, mas não se coloca na posição de “gestor absoluto” das emoções alheias. Aceita que o outro tem a própria história, os próprios gatilhos e as próprias escolhas, e que, por mais cuidadoso que você seja, ainda assim pode haver dor.
Na terapia, esse ponto fica muito claro quando alguém diz “eu fiz de tudo para ele não se magoar”. A pergunta que vem é: “de tudo mesmo ou tudo que você fez foi para tentar não lidar com a culpa de vê-lo magoado?”. Essa diferenciação é crucial. Cuidado real leva em conta o outro e também você. Controle disfarçado de cuidado costuma ser, no fundo, uma tentativa de fugir de emoções difíceis.
Quando responsabilidade afetiva vira autoabandono
Existe um risco real de confundir responsabilidade afetiva com se anular. Você passa a aceitar tudo, a ceder sempre, a não falar das suas necessidades para não “causar problema”. No começo, isso pode parecer generosidade, mas, com o tempo, vai gerando ressentimento, cansaço, sensação de injustiça.
Na clínica, isso aparece em relatos de pessoas que sempre “seguram as pontas”, mas não se sentem cuidadas da mesma forma. Elas dizem “eu sempre penso no outro”, “nunca quero magoar ninguém”. O que não percebem é que estão se magoando sistematicamente ao se deixar sempre por último. Responsabilidade afetiva verdadeira inclui você na conta.
Do ponto de vista da metáfora contábil, é como uma empresa que só se preocupa com a satisfação de clientes e fornecedores e nunca olha para o caixa. Em algum momento, a estrutura não se sustenta. Na vida afetiva, a falta de limites e o autoabandono levam ao mesmo colapso: você talvez continue entregando, mas sem saúde emocional para isso. Responsabilidade afetiva saudável pede equilíbrio entre o que você dá e o que você também precisa receber.
Encerrar ciclos sem deixar “pendências afetivas” em aberto
Encerrar ciclos é uma parte dolorosa, mas essencial, da responsabilidade afetiva. Terminar uma relação, se afastar de uma amizade, se reposicionar numa dinâmica familiar. O modo como você faz isso diz muito sobre seu grau de maturidade emocional.
Na terapia, trabalhamos muito a importância de, sempre que possível, dar nomes às coisas antes de ir embora. Isso não quer dizer entrar em todos os detalhes, nem forçar conversas quando o outro não quer, mas assumir a sua parte: “eu não quero continuar”, “esse tipo de vínculo não faz bem para mim”, “eu preciso de distância”. Quando você some sem dizer nada, deixa uma pendência que o outro vai tentar resolver sozinho, geralmente se sentindo culpado, inadequado ou insuficiente.
Do ponto de vista dessa leitura mais “técnica”, é a diferença entre encerrar um contrato com aviso prévio ou simplesmente parar de honrar as cláusulas. Um gera frustração, o outro gera confusão e trauma. Responsabilidade afetiva é escolher o primeiro caminho sempre que tiver condições.
Prática diária: pequenos hábitos que consolidam responsabilidade afetiva
Depois de tanta reflexão, a terapia vai trazendo o tema da responsabilidade afetiva para a rotina. Não adianta entender tudo conceitualmente e continuar se relacionando no automático. O que faz diferença são pequenos hábitos, repetidos ao longo do tempo, que vão mudando a qualidade dos seus vínculos.
Esses hábitos não são grandiosos, mas são consistentes. Perguntar como o outro está de verdade, ouvir com atenção, ajustar atitudes quando percebe que algo machucou, ter conversas incômodas em vez de alimentar mal-entendidos, reconhecer quando erra e pedir desculpas sem justificar demais.
A terapia funciona como uma espécie de fechamento mensal: você volta, revisa situações, percebe onde foi coerente com o que deseja construir e onde voltou para velhos padrões. Com o tempo, essa revisão vai se antecipando: em vez de se arrepender depois, você começa a pensar antes. E é aí que a responsabilidade afetiva deixa de ser esforço e vira parte da sua forma de estar nas relações.
Checar o impacto das suas atitudes nos outros
Um hábito simples e poderoso é aprender a checar o impacto das suas atitudes. Em vez de supor que “está tudo bem” porque ninguém reclamou, você pergunta: “como você se sentiu com aquilo que eu fiz?”, “pegou mal para você quando eu agi daquele jeito?”. Isso abre espaço para o outro trazer percepções que você, sozinho, não alcançaria.
Na terapia, essa prática é muito incentivada porque retira você do piloto automático. Em vez de se defender imediatamente, você aprende a ouvir, considerar, avaliar. Não quer dizer aceitar qualquer crítica sem filtro, mas levar a sério o testemunho de quem se relaciona de perto com você.
Quando você incorpora esse hábito, sua responsabilidade afetiva se torna menos teórica e mais experiencial. Você deixa de pensar só no que pretendia fazer e passa a incluir, na sua análise, o que de fato chegou ao outro. Essa diferença entre intenção e impacto é uma das grandes chaves para vínculos mais saudáveis.
Revisar periodicamente seus “contratos afetivos”
Outro hábito importante é revisar, de tempos em tempos, os “contratos afetivos” que você tem. Não contratos formais, claro, mas aqueles acordos que existem em qualquer relação: o que vocês esperam um do outro, qual é a frequência mínima de contato, quais são as linhas que não podem ser cruzadas.
Na prática, isso pode ser uma conversa franca de vez em quando: “ainda está fazendo sentido desse jeito?”, “você está se sentindo bem nessa dinâmica?”, “tem algo que você gostaria de ajustar entre nós?”. Essa revisão evita que você siga no automático em relações que já mudaram, em pessoas que já não estão no mesmo lugar emocional de antes.
Do ponto de vista da metáfora contábil, é como reavaliar contratos de longo prazo à luz da realidade atual. O que fazia sentido há anos pode não se sustentar mais hoje, e tudo bem. Responsabilidade afetiva é ter a coragem de ajustar os termos, em vez de manter um acordo tacitamente morto só por medo de encarar a mudança.
Quando buscar terapia para fortalecer sua responsabilidade afetiva
Por fim, a própria decisão de buscar terapia é, muitas vezes, um ato de responsabilidade afetiva consigo e com quem se relaciona com você. Se você percebe padrões de repetição, relações que terminam sempre de forma parecida, pessoas próximas dizendo que se sentem confusas ou feridas pelo seu jeito de se envolver, isso já é um sinal importante.
Na terapia, você encontra um espaço seguro para explorar essas questões sem ser reduzido ao seu pior momento. É um ambiente de análise, não de julgamento. Você pode revisar histórias, questionar crenças, experimentar novas formas de se posicionar. E, principalmente, pode aprender a equilibrar cuidado com o outro e cuidado com você.
A responsabilidade afetiva, vista desse ângulo, não é uma exigência externa, mas uma escolha de maturidade. É decidir que você quer se relacionar de um jeito que seja bom não só para hoje, mas para o longo prazo, para a saúde emocional de todos os envolvidos, inclusive a sua. E, se precisar de ajuda nesse caminho, a terapia é uma das ferramentas mais consistentes para apoiar esse processo.
Exercícios práticos com resposta comentada
Exercício 1 – Mapeamento de uma situação recente
Tome uma situação recente em que você sente que faltou responsabilidade afetiva, sua ou de alguém com você. Descreva, em poucas linhas, o que aconteceu. Em seguida, responda:
- O que foi comunicado explicitamente entre vocês?
- Que expectativas foram criadas, ainda que de forma implícita?
- Que atitude concreta poderia ter sido mais responsável afetivamente nessa situação?
Resposta comentada:
Na terapia, o objetivo desse exercício não é apontar culpados, e sim treinar seu olhar para diferença entre intenção e impacto. Ao identificar o que foi dito claramente e o que ficou subentendido, você começa a enxergar onde nascem os tais “passivos emocionais”. Quando você sugere uma atitude concreta mais responsável, está praticando o movimento de autoria: em vez de só sofrer pela situação, você aprende com ela e prepara repertório para agir de outro jeito numa próxima vez.
Exercício 2 – Seu contrato afetivo consigo
Escreva uma espécie de “contrato afetivo” que você assina com você mesmo. Inclua pelo menos três cláusulas:
- Uma cláusula sobre o que você se compromete a comunicar nas relações (por exemplo, “aviso quando não quiser mais seguir em uma relação, mesmo que isso seja difícil para mim”).
- Uma cláusula sobre o que você não aceita mais fazer consigo em nome de manter alguém por perto (por exemplo, “não vou mais aceitar ser constantemente desrespeitado em limites básicos”).
- Uma cláusula sobre quando buscar ajuda profissional (por exemplo, “se eu perceber que estou repetindo padrões que me machucam, me comprometo a procurar terapia”).
Resposta comentada:
Esse exercício reforça que responsabilidade afetiva começa pela forma como você se trata. Ao formalizar, ainda que simbolicamente, um contrato consigo, você dá um passo concreto para sair do modo automático e passar a ter parâmetros claros de como quer se posicionar afetivamente. Isso também facilita estabelecer limites com outras pessoas, porque você passa a ter mais clareza sobre o que está em acordo ou em desacordo com aquilo que combinou com você mesmo.

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt. Facebook
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público, adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida. Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram
