Você provavelmente chegou até aqui pensando: “mas o papel do pai no vínculo da amamentação é mesmo um assunto para mim?” A resposta é sim, e com muito mais profundidade do que você imagina. O papel do pai no vínculo da amamentação vai muito além de pegar o bebê para arrotar ou levar um copo d’água para a mãe — ele toca na construção de uma família inteira, no sucesso ou no fracasso de uma das fases mais intensas da vida a dois, e no quanto o seu filho vai sentir que foi acolhido desde o primeiro momento da vida dele.
Esse assunto fica escondido debaixo do tapete em muitas histórias. O holofote costuma focar na mãe, no leite, na pega correta, nas dores, na produção. O pai aparece como coadjuvante, aquele que está por perto mas não tem linha de fala. E é exatamente aí que mora o problema. Quando o pai não entende o seu papel nessa fase, ele não apoia o que deveria apoiar, e o processo de amamentação desmorona com muito mais facilidade. Não é uma acusação, é uma observação clínica feita por quem trabalha com famílias há anos.
A ideia aqui é abrir essa conversa sem julgamentos. Você não foi ensinado a ser pai dentro de uma sala de amamentação, ninguém foi. Mas tem muita coisa que pode mudar quando você entende o que está em jogo. E eu prometo que essa leitura vai ser honesta, prática e sem aquela linguagem clínica que cansa antes da segunda linha.
Por Que o Pai Tem Mais Peso do Que Imagina na Amamentação
O Que a Ciência Já Descobriu Sobre o Papel Paterno
Existe um dado que costuma deixar pais de queixo caído. Segundo um estudo canadense divulgado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, famílias em que o pai se preparou para a amamentação antes do nascimento do bebê chegam a 95% de aleitamento materno exclusivo até os seis meses. Já nas famílias em que o pai só buscou informação depois que o bebê nasceu, esse número cai para 88%. Sete pontos percentuais que representam semanas ou meses de leite materno a mais para uma criança, só porque o pai se envolveu com antecedência.
Uma revisão integrativa publicada no SciELO analisou 44 publicações científicas sobre o tema e chegou a uma conclusão clara: o apoio social, profissional e familiar é imprescindível para o sucesso do aleitamento materno, e dentro do contexto familiar, o pai é o suporte de maior relevância, na perspectiva das próprias mães. Não é a avó, não é a amiga de infância, não é a doula, não é o pediatra. É o pai, aquele que está do lado da mulher no dia a dia, que tem o maior peso na hora em que ela decide se continua ou abandona a amamentação.
Essa influência acontece em dois movimentos. O primeiro é direto: o que o pai faz ou deixa de fazer no dia a dia afeta concretamente a experiência da mãe. O segundo é indireto: a percepção da mãe sobre o quanto o pai a apoia afeta o estado emocional dela, e o estado emocional dela afeta diretamente a produção de leite. Ou seja, o pai participa da amamentação mesmo sem estar com o bebê no colo. O seu comportamento está presente em cada mamada.
Como a Presença do Pai Impacta Diretamente a Produção de Leite
Isso aqui merece um parágrafo só para assentar: a glândula que regula as emoções é a mesma que controla a produção dos hormônios responsáveis pelo leite materno. Quando a mãe está estressada, ansiosa ou se sentindo sozinha, o corpo dela responde a esses sinais. A prolactina, que é o hormônio que produz o leite, e a ocitocina, que é o hormônio que faz o leite descer, são sensíveis ao estado emocional. Um ambiente de tensão reduz a eficiência desses dois hormônios.
O papel do pai entra aqui como um fator de proteção emocional. Quando a mãe se sente amparada, quando alguém reconhece o esforço dela, quando ela não precisa resolver sozinha a casa, o choro do bebê e as próprias dores, o corpo dela responde diferente. Ela produz mais leite e com mais eficiência. Isso não é autoajuda, isso é fisiologia. O estresse materno é um dos fatores associados ao desmame precoce, e o suporte paterno é um dos maiores redutores de estresse para a mulher no puerpério.
Existe também o efeito da percepção. Uma mulher que sabe que pode contar com o parceiro tem mais confiança na própria capacidade de amamentar. E a confiança, por mais que pareça subjetiva, tem um efeito real: ela reduz a ansiedade, melhora a postura corporal durante a mamada, ajuda na pega correta e contribui para que a mãe não desista nas primeiras semanas, que são justamente as mais difíceis. O pai que apoia a mãe está, literalmente, investindo no sucesso da amamentação do próprio filho.
O Vínculo Pai-Bebê Começa Aqui, Antes do Que Você Pensa
Muitos pais acreditam que o vínculo afetivo com o filho começa quando a criança já reconhece o rosto, responde a estímulos, sorri. Mas o bebê já responde à voz do pai no útero. Já diferencia o cheiro do pai das primeiras horas de vida. E nas semanas de amamentação, o bebê aprende a se sentir seguro também pela presença do pai, pelo colo, pelo tom de voz, pela forma como é segurado ao ser levado até o peito da mãe.
O vínculo paterno não passa pelo seio, mas pode ser fortalecido durante a amamentação. Toda vez que o pai participa da rotina das mamadas, que cria um ritual de noite, que troca a fralda antes de levar o bebê para mamar, que fica acordado enquanto a mãe amamenta, ele está construindo uma presença que o bebê vai registrar. Crianças com pais mais presentes nos primeiros meses de vida desenvolvem maior segurança emocional. Isso não é uma opinião, é o que a pesquisa sobre apego parental tem mostrado há décadas.
A amamentação, nesse sentido, é uma oportunidade rara. As semanas de licença paternidade ou qualquer período que o pai consiga estar em casa são uma janela que não se reabre. O pai que usa esse tempo de forma ativa, que não apenas assiste, mas participa com intenção, está colocando os tijolos de uma relação que vai durar a vida toda. O investimento emocional que você faz agora é o capital que você vai usar por anos na relação com seu filho.
O Apoio Emocional Que Ninguém Ensina ao Pai
Reconhecer o Esforço da Mãe é um Ato Concreto de Amor
A mãe que está amamentando está queimando cerca de 500 calorias por dia só para produzir leite. O corpo dela está trabalhando em ritmo de maratona enquanto ela parece estar apenas sentada num sofá segurando um bebê. As pessoas ao redor veem a cena e pensam que é um momento tranquilo. Não é. Ela está exausta. Os mamilos podem estar fissurados. Ela pode estar com o seio empedrado. Ela pode estar sentindo dor a cada mamada e ainda assim colocando o bebê no peito porque quer fazer aquilo funcionar.
Quando o pai reconhece esse esforço em voz alta, isso tem um efeito concreto no estado emocional da mãe. Não é preciso um discurso elaborado. Um “você está fazendo um trabalho incrível” dito com sinceridade vale mais do que qualquer arranjo de flores. A mulher no puerpério muitas vezes sente que o foco de todo mundo é o bebê, e que ela sumiu enquanto pessoa. O pai que consegue olhar para ela, além do bebê, e dizer que a vê, que percebe o quanto ela está se doando, está fazendo algo que nenhum outro ser humano naquele momento pode fazer.
Reconhecer o esforço também significa não minimizar as dificuldades. Frases como “mas você escolheu amamentar” ou “se não estiver funcionando, dá a mamadeira” têm o poder de destruir a motivação da mãe em segundos. Mesmo que ditas com boa intenção, elas comunicam que o esforço dela não importa tanto assim. O pai que quer apoiar precisa entender que a mãe não precisa de soluções rápidas nesses momentos. Ela precisa ser ouvida, validada e encorajada a continuar.
Como Estar Presente nos Momentos de Crise da Amamentação
A amamentação tem crises. Tem o dia em que o bebê não pega. Tem a madrugada em que a mãe está em lágrimas achando que não vai conseguir. Tem o momento em que ela diz que vai desistir e parte do fundo do coração dela espera que o pai diga: “Não desiste agora, eu estou aqui com você.” Esses momentos de crise são pontos de virada. O que acontece ali determina se a amamentação vai ou não continuar.
O pai que está presente nos momentos de crise não precisa ter todas as respostas. Ele não precisa saber como resolver a fissura do mamilo ou ensinar a pega correta, para isso existem consultoras de amamentação. O que ele precisa fazer é permanecer. Sentar do lado. Perguntar o que ela precisa. Não sair do cômodo quando o choro começa, nem do bebê nem dela. A presença física do pai nessas horas comunica uma mensagem poderosa: você não está sozinha nisso.
Existe também um aspecto mais prático aqui. Quando a mãe está em crise, muitas vezes o que ela precisa é de uma pausa de dez minutos com o bebê no colo do pai enquanto ela vai ao banheiro, respira, bebe água, chora sozinha se precisar. O pai que assume o bebê nesses intervalos não está apenas ajudando com a rotina, está literalmente recarregando a bateria emocional da mãe para que ela consiga continuar. Esse revezamento silencioso é uma das formas mais práticas de apoio emocional que existem.
Comunicação Honesta Entre o Casal Durante Essa Fase
O puerpério coloca o casal diante de um estresse relacional muito real. A dinâmica muda, o sono some, o foco do mundo é o bebê, a vida a dois fica em segundo plano. Se o casal não constrói um canal de comunicação ativo durante essa fase, os ressentimentos se acumulam em silêncio e explodem semanas ou meses depois. A terapia de casal atende muitos pares que perderam o fio da comunicação exatamente nesse período.
A comunicação honesta nessa fase começa com o pai expressando o que está sentindo também. Muitos pais se calam porque acham que não têm o direito de falar sobre as próprias dificuldades enquanto a mãe está “claramente passando por mais”. Mas um pai que engole tudo vai ficar ressentido, vai ficar distante, vai dar passos para trás exatamente quando a mãe mais precisa de um parceiro presente. Falar sobre o que está sentindo, incluindo o cansaço, a insegurança e até o ciúme, é mais saudável para o casal do que a aparência de que tudo está bem.
Para a mãe, comunicar as necessidades dela sem esperar que o pai adivinhe é um exercício igualmente importante. O pai que não sabe o que a mulher precisa não vai conseguir oferecer o apoio certo. “Preciso de trinta minutos sozinha agora” é uma frase que clareia o que pode ser feito. O casal que aprende a se comunicar com objetividade durante o puerpério sai dessa fase com uma relação mais forte do que entrou.
Ações Práticas do Pai Durante a Amamentação
O Que Fazer Antes, Durante e Depois de Cada Mamada
A participação do pai começa antes do bebê ir ao peito. O ambiente importa muito para uma mamada tranquila. Uma cadeira confortável, uma almofada de amamentação no lugar certo, um copo de água gelada na mesinha do lado, o celular no modo silencioso, uma luz mais baixa à noite. O pai que monta esse ambiente antes de a mãe se sentar para amamentar está contribuindo de forma concreta para o sucesso daquela mamada.
Durante a mamada, o papel do pai é sobretudo o de guardar espaço. Isso significa não entrar no cômodo com perguntas desnecessárias, não trazer visitas naquele momento, não colocar a televisão no volume alto, não interromper com assuntos que podem esperar. E também significa estar disponível caso a mãe precise de algo: mais água, um casaco porque está com frio, ajuda para ajustar a posição do bebê. Presença disponível é diferente de invasão de espaço. O pai que entende essa diferença é muito mais útil do que aquele que fica em volta tentando resolver o que não precisa de solução.
Depois de cada mamada, existe uma contribuição prática muito valiosa: o pai pode assumir o bebê para arrotar, trocar fralda se necessário, e devolver o bebê ao berço. Isso permite que a mãe descanse alguns minutos antes que o próximo ciclo comece. Parece pequeno, mas somado ao longo do dia e da noite, esse gesto reduz significativamente a exaustão materna. É o tipo de apoio que a mãe não consegue dar para si mesma, e que faz toda a diferença quando existe alguém disposto a oferecer.
As Noites Difíceis e o Papel do Pai Ali
A madrugada é onde muita amamentação vai por água abaixo. O bebê acordando a cada duas horas, a mãe sem dormir direito desde o nascimento, o cansaço acumulado que começa a parecer insustentável. É também onde muitos pais se retiram com a desculpa de que “precisa trabalhar amanhã” enquanto a mãe enfrenta a madrugada sozinha. Esse padrão é um dos que mais geram ressentimento nos casais no pós-parto.
O pai pode não amamentar, mas pode ir buscar o bebê no berço e levá-lo até a mãe. Pode trocar a fralda antes de entregar ao peito. Pode segurar o bebê enquanto a mãe ajusta a posição. Pode devolver ao berço depois que o bebê adormecer, para que a mãe não precise se levantar com dor ou cansaço. Essas ações, que levam minutos, mudam completamente a qualidade da noite da mãe. E uma mãe que dorme um pouco melhor produz leite com mais eficiência no dia seguinte.
Existe também um valor simbólico nas noites compartilhadas que não pode ser ignorado. A mãe que enfrenta a madrugada com o pai do lado sente que está numa equipe. A que enfrenta sozinha sente que está carregando um fardo que teoricamente era dos dois. Essa percepção, repetida noite após noite, deixa marcas na relação. O pai que decide estar presente nas madrugadas está investindo tanto no relacionamento com a mãe quanto no vínculo com o bebê.
Proteger o Espaço da Mãe e do Bebê das Interferências Externas
Ninguém fala muito sobre isso, mas as visitas nas primeiras semanas são um dos maiores sabotadores da amamentação. A sogra que acha que o bebê não está mamando o suficiente. A tia que sugere que o leite parece fraco. O amigo do pai que diz que amamentar em público é desnecessário. Cada um desses comentários, por mais bem-intencionados que sejam, planta uma dúvida na cabeça da mãe. E a mãe em dúvida sobre a própria capacidade de amamentar é uma mãe em risco de desmame precoce.
O pai é o guardião desse espaço. Ninguém tem mais autoridade moral e logística para controlar o acesso ao lar nas primeiras semanas do que o parceiro. Estabelecer horários para visitas, limitar a duração, criar uma regra clara de que opinião sobre amamentação só é bem-vinda quando solicitada, e proteger a mãe de comentários que ela não tem energia para rebater naquele momento — tudo isso é responsabilidade do pai. Não como gesto possessivo, mas como ato genuíno de proteção familiar.
Essa proteção se estende também ao ambiente público. A mãe que precisa amamentar em um shopping, em um restaurante ou em qualquer espaço fora de casa já enfrenta o olhar de uma sociedade que ainda não aprendeu a naturalizar o aleitamento. O pai que fica do lado, que não demonstra desconforto, que posiciona o carrinho ou a bolsa para criar um mínimo de privacidade sem forçar a mãe a se esconder, está comunicando uma mensagem clara: eu apoio você, estamos juntos nisto.
O Vínculo do Pai com o Bebê Além do Leite
Formas de Criar Conexão Sem o Seio
Um pai pode desenvolver um vínculo profundo com o bebê sem nunca ter amamentado. Isso parece óbvio quando dito assim, mas muitos pais se sentem excluídos da relação mãe-bebê exatamente porque o seio representa um canal de conexão que eles não têm acesso. Essa percepção, quando não trabalhada, pode levar o pai a se afastar em vez de buscar suas próprias formas de conexão.
O banho é um dos rituais mais ricos para o vínculo pai-bebê. A água morna, o contato pele a pele, a voz do pai guiando cada movimento, a atenção completa e sem distrações — esse é um momento de presença total que o bebê registra com o corpo. O pai que assume o banho desde o início não está apenas ajudando a mãe, está construindo um ritual que é exclusivamente dele com o filho. Com o tempo, o bebê vai associar aquele momento ao cuidado do pai de uma forma que nenhuma mamada pode substituir.
Trocar fraldas, carregar no colo enquanto a mãe descansa, cantar, conversar, ler em voz alta para um bebê que ainda não entende palavras mas já responde ao ritmo e ao calor da voz — tudo isso cria vínculo. O pai que está presente nesses momentos não é um ajudante da mãe, é um pai construindo a própria relação com o filho. E essa distinção importa muito para a saúde emocional do pai também.
O Toque, o Colo e a Voz do Pai Têm Poder
Existe pesquisa mostrando que bebês reconhecem a voz do pai desde o útero, especialmente nos últimos três meses de gestação. Quando esse mesmo pai fala com o bebê nas primeiras semanas de vida, a criança demonstra respostas fisiológicas diferentes, incluindo redução da frequência cardíaca e maior relaxamento muscular. O colo do pai não é um substituto do colo da mãe, é uma experiência diferente e igualmente necessária para o desenvolvimento do bebê.
O toque paterno também tem uma textura distinta. As mãos do pai geralmente são maiores, a temperatura corporal é um pouco mais alta, o ritmo de respiração é diferente do da mãe. O bebê aprende a se localizar no mundo também por essas referências. Um bebê que é carregado, tocado e segurado pelo pai de forma regular desenvolve repertório sensorial e emocional mais amplo. Isso não é teoria, é o que os estudos sobre desenvolvimento infantil precoce têm documentado.
Mas o que muda de forma mais imediata para a família é o seguinte: quando o pai consegue acalmar o bebê, a mãe descansa. Quando a mãe descansa, ela tem mais energia para amamentar. Quando ela amamenta com mais tranquilidade, a pega melhora, a produção de leite se estabiliza e o bebê fica mais saciado. O toque do pai tem um efeito em cadeia que chega diretamente à qualidade da amamentação, mesmo que de forma indireta.
Presente Desde o Pré-Natal: a Preparação Que Muda Tudo
A preparação para o papel de pai na amamentação não começa com o nascimento do bebê. Ela começa nas consultas de pré-natal. O pai que acompanha a gestação, que faz perguntas, que participa dos cursos de preparação para o parto e para o pós-parto, chega à amamentação com uma bagagem completamente diferente. Ele já sabe que leite materno não é fraco. Ele já sabe que o estresse afeta a produção. Ele já sabe que nem todo choro é fome. Ele chega preparado para apoiar em vez de atrapalhar.
Os profissionais de saúde têm uma responsabilidade importante aqui que muitas vezes não é cumprida: incluir o pai no processo de informação sobre amamentação durante o pré-natal. Quando o pai assiste à consulta e recebe as mesmas orientações que a mãe, ele deixa de ser um espectador e passa a ser um participante ativo. E um pai participante ativo é, como a ciência já mostrou, um fator de proteção real para o sucesso do aleitamento.
Se você está lendo isso durante a gestação, aproveite o tempo. Busque um curso de amamentação que inclua o pai. Converse com a equipe de saúde que acompanha a sua companheira. Leia sobre as dificuldades mais comuns das primeiras semanas para não ser pego de surpresa. O investimento de horas de estudo antes do nascimento vale mais do que semanas de tentativas e erros depois. A preparação é a forma mais eficiente de apoio que o pai pode oferecer.
Quando a Amamentação Gera Tensão no Casal
Ciúmes, Exclusão e os Sentimentos Que Ninguém Fala
A pesquisa científica sobre o tema levanta um dado que poucas pessoas estão dispostas a admitir: muitos pais sentem ciúme durante a amamentação. Não um ciúme racionalmente justificável, mas um sentimento vago de exclusão, de que existe uma relação entre a mãe e o bebê que não tem espaço para ele. O bebê parece precisar da mãe de uma forma que não tem equivalente para o pai. E se o pai não tem um lugar ativo nessa fase, essa percepção se intensifica.
Esse sentimento, quando não nomeado e não trabalhado, pode virar distância. O pai que se sente excluído começa a se recolher. Passa mais tempo fora de casa, mergulha no trabalho, fica no celular enquanto a mãe amamenta. E quanto mais ele se afasta, mais a mãe se sente sozinha, mais o bebê cresce numa bolha de dois, e menos o pai constrói o seu próprio vínculo com o filho. É um ciclo que começa num sentimento não dito e termina em família fragmentada.
A saída não é esconder o sentimento. É nomeá-lo. Dizer para a companheira, numa conversa tranquila e fora de um momento de crise, que você se sente às vezes sem saber como entrar nessa relação. Que não sabe bem onde o seu papel começa. Que você quer participar mas não encontra a porta. Esse tipo de honestidade abre espaço para que a mãe também expresse o quanto ela precisa de você e como você pode fazer isso de forma ativa e com presença real.
Como o Casal Pode Crescer Junto Nessa Fase
O puerpério é uma das maiores provas de relacionamento que um casal enfrenta. Não pela amamentação em si, mas pelo conjunto de tudo: o cansaço, a reorganização de identidades, a chegada de uma terceira pessoa que vira o centro de tudo, o fim temporário de várias dinâmicas que o casal tinha como certas. A relação não volta a ser o que era antes, e tentar fazê-la voltar é uma das maiores fontes de sofrimento nessa fase.
O que pode acontecer, e acontece quando existe intenção de ambos os lados, é que o casal sai do puerpério mais forte do que entrou. Porque atravessar uma fase de alta intensidade junto, sem deixar ninguém para trás, cria um tipo de intimidade que só existe quando duas pessoas passaram por algo difícil de mãos dadas. O casal que aprende a cuidar de um bebê juntos, que divide as madrugadas, que fica em silêncio um do lado do outro quando não há nada a dizer, está construindo uma história de parceria que vai sustentar a relação por muito tempo.
Para isso acontecer, o casal precisa criar pequenos rituais de reconexão. Não precisa ser um jantar elaborado ou uma viagem. Pode ser dez minutos de conversa depois que o bebê dorme, sem celular, sem televisão. Pode ser o hábito de dizer ao outro uma coisa que você apreciou naquele dia. Pode ser a decisão consciente de que vocês são um casal além de serem pais. Esses micro-gestos de reconexão funcionam como manutenção preventiva da relação, e o puerpério é exatamente o período em que eles mais fazem diferença.
Quando Buscar Ajuda Profissional
Existe um ponto em que o apoio interno da família não é mais suficiente, e nenhuma quantidade de artigos sobre o papel do pai vai resolver o que está acontecendo. Esse ponto acontece quando a tensão no casal passa de cansaço para conflito crônico. Quando a mãe apresenta sinais de depressão pós-parto. Quando a amamentação está gerando sofrimento tão intenso que compromete a saúde mental de ambos. Quando o pai não consegue de forma alguma se conectar com o bebê ou com a companheira apesar de tentativas genuínas.
Buscar ajuda profissional nesse contexto não é fracasso, é inteligência. Uma consultora de amamentação pode resolver em uma sessão dificuldades técnicas que a família passou semanas sofrendo. Um psicólogo pode ajudar o pai a entender o que está sentindo e a encontrar formas mais funcionais de participar. Um acompanhamento de terapia de casal pode abrir canais de comunicação que se fecharam na exaustão do pós-parto. Cada uma dessas intervenções tem base de evidência e histórico de eficácia. Não é preciso esperar a situação ficar insustentável para procurar apoio.
O sinal mais honesto de que é hora de buscar ajuda é quando você nota que as estratégias que estão sendo usadas não estão funcionando. Quando a mesma discussão acontece repetidamente sem resolução. Quando a mãe não consegue descansar mesmo com ajuda. Quando o pai se sente completamente alheio ao processo apesar dos esforços. Esses sinais merecem atenção. E a atenção que eles merecem, muitas vezes, só um profissional capacitado consegue oferecer com a profundidade necessária.
Exercícios para Fixar o Aprendizado
Exercício 1: O Mapa do Apoio Paterno
Pegue uma folha de papel e divida em três colunas com os títulos: “O Que Eu Faço Hoje”, “O Que Posso Começar a Fazer” e “O Que Preciso de Ajuda Para Fazer”. Em cada coluna, liste ações concretas relacionadas ao seu papel na amamentação. Pense nas categorias: apoio emocional, ações práticas, proteção do ambiente e vínculo com o bebê. Depois de preencher as três colunas, escolha uma ação da segunda coluna e comprometa-se a implementá-la nas próximas 48 horas. Compartilhe o mapa com a sua companheira e pergunte a ela se tem algo que ela adicionaria.
Resposta esperada: O exercício não tem respostas certas ou erradas porque parte da realidade de cada família. O objetivo é que o pai saia do campo da intenção abstrata e entre no campo da ação concreta. A coluna “O Que Preciso de Ajuda Para Fazer” é a mais importante, porque revela onde existe um bloqueio real que pode exigir informação adicional, conversa com profissionais de saúde ou apoio emocional do próprio pai. O simples ato de escrever essas três listas cria clareza sobre onde estão os pontos cegos.
Exercício 2: A Conversa Que Ficou Para Depois
Reserve um momento de no mínimo vinte minutos com a sua companheira, longe do celular e fora de um momento de crise. Façam as seguintes perguntas um ao outro, alternando quem pergunta e quem responde:
“O que você mais precisa de mim agora, nessa fase?”
“Tem algo que eu faço que, sem querer, atrapalha mais do que ajuda?”
“Como você prefere que eu demonstre que estou do seu lado?”
Não interrompam, não defendam posições enquanto o outro fala. Depois que ambos responderam às três perguntas, cada um escolhe uma coisa concreta que pode mudar ou intensificar nos próximos sete dias com base no que ouviu.
Resposta esperada: A maioria dos pais descobre, ao fazer esse exercício, que a mãe precisa de coisas mais simples do que eles estavam supondo. E a maioria das mães descobre que o pai quer participar mais mas não sabe como pedir. A conversa em si já é parte do exercício. O que você vai ouvir nela é mais valioso do que qualquer lista de dicas práticas que este artigo possa oferecer. A comunicação aberta é o fundamento de tudo o que foi discutido aqui, e esse exercício é a forma mais direta de colocar isso em prática.
Referências científicas: Sociedade Brasileira de Pediatria / Estudo Canadense sobre Aleitamento Materno; Silva BT et al., Apoio paterno ao aleitamento materno: uma revisão integrativa. Revista Paulista de Pediatria, SciELO; Bebê Abril – O papel do pai no período da amamentação; ComMadre – Como o pai pode apoiar a amamentação; Viver Bem Unimed – O papel do pai na amamentação; Blogs O Globo – Dicas de como o pai pode ajudar.

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt. Facebook
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público, adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida. Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram
