O jeito certo de conversar sobre coisas que não estão funcionando na cama sem ferir o ego
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O jeito certo de conversar sobre coisas que não estão funcionando na cama sem ferir o ego

Conversar sobre sexo dentro de um relacionamento é, talvez, uma das coisas mais importantes que um casal pode fazer — e uma das que mais geram desconforto. Saber como conversar sobre sexo sem ferir o ego do parceiro é uma habilidade que poucos desenvolvem, não porque seja impossível, mas porque ninguém ensina. A gente aprende a negociar salário, a dar feedback no trabalho, a resolver problemas de comunicação com amigos. Mas quando chega na intimidade do quarto, parece que o roteiro some completamente.

Você já ficou deitado depois de um momento íntimo com aquela sensação de que algo não funcionou do jeito que você esperava, mas engoliu seco e ficou quieto? Ou tentou dizer alguma coisa e a conversa virou uma briga que não tinha nada a ver com o que você queria falar? Isso acontece com uma frequência muito maior do que as pessoas admitem. Uma pesquisa realizada pela ZipHealth mostrou que 42% dos entrevistados têm medo de desapontar o parceiro durante conversas sobre sexo, e quase um terço disse não saber sequer como pedir o que deseja.

Então vamos falar sobre isso com clareza, do jeito que uma terapeuta falaria com você num consultório — sem julgamento, sem rodeios, mas com cuidado. Porque o silêncio, nesse assunto, não protege ninguém. Ele acumula ressentimento, aumenta a distância emocional e transforma algo que deveria ser prazeroso em uma fonte constante de ansiedade.


Por que conversar sobre sexo ainda é tão difícil

O ego e o peso silencioso do desempenho

Há algo que a maioria dos casais não fala em voz alta: o sexo está carregado de identidade. Para muitas pessoas, especialmente para os homens, o desempenho sexual está diretamente conectado a como eles se enxergam. Não é exagero dizer que, quando você toca nesse assunto de forma errada, a pessoa não ouve uma crítica sobre a experiência — ela ouve uma crítica sobre quem ela é. Esse é o nó central de toda a dificuldade que cerca essa conversa.

Pense na diferença entre dizer “esse relatório precisa de ajustes” para um colega de trabalho, e dizer “você não foi bem hoje” para alguém que associa o trabalho à própria identidade. O conteúdo pode ser parecido, mas o impacto emocional é completamente diferente. No sexo, esse impacto é ainda mais profundo porque a vulnerabilidade está amplificada. Vocês estavam nu, literalmente e emocionalmente. Qualquer palavra mal colocada atravessa mais fundo do que pretendido.

Segundo dados do mesmo estudo da ZipHealth, os homens são 42% mais propensos a se preocupar com desempenho sexual do que as mulheres. Isso não significa que elas não sentem o mesmo tipo de peso — apenas que para eles, a questão do desempenho carrega um componente cultural muito forte, ligado à ideia de que ser bom na cama faz parte do que significa ser homem. Reconhecer isso não é desculpa para não conversar. É o ponto de partida para conversar do jeito certo.

O medo de magoar e ser rejeitado

Do outro lado da equação está quem quer falar. E aqui mora outro problema igualmente paralisante. Você quer melhorar a vida íntima de vocês, mas ao mesmo tempo tem medo de que o que você diz seja interpretado como rejeição. Que ele ou ela pense que você não gosta mais, que está comparando com outra pessoa, ou que está insatisfeito com o relacionamento como um todo. Então você fica calado. E o problema permanece.

Esse medo é real e merece ser levado a sério. Mas ele tem um custo que vai crescendo com o tempo. Quando você protege o outro da verdade por muito tempo, vai acumulando pequenas frustrações que um dia aparecem de um jeito muito mais agressivo do que teriam sido numa conversa honesta e gentil. A terapia chama isso de comunicação passivo-agressiva, aquela coisa de dar uma cutucada indireta, fazer piadinhas com um fundo de verdade, ou simplesmente se distanciar sem explicação.

O que acontece na prática é que o silêncio, que parecia proteção, vira distância. Você começa a ter menos vontade de iniciar a intimidade porque sabe que não vai ser do jeito que quer, mas não diz nada. Ele percebe o distanciamento, mas não sabe o porquê. Cria hipóteses, geralmente piores do que a realidade. E os dois ficam sofrendo por algo que uma conversa honesta poderia resolver.

Como o silêncio alimenta a insatisfação

O silêncio sobre sexo funciona como uma conta bancária que só tem débito. Você vai retirando satisfação a cada experiência que não corresponde ao que você precisa, sem nunca fazer um depósito de conversa honesta que reequilibre as coisas. Num determinado ponto, a conta zera — e o casal sente isso como “a chama foi embora”, quando na verdade o que foi embora foi a disposição de tentar.

Um levantamento citado pelo jornal O Tempo mostrou que casais que conseguem superar diferenças de desejo e preferência são exatamente os que estão dispostos a conversar, a ceder um pouco e a experimentar novidades juntos. Não é sobre compatibilidade perfeita desde o início. É sobre o processo contínuo de se conhecer. E isso exige fala. Exige que alguém diga em algum momento: “Quero que seja bom para nós dois, e pra isso preciso te contar o que está funcionando e o que não está.”

A sexóloga Mariah Prado, especialista em prazer feminino pelo Instituto Paulista de Sexualidade, resume bem esse ponto: “Sexo bom não nasce de adivinhação, nasce de conversa.” Você não é responsável por adivinhar o que seu parceiro quer, e ele não é responsável por adivinhar o que você precisa. A comunicação é o único caminho real. Tudo o mais é suposição.


O momento certo para essa conversa acontecer

Por que nunca conversar durante ou logo após o sexo

Existe um erro muito comum que merece atenção antes de qualquer outra coisa: o momento em que você escolhe ter essa conversa é tão importante quanto o que você vai dizer. E o pior momento possível é durante o sexo, ou imediatamente depois. Não porque seja errado querer falar sobre o assunto, mas porque o cérebro de vocês dois não está em condições de processar feedback de forma segura nesses instantes.

A sexóloga Mariah Prado explica esse ponto com precisão. Durante o sexo, o corpo está em modo de performance, e qualquer correção nesse momento soa como crítica direta. Logo depois, a pessoa pode estar sensível, vulnerável, e interpretando qualquer comentário como uma avaliação do que acabou de acontecer. O que você falaria com a melhor das intenções pode ser recebido como “você foi ruim”. Não porque a outra pessoa seja insegura demais, mas porque o contexto emocional do momento amplifica tudo.

Isso não significa que você deva fingir que está tudo bem enquanto está nu. Significa que as conversas sobre o que não está funcionando precisam de um espaço próprio, fora desse contexto específico. Um ambiente neutro, onde os dois estejam emocionalmente disponíveis e sem a vulnerabilidade do momento íntimo ainda à flor da pele. Quando você respeita isso, aumenta muito a chance de a conversa ser ouvida de verdade.

Onde e como criar um ambiente seguro

A sexóloga recomenda conversas em ambientes neutros — uma caminhada, depois de um jantar tranquilo, em um momento sem pressa. Parece simples demais, mas essa escolha de cenário muda completamente a dinâmica. Quando você está lado a lado numa caminhada, por exemplo, o contato visual direto diminui, e isso reduz a tensão que costuma acompanhar conversas difíceis. Você fala para a frente, literalmente, e isso tem um efeito regulador no sistema nervoso.

Outro elemento essencial é combinar com o outro que vai ter uma conversa. Não chegar jogando o assunto de supetão enquanto ele está relaxado no sofá assistindo série. Você pode dizer algo como: “Queria falar sobre a nossa intimidade, tem um momento bom pra você esta semana?” Esse pequeno gesto de aviso prévio dá ao outro a chance de chegar para a conversa preparado emocionalmente, e não na defensiva por ter sido surpreendido.

Criar um ambiente seguro também significa combinar as regras da conversa antes de começar. Nada do que for dito será usado como arma em outros momentos. Ambos vão ouvir sem interromper. O objetivo não é ganhar, é construir. Essas combinações podem parecer formais demais para uma conversa entre um casal, mas elas funcionam. Quando os dois sabem que o espaço é seguro, a tendência é que a abertura apareça naturalmente.

Como preparar sua cabeça antes de abrir o assunto

Antes de sentar para conversar, vale fazer uma espécie de alinhamento interno. Pergunte a si mesmo: o que exatamente não está funcionando? É a frequência? É um tipo específico de toque? É a sensação de que você não é prioridade no momento íntimo? Quanto mais você consegue nomear o que sente antes da conversa, menos chance existe de que tudo vire um desabafo genérico que o outro não sabe como receber.

Também vale checar a intenção por trás do que você quer dizer. Você está chegando nessa conversa querendo punir ou querendo melhorar? Querendo mostrar que tem razão ou querendo criar algo melhor para os dois? Isso pode parecer óbvio, mas na prática, muita gente chega numa conversa sobre sexo carregando mágoa acumulada, e o que sai é muito mais acusação do que desejo de mudança. Isso não significa que a mágoa é inválida — significa que ela precisa ser processada antes de entrar na conversa.

A recomendação de especialistas é nomear sua intenção já no início da fala. Algo como: “Quero conversar sobre a nossa intimidade porque me importo com você e com a gente, não porque estou insatisfeito com quem você é.” Essa âncora, dita em voz alta, muda o tom de tudo que vem depois. O outro ouve que você está ali para construir, não para destruir. E quando a pessoa se sente segura, ela escuta muito melhor.


As palavras que mudam tudo nessa conversa

Falar de si mesmo em vez de apontar para o outro

Existe uma técnica simples que faz diferença enorme em conversas sensíveis, e ela se chama linguagem do eu. Em vez de começar uma frase com “você nunca faz”, “você sempre esquece”, “você não presta atenção em mim”, você começa falando do que você sente, do que você precisa, do que você está sentindo falta. Essa mudança gramatical parece pequena, mas ela transforma a conversa completamente.

Quando você diz “você nunca me toca do jeito que eu gosto”, o outro ouve uma acusação. A resposta natural é se defender. Aí entra o argumento contrário, o tom sobe, e vocês saem da conversa original para uma briga sobre quem está certo. Agora, quando você diz “eu sinto falta de ser tocado com mais leveza às vezes”, o outro não tem do que se defender. Ele recebe uma informação sobre o que você sente. E a maioria das pessoas, quando não está sendo atacada, quer genuinamente que o parceiro se sinta bem.

Uma sexóloga entrevistada pelo portal NSC Total explica que quando você fala de si mesmo, o outro não precisa se defender, porque não foi uma acusação. Você explica como você se sente, do que você gosta, do que não é muito fã, o que você percebe que não está funcionando. Isso convida o outro para junto de você, não coloca ele em oposição. E essa diferença de posicionamento muda tudo no rumo da conversa.

Substituir crítica por pedido concreto

Há outra armadilha comum nessas conversas que é a crítica sem direção. Dizer que algo não está bom sem dizer o que você precisaria que fosse diferente coloca o outro num labirinto sem saída. Ele sabe que errou, mas não sabe o que fazer com isso. E aí surgem duas respostas possíveis: ele trava de vergonha ou fica irritado por não entender o que você quer. Nenhuma das duas leva a algum lugar produtivo.

A substituição que funciona é transformar a crítica em um pedido específico. “Não gostei do que aconteceu” vira “Gostaria que você fizesse mais isso”. “Você não presta atenção no que eu gosto” vira “Quando você faz X, eu fico muito mais à vontade”. A diferença é que o pedido concreto dá ao outro algo real para trabalhar. Ele sai da conversa com uma direção, não com uma carga de culpa e sem saber como melhorar.

Especialistas em comunicação não-violenta chamam esse processo de transformar observação em necessidade e necessidade em pedido. Na prática, isso significa não parar na queixa — ir além até chegar no que você realmente precisa que aconteça de forma diferente. Isso exige que você se conheça bem o suficiente para saber o que quer, o que já é um exercício de autoconhecimento valioso por si só. Mas quando você chega nesse nível de clareza, a conversa com o outro fica muito mais fácil de conduzir.

Como o elogio específico abre portas difíceis

Existe uma estratégia que a sexóloga Mariah Prado descreve como a cultura do elogio específico, e ela é uma das mais poderosas para criar abertura emocional numa conversa sobre sexo. A ideia é simples: antes de falar sobre o que não está funcionando, você nomeia claramente algo que funcionou. Não um elogio genérico como “foi bom”, mas algo específico como “quando você fez aquilo na semana passada eu me senti completamente presente com você”. Isso cria segurança. E segurança é o que permite que o outro receba o próximo ponto com abertura em vez de defensividade.

Pense no que acontece no seu sistema nervoso quando você começa a receber feedback de alguém. Se as primeiras informações são positivas e específicas, seu corpo relaxa. Você percebe que a pessoa à sua frente não está ali para te destruir — está ali porque se importa e reconhece o que há de bom. A partir desse relaxamento, o que vem depois pode ser recebido de forma muito mais construtiva. A ordem das informações importa mais do que as pessoas percebem.

O elogio estratégico não é manipulação. É comunicação inteligente. É reconhecer que seu parceiro é humano, que ele precisa sentir que também está fazendo algo certo, antes de poder ouvir o que precisa mudar. Quando você combina elogio específico com pedido concreto e linguagem do eu, você tem na mão as três ferramentas principais para uma conversa sobre sexo que não vira briga. E o mais importante: que realmente muda alguma coisa.


Construindo um diálogo sexual contínuo e seguro

O hábito do check-in de intimidade

Uma das recomendações mais práticas que vem da literatura de sexologia e comunicação de casais é criar o que se chama de check-in de intimidade. É um momento periódico, pode ser quinzenal ou mensal, dedicado a conversar sobre como está a vida íntima de vocês. Não no calor do momento, não quando surgiu um problema, mas como parte da rotina do casal, do mesmo jeito que você conversa sobre finanças, sobre planos, sobre o que está acontecendo na família.

Esse ritual transforma a conversa sobre sexo em algo normal, não em um evento de emergência. Quando você só fala sobre o assunto quando algo está muito errado, a conversa sempre chega carregada de tensão acumulada. Mas quando ela faz parte da rotina, o clima é mais leve. Vocês vão com menos carga, e é muito mais fácil dizer “tenho sentido que preciso de mais conexão antes que a gente se aproxime” do que depois de semanas sem falar sobre isso.

O check-in não precisa ser formal nem longo. Pode ser uma conversa de vinte minutos depois do jantar, onde um pergunta ao outro: o que está indo bem para você nesse campo? O que você gostaria que fosse diferente? Tem algo que você está com vontade de experimentar? Essas perguntas abertas, feitas sem julgamento e com genuína curiosidade, criam um espaço onde o outro se sente seguro para ser honesto. E quando há honestidade regular, os problemas não acumulam até o ponto de explodir.

Pequenos sinais durante o sexo que comunicam sem palavras

Nem toda comunicação sobre o que funciona ou não precisa ser verbal e formalizada. Durante a intimidade, o corpo fala, e aprender a linguagem dos microajustes pode fazer toda diferença sem que ninguém precise parar para ter uma conversa longa no meio do momento. Essa é uma habilidade que se desenvolve com o tempo e com abertura para experimentar.

Indicações simples como “um pouco mais”, “fica assim”, “mais devagar”, “aqui” ou simplesmente guiar a mão do outro para onde você quer, são formas de comunicar preferências em tempo real sem que isso soe como crítica. Quando essas indicações são dadas num tom suave, com expressão genuína de prazer, elas chegam ao outro como informação, não como reclamação. A diferença está no tom e no momento, não necessariamente nas palavras.

O portal do blog AmbientePsi recomenda que durante a conversa sobre sexo — e durante o próprio ato — você preste atenção nas reações do outro. Se uma orientação ou um pedido parecer fazer o outro se contrair, recuar ou mudar o comportamento de um jeito que indica desconforto, você respeita esse sinal. Comunicação sexual saudável funciona nas duas direções: você diz o que precisa e também ouve o que o outro está demonstrando, verbal ou corporalmente. Aprender a ler esses sinais é uma forma de aprofundar a intimidade de um jeito que vai muito além de qualquer conversa.

Como lidar quando o outro se fecha ou se defende

Mesmo quando você faz tudo certo, escolhe o momento adequado, usa a linguagem do eu, começa com elogio específico — ainda assim o outro pode se fechar. Pode cruzar os braços, ficar em silêncio, ou se defender com algum argumento. Isso é normal. Defensividade é uma resposta automática do sistema nervoso quando percebe ameaça, mesmo que a ameaça não seja real.

Quando isso acontece, a primeira coisa a fazer é não reagir com mais pressão. Forçar o outro a continuar a conversa quando ele fechou o acesso emocional não vai funcionar. Vai piorar. O que funciona é reconhecer o que você vê, sem acusação: “Parece que isso foi difícil de ouvir. Quer um tempo antes de continuarmos?” Essa pergunta simples faz duas coisas ao mesmo tempo: valida o estado emocional do outro e deixa claro que a conversa pode continuar depois, que você não está desistindo do tema.

A recomendação de especialistas é combinar pausas com horário definido para retomar o assunto. Isso evita dois extremos igualmente prejudiciais: forçar a conversa quando o outro não está pronto, ou deixar o assunto cair no esquecimento indefinidamente. Algo como “tudo bem pausar agora, mas conseguimos voltar para isso amanhã à noite?” mantém a intenção viva sem forçar o timing do outro. Com o tempo, quando o casal percebe que essas conversas terminam sem destruição, a defensividade diminui naturalmente.


Quando a conversa não resolve e o que fazer a seguir

Reconhecendo quando é hora de buscar ajuda profissional

Existem situações em que o casal tenta, genuinamente, e as conversas continuam não avançando. Talvez a defensividade seja muito intensa dos dois lados. Talvez haja uma diferença de desejo tão significativa que as tentativas de ajuste por conta própria não consigam resolver. Talvez um dos dois carregue alguma experiência passada que afeta diretamente a vida íntima atual. Nesses casos, buscar ajuda profissional não é sinal de falha — é exatamente o oposto.

O Dr. Guilherme Braga, urologista e andrologista, aponta que muitos problemas de saúde sexual têm soluções relativamente simples quando o casal conversa e busca orientação cedo. O problema é que a maioria espera muito tempo, deixa o ressentimento acumular, e chega à consulta ou à terapia quando o dano emocional já está muito maior do que o problema original. Saber identificar cedo que a conversa sozinha não está sendo suficiente é, em si, uma forma de cuidar do relacionamento.

Alguns sinais de que é hora de buscar ajuda externa incluem: você tentou conversar várias vezes sobre o mesmo assunto e nada mudou; um dos dois ficou completamente fechado ao diálogo; a insatisfação sexual começou a afetar a conexão emocional de vocês de forma visível; ou um dos parceiros apresenta sintomas físicos como disfunção erétil, dor durante o sexo ou ausência de desejo que persistem sem explicação. Esses são convites para buscar orientação especializada, não motivos de vergonha.

Terapia sexual de casal como ferramenta prática

A terapia sexual de casal ainda carrega um estigma desnecessário. Muita gente associa ao extremo, como se fosse um recurso para quando o relacionamento está praticamente terminado. Mas na prática, ela funciona melhor exatamente quando usada preventivamente ou em fases iniciais de dificuldade. É muito mais fácil redirecionar um hábito de comunicação que está se formando do que desconstruir anos de silêncio e ressentimento.

O que acontece numa terapia sexual de casal, de forma geral, é que um profissional capacitado oferece um espaço neutro onde os dois podem falar sem que a conversa escale para briga. O terapeuta não toma partido. Ele ajuda cada um a formular o que está sentindo de um jeito que o outro consiga ouvir, e ao mesmo tempo oferece ferramentas específicas para os desafios que o casal enfrenta. Pode ser exercícios de comunicação, práticas de reconexão física gradual, ou simplesmente ajuda para identificar de onde vem o bloqueio.

A psicóloga Nívia Serra, especialista em relacionamentos, aponta que a terapia cognitivo-sexual é uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para casais que enfrentam diferenças de desejo ou bloqueios de comunicação sexual. Ela não substitui a conversa entre os dois — ela prepara o terreno para que essa conversa finalmente aconteça de forma produtiva. Quando você investe nesse processo, está dizendo ao parceiro: isso importa para mim, você importa para mim, e estou disposto a trabalhar por isso de verdade.

Como retomar a confiança depois de um diálogo mal conduzido

Talvez você já tenha tentado ter essa conversa antes e não tenha ido bem. Alguém ficou com raiva, palavras foram ditas no calor do momento, ou o assunto simplesmente travou e nunca foi retomado. Isso acontece. E não significa que você não pode tentar de novo, de um jeito diferente.

O primeiro passo para retomar é reconhecer o que aconteceu na vez anterior, sem transformar isso em nova acusação. Você pode dizer algo como: “Tentei falar sobre isso antes e não saiu bem. Quero tentar de novo, com mais cuidado desta vez.” Essa abertura honesta sobre o erro passado cria uma base diferente para a nova tentativa. O outro percebe que você processou o que aconteceu e que está chegando com uma intenção mais cuidadosa.

A confiança que foi abalada por um diálogo mal conduzido não se reconstrói em uma conversa. Ela se reconstrói em pequenas atitudes consistentes ao longo do tempo. Quando você cumpre o que disse, quando trata o que foi compartilhado com respeito, quando não usa vulnerabilidades do outro como munição em momentos de conflito, você está depositando confiança na conta do relacionamento. Esse processo leva tempo. Mas é o único que realmente funciona — e o resultado é uma intimidade que vai muito além do que acontece na cama.


Exercício 1 — Identificando o padrão de comunicação de vocês

Reserve quinze minutos, de preferência sozinho, e responda as perguntas abaixo com honestidade. Não é necessário mostrar para seu parceiro agora. Esse exercício é primeiro para você.

Pense na última vez que algo não foi bem na intimidade de vocês e responda:

Você falou sobre isso ou ficou em silêncio?

Se ficou em silêncio, qual foi o principal motivo, medo de magoar, não saber como falar, ou achava que não adiantaria?

Se tentou falar, o que você disse? Foi uma crítica direta, uma indireta, ou um pedido claro?

Como o outro reagiu? Se fechou, respondeu bem, ou ficou na defensiva?

O assunto foi resolvido ou ainda está em aberto?

Resposta esperada:

Se você ficou em silêncio na maioria das vezes, o padrão que está se formando é o de supressão, onde você engole o que sente para evitar conflito. Esse padrão protege no curto prazo e corrói no longo prazo. O próximo passo prático é escolher um ponto específico, apenas um, e praticamos a linguagem do eu para expressá-lo. Não tudo de uma vez. Apenas um começo.

Se você tentou falar mas usou crítica direta, o padrão é de comunicação ativa mas sem ferramenta. A boa notícia é que você já tem coragem de falar. O que precisa agora é de ajuste na forma. Pratique reformular a última crítica que fez em um pedido concreto. Escreva as duas versões. Leia em voz alta. Perceba a diferença que o seu próprio corpo sente ao ouvir cada uma delas.

Se o assunto ficou em aberto sem resolução, pense em quando seria um bom momento para retomá-lo, seguindo as orientações de ambiente neutro e aviso prévio. Escolha um dia dessa semana e proponha esse momento ao parceiro com uma frase simples e não ameaçadora.


Exercício 2 — A conversa em três camadas

Esse exercício é para ser feito a dois, num momento tranquilo que vocês combinarem com antecedência. Ele dura cerca de vinte minutos.

Cada pessoa escolhe um aspecto da vida íntima de vocês que gostaria de ver diferente. Pode ser frequência, um tipo de toque, conexão emocional antes do momento, ou qualquer coisa que pareça relevante.

A estrutura da fala de cada um segue três camadas:

Primeira camada — o elogio específico: “Quando você faz X, eu me sinto muito bem / muito conectado.”

Segunda camada — a necessidade honesta: “Eu sinto falta de / gostaria de ter mais / preciso que…”

Terceira camada — o pedido concreto: “O que me ajudaria seria se você fizesse / tentasse / considerasse…”

Enquanto um fala, o outro ouve sem interromper. Depois de cada fala, o ouvinte tem dois minutos para responder apenas com o que entendeu e com uma pergunta aberta, como “Tem alguma coisa mais sobre isso que você queira me contar?”. Sem argumentar, sem defender, sem contra-atacar.

Resposta esperada:

A maioria dos casais que faz esse exercício pela primeira vez relata surpresa com o quanto o outro tinha a dizer e nunca havia dito de forma tão clara. A estrutura das três camadas funciona porque ela organiza o pensamento antes de falar, reduz a chance de que o tom se torne acusatório e garante que o elogio anteceda o pedido de mudança. Isso coloca os dois no mesmo lado da mesa.

Se em algum momento um de vocês travar ou ficar em silêncio, respeitem esse silêncio por alguns segundos antes de perguntar se está tudo bem. Se a conversa esquentar, façam uma pausa combinada de cinco minutos e voltem. O objetivo não é resolver tudo em um encontro. É praticar o ato de falar sobre o que importa, com respeito e cuidado — porque isso, feito com regularidade, muda a qualidade da intimidade de vocês de um jeito que nenhuma outra mudança consegue fazer.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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