O impacto do machismo na criação de meninos e meninas
Família e Maternidade

O impacto do machismo na criação de meninos e meninas

O impacto do machismo na criação de meninos e meninas é um dos temas mais necessários e, ao mesmo tempo, mais desconfortáveis de se discutir dentro de uma família. Desconfortável não porque seja errado falar sobre ele, mas porque exige que a gente olhe para dentro de casa, para os próprios comportamentos, para as frases que saem da boca no automático, para as escolhas que parecem óbvias mas que carregam décadas de condicionamento cultural. E isso, convenhamos, não é tarefa fácil para ninguém.

Mas a conversa precisa acontecer. Porque o machismo não é apenas um problema de adultos. Ele começa muito antes. Começa no enxoval cor-de-rosa ou azul, na escolha do brinquedo, na frase dita sem pensar, no jeito como se reage quando o menino chora ou quando a menina discorda. E o que é ensinado ali, naquele espaço de proteção e amor que é a família, vai se instalar fundo, como raízes, e vai determinar em grande medida quem aquela criança vai se tornar.

A boa notícia é que raízes podem ser examinadas. Podem ser questionadas. E novos padrões podem ser plantados. Não com perfeição, não com militância de manual, mas com consciência, com diálogo e com o desejo genuíno de criar filhos que sejam inteiros, não pela metade.


1. O machismo que ninguém percebe que está ensinando

1.1 As frases que entram pela orelha e ficam na cabeça para sempre

Existe um conjunto de frases que circula nas famílias brasileiras com uma naturalidade desconcertante. São frases que ninguém pronuncia com a intenção de machucar, mas que têm um poder imenso de modelar a forma como uma criança entende quem ela é e o que se espera dela. Você provavelmente já ouviu algumas delas, talvez ainda na infância, talvez ontem.

“Seja homem.” “Menino não chora.” “Você joga bola que nem mulher.” “Ela já pode casar, cozinha bem.” “Menina boazinha fica quieta.” “Homem não fica em cozinha.” Essas frases parecem inofensivas. Parecem até motivadoras, no contexto em que são ditas. Mas o que elas fazem, repetidas ao longo de anos, é construir um mapa do que é permitido sentir, fazer e ser, de acordo com o sexo biológico daquela criança.

Uma criança que ouve “seja homem” toda vez que demonstra vulnerabilidade não aprende que é forte. Ela aprende que vulnerabilidade é errada. Que sentir é errado. Que ela precisa esconder uma parte de si para ser aceita. E esse aprendizado, feito de frase em frase, de situação em situação, não fica na superfície. Ele vai fundo. Ele vai para o lugar onde a pessoa constrói a imagem que tem de si mesma. E de lá, ele governa comportamentos que a própria pessoa não consegue explicar na vida adulta.

1.2 A cor da roupa, o brinquedo certo, o papel já definido antes do nascimento

Antes mesmo de uma criança nascer, o machismo já começa a trabalhar. A pergunta mais feita a uma gestante, em qualquer chá de bebê, em qualquer consulta, em qualquer conversa familiar, é: menino ou menina? E assim que a resposta chega, o mundo ao redor começa a organizar o enxoval, os brinquedos, as expectativas e os papéis.

Para o menino: azul, carrinho, bola, espada, super-herói. Para a menina: rosa, boneca, cozinha de brinquedo, princesa, kit de maquiagem. Parece inocente. É estética, não é? Mas não é só isso. Cada brinquedo ensinado como adequado para aquele sexo carrega uma mensagem sobre o que aquela criança deve praticar, valorizar e se tornar. O menino que brinca de carrinho está sendo treinado para velocidade, competição, ação. A menina que brinca de boneca está sendo treinada para cuidado, estética, maternidade. Ambos os papéis são limitadores. Ambos cortam possibilidades antes que a criança tenha tido chance de descobrir quem é de fato.

Uma pesquisa da ONG Plan Brasil revelou que 84% das meninas entre 6 e 14 anos são responsáveis por arrumar a cama em casa, contra apenas 11% dos meninos. Que 76% delas lavam louça regularmente. Que 34% cuidam dos irmãos mais novos. Esses números não surgem do nada. Eles surgem de decisões cotidianas de quais tarefas são “de menina” e quais são “de menino”, tomadas dentro das famílias, sem que ninguém perceba que está ensinando uma divisão que vai perseguir aquelas crianças por toda a vida adulta.

1.3 O machismo que vem embrulhado em carinho

Uma das formas mais difíceis de perceber e nomear o machismo na criação dos filhos é justamente aquela que vem embrulhada em amor e proteção. O pai que não deixa a filha sair sozinha porque “o mundo é perigoso para mulher” enquanto deixa o filho ir tranquilamente. A mãe que diz ao menino que ele não precisa saber cozinhar porque “quando casar sua esposa faz isso”. A avó que elogia a menina pela beleza e o menino pela inteligência, sistematicamente, sem perceber o padrão.

Essas atitudes não vêm de mal-querer. Vêm de um roteiro cultural aprendido e internalizado por gerações. Quem as pratica genuinamente acredita que está protegendo, cuidando, preparando aquelas crianças para o mundo. E é exatamente por isso que são tão difíceis de questionar. Porque questionar esse comportamento parece ser ingrato com quem está agindo por amor.

Mas o impacto não depende da intenção. A menina que cresce sendo protegida de tudo aprende que o mundo é perigoso demais para ela e que ela sozinha não é capaz de enfrentá-lo. O menino que cresce sem ser ensinado a cuidar de si mesmo aprende que isso não é função dele, e vai chegar na vida adulta sem as ferramentas básicas para a independência. Ambos saem prejudicados, de formas diferentes, pelo mesmo equívoco cometido com muito carinho.


2. O que o machismo faz com os meninos

2.1 O menino que aprendeu que chorar é fraqueza

Existe um peso específico que o machismo coloca nos meninos, e ele começa muito cedo. O menino que cai e é mandado parar de chorar porque “homem não chora”. O menino que demonstra medo e é chamado de “frescura”. O menino que quer brincar de casinha com as primas e ouve que “isso é coisa de menina”. Cada um desses momentos é uma aula. E a aula ensina que emoções são uma ameaça à masculinidade, que sentir é incompatível com ser homem.

O documentário The Mask You Live In, produzido nos Estados Unidos e amplamente citado por especialistas em desenvolvimento infantil, mostra com clareza o que acontece quando uma criança do sexo masculino é sistematicamente ensinada a suprimir emoções. Ela não para de senti-las. Ela aprende a escondê-las. E o que fica escondido sem processamento vai se acumulando e vai precisar encontrar uma saída. Às vezes essa saída é a raiva. Às vezes é a violência. Às vezes é o consumo de álcool e substâncias na adolescência. Às vezes é o fechamento emocional completo em relacionamentos adultos.

O homem que não aprendeu a nomear o que sente, que foi treinado desde criança a engolir dor e a apresentar força mesmo quando está destruído por dentro, carrega um custo emocional enorme. Ele pode se tornar um parceiro distante, um pai ausente emocionalmente, um profissional que explode quando a pressão chega demais, alguém que não sabe pedir ajuda porque pedir ajuda é “coisa de fraco”. Tudo isso começa naquele momento em que uma criança foi mandada parar de chorar.

2.2 A agressividade que vira identidade

Junto com a repressão emocional, o machismo entrega aos meninos uma outra mensagem: que a força física e a agressividade são marcadores de masculinidade. O menino que briga na escola e o pai comenta com um sorriso no canto da boca que “ele está se defendendo, é homem mesmo.” O menino que empurra a colega para ficar com o brinquedo e o adulto ao redor não intervém porque “menino é assim mesmo.” O menino que aprende que dominar, competir e vencer são os verbos centrais da identidade masculina.

Esse ensinamento tem consequências concretas e mensuráveis. Dados do Monitor da Violência mostram que uma mulher é morta a cada seis horas no Brasil, e que a grande maioria desses crimes é cometida por homens próximos, parceiros ou ex-parceiros. Esses homens não nasceram violentos. Eles foram criados em um ambiente onde a agressividade masculina foi tolerada, normalizada e até valorizada, enquanto a empatia, o cuidado e a escuta eram descartados como “coisa de mulher.”

Naturalizar a agressividade nos meninos não os torna mais fortes. Os torna mais perigosos. Para as mulheres ao redor, sim. Mas também para eles mesmos. Um homem que aprendeu que a única emoção masculina aceitável é a raiva vai ter dificuldade de acessar tudo o que não é raiva. A alegria, o medo, a ternura, a tristeza, a saudade, tudo isso vai ser processado através da única válvula que foi deixada aberta. E isso é uma pobreza emocional que empobrece a vida inteira.

2.3 O homem que ninguém ensinou a se cuidar

Existe uma consequência do machismo na criação dos meninos que é menos discutida, mas igualmente impactante. O menino que cresce sendo dispensado das tarefas domésticas porque “isso é coisa de mulher” chega à vida adulta sem saber lavar sua própria roupa, sem saber preparar a própria comida, sem saber organizar um espaço. Esse menino, quando adulto, vai depender de outra pessoa para suprir essas necessidades básicas. E essa dependência, que parece um privilégio, é na verdade uma forma de limitação.

O autocuidado é uma habilidade fundamental para qualquer ser humano. Saber cuidar da própria casa, da própria alimentação, da própria saúde emocional. Quando meninos são criados alheios a isso, eles chegam à vida adulta com uma defasagem enorme que vai afetar diretamente a qualidade de suas relações. Eles vão buscar, inconscientemente, parceiros que cumpram o papel que a mãe cumpriu. E quando não encontram, ou quando a parceira recusa esse papel, o conflito é quase inevitável.

Além disso, o machismo faz com que homens sejam menos propensos a buscar ajuda médica, psicológica e emocional. A ideia de que cuidar da própria saúde é “coisa de fraco” faz com que homens adiem consultas, ignorem sintomas, resistam à terapia. Os índices de saúde masculina no Brasil refletem isso: homens morrem mais cedo que mulheres, têm maiores taxas de suicídio, de doenças cardiovasculares não tratadas, de acidentes fatais. O machismo, literalmente, mata homens também.


3. O que o machismo faz com as meninas

3.1 A menina que foi ensinada a ser pequena

Enquanto os meninos são ensinados a ocupar espaço, as meninas são ensinadas a se diminuir. Fique quieta. Sente direito. Não grite. Não corra. Não fale alto. Seja boazinha. Essas instruções começam tão cedo e são repetidas com tanta frequência que a menina não percebe quando internaliza a crença de que seu espaço no mundo é menor do que o do menino ao lado.

Essa menina cresce e vira a mulher que pede desculpa quando discorda. A profissional que não pede aumento porque “parece que vai ser chata.” A pessoa que diminui as próprias conquistas em conversas para não parecer arrogante. A que sorri quando é interrompida em reuniões, quando tem a ideia ignorada e depois atribuída a um homem, quando é preterida para uma promoção por alguém menos qualificado. Esses comportamentos adultos têm um endereço na infância. E esse endereço é a criação que ensinou que ser “boazinha” é mais importante do que ser presente e ocupar o espaço que é seu por direito.

A desvalorização intelectual das meninas é outro efeito devastador. Quando se assume que meninas são menos aptas para ciências exatas, para esportes, para liderança, essas áreas deixam de ser apresentadas a elas como possibilidades reais. A menina que demonstra talento para matemática e ouve “que surpresa, menina boa nisso” recebe a mensagem de que seu talento é uma anomalia. Que o normal seria ela não ter. E muitas vezes, ela para de investir naquilo que é sua força genuína para não continuar sendo uma anomalia.

3.2 A sobrecarga que começa na infância

Existe um dado que diz muito sobre como o machismo funciona na prática dentro das famílias brasileiras: enquanto 84% das meninas entre 6 e 14 anos são responsáveis por tarefas domésticas regulares, apenas 11% dos meninos na mesma faixa etária têm as mesmas responsabilidades. Isso não é acidente. É uma escolha de criação, repetida em milhões de lares, que vai construindo desde muito cedo a crença de que o lar é responsabilidade feminina.

A menina que aprende desde pequena que cuidar da casa é tarefa dela chega à vida adulta com essa crença instalada como uma verdade natural. Ela vai trabalhar fora, vai contribuir financeiramente para a família, vai estudar, vai crescer profissionalmente, e vai ainda assim carregar a maior parte da responsabilidade doméstica e de cuidado com os filhos. Isso tem um nome: dupla jornada. Ou tripla, quando se considera ainda o trabalho emocional invisível de gerenciar as necessidades de todos ao redor.

Essa sobrecarga tem um custo real e mensurável. Mulheres dormem menos do que homens em relacionamentos heterossexuais. Mulheres adoecem mais de burnout. Mulheres têm menos tempo para lazer, para desenvolvimento pessoal, para simplesmente existir sem estar servindo alguém. Tudo isso começa quando uma menina de 7 anos é chamada para lavar a louça enquanto o irmão de 9 assiste televisão. Não é uma história de adultos. É uma história que começa ali.

3.3 O silêncio treinado e o que ele custa na vida adulta

A menina que foi ensinada a ficar quieta, a não reclamar, a não ocupar espaço, a aceitar o que lhe é dado sem questionar, aprende uma lição que vai custar caro. Ela aprende que o silêncio é seguro. Que discordar é arriscar o afeto e a aprovação das pessoas que ama. Que a paz do ambiente ao redor é mais importante do que o que ela precisa ou sente.

Essa lição se instala profundamente. E aparece na vida adulta de formas que essa mulher muitas vezes não consegue rastrear até a infância. Ela aparece no relacionamento em que ela fica mais do que deveria porque “não quer dar trabalho.” No trabalho em que ela aceita a responsabilidade de dois e o salário de um porque “não quer parecer difícil.” Na amizade em que ela está sempre disponível mas nunca pede nada porque aprendeu que precisar é um fardo. No médico em que ela minimiza os próprios sintomas porque foi ensinada que mulher reclama demais.

O silêncio treinado custa voz. Custa espaço. Custa, em casos extremos, a própria segurança, quando uma mulher não consegue sair de uma situação de violência porque foi criada para acreditar que aguentar é virtude. Ensinar uma menina a ter voz, a nomear o que sente, a discordar com educação mas com firmeza, a ocupar o próprio espaço sem pedir desculpa por isso, é um dos atos de amor mais importantes que um pai ou mãe pode praticar.


4. O machismo estrutural que ultrapassa as paredes de casa

4.1 A escola que reforça o que a família plantou

Mesmo que uma família faça um trabalho cuidadoso de questionar os estereótipos de gênero dentro de casa, a escola pode, sem intenção, refazer o caminho. A professora que pede silêncio dizendo “meninos e meninas” e nunca inverte a ordem. O professor de educação física que naturalmente separa as equipes por sexo. O livro didático que mostra a mãe na cozinha e o pai no escritório. O recreio onde os meninos dominam o espaço central com a bola e as meninas ficam nas margens conversando.

Esses elementos, individualmente, parecem pequenos. No conjunto, eles formam uma narrativa consistente de quem ocupa quais espaços e com qual autoridade. A criança que está sendo criada de forma mais igualitária em casa vai receber na escola um conjunto de mensagens que contradiz o que os pais tentaram ensinar. E sem suporte para processar essa contradição, ela tende a se render ao que é dominante no ambiente social.

A escola poderia e deveria ser um lugar de transformação dessas narrativas. Quando ela intencionaliza esse trabalho, quando professores são formados para perceber os próprios vieses, quando o currículo inclui mulheres como protagonistas, quando as brincadeiras não são divididas por sexo, os resultados aparecem. Crianças que crescem em ambientes escolares intencionalmente mais igualitários desenvolvem relações interpessoais mais saudáveis, maior empatia e maior flexibilidade de comportamento.

4.2 A internet e os novos professores do machismo

Existe um elemento que as gerações anteriores não tiveram que enfrentar e que os pais de hoje precisam olhar com muita atenção: a internet. Mais especificamente, os espaços online onde narrativas de masculinidade rígida, misoginia e ressentimento contra mulheres são disseminados de forma sofisticada e sedutora para adolescentes, especialmente meninos.

Movimentos como o redpill, o MGTOW e toda uma coorte de criadores de conteúdo que apresentam o feminismo como inimigo e a submissão feminina como ideal alcançam jovens que estão em plena construção de identidade, com muito tempo na internet e com uma necessidade enorme de pertencimento e de respostas para questões que os pais muitas vezes não sabem ou não se dispõem a discutir. Esses conteúdos chegam embrulhados em lógica, em pseudociência, em humor, em solidariedade masculina. E por isso são perigosos.

A resposta a isso não é proibir o acesso à internet, o que é impossível e contraproducente. A resposta é a presença. É o pai que conversa com o filho sobre o que ele está assistindo. É a mãe que pergunta o que aquele influenciador está ensinando e o que o filho acha. É criar um espaço onde o jovem pode questionar o que consome, onde o pensamento crítico é exercitado em casa antes de chegar às telas. A família que conversa sobre isso está dando ao filho uma ferramenta de discernimento que vai servir para muito além do machismo.

4.3 Quando o entretenimento forma mais do que os pais percebem

Filmes, séries, músicas, jogos eletrônicos. Esses conteúdos passam horas por dia dentro da cabeça das crianças e adolescentes, muito mais do que qualquer aula, qualquer conversa de jantar, qualquer livro. E eles carregam mensagens sobre gênero, sobre relacionamentos, sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, que são absorvidas de forma acrítica porque ninguém está questionando, porque é “só entretenimento.”

O funk que trata a mulher como objeto. O filme de ação onde o herói usa violência como solução para tudo e conquista a mulher como prêmio ao final. A série onde a personagem feminina principal é definida pelo interesse amoroso masculino e não por suas próprias escolhas e desejos. O jogo onde as personagens femininas existem como decoração ou como objetivo a ser salvo. Tudo isso vai formando uma compreensão de mundo que raramente é questionada porque está misturada com diversão e com o lazer do cotidiano.

Não se trata de vetar tudo. Trata-se de assistir junto às vezes. De comentar o que se vê. De perguntar ao filho o que ele achou, o que ele pensa sobre como aquele personagem se comportou. De criar o hábito de consumir entretenimento com um olhar ativo, não passivo. Isso não estraga a diversão. Isso enriquece a formação.


5. Como criar filhos e filhas fora dessa caixa

5.1 O exemplo que fala mais alto do que qualquer discurso

Se existe uma única coisa que resume tudo que se pode fazer para criar filhos fora dos padrões machistas, é esta: seja o exemplo que você quer que eles sigam. As crianças não aprendem pelo que os adultos dizem. Elas aprendem pelo que os adultos fazem, com uma consistência e uma atenção aos detalhes que muitas vezes surpreende.

O pai que divide as tarefas domésticas com a mãe sem ser pedido, sem ser cobrado, sem marcar ponto por isso, está ensinando ao filho que cuidar da casa não tem gênero. A mãe que ocupa espaço, que discorda em público, que tem opiniões próprias e as defende com clareza, está ensinando à filha que voz é direito, não privilégio. O casal que resolve conflitos com conversa e respeito está ensinando às crianças que relacionamentos não se sustentam com dominação. O pai que chora diante dos filhos quando algo o move está ensinando ao menino que emoção não é fraqueza.

Nenhum discurso sobre igualdade de gênero surte o efeito que uma cena cotidiana de igualdade real tem. Porque as crianças gravam cenas, não palestras. Elas gravam o momento em que o pai levantou da mesa e começou a lavar a louça enquanto a mãe descansava. O momento em que a mãe disse não sem pedir desculpa. O momento em que os dois pais se respeitaram mesmo em desacordo. Esses momentos é que vão guiar os comportamentos futuros delas, muito mais do que qualquer conversa formal sobre feminismo.

5.2 As conversas que precisam acontecer em casa

Dito o peso do exemplo, as conversas também importam. E importam mais quando são genuínas, contextuais e abertas do que quando são programadas e didáticas. O melhor momento para falar sobre machismo com uma criança não é numa palestra no jantar. É quando algo acontece no cotidiano dela e você aproveita a abertura.

Quando ela chega da escola dizendo que ouviu um menino dizer que “futebol é coisa de homem.” Quando ele conta que um colega ficou com vergonha de chorar na aula e foi chamado de frescura. Quando ela pergunta por que na série a personagem feminina não faz nada. Quando ele vem cheio de dúvidas depois de ver algo na internet. Esses são os momentos de ouro, e eles passam muito rápido. Um pai ou uma mãe que está presente e disponível para eles consegue fazer nesses minutos o que nenhum currículo escolar consegue em meses.

A conversa não precisa ter conclusão perfeita. Não precisa resolver tudo. Às vezes a melhor resposta é “eu também acho esse assunto complicado, vamos pensar juntos.” O que importa é que a criança aprenda que esses temas podem ser discutidos, que questionar é permitido, que não existe uma caixa rígida de como ser menino ou menina que ela seja obrigada a caber. Esse aprendizado, feito em conversas, em pequenos momentos do dia a dia, é o que vai formar um adulto capaz de pensar criticamente sobre os padrões que recebe do mundo.

5.3 Criar com liberdade não é ausência de limites, é presença de respeito

Uma confusão que aparece quando se fala em criar filhos fora dos padrões de gênero é a ideia de que isso significa ausência de estrutura, de limites, de valores. Não é isso. Criar com liberdade de ser quem se é, sem as amarras de estereótipos de gênero, não significa que qualquer comportamento é válido ou que a criança não precisa de direção. Significa que os limites que existem não são baseados no sexo biológico, mas no respeito.

Meninos e meninas podem e devem ter limites. Podem e devem aprender responsabilidades. A diferença é que esses limites e essas responsabilidades não são distribuídos por gênero. A menina aprende a consertar um objeto quebrado. O menino aprende a cozinhar o próprio almoço. A menina joga futebol se quiser. O menino brinca de boneca se quiser. Nenhum desses comportamentos afeta a identidade de gênero da criança. O que afeta a identidade é a mensagem de que ela precisa ser de um jeito específico para ser amada e aceita.

Criar com respeito significa olhar para aquela criança individual, com suas preferências, seus talentos, seus jeitos de ser, e amar o que se vê, não o que se esperava ver. Significa que quando o menino demonstra sensibilidade, em vez de preocupação, existe celebração. Que quando a menina demonstra liderança, em vez de advertência, existe incentivo. Que os dois sabem, desde cedo, que não precisam caber em nenhuma caixa para merecer amor e espaço no mundo. Esse é o presente mais valioso que uma família pode dar aos filhos.


Exercícios para fixar o aprendizado


Exercício 1: O mapa das frases

O que fazer:

Reserve um momento tranquilo em família, pode ser um fim de semana, e proponha uma brincadeira para as crianças acima de 6 anos. Cada membro da família, incluindo os adultos, escreve num papel três frases que já ouviu em relação ao que “menino faz” ou “menina faz.” Não precisa ser nada grave. Pode ser aquela frase da avó, do tio, do colega de escola, da televisão.

Depois, leiam as frases juntos em voz alta. Para cada uma, façam a mesma pergunta: essa frase é verdade para todas as pessoas desse grupo, ou é uma generalização? O que aconteceria se o contrário fosse feito ou dito? Como cada um se sente quando ouve essa frase?

Resposta esperada:

Esse exercício tem um efeito poderoso porque traz para a consciência algo que normalmente fica no automático. As crianças se surpreendem ao perceber a quantidade de mensagens de gênero que recebem no cotidiano sem prestar atenção. Os adultos também. O exercício não precisa ter um tom de julgamento. O objetivo é criar consciência, não culpa. Famílias que fazem esse tipo de conversa criam um ambiente onde os filhos aprendem que questionar é saudável, que o que o mundo diz pode ser examinado, e que a opinião deles sobre isso tem valor. Isso é pensamento crítico em ação, dentro de casa, de forma leve e acessível.


Exercício 2: A semana da troca

O que fazer:

Durante uma semana, proponha uma troca intencional de tarefas e atividades dentro de casa que normalmente seguem um padrão de gênero. Se o filho nunca cozinhou, ele cozinha uma vez essa semana, com ajuda. Se a filha nunca trocou uma lâmpada ou montou algo, ela tenta essa semana, com suporte. Se o pai raramente dobra a roupa, ele assume essa tarefa durante sete dias. Se a mãe raramente dá uma volta de bicicleta com as crianças porque “isso é coisa de pai”, essa semana ela vai.

Ao final da semana, reúnam a família e cada um conta como foi. O que foi fácil, o que foi difícil, o que surpreendeu, o que gostou.

Resposta esperada:

O objetivo da semana da troca não é provar que tudo é igual para todo mundo. É criar experiência real de que os papéis que estão distribuídos por gênero não são naturais, são aprendidos. E o que é aprendido pode ser desaprendido. As crianças que cozinham pela primeira vez frequentemente descobrem que gostam. As que consertam algo pela primeira vez ganham uma confiança nova. Os pais que assumem tarefas que evitavam muitas vezes entendem na prática, e não só na teoria, o que significa o trabalho invisível do cotidiano. Essa experiência concreta fala mais do que qualquer discurso, porque ela muda o corpo, não só a cabeça.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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