Como Criar um Ambiente Seguro para a Exploração Motora
Família e Maternidade

Como Criar um Ambiente Seguro para a Exploração Motora

Criar um ambiente seguro para a exploração motora é uma das coisas mais poderosas que você pode fazer pelo desenvolvimento de uma criança. Parece simples quando falamos assim, mas na prática envolve decisões que vão muito além de tirar as tomadas da parede ou colocar um tapete no chão. Envolve entender como o corpo aprende, como o cérebro se organiza através do movimento, e como o espaço ao redor de uma criança pode ser seu maior aliado ou seu maior obstáculo.

Se você é pai, mãe, educador ou cuidador, provavelmente já ficou em dúvida sobre até onde deixar a criança ir. Sobe na cadeira? Deixa rolar no chão? Brinca na lama? Essas dúvidas são completamente normais. E a boa notícia é que existe um caminho do meio — um caminho que respeita a necessidade de movimento da criança sem abrir mão da segurança real.


O Que é Exploração Motora e Por Que Ela Importa

A exploração motora é, na prática, a forma como a criança usa o corpo para conhecer o mundo. Antes de ela saber ler, escrever ou mesmo falar direito, já está usando as mãos, os pés, a boca e o olhar para entender o que existe ao redor dela. Cada engatinhada, cada tropeço, cada tentativa de pegar um objeto que está fora do alcance é uma aula completa de física, matemática e neurociência — tudo ao mesmo tempo, sem que ninguém precise ensinar.

O conceito de exploração motora aparece no campo da fisioterapia, da psicomotricidade e da pedagogia com o mesmo sentido central: é o processo natural pelo qual a criança desenvolve controle sobre o próprio corpo, aprende sobre equilíbrio, força, coordenação e noção espacial. Não é uma atividade estruturada. Não precisa de apostila nem de professor. O que ela precisa é de espaço, tempo e segurança para acontecer.

Quando você entende isso, começa a ver o cotidiano de forma diferente. O momento em que a criança desce do sofá de costas não é uma inconveniência. É treino motor puro. Quando ela empurra a cadeira pela cozinha, está testando força e resistência. Quando escala a grade do berço, está resolvendo um problema espacial complexo. O corpo da criança sabe o que precisa. Seu papel é garantir que o ambiente não impeça esse processo.

As Fases do Desenvolvimento Motor Infantil

O desenvolvimento motor segue uma ordem bastante previsível, e conhecer essa ordem ajuda muito na hora de preparar o ambiente. Nos primeiros meses de vida, o bebê está aprendendo a controlar a cabeça, fortalecer o pescoço e usar os braços. Depois vem o rolar, o sentar com apoio, o engatinhar — cada etapa construindo a base para a próxima. Essa progressão não é aleatória. Ela segue uma lógica do centro para as extremidades e de cima para baixo no corpo.

Entre 1 e 3 anos, a criança entra em uma fase de explosão motora. Ela anda, corre, sobe, pula, chuta, arremessa. Nessa fase, o ambiente precisa ser pensado com muito cuidado, porque a vontade dela quase sempre supera a habilidade dela. Ela quer correr antes de ter equilíbrio suficiente para isso. Quer subir antes de saber descer. Isso não é falta de juízo — é o jeito que o aprendizado motor funciona. Você testa os limites para descobrir onde eles estão.

Dos 3 aos 6 anos, a exploração ganha em sofisticação. A criança começa a refinar movimentos, ganhar mais precisão nas mãos, melhorar o equilíbrio dinâmico e coordenar ações que antes eram separadas — como correr e chutar ao mesmo tempo, ou pular e cair de forma controlada. Nessa fase, o ambiente ideal começa a incluir mais desafios — superfícies diferentes, alturas variadas, objetos com texturas e pesos distintos. A segurança aqui não é eliminar o desafio, é calibrá-lo.

O Que Acontece Quando o Ambiente Não Apoia o Movimento

Quando uma criança cresce em um ambiente que limita demais o movimento, os efeitos aparecem cedo. Podem ser percebidos na dificuldade de equilíbrio, na resistência a texturas, na descoordenação ao correr ou na hipersensibilidade a situações físicas novas. Não é diagnóstico automático — cada criança tem seu ritmo. Mas privação de movimento deixa marcas que vão além do físico.

Do ponto de vista do sistema nervoso, o movimento é estímulo. Cada vez que a criança rola, gira, balança ou inverte o corpo, está alimentando estruturas cerebrais que regulam atenção, equilíbrio, controle emocional e processamento sensorial. Um ambiente que proíbe o movimento também está, sem querer, limitando o desenvolvimento de funções que vão muito além da parte física. Isso afeta o sono, o humor, a capacidade de concentração e até a forma como a criança se relaciona com outras pessoas.

Pais com filhos mais agitados em casa muitas vezes não percebem que o comportamento difícil é uma resposta a um ambiente que não atende às necessidades motoras da criança. Antes de concluir que a criança é “hiperativa” ou “impossível”, vale perguntar: ela teve espaço suficiente para se mover hoje? Ela correu, pulou, rolou, escalou? Muitas vezes a resposta é não. E a solução pode ser mais simples do que parece.

O Papel dos Adultos no Processo

Você é parte do ambiente da criança. Não apenas o espaço físico, mas sua presença, sua voz, sua postura — tudo isso comunica mensagens poderosas para o corpo dela. Quando você reage com medo a cada tentativa de movimento, a criança aprende a desconfiar do próprio corpo. Quando você deixa ela errar com segurança, ela aprende que o corpo é confiável.

O adulto que acompanha a exploração motora precisa desenvolver uma habilidade específica: a de observar sem intervir o tempo todo. Isso é mais difícil do que parece, especialmente para quem cresceu sendo protegido em excesso. Ficar parado enquanto a criança tenta e erra vai contra um instinto muito forte. Mas é exatamente essa tolerância ao erro controlado que permite o aprendizado real.

Seu papel não é evitar todas as quedas. É garantir que o ambiente não tenha riscos que uma queda possa transformar em tragédia. Há uma diferença enorme entre a criança que cai do balanço em um gramado e a criança que cai de uma altura grande sobre concreto. Sua função é eliminar os riscos reais, não os riscos percebidos. Essa distinção vai mudar completamente a forma como você organiza o espaço.


Como Preparar o Espaço Físico Ideal

Pensar no espaço físico para a exploração motora é quase como pensar em um projeto de arquitetura — mas sem precisar demolir paredes. Você está organizando o ambiente de forma que ele convide ao movimento, reduza riscos sérios e ainda permita que a criança explore sem precisar de supervisão constante a cada segundo. Isso é possível. E começa com uma mudança de perspectiva.

A maioria das casas não foi projetada pensando em crianças. Os móveis têm quinas, os pisos são escorregadios, as tomadas ficam na altura do olhar de um bebê, as escadas não têm proteção. Isso não é culpa de ninguém — é só que o design de interiores tradicional pensa no adulto. Sua tarefa é olhar para o espaço de baixo para cima, literalmente. Agache. Coloque-se na altura da criança. O que você vê quando faz isso?

Ambientes adequados para exploração motora têm algumas características em comum: espaço para movimento, variedade de superfícies, ausência de riscos sérios e presença de desafios calibrados. Não precisam ser grandes. Um quarto de tamanho médio, organizado com inteligência, pode ser muito mais rico do que uma sala enorme cheia de objetos que a criança não pode tocar.

Adaptando o Ambiente Interno

Dentro de casa, o primeiro passo é criar um espaço que a criança reconhece como seu território de movimento. Isso não precisa ser um quarto inteiro — pode ser um canto da sala, uma área delimitada com um tapete firme, um espaço onde os móveis foram reorganizados para deixar corredores livres. O fundamental é que a criança saiba: aqui eu posso me mover.

Pisos firmes e com alguma aderência são ideais. Tapetes muito espessos dificultam o equilíbrio nos primeiros passos. Tapetes de borracha, como os usados em academias, são ótimos para áreas de movimento mais intenso. Se o piso for liso, meias antiderrapantes fazem diferença real. Móveis com quinas vivas podem receber protetores de silicone — não para eliminar toda e qualquer colisão, mas para reduzir o impacto de uma queda inevitável.

Pense também na altura das coisas. Brinquedos acessíveis em prateleiras baixas encorajam a criança a ir buscar o que quer, criando já aí um ato motor. Almofadas firmes empilhadas no chão criam uma topografia interna estimulante. Um colchonete no chão vira área de rolar e pular. Uma barra baixa na parede permite treino de equilíbrio e força. O ambiente interno pode ser muito mais rico do que parece à primeira vista.

Aproveitando o Ambiente Externo

O ambiente externo é, em geral, o espaço mais rico para a exploração motora — e também o mais subutilizado. Gramas irregulares, areia, pedras, árvores baixas, parquinhos com estruturas de madeira, playgrounds com pisos de borracha: tudo isso oferece estímulos que nenhum brinquedo industrializado consegue replicar completamente.

Deixar a criança descalça na grama é, por si só, um estímulo motor e sensorial poderoso. A irregularidade do solo ativa músculos que o chão plano não aciona. A areia trabalha o equilíbrio de forma completamente diferente da terra firme. Subir em uma árvore de copa baixa desenvolve planejamento motor, força nos braços e resolução de problemas espaciais — tudo ao mesmo tempo.

O receio em relação ao ambiente externo muitas vezes é sobre sujeira e sobre risco. É válido. Mas é possível criar uma área externa pensada para o movimento com cercamento adequado, superfícies que amortizam quedas e supervisão próxima sem ser sufocante. Uma caixa de areia coberta, um balanço com altura ajustável, um escorregador com inclinação moderada — essas são adições que transformam qualquer quintal em um laboratório motor completo.

O Que Retirar e o Que Incluir no Espaço

Há objetos que devem ser retirados do espaço de exploração da criança — não por serem perigosos no sentido geral, mas por serem perigosos para a faixa etária dela. Objetos muito pequenos para bebês que ainda levam tudo à boca. Móveis instáveis que tombam quando a criança se apoia. Cordas longas ou fios acessíveis. Substâncias tóxicas ao alcance. Esses são os riscos reais que precisam sair do espaço.

Por outro lado, há objetos que a maioria das pessoas retira por medo excessivo e que deveriam ficar ou ser incluídos. Blocos de madeira de tamanhos variados para empilhar e montar. Rampas simples feitas com pranchas e blocos firmes. Obstáculos baixos para passar por cima e por baixo. Tecidos de texturas diferentes para manusear. Bolas de vários tamanhos e pesos. Esses objetos não são perigosos — são ferramentas de aprendizado motor que seu preço baixo disfarça o valor imenso.

A regra prática é simples: se você precisaria correr para salvar a criança se ela tentasse interagir com aquele objeto, retire. Se você pode deixá-la tentar com supervisão tranquila, deixe. Essa distinção entre risco real e risco percebido é o que vai nortear as decisões de organização do espaço de forma mais eficiente do que qualquer lista genérica de segurança.


Materiais e Brinquedos Que Favorecem a Exploração Segura

O mercado de brinquedos é enorme, colorido e às vezes confuso. Há produtos para cada fase, cada habilidade, cada objetivo — e muitos deles custam caro sem entregar muito. A boa notícia é que os materiais mais eficazes para a exploração motora são frequentemente os mais simples. E entender o porquê disso ajuda a fazer escolhas mais inteligentes.

Um brinquedo que faz tudo sozinho não deixa espaço para o corpo da criança trabalhar. Ele entretém, mas não desenvolve. Já um brinquedo que exige da criança — que ela precise mover, empurrar, equilibrar, montar, desmontar — é um brinquedo que está servindo ao desenvolvimento motor de verdade. A diferença não está no preço. Está na demanda que o brinquedo faz ao corpo.

Quando você escolhe materiais pensando no que eles exigem do corpo da criança em vez de no que eles fazem pela criança, sua seleção muda completamente. E o ambiente de exploração motor fica mais rico com menos objetos, não com mais.

Brinquedos Adequados Para Cada Fase

Para bebês de 0 a 6 meses, o foco é tátil e visual. Móbiles com contraste de cores, objetos de texturas diferentes para explorar com as mãos e a boca, superfícies firmes para treino de sustentação cervical. Não é necessário muito. O próprio corpo do bebê, colocado em posições diferentes com segurança, já é o maior estímulo motor possível.

De 6 a 18 meses, entram os brinquedos de encaixe simples, cubos de pano firme para empilhar, bolas de diferentes tamanhos, carrinhos de empurrar com cabo estável e andadores com base larga. Nessa fase, a criança está indo da posição sentada ao caminhar, e o ambiente precisa apoiar esse percurso sem pular etapas. Andadores de encaixe no pé, por exemplo, são contraindicados porque eliminam a fase do engatinhar — uma fase motor crucial.

De 18 meses em diante, o repertório cresce. Triciclos, escorregadores domésticos, materiais de construção grandes (blocos de espuma, blocos de madeira leve), bolas para chutar, caixas para entrar e sair, túneis de tecido, balanços internos — tudo isso nutre a necessidade de movimento que explode nessa fase. O critério segue sendo o mesmo: o brinquedo deve exigir participação ativa do corpo.

Materiais Não Estruturados e Seu Potencial

Materiais não estruturados são aqueles que não têm uma função predefinida — e são, possivelmente, os mais ricos para o desenvolvimento motor. Uma caixa de papelão grande. Pedaços de tecido de tamanhos diferentes. Rolos de papel. Garrafas plásticas com tampas firmes e conteúdo interno (arroz, feijão, areia). Pranchas de madeira leve. Pedras lisas de tamanhos variados para jardins externos.

Esses materiais pedem que a criança invente o que fazer com eles. E inventar é um ato motor complexo. Para transformar uma caixa em esconderijo, a criança precisa calcular tamanho, se abaixar, entrar, ajustar a posição do próprio corpo. Para usar um tecido como capa, precisa de coordenação para amarrar ou prender. Para empilhar rolos, precisa de equilíbrio e controle de força. Tudo isso acontece de forma espontânea, sem instruções, porque o material convida.

A resistência ao uso de materiais não estruturados costuma vir do medo de desordem — e é uma resistência legítima. A solução não é eliminar a desordem, mas criar um espaço onde ela é permitida dentro de um limite claro. Um canto da casa, um horário específico, uma área no jardim. A desordem temporária vale o desenvolvimento que ela gera.

Como Organizar os Materiais no Espaço

A forma como os materiais estão dispostos no ambiente influencia diretamente o comportamento motor da criança. Caixas fechadas cheias de brinquedos misturados não convidam à exploração — convidam ao caos. Prateleiras abertas, organizadas por tipo e com poucos objetos visíveis por vez, encorajam a criança a escolher, pegar, usar e devolver.

Menos é mais quando se fala em organização de espaço motor. Um ambiente com muitos estímulos ao mesmo tempo pode provocar dispersão. A criança não sabe por onde começar e acaba não começando por nada. Rodízio de materiais — trocar alguns itens a cada semana ou duas — mantém o ambiente novo sem precisar comprar coisas novas o tempo todo.

A altura das prateleiras importa. Materiais ao nível dos olhos da criança em pé são os mais acessados. Materiais muito altos ou muito baixos tendem a ser esquecidos. Organizar o espaço pensando em quem vai usá-lo é um gesto de respeito ao tamanho e às possibilidades motoras da criança naquela fase.


A Presença do Adulto Como Parte do Ambiente

Você pode ter o ambiente mais bem preparado do mundo, com os melhores materiais, o piso certo, a organização perfeita — e ainda assim ser o elemento que mais limita a exploração motor da criança. Isso não é uma crítica. É uma observação honesta sobre como a presença do adulto, sua linguagem corporal, seus reflexos de proteção e seus próprios medos fazem parte do ambiente tanto quanto qualquer objeto físico.

Crianças leem os adultos com uma precisão assustadora. Antes de qualquer tentativa motora nova, muitas crianças olham para o adulto próximo. Esse olhar não é só busca de aprovação — é leitura de risco. Se o adulto tensa, segura o fôlego ou estica o braço instintivamente, a criança registra: isso aqui é perigoso. E pode recuar. Não porque o movimento fosse perigoso de fato, mas porque o adulto comunicou que era.

Desenvolver consciência sobre os próprios sinais corporais é, portanto, parte do trabalho de quem quer criar um ambiente de exploração motor saudável. Isso não significa fingir que não está com medo. Significa aprender a distinguir entre o medo que sinaliza risco real e o medo que é reflexo de experiências passadas ou de uma cultura de proteção excessiva.

Quando Intervir e Quando Observar

A regra geral é simples de enunciar e difícil de praticar: observe primeiro, intervenha só se necessário. O desafio está em definir “se necessário”. Necessário não é quando a criança vai cair. Necessário é quando a queda pode causar dano sério — trauma na cabeça, fratura, corte profundo. Quedas menores, arranhões, pequenos trombos — esses fazem parte do aprendizado e o corpo da criança está biologicamente preparado para lidar com eles.

Quando você intervém antes da queda toda vez, você priva a criança de duas coisas: a experiência de falhar de forma segura e a experiência de se recuperar sozinha. Ambas são fundamentais para o desenvolvimento da autoconfiança motora. A criança que nunca caiu não aprendeu como cair. E aprender a cair — dobrar os joelhos, proteger a cabeça, rolar — é uma habilidade motora tão importante quanto aprender a andar.

Intervenções verbais antes de intervenções físicas são sempre preferíveis. Em vez de correr para pegar a criança que está tentando descer do banco, você pode dizer calmamente: “vai devagar, coloca o pé primeiro.” Isso mantém a criança no controle do próprio corpo, apenas com uma informação adicional. Ela executa o movimento. Ela tem a experiência. E o aprendizado é dela.

Como o Medo do Adulto Bloqueia a Criança

Há uma pesquisa bem consolidada na área da psicomotricidade que mostra como a ansiedade de pais e cuidadores está diretamente relacionada com restrições motoras nas crianças. Quando o adulto tem muito medo de que a criança se machuque, tende a criar ambientes cada vez mais controlados, a intervir cada vez mais cedo e a verbalizar mais avisos de perigo. Com o tempo, a criança internaliza essa mensagem: o mundo é perigoso, meu corpo não é confiável.

O resultado não é uma criança mais segura. É uma criança com menos recursos motores, menos confiança corporal e, paradoxalmente, menos capacidade de reconhecer riscos reais — porque nunca treinou essa avaliação por conta própria. O excesso de proteção não protege. Ele apenas adia o contato com o mundo real para um momento em que o adulto não estará mais por perto.

Se você reconhece em si mesmo um padrão de medo excessivo em relação ao movimento da criança, vale explorar de onde vem esse medo. Foi você que cresceu com restrições? Vivenciou algum acidente que deixou marca? Tem histórico de ansiedade? Não existe julgamento aqui — isso é trabalho interno legítimo. Mas reconhecer que o medo é seu, e não um reflexo de risco real, já é um passo enorme.

Criando Vínculos Através do Movimento

O movimento compartilhado é uma das formas mais antigas e poderosas de criar vínculo entre adultos e crianças. Antes da linguagem, era pelo corpo que os humanos se comunicavam, se consolavam e se conectavam. Isso ainda funciona. Quando você rola no chão com a criança, a carrega no colo fazendo movimentos diferentes, brinca de cavalinho, dança com ela no colo ou simplesmente deita no tapete ao lado dela, você está criando uma conexão que vai além da brincadeira.

Do ponto de vista do desenvolvimento, o movimento compartilhado entre adulto e criança tem um papel especial: ele mostra que o movimento é seguro porque uma pessoa de confiança está fazendo junto. Crianças que têm medo de certos movimentos — girar, balançar, inverter o corpo — muitas vezes superam esse medo quando o fazem primeiro com um adulto que transmite segurança.

Você não precisa virar ginasta nem ter disposição de correr por horas. Pequenos momentos de movimento conjunto, de forma consistente, constroem uma base de confiança corporal que a criança vai levar para muito além da infância.


Rotina, Ritmo e Previsibilidade Como Base da Segurança

Segurança não é só física. É também emocional. E uma criança emocionalmente segura explora mais, arrisca mais e aprende mais. A rotina e o ritmo do dia são parte fundamental dessa segurança emocional — e têm impacto direto na qualidade da exploração motor.

Quando a criança sabe o que vai acontecer a seguir, o sistema nervoso fica mais regulado. Ela gasta menos energia com antecipação e processamento de incertezas, e tem mais energia disponível para explorar, experimentar e aprender. Um ambiente previsível não é um ambiente rígido. É um ambiente onde a criança conhece a estrutura geral do dia e pode se mover dentro dela com liberdade.

Pense na rotina como o chão firme que permite que a criança dance. Sem o chão firme, ela precisa ficar parada para não cair. Com o chão firme, ela pode se arriscar.

Como a Rotina Favorece a Exploração

Crianças que têm horários relativamente estáveis para refeições, sono e atividade livre tendem a explorar com mais profundidade durante o tempo de movimento livre. Isso porque o sistema nervoso delas está em um estado de regulação que permite engajamento pleno. Quando a rotina é caótica, a criança entra em modo de alerta — o que reduz a abertura para novidades e desafios.

Criar uma rotina que inclua tempo estruturado para movimento ao ar livre, tempo livre no ambiente interno e momentos de movimento compartilhado com adultos não requer agenda elaborada. Requer consistência em alguns pontos âncora do dia. Acordar, comer, brincar fora, almoçar, descansar, brincar dentro — quando esses pontos são previsíveis, a criança constrói um mapa interno do dia que a libera para se lançar à exploração com mais confiança.

Transições bruscas entre atividades também impactam o comportamento motor. Criança que é tirada de uma brincadeira de movimento sem aviso tende a reagir com resistência ou desregulação emocional. Avisos de transição — “em cinco minutos vamos parar” — funcionam como preparação do sistema nervoso e tornam as mudanças muito mais suaves.

O Equilíbrio Entre Desafio e Segurança

Um ambiente muito seguro demais é entediante. Um ambiente desafiador demais é paralisante. O ponto ideal é aquele onde a criança encontra desafios que ela quase consegue superar — o que os pesquisadores chamam de zona de desenvolvimento proximal aplicada ao movimento. Ela precisa se esforçar, tentar de novo, encontrar estratégias diferentes. E no final, consegue.

Esse equilíbrio não é estático. À medida que a criança desenvolve habilidades, os desafios precisam crescer junto. Um balanço que foi desafiador aos 18 meses pode ser pouco estimulante aos 3 anos. Uma rampa que exigia muito esforço antes pode ser percorrida correndo depois. Seu papel é observar esse desenvolvimento e ajustar o ambiente progressivamente.

Você não precisa construir um parque novo a cada mês. Pequenas modificações fazem grande diferença. Inclinar levemente uma prancha que antes estava reta. Colocar um obstáculo no meio de um percurso já familiar. Oferecer um brinquedo que exige um pouco mais de coordenação do que o anterior. Esses ajustes mantêm o ambiente desafiador sem exigir grandes investimentos.

Sinais de Que o Ambiente Está Funcionando

Você vai saber que o ambiente está funcionando quando a criança se engaja de forma concentrada e autônoma. Ela vai sozinha até os materiais, escolhe, usa, experimenta, ajusta. Ela tenta e quando não consegue, tenta de novo. Ela se frustra às vezes — isso é normal e saudável — mas se recupera e continua. Ela não precisa de você a cada minuto para saber o que fazer.

Outro sinal positivo é quando a criança parece relaxada no ambiente. Não hiperativa nem passiva — engajada. Há uma diferença entre a agitação de uma criança subexposta ao movimento (que está descarregando uma necessidade reprimida) e o engajamento motor de uma criança que tem suas necessidades atendidas de forma consistente. No segundo caso, você vê foco, intencionalidade e uma certa serenidade mesmo no movimento intenso.

Quando a criança começa a criar seus próprios desafios — empilhar mais alto, ir mais rápido, tentar de cabeça para baixo — é sinal de que o ambiente básico já foi dominado e que ela está pronta para o próximo nível. Esse é um momento ótimo para fazer ajustes e ampliar as possibilidades. Ela está te dizendo que está pronta.


Exercícios Práticos para Fixar o Aprendizado

Exercício 1 — Mapa de Riscos do Seu Ambiente

Pegue uma folha de papel e desenhe o espaço onde a criança mais passa o tempo — pode ser a sala, o quarto dela ou o quintal. Divida os riscos que você identifica em duas colunas: “riscos reais” (aqueles que podem causar dano sério se a criança interagir com eles) e “riscos percebidos” (aqueles que causam desconforto no adulto mas que não apresentam perigo real para a faixa etária da criança).

Depois de fazer essa divisão, responda: O que precisa ser retirado ou modificado com urgência? O que pode permanecer ou ser incluído porque contribui para a exploração motor com segurança? Com base nas duas respostas, faça uma lista de até 3 mudanças concretas que você pode fazer no ambiente ainda esta semana.

Resposta orientada: Riscos reais para bebês incluem tomadas acessíveis, móveis instáveis, objetos pequenos ao alcance e substâncias tóxicas. Para crianças entre 1 e 3 anos, incluem alturas grandes sem proteção, escadas sem portão e pisos muito escorregadios. Riscos percebidos, por outro lado, incluem subir em móveis baixos estáveis, brincar com água supervisionado, rolar no chão, andar descalço em superfícies seguras. As mudanças concretas devem eliminar os riscos da primeira coluna e ampliar as possibilidades da segunda.

Exercício 2 — Diário de Observação Motor

Durante uma semana, reserve 15 minutos por dia para observar a criança em movimento livre sem intervir. Anote três coisas a cada sessão: o que a criança iniciou por conta própria, o momento em que você sentiu mais vontade de intervir e o que aconteceu quando você não interveio.

No final da semana, leia suas anotações e responda: Em quantos momentos a criança resolveu o desafio sozinha quando você esperou? Quantas das suas intervenções eram baseadas em risco real e quantas eram baseadas em desconforto seu? O que você aprendeu sobre o nível de habilidade atual da criança ao observar sem agir?

Resposta orientada: Na maioria dos casos, quando o adulto espera, a criança encontra uma solução — mesmo que diferente da que o adulto escolheria. Crianças têm estratégias motoras próprias que costumam ser adequadas para o próprio corpo. O diário geralmente revela que a maior parte das intervenções não era baseada em risco real, mas em ansiedade do adulto. Essa percepção, por si só, tende a mudar o comportamento de forma mais eficaz do que qualquer regra externa.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *