A arte de pedir desculpas ao seu filho é um dos gestos mais poderosos e menos praticados dentro de uma família. E digo arte mesmo, não exagero, porque exige habilidade, coragem, consciência e, acima de tudo, a disposição de colocar a relação acima do orgulho. Parece simples quando visto de fora. Mas se você já esteve naquela situação, sabe que não é. Você gritou. Ou foi injusto. Ou disse algo no calor do momento que não deveria ter dito. E agora está parado diante do seu filho tentando entender por onde começa o conserto.
Esse artigo é para você que sabe que errou e quer saber o que fazer com isso. Mas também é para você que ainda está no meio de uma crença antiga, a de que pedir desculpas ao filho é sinal de fraqueza, de que manda menos, de que perde o respeito. Porque se essa crença está operando em silêncio dentro de você, ela está moldando a relação com seu filho de formas que você nem percebe ainda.
Por que pedir desculpas ao seu filho ainda é um tabu
Nas sessões de terapia familiar que conduzo, uma das situações que aparece com mais frequência é a do pai ou da mãe que claramente errou com o filho, sabe disso, sente culpa por isso, mas não consegue se mover em direção a um pedido de desculpas genuíno. Às vezes esse bloqueio é consciente. “Não quero perder a autoridade.” “Se eu me desculpar, ele vai achar que pode fazer o que quiser.” Mas mais frequentemente o bloqueio é silencioso, uma crença herdada de gerações anteriores que nunca foi questionada. Pais não pedem desculpas. Pais ensinam.
Só que essa lógica tem um custo. E o custo aparece no filho que aprende que admitir erro é perigoso. No adolescente que não consegue pedir perdão porque nunca viu isso ser feito de verdade. No adulto que entra em relacionamentos com uma dificuldade imensa de se responsabilizar pelos próprios erros porque, lá em casa, esse gesto nunca fez parte do repertório.
A crença de que pedir desculpas enfraquece a autoridade
Essa é a crença mais comum e a mais difícil de desconstruir, porque ela tem uma lógica interna que parece razoável. Se eu assumo que errei, meu filho vai me enxergar como fraco. Vai me respeitar menos. Vai usar isso como argumento nas próximas brigas. Mas essa lógica confunde autoridade com infabilidade. E são coisas completamente diferentes.
A autoridade real, aquela que a criança respeita de verdade e não apenas por medo, vem da consistência, da coerência e da capacidade de se responsabilizar pelos próprios atos. Um pai que erra e assume o erro na frente do filho não se torna menor. Ele se torna mais real. E crianças confiam em pessoas reais muito mais do que em figuras que se comportam como se nunca errassem. Porque cedo ou tarde a criança vai descobrir que o pai erra, e se a narrativa da família sempre foi de que ele não pode errar, essa descoberta vai gerar uma rachadura de confiança que leva tempo para reparar.
A psicóloga Izabella Melo coloca isso de forma muito clara: a expectativa de uma parentalidade sem erros é humanamente impossível de ser praticada. Mas muitos pais carregam essa expectativa como se fosse obrigatória. E quando erram, a única saída que enxergam é minimizar, justificar ou simplesmente ignorar, porque assumir seria admitir uma falha que, dentro dessa lógica, não deveria existir. O problema é que o filho estava lá. Viu tudo. E vai processar esse episódio com ou sem o seu pedido de desculpas. A diferença é o que ele vai aprender com isso.
O que acontece quando os pais nunca erram (na narrativa deles)
Crescer com pais que nunca pedem desculpas produz efeitos específicos no desenvolvimento emocional da criança. O primeiro deles é uma calibragem distorcida sobre o erro. A criança aprende, no ambiente mais seguro que ela tem, que errar é algo que se esconde, se justifica ou se transfere para outro. Porque é isso que ela vê sendo feito pelos adultos de referência.
O segundo efeito é a dificuldade em nomear e processar emoções próprias. Quando o pai age de forma injusta com o filho e não há reparação, o filho sente a injustiça, mas não tem como nomear isso dentro de um contexto que valide o que sentiu. Essa emoção não processada vai para algum lugar. Geralmente vai para o comportamento, para a raiva, para o isolamento, para a dificuldade de confiar nos outros. Não de forma linear e imediata, mas ao longo do tempo, em camadas.
O terceiro efeito, e esse aparece muito claramente na clínica, é a pressão que a criança passa a exercer sobre si mesma para também não errar. Se os adultos ao redor nunca assumem erros, o erro vira algo inaceitável. E uma criança que não se permite errar é uma criança que vive sob uma tensão crônica que não é compatível com um desenvolvimento saudável. Ela vai aprender a esconder as falhas, a se punir em silêncio, a ter medo do julgamento. E isso vai chegar na adolescência e na vida adulta com um peso que às vezes a pessoa nem sabe de onde veio.
A diferença entre autoridade e autoritarismo
Autoridade é a capacidade de orientar, proteger e estabelecer limites a partir de uma posição de respeito e confiança. Autoritarismo é a exigência de obediência baseada no poder hierárquico, onde a posição do adulto está sempre acima de qualquer questionamento. São posições completamente diferentes, mas muitas famílias tratam as duas como sinônimas.
Um pai autoritário não pede desculpas porque isso abalaria a estrutura de poder que sustenta a dinâmica da casa. Um pai com autoridade real pede desculpas exatamente porque entende que o respeito não é conquistado pela perfeição, mas pela responsabilidade. E há uma diferença enorme, para a criança, entre obedecer por medo e respeitar por genuína admiração. A primeira gera conformidade. A segunda gera caráter.
A questão prática é: que tipo de adulto você quer que seu filho se torne? Se a resposta inclui alguém capaz de reconhecer erros, de reparar relações e de tratar as pessoas ao redor com respeito, então o caminho começa em casa, com você, agora. Não em uma conversa sobre valores. Em um gesto concreto de assumir quando errou.
O que um pedido de desculpas genuíno faz pela relação
Quando um pai ou uma mãe senta com o filho, olha nos olhos dele e diz “eu errei, me desculpa”, algo acontece naquela relação que nenhum presente, nenhuma saída especial e nenhuma conversa sobre valores consegue reproduzir. A criança sente, de forma visceral, que os sentimentos dela importam. Que o que ela viveu foi real e foi percebido pelo adulto mais importante da vida dela. Esse reconhecimento é um dos elementos mais fundamentais para o desenvolvimento de um apego seguro.
E não estou falando de teoria do apego de forma abstrata. Estou falando de como a criança vai entrar nos relacionamentos da vida adulta. Se ela aprendeu, dentro de casa, que quando alguém importante erra com você, a reparação é possível, ela vai carregar essa expectativa saudável para todas as relações futuras. Se ela aprendeu que os erros são ignorados ou varridos para baixo do tapete, ela vai replicar isso também.
Fortalecimento do vínculo afetivo
O vínculo entre pais e filhos é construído em momentos que raramente aparecem nas fotos das redes sociais. Ele é feito de conversas difíceis, de reparações, de honestidade sobre o que aconteceu. E o pedido de desculpas está no centro disso. Ele diz para a criança, sem precisar de muitas palavras: você é importante o suficiente para que eu me responsabilize pelo que fiz.
Tatiana Pinheiro, mãe de três filhos, conta que certa vez se viu assistindo a um vídeo que o marido havia gravado sem avisar. Nele, ela aparecia gritando com os filhos. Um dos filhos tremeu. Naquele momento ela se sentou com cada um deles, individualmente, perguntou como estavam se sentindo e pediu desculpas. Prometeu melhorar. E passou a fazer isso de forma consistente. O resultado foi que os filhos aprenderam, por osmose, a fazer o mesmo. A pedir desculpas sem que ninguém precisasse mandar.
Esse exemplo diz muito sobre como funciona o vínculo afetivo. Ele não é uma conquista que você faz uma vez e mantém para sempre. É uma construção contínua, feita de gestos pequenos e grandes, onde o pedido de desculpas ocupa um lugar especialmente importante porque exige vulnerabilidade. E a vulnerabilidade, quando recebida com segurança, aprofunda a conexão de um jeito que a força nunca consegue.
Como a autoestima da criança é afetada
A autoestima da criança é construída, em grande parte, a partir das mensagens que ela recebe sobre o valor dos seus sentimentos. Quando um pai age de forma injusta com o filho e não há reparação, a mensagem que chega é: o que você sente não merece atenção. Você não merece explicação. Isso, repetido ao longo do tempo, vai corroendo a percepção que a criança tem do próprio valor.
Por outro lado, quando um pai para, reconhece o erro e pede desculpas, a mensagem que chega é completamente diferente: o que você sentiu importou para mim. Você merece respeito. Seus sentimentos são válidos. Essa mensagem, recebida de uma figura de autoridade, vai direto para a estrutura interna da criança. Ela aprende que pode confiar na própria percepção da realidade. Que quando algo a machuca, isso é real e merece ser reconhecido.
A psicóloga especialista Izabella Melo destaca que crianças criadas dentro de uma dinâmica onde os erros são reconhecidos conseguem calibrar melhor as expectativas que desenvolvem sobre si, sobre os pares e sobre as outras pessoas que vão conviver ao longo da vida. Elas entendem que erros não precisam significar rompimento de vínculos. Que é possível errar, reparar e seguir em frente. Essa compreensão é um dos alicerces de uma saúde mental robusta.
A resolução de conflitos começa com o exemplo
Conflitos são parte da vida. O que varia, de pessoa para pessoa e de família para família, é a capacidade de navegar os conflitos sem destruir as relações no processo. E essa capacidade é aprendida. Não em cursos nem em livros. É aprendida dentro de casa, vendo como os adultos ao redor lidam com os próprios erros.
Uma criança que vive em uma família onde o conflito é seguido de reparação aprende que é possível brigar e se reconciliar. Que relações suportam desentendimentos. Que a raiva não é o fim da história. Esse aprendizado é precioso e vai aparecer, anos depois, na forma como esse adulto vai lidar com conflitos no trabalho, nos relacionamentos românticos e, eventualmente, com os próprios filhos.
Uma criança que vive em uma família onde os conflitos são ignorados, varridos para baixo do tapete ou resolvidos com quem tem mais poder, aprende que conflito é perigoso, que a melhor estratégia é evitá-lo a qualquer custo ou vencê-lo a qualquer custo. Nenhuma das duas é uma estratégia funcional para a vida adulta. E ambas custam muito à pessoa que as carrega.
O que torna um pedido de desculpas real e não protocolar
Aqui chegamos em um ponto que quero tratar com cuidado, porque há uma diferença enorme entre pedir desculpas de verdade e pedir desculpas para encerrar o assunto. A criança percebe essa diferença mesmo sem ter palavras para descrevê-la. Ela sente se você está lá de verdade ou se está apenas executando um protocolo para que a situação fique para trás.
Um pedido de desculpas genuíno tem alguns elementos que o tornam real. Ele é específico sobre o que aconteceu. Ele reconhece como o outro se sentiu. Ele não transfere a culpa para terceiros ou para circunstâncias. E ele não vem carregado de justificativas que, na prática, desfazem o pedido. Cada um desses elementos importa. E quando algum está ausente, o pedido perde força, mesmo que as palavras estejam certas.
A diferença entre desculpa genuína e desculpa para encerrar o assunto
Você já recebeu um pedido de desculpas que pareceu mais uma pressão para que você parasse de estar magoado? “Tá, me desculpa, vamos parar com isso.” Essa frase não é um pedido de desculpas. É uma tentativa de gestão do conflito que coloca o fardo da resolução no outro. A criança, que tem menos poder na relação, vai frequentemente aceitar esse tipo de desculpa porque não tem outra saída. Mas ela não vai processar o que aconteceu. E vai ficar com aquela sensação difusa de que algo não foi resolvido de verdade.
Um pedido de desculpas que encerra o assunto de verdade, não apenas na superfície, começa com a nomeação do que aconteceu. “Eu gritei com você de um jeito que não foi justo.” “Eu disse uma coisa que te machucou e não devia ter dito.” “Eu fui duro com você em um momento em que você precisava de apoio.” Quanto mais específico, mais a criança sente que você realmente viu o que aconteceu. E quanto mais ela sente que foi vista, mais o pedido de desculpas aterra de verdade.
Depois vem o reconhecimento do que ela sentiu. “Imagino que você ficou magoado.” “Deve ter sido difícil ouvir aquilo.” Não estou dizendo que você precisa fazer uma análise clínica do estado emocional do filho. Estou dizendo que dar um segundo de atenção para o que ele viveu, antes de falar sobre o que você vai fazer diferente, muda completamente o tom do pedido. Porque desculpa que não passa pelo sentimento do outro é uma desculpa que olha só para dentro.
O momento certo e o tom certo
Timing importa. Pedir desculpas imediatamente depois de um conflito intenso, quando você e seu filho ainda estão com o sistema nervoso agitado, raramente produz o resultado que você quer. A criança não está em estado de receber. Você provavelmente também não está em estado de oferecer da forma como deveria. O ideal é dar um tempo. Não um tempo de dias, que acumula distância. Um tempo de minutos ou horas, para que o sistema nervoso de ambos se regule um pouco.
Quando você se aproxima depois desse tempo, o tom que você usa diz tanto quanto as palavras. Um pai que pede desculpas com a voz tensa, com pressa, de passagem, sem contato visual, não está criando o espaço que um pedido de desculpas precisa. Sente com o filho. Em um lugar calmo. Olha nos olhos dele. Use um tom tranquilo e direto. Não performático, não excessivamente emocional, apenas presente.
Há também o caso dos pais que se lembram de erros antigos e querem fazer reparações tardias. Isso também é válido e importante. Não é tarde demais. Uma conversa com um adolescente de 15 anos sobre algo que aconteceu quando ele tinha oito pode ter um efeito profundo. Porque mostra que você não esqueceu. Que aquilo ficou com você também. E que o relacionamento de vocês importa o suficiente para que você não deixe isso sem reparação.
O que dizer e o que evitar dizer
Vou ser prática aqui, porque essa parte merece objetividade. O que fortalece um pedido de desculpas: nomear o que você fez, reconhecer como o filho se sentiu, dizer que sente muito sem colocar um “mas” na sequência, e indicar o que pretende fazer diferente. Simples assim. Não precisa ser longo. Precisa ser honesto.
O que enfraquece ou invalida um pedido de desculpas: “Me desculpa, mas você também teve culpa.” “Me desculpa se você ficou chateado”, como se o problema fosse a reação do filho e não a sua atitude. “Me desculpa, mas eu estava muito cansado”, que transforma o pedido em justificativa. “Você sabe que eu te amo, né”, que pula a reparação e vai direto para a reconexão sem passar pelo reconhecimento. Cada um desses padrões de linguagem tira algo do pedido de desculpas. E a criança percebe isso, mesmo sem conseguir identificar exatamente o quê.
Como seu pedido de desculpas ensina o filho a se desculpar
Há algo que ouço com frequência de pais em consultório: “Eu ensino meu filho a pedir desculpas, mas ele não faz isso de verdade. Ele só fala a palavra sem sentir.” E quando pergunto como é o pedido de desculpas dentro de casa, de adulto para adulto, ou de adulto para criança, geralmente aparece a resposta. A criança não faz de verdade porque nunca viu alguém fazer de verdade.
Crianças não aprendem valores por instrução. Elas aprendem por modelagem. Você pode dar cem palestras sobre empatia, responsabilidade e respeito. Mas se os adultos ao redor não praticam esses valores de forma visível e consistente, as palestras ficam no ar. O que entra no sistema nervoso da criança, o que se torna referência interna para ela, é o que ela vê sendo vivido.
Crianças aprendem pelo exemplo, não pelo discurso
O Dr. Steve Silvestro, pediatra americano, faz uma comparação que eu gosto muito: você não colocaria seu filho em uma competição de natação sem ensiná-lo a nadar. Mas quando se trata de habilidades interpessoais, como pedir desculpas de forma sincera, os pais frequentemente pedem que os filhos façam isso sem nunca ter modelado como é feito. A criança vai nadar afogando.
Quando você pede desculpas ao seu filho, você está ensinando ao vivo. Você está mostrando que é possível errar e reparar. Que os erros não precisam ser escondidos. Que a relação é mais importante do que o orgulho. Que admitir uma falha não te diminui, te torna mais confiável. Esses ensinamentos entram pela experiência, não pela teoria. E a experiência é muito mais duradoura.
Um pai que se desculpa com o filho quando chega em casa irritado e descarrega isso na família, que para, respira, e diz “eu não devia ter reagido assim, me desculpa”, está ensinando mais sobre regulação emocional do que qualquer livro de parentalidade. E está fazendo isso da forma que realmente chega: pelo modelo vivo, imperfeito e real.
O que acontece quando forçamos a criança a pedir desculpas
Forçar uma criança a pedir desculpas é diferente de ensinar a criança a pedir desculpas. Quando forçamos, o que acontece é que a criança repete a palavra sem nenhuma compreensão do que está fazendo. Pior do que isso: ela aprende que a palavra funciona como uma senha para encerrar o problema. Fiz besteira, digo desculpa, acabou. Esse aprendizado é, na melhor das hipóteses, inútil. Na pior, é perigoso.
O objetivo de ensinar uma criança a pedir desculpas é muito mais profundo do que a palavra. É fazer com que ela compreenda que suas ações afetam os outros. Que quando ela magoa alguém, há uma responsabilidade aí que precisa ser reconhecida. E que reconhecer essa responsabilidade não é fraqueza. Essa compreensão não vem de ser mandada a falar uma palavra. Vem de entender o impacto do que fez, de sentir algum nível de empatia pelo outro, e aí sim de formular um pedido de desculpas que tenha substância.
Para que isso aconteça, o primeiro passo é sempre ajudar a criança a se acalmar depois de um episódio difícil. Criança agitada não processa empatia. Depois vem a conversa sobre o que aconteceu, o que a outra pessoa sentiu, por que aquela ação não foi adequada. E só depois de tudo isso o pedido de desculpas faz sentido. É um processo, não um comando. E exige paciência de adulto, não urgência de resolução rápida.
Construindo um vocabulário emocional dentro de casa
Uma das consequências mais ricas de uma cultura familiar onde os pedidos de desculpas são genuínos é o desenvolvimento de um vocabulário emocional compartilhado. A família aprende a nomear o que aconteceu, o que sentiu, o que precisa. E esse vocabulário vai muito além dos momentos de conflito. Ele aparece nas conversas cotidianas, na capacidade de cada membro da família de falar sobre si sem vergonha.
Quando o pai diz “errei porque estava irritado por algo do trabalho e trouxe isso para casa”, ele está nomeando uma emoção, identificando a origem dela e responsabilizando a si mesmo sem culpar o filho. Esse é um nível de sofisticação emocional que a criança absorve e vai reproduzir, em versões adaptadas à sua idade, ao longo do tempo. Ela aprende que raiva tem origem, que emoções têm contexto, e que é possível falar sobre isso sem explodir ou fechar.
Famílias que têm esse tipo de repertório emocional navegam os conflitos de forma completamente diferente. Não porque não brigam, mas porque têm mais recursos para reparar depois que a briga acontece. E porque os membros dessas famílias chegam às brigas com menos acúmulo, porque as coisas são ditas antes de virar vulcão.
Pedir desculpas como prática de parentalidade consciente
Nos últimos anos, a parentalidade consciente ganhou muito espaço nas conversas sobre família. Mas tem um risco aí: o conceito pode virar mais uma coisa para performar, mais um padrão a atingir, mais uma fonte de culpa quando você sente que não está à altura. Não é isso que estou propondo aqui. Parentalidade consciente, na prática real, começa com algo muito simples: perceber quando você errou e se mover em direção ao filho para reparar.
Não precisa de curso. Não precisa de livro. Precisa de honestidade interna para reconhecer o que aconteceu e de disposição para sentar com o filho e dizer isso em voz alta. É esse gesto, repetido ao longo do tempo, que constrói uma parentalidade diferente. Não perfeita. Diferente. Mais honesta. Mais humana.
Errar faz parte. Reparar é a habilidade
Todo pai e toda mãe vai errar. Isso não é pessimismo, é simplesmente a realidade de qualquer ser humano que está tentando criar outro ser humano enquanto gerencia a própria vida, o próprio cansaço, a própria história emocional. Não existe parentalidade sem erro. O que varia é o que você faz depois.
A habilidade de reparar, que inclui o pedido de desculpas mas vai além dele, é o que determina se os erros vão deixar marcas profundas ou se vão ser integrados de forma saudável pela criança. Uma criança que vive com pais que erram e reparam aprende que o erro não é o fim da história. Que é possível machucar alguém, reconhecer isso, e trabalhar para que não se repita. Esse aprendizado é um dos mais valiosos que a parentalidade pode oferecer.
E há algo que vale dizer: reparar não significa garantir que o mesmo erro nunca vai se repetir. Às vezes você vai gritar de novo. Vai ser injusto de novo. Vai ter um dia em que o cansaço vai ser maior do que a paciência. O que importa é que o padrão de reparação esteja presente. Que o filho saiba que quando isso acontece, você vai reconhecer. Que o ciclo de erro e reparação faz parte da relação, e que a relação tem força para suportar isso.
Como lidar com a culpa depois que o erro aconteceu
A culpa parental merece atenção aqui, porque ela aparece em quase todos os casos e, quando não gerenciada, pode paralisar em vez de movimentar. Você errou com o filho. Sente um peso enorme. Começa a se cobrar, a pensar em quantas vezes isso já aconteceu, a questionar se está sendo um pai ou uma mãe suficientemente boa. E aí fica tão absorto nessa culpa interna que não se move em direção ao filho.
A culpa, quando funciona bem, aponta para algo que precisa ser reparado e te empurra na direção da reparação. Quando funciona mal, ela te mantém parado, absorto na sua própria história interna, e acaba servindo muito mais ao ego do que à relação. Porque ficar sofrendo pela própria culpa não faz nada pelo filho. O que faz algo pelo filho é o gesto concreto de ir até ele.
A transformação da culpa em ação é, em si, uma prática de parentalidade consciente. Você percebe o peso do que aconteceu, permite que ele te informe sem te paralisar, e se move em direção ao filho. Não para se livrar da culpa. Para reparar a relação. Essa distinção de intenção, mesmo que pequena, muda o tom do pedido de desculpas. E a criança percebe.
O legado emocional que você constrói com essa prática
Por fim, quero falar sobre o longo prazo. Porque o impacto de um pai ou uma mãe que pede desculpas genuinamente não fica restrito à infância do filho. Ele vai muito além.
O filho que cresceu em uma casa onde os erros eram reconhecidos e reparados chega à vida adulta com uma referência interna de como relacionamentos funcionam. Ele sabe que é possível confiar em alguém mesmo depois de uma decepção. Que a reparação é possível. Que pedir desculpas não diminui ninguém. E ele vai replicar isso nos próprios relacionamentos. Com os amigos, com os parceiros, com os colegas de trabalho, e eventualmente com os próprios filhos.
Você está construindo, agora, algo que vai existir décadas depois que seu filho sair de casa. Não nas fotos de férias nem nas lembranças das festas de aniversário. Nas respostas automáticas que ele vai ter quando alguém que ele ama errar com ele. Na capacidade de reparar que ele vai ter quando for ele a errar. No tipo de pai ou mãe que ele vai ser. Esse é o legado que o pedido de desculpas constrói. Silencioso, consistente e muito mais duradouro do que qualquer coisa que você possa comprar ou planejar.
Exercícios Práticos para Fixar o Aprendizado
Exercício 1 – O Mapeamento dos Meus Gatilhos Parentais
Como fazer: Reserve quinze minutos em um momento tranquilo da semana, sem o filho por perto. Pegue um papel e responda, com honestidade, às seguintes perguntas: Em quais situações com meu filho eu costumo perder o controle ou agir de forma que me arrependo depois? O que geralmente estava acontecendo comigo antes dessa situação: cansaço, pressão do trabalho, frustração acumulada? Existe algum comportamento do meu filho que me aciona de forma desproporcional ao que ele fez? Quando isso acontece, o que eu costumo fazer?
Depois de responder, escolha uma das situações que apareceu com mais frequência e escreva como teria sido se você tivesse tido trinta segundos a mais antes de reagir. Não para se punir pelo que aconteceu. Para começar a reconhecer o padrão antes que ele se repita.
Resposta esperada e o que observar: A maioria dos pais descobre, ao fazer esse exercício, que os episódios de reatividade com os filhos raramente têm origem apenas na situação com o filho. Quase sempre há um acúmulo anterior: uma reunião difícil, uma discussão com o parceiro, um problema financeiro, noites de sono ruim. O filho acaba sendo o receptor de uma carga que não era dele. Perceber isso não remove a responsabilidade pelo que você disse ou fez. Mas muda a qualidade do pedido de desculpas que vem depois. Porque você consegue dizer, com honestidade: “O que aconteceu comigo não tinha a ver com você. E ainda assim você levou.” Essa frase, quando dita de verdade, tem um poder de reparação enorme.
Exercício 2 – Prática do Pedido de Desculpas em Três Partes
Como fazer: Na próxima vez que você perceber que errou com o filho, seja uma reação exagerada, uma palavra dura ou uma injustiça pequena, pratique o pedido de desculpas em três partes. Primeira parte: nomear o que aconteceu. “Eu gritei com você quando você não tinha feito nada de errado.” Segunda parte: reconhecer o que o filho pode ter sentido. “Imagino que você ficou assustado ou magoado com isso.” Terceira parte: dizer o que você sente e o que pretende. “Eu sinto muito. Não deveria ter feito isso. Vou trabalhar para não repetir.”
Pronto. Sem justificativas, sem “mas”, sem lista de contextos que explicam o erro. Três partes, direto ao ponto. Faça isso e observe o que acontece na resposta do filho, no tom da conversa que vem depois, e em como você se sente internamente.
Resposta esperada e o que observar: O que a maioria dos pais observa ao praticar esse formato é que a criança, especialmente as mais novas, responde de forma surpreendentemente rápida. Ela aceita, abraça, às vezes diz “tá bom, pai” com uma leveza desconcertante. Isso acontece porque a criança não precisa que você seja perfeito. Ela precisa que você seja honesto e presente. A leveza com que ela recebe o pedido de desculpas é um sinal de que aquela relação tem segurança afetiva suficiente para suportar o erro e a reparação. Com o tempo, você vai perceber que o filho começa a reproduzir esse formato de forma espontânea. Ele vai nomear o que fez, vai tentar identificar o que o outro sentiu, vai dizer que sente muito sem ser mandado. Não porque você o ensinou a dizer as palavras. Mas porque você o ensinou, ao vivo, como é feito de verdade.
Este artigo foi escrito com base em experiência clínica e evidências do campo da psicologia do desenvolvimento. As informações aqui contidas não substituem acompanhamento terapêutico individualizado.

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt. Facebook
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público, adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida. Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram
