Enteados: A Arte de Construir Vínculos (Sem Precisar Ser a “Supermãe”)

Enteados: A Arte de Construir Vínculos (Sem Precisar Ser a "Supermãe")

Enteados: A Arte de Construir Vínculos (Sem Precisar Ser a “Supermãe”)

Se você chegou até aqui, imagino que seu coração esteja apertado por um misto de sentimentos. Talvez exista o desejo genuíno de amar essa criança ou adolescente que veio no “pacote” do seu relacionamento, mas também deve haver medo, insegurança e aquela sensação de estar pisando em ovos. Eu sei, a posição de madrasta (ou boadrasta, como gosto de chamar) é uma das mais complexas na dinâmica familiar moderna. Você entra na vida de alguém que já tem história, já tem lealdades e, muitas vezes, já tem dores.

Quero te convidar a respirar fundo agora. Solte os ombros. O que vamos conversar aqui não é sobre como ser perfeita, nem sobre como fazer com que te chamem de “mãe”. É sobre construção, paciência e, acima de tudo, sobre encontrar o seu lugar único e especial nessa nova configuração familiar. Você não precisa substituir ninguém para ser essencial. Vamos juntas desbravar esse caminho?

Entendendo o Seu Papel (Sem as Fantasias da Disney)

O mito da madrasta má versus a realidade possível

Vamos começar tirando o elefante da sala? A cultura pop fez um desserviço enorme para as mulheres que se casam com homens que já têm filhos. Crescemos vendo a madrasta da Cinderela ou da Branca de Neve como a encarnação do mal, movida por inveja e crueldade.[2] Inconscientemente, isso cria duas reações em você: ou o medo terrível de ser vista como a “bruxa”, ou a tentativa exaustiva de ser a “fada madrinha” que nunca erra, que dá os melhores presentes e que nunca perde a paciência. Nenhuma dessas duas posições é saudável ou sustentável a longo prazo.

A realidade é muito mais sutil e rica do que os contos de fadas. Você é uma adulta de referência que entrou na vida dessa criança. Você não é a mãe, e isso é ótimo. Isso te libera da carga biológica e social pesadíssima que as mães carregam, permitindo que você construa um vínculo baseado na escolha, na amizade e na confiança mútua. Aceitar que você pode ser uma figura de amor sem ser a figura materna é o primeiro passo para tirar um peso gigantesco das suas costas. Você não está ali para competir por um pódio; você está ali para somar na torcida.

Quando você se despe dessa capa de vilã ou de salvadora, sobra a humana. A mulher que ama o pai daquela criança e que está disposta a abrir espaço na sua vida para ela. E é justamente nessa humanidade, com seus dias bons e dias ruins, que o vínculo verdadeiro floresce. Crianças são detectores de mentiras emocionais; elas sabem quando estamos atuando. Ser autêntica, mostrando que você também tem limites e sentimentos, é muito mais pedagógico e vinculante do que tentar sustentar uma personagem inatingível de bondade infinita.

Você é uma figura de apego, não de substituição

Na psicologia, falamos muito sobre “figuras de apego”. Geralmente, pensamos logo nos pais biológicos, mas a verdade é que qualquer adulto que ofereça segurança, consistência e afeto pode se tornar uma base segura para uma criança. O seu objetivo não é substituir a mãe biológica — e acredite, tentar fazer isso é a receita mais rápida para o conflito e a rejeição. O lugar de mãe é sagrado na psique da criança, independentemente de como essa mãe seja na vida real. Tentar ocupar essa cadeira é desrespeitar a história de origem do seu enteado.[3][4]

O seu lugar é outro, e ele é incrivelmente valioso. Pense em você como uma tia querida, uma mentora, ou uma “bônus-mãe”. Você é alguém que traz uma nova visão de mundo, novos hobbies, um novo jeito de resolver problemas e, claro, um novo colo. Muitas vezes, a criança consegue se abrir com a madrasta sobre assuntos que não tem coragem de falar com os pais biológicos, justamente porque você tem esse distanciamento saudável. Você pode ser o porto seguro neutro, aquele que acolhe sem o julgamento carregado de expectativas que os pais costumam ter.[1]

Construir esse lugar de “apego adicional” requer tempo. Não acontece no primeiro fim de semana juntos, nem nas primeiras férias. É uma construção de tijolinho por tijolinho. É estar lá quando a febre sobe, é ouvir a história repetida da escola, é fazer aquele sanduíche do jeito que ele gosta. É na constância da sua presença, calma e não invasiva, que a criança começa a entender: “Ei, essa pessoa não quer roubar minha mãe, ela só quer cuidar de mim também”. É nesse relaxamento que o amor acontece.

Alinhando expectativas com a realidade do dia a dia

Um dos maiores sofrimentos que vejo no consultório vem do descompasso entre a expectativa e a realidade. Você talvez tenha imaginado que formariam uma grande família feliz instantaneamente, jantando todos juntos e rindo, mas a realidade é que o enteado mal responde ao seu “bom dia” ou deixa a toalha molhada na sua cama de propósito. É doloroso quando oferecemos nosso amor e recebemos indiferença ou hostilidade em troca. Mas precisamos ajustar essas lentes para não vivermos frustradas.

A realidade de uma família reconstituída envolve luto.[5] Para a criança, a sua presença é a confirmação final de que os pais biológicos não vão voltar a ficar juntos. Isso gera raiva, tristeza e confusão, e adivinhe quem é o alvo mais seguro para descarregar isso? Você. Não porque você seja má, mas porque você é a novidade. Alinhar as expectativas significa entender que o amor do enteado não é um direito seu, é uma conquista. E, às vezes, essa conquista demora anos. E tudo bem.

Você precisa baixar a barra da perfeição. Haverá finais de semana caóticos. Haverá momentos em que você vai querer se trancar no quarto e sumir. Haverá dias em que você vai questionar suas escolhas. Isso não faz de você uma pessoa ruim, faz de você uma pessoa normal vivendo uma situação complexa. A expectativa deve ser de “respeito mútuo” inicialmente, não de “amor incondicional”. Se vocês conseguirem conviver com respeito e cordialidade no início, já é uma vitória imensa. O afeto virá como consequência da convivência respeitosa, não o contrário.

A Construção do Vínculo no Dia a Dia

O poder das pequenas rotinas (e não dos grandes presentes)

É muito comum cairmos na tentação de “comprar” o afeto da criança. Enchemos de presentes, deixamos fazer tudo o que a mãe proíbe, levamos para passeios caros. Mas a psicologia do desenvolvimento nos mostra que o vínculo real não se forma na Disney, ele se forma na terça-feira à noite, na hora do jantar. São as microinterações diárias que tecem a rede de segurança emocional. Tentar ser a “madrasta legal” o tempo todo é exaustivo e cria uma relação baseada em trocas materiais, não em conexão humana.

Experimente criar rituais que sejam só de vocês. Pode ser algo simples como: “Nas sextas-feiras, quem escolhe o filme e a pizza somos nós dois”, ou ter um toque de mão secreto, ou um apelido carinhoso que só vocês usam. Se o seu enteado é menor, a rotina do banho ou de ler uma história antes de dormir (se ele permitir) são momentos de extrema intimidade e confiança. Se é adolescente, talvez o vínculo se crie no silêncio do carro enquanto você dá uma carona para a escola, ouvindo a playlist dele sem criticar.

Essas pequenas rotinas criam previsibilidade. Crianças que passaram por separações de pais anseiam por previsibilidade, pois o mundo delas já virou de cabeça para baixo uma vez. Quando você se torna uma constante previsível – alguém que está ali, que pergunta como foi o dia e que realmente ouve a resposta – você está mandando uma mensagem poderosa para o subconsciente dele: “Eu sou segura. Eu sou estável. Eu me importo”. É isso que fica gravado na memória afetiva, muito mais do que o videogame caro que você deu no Natal.

O “passo atrás” do pai biológico para você entrar

Aqui entra um ponto crucial que muitas vezes é ignorado: você não consegue construir um vínculo se o pai biológico não abrir espaço.[6] É muito comum que o pai, movido pela culpa da separação ou pela saudade de ficar pouco tempo com o filho, queira fazer tudo, monopolizar a atenção da criança e te deixar de espectadora. Ou, pelo contrário, ele pode querer que você assuma todas as funções maternas imediatamente. Ambos os extremos são prejudiciais para o vínculo que você quer construir.[6]

Para você criar uma conexão direta com seu enteado, o pai precisa dar, estrategicamente, um passo atrás. Isso significa que, em alguns momentos, ele deve permitir que você seja a pessoa a resolver uma demanda, a ajudar no dever de casa ou a levar ao parquinho.[7] Se a criança pede água e o pai está ao lado, ele pode dizer: “A [Seu Nome] pode pegar para você, filho”. Isso valida a sua autoridade e a sua função de cuidado perante a criança.[6][8] É uma “autorização” implícita que o pai dá para que o filho se vincule a você.

Isso precisa ser conversado com seu parceiro longe das crianças. Explique para ele que você quer ter uma relação com o filho dele, e que para isso, eles não podem ser um “clube do bolinha” onde você não entra. Vocês precisam funcionar como uma equipe. O pai deve ser a ponte, facilitando a interação, mas depois deve sair de cena um pouco para que a relação “madrasta-enteado” tenha oxigênio próprio para respirar e crescer. Sem essa validação do pai, a criança pode sentir que gostar de você é uma traição ao tempo que ela tem com ele.

Respeitando o tempo da criança (e o seu)

A palavra-chave na construção de vínculos com enteados é “ritmo”.[6][7] Cada criança tem seu próprio metrônomo interno para processar mudanças. Alguns são extrovertidos e se jogam no seu colo no segundo encontro; outros são desconfiados, leais à memória da família antiga e podem levar meses (ou anos) para te dar um sorriso genuíno. Forçar a barra, exigir beijos e abraços ou cobrar intimidade antes da hora é como tentar abrir uma borboleta do casulo com as mãos: você vai machucar e estragar o processo.

Você precisa desenvolver uma “escuta observadora”.[6] Perceba os sinais não verbais. Se a criança recua quando você vai abraçar, respeite. Ofereça um “toca aqui” ou apenas um sorriso. Mostre que você está disponível, mas não invasiva. Diga coisas como: “Eu estou aqui na sala se você quiser conversar ou jogar algo, mas se quiser ficar no seu quarto, eu entendo também”. Dar autonomia para a criança decidir quando se aproximar devolve a ela um senso de controle que ela perdeu com a separação dos pais.

E, por favor, respeite o seu tempo também. Não se force a amar loucamente uma criança que você acabou de conhecer só porque ela é filha do seu marido. O amor é construído.[3][4][6] Permita-se sentir estranheza, permita-se ficar cansada. Você não precisa ser a mártir da paciência. Se você precisar de um tempo sozinha para recarregar, tire esse tempo. Uma madrasta descansada e emocionalmente regulada é muito mais eficiente na criação de vínculos do que uma madrasta exausta que está tentando forçar uma simpatia que não sente no momento. A autenticidade gera respeito.

“Você não é minha mãe!”: Lidando com a Rejeição

Acolhendo a frase sem levar para o lado pessoal

Ah, a temida frase. Quase toda madrasta vai ouvir um “Você não manda em mim, você não é minha mãe!” em algum momento. Sabe o que acontece no seu corpo nessa hora? O sangue sobe, o coração dispara e a sensação de ingratidão é avassaladora. “Depois de tudo que faço por você…”, é o que pensamos. Mas, como terapeuta, preciso te dizer: essa frase raramente é sobre você. Ela é um grito de socorro, uma demarcação de território e uma expressão de dor.

Quando a criança diz isso, ela está testando a segurança da relação. Ela está, no fundo, perguntando: “Se eu for difícil, se eu te rejeitar, você vai embora como minha família antiga foi embora?”. Se você reage com raiva, gritando de volta “Ainda bem que não sou mesmo!”, você confirma o medo dela e cria um abismo. O segredo, por mais difícil que seja, é não morder a isca. Não leve para o pessoal. Respire e lembre-se: eu sou a adulta da relação. O cérebro dela ainda está em formação, o meu já está pronto (teoricamente).

A melhor resposta é a concordância desarmante. Quando ela disser “Você não é minha mãe”, você respira, olha nos olhos com calma e diz: “Você tem toda razão. Eu não sou sua mãe. Sua mãe é a [Nome da Mãe] e ninguém nunca vai substituir ela. Eu sou a [Seu Nome], e sou a adulta responsável por você agora, e nesta casa, a regra é não deixar toalha no chão”. Percebe a diferença? Você validou a verdade (você não é a mãe) e reafirmou seu papel de autoridade e cuidado. Isso desarticula a briga na hora.

Validando a lealdade à mãe biológica

Por trás da resistência do enteado, muitas vezes esconde-se um conflito de lealdade devastador.[5] A criança sente, inconscientemente, que se ela gostar de você, se ela se divertir com você, ela está traindo a mãe biológica. É como se o coração dela tivesse uma cota limitada de amor, e dar um pedaço para você significasse tirar da mãe. Isso gera culpa.[5][6] E para não sentir culpa, ela se afasta de você ou te trata mal. É um mecanismo de defesa, não um ataque pessoal.[9]

Você pode ser a pessoa que liberta a criança desse peso. Você pode verbalizar isso para ela. Diga coisas como: “Sabe, eu acho sua mãe muito legal por fazer tal coisa…”, ou “Fico feliz que você se divertiu na casa da sua mãe”. Quando você fala bem, ou pelo menos respeita a mãe biológica, você dá permissão para a criança te amar também. Você mostra que não é uma competição de “ou ela ou eu”, mas sim um sistema de “ela e eu”.

Nunca, em hipótese alguma, fale mal da mãe biológica na frente da criança, mesmo que a mãe seja uma pessoa difícil, mesmo que ela fale mal de você. Se você criticar a mãe, a criança vai se sentir atacada, pois metade dela é feita daquela mãe. Engula os sapos se necessário, desabafe com suas amigas ou na terapia, mas preserve a imagem da mãe para a criança. Ao fazer isso, você ganha a confiança do seu enteado, pois ele percebe que você respeita quem ele ama. A segurança emocional dele depende disso.

A importância da constância emocional

Crianças traumatizadas por separações ou lares conflituosos testam limites para ver até onde você aguenta. Se, diante da rejeição ou do mau comportamento, você oscila muito – um dia é amorosa, no outro grita e ameaça ir embora, no outro ignora – você gera ansiedade. O que constrói o vínculo seguro é a constância emocional. É a criança saber que, mesmo que ela tenha tido um dia terrível e tenha sido grosseira, você estará lá no dia seguinte, pronta para recomeçar, sem guardar rancor eterno.

Isso não significa aceitar desrespeito. Você deve impor limites firmes. “Não aceito que fale assim comigo, quando estiver mais calmo conversamos”. Mas a constância está em manter a porta aberta depois da correção. É o “eu te repreendo porque me importo”, não o “eu te repreendo porque te odeio”. A constância diz para a criança: “Eu sou sólida. Eu aguento suas emoções difíceis. Eu não vou me desmoronar porque você está com raiva”.

Ser essa rocha firme em meio ao caos emocional da adolescência ou da infância é exaustivo, eu sei. Mas é a ferramenta terapêutica mais poderosa que você tem. Com o tempo, a criança para de testar, porque ela finalmente entende que você não vai a lugar nenhum. E é aí que ela baixa a guarda e o vínculo real, de amor e cumplicidade, finalmente consegue entrar.

Inteligência Emocional para Madrastas[1][2][10]

Gerenciando o ciúme e a sensação de exclusão

Vamos falar sobre aquele aperto no peito que dá quando você vê o seu parceiro e o filho dele em um momento de intimidade, rindo de uma piada interna que você não entende, ou abraçados no sofá? É ciúme. E é normal. Sentir-se excluída na própria casa é uma das dores mais comuns das madrastas. Você se sente uma estranha no ninho, como se fosse um acessório na vida daquela “família original”.

Primeiro, acolha esse sentimento. Não se julgue um monstro por ter ciúmes de uma criança. O ciúme é um sinalizador de que você precisa de conexão ou de que se sente insegura no seu lugar.[2] Quando bater essa sensação, tente racionalizar: “Eles têm uma história antes de mim, e isso é bonito. O amor dele pelo filho não diminui o amor dele por mim”. São amores de naturezas diferentes. O coração não é uma torta que, se der um pedaço para um, sobra menos para o outro.

Converse com seu parceiro sobre isso, mas sem acusar. Em vez de dizer “Você me ignora quando seu filho está aqui”, tente “Eu me sinto um pouco solitária quando vocês ficam muito tempo no mundo de vocês. Será que podemos incluir um momento para nós dois ou para nós três?”. A inclusão deve ser ativa. E lembre-se: você também pode criar o seu “mundo” fora dali. Não dependa apenas daquela dinâmica familiar para ser feliz.[7]

Autocuidado: Você importa nessa equação

Muitas madrastas caem no erro do sacrifício total. Tentam compensar a falta de mãe, ou agradar o marido, anulando suas próprias vontades.[4] Você começa a viver em função da agenda do enteado, dos gostos alimentares dele, da programação de TV dele. Pare agora! Uma madrasta anulada é uma madrasta infeliz, e ninguém constrói vínculos saudáveis a partir da infelicidade e do ressentimento.

Você tem direito de ter sua casa organizada (dentro do razoável), tem direito ao silêncio em certos horários, tem direito a não querer brincar agora. O autocuidado aqui não é só skin care; é o estabelecimento de limites saudáveis para preservar sua saúde mental. Se você não recarregar suas baterias, não terá paciência para lidar com as birras e os testes. Saia com suas amigas, mantenha seus hobbies, cuide da sua carreira.

Lembre ao seu enteado (e a si mesma) que você é uma pessoa com necessidades próprias. “Agora a [Seu Nome] vai ler um livro porque eu preciso descansar. Depois a gente vê isso”. Ensinar a criança a respeitar o espaço do outro é um ato educativo valioso. Você não é uma funcionária da casa; você é uma moradora e uma parceira. Se valorize, e eles aprenderão a te valorizar também.

A culpa não é sua: separando o que é do casal e o que é da criança

Quando as coisas dão errado – o enteado vai mal na escola, é mal-educado com uma visita, ou diz que odeia a casa do pai – a tendência da madrasta é puxar a culpa para si. “Onde eu errei? Será que não fui carinhosa o suficiente?”. Cuidado com a onipotência.[6] Você não tem o poder de controlar os sentimentos e comportamentos dos outros. A criança tem a personalidade dela, as questões genéticas dela, a influência da mãe, da escola, dos amigos.

Muitos dos comportamentos difíceis dos enteados são sintomas de questões sistêmicas da família, coisas que vêm lá de trás, da relação dos pais biológicos, e não de algo que você fez ou deixou de fazer. Aprenda a devolver a responsabilidade a quem ela pertence.[6] Problemas de educação? É primariamente responsabilidade do pai e da mãe.[8] Problemas emocionais graves? Talvez precise de um profissional.

Tire a capa de “salvadora da pátria”. Você não veio para consertar a família desestruturada do seu marido. Você veio para compartilhar a vida. Fazer essa separação mental (“Isso é problema meu” vs “Isso é problema deles”) é libertador e permite que você se relacione com a criança de forma mais leve, sem a pressão de ter que “dar certo” a qualquer custo.

O Casal como Alicerce da Nova Família[1]

A importância de não “triangular” a relação

Em terapia familiar, chamamos de “triangulação” quando colocamos a criança no meio do conflito do casal ou usamos a criança para mandar recado. Ou, pior, quando o casal briga por causa da criança o tempo todo. Se a sua relação com seu parceiro estiver frágil, a sua relação com o enteado será impossível. A criança sente a instabilidade e, muitas vezes, manipula essa brecha (“dividir para conquistar”).

Você e seu parceiro precisam ser um “front unido”. As discussões sobre a educação dos filhos devem acontecer a portas fechadas, nunca na frente deles. Se o pai diz “não”, você não pode dizer “sim” escondido, e vice-versa. Se vocês discordam sobre uma regra, conversem sozinhos, cheguem a um consenso e apresentem a decisão juntos. Isso passa segurança para a criança.[6] Ela entende que o casal é sólido e que não adianta tentar jogar um contra o outro.

Lembre-se: o casal veio antes da nova família. A saúde do seu casamento é o solo onde essa família vai crescer. Se o solo estiver tóxico, nada floresce. Proteja sua relação conjugal. Não deixe que todos os jantares girem em torno de problemas com os enteados ou com a ex-mulher.

Regras da casa: Um fronte unido

É muito comum que o pai, por culpa, seja permissivo demais (“Pai Disney”), enquanto a madrasta tenta manter a ordem e acaba virando a “general chata”. Essa dinâmica é destrutiva. Você não pode ser a única responsável por cobrar toalha no lugar, dever de casa feito e hora de dormir. Se isso acontecer, você será, inevitavelmente, a vilã.

As regras da casa devem ser “Regras da Casa”, não “Regras da Madrasta”. Sente com seu parceiro e defina o que é inegociável para vocês dois. E é o pai quem deve comunicar e cobrar essas regras primariamente, especialmente no início. “Filho, nesta casa nós não comemos no sofá”. Note o “nós”. Quando o pai assume a liderança na disciplina, ele protege o seu vínculo com a criança.

Com o tempo, à medida que você ganha autoridade afetiva (aquela autoridade que vem porque a pessoa gosta e respeita você, não porque tem medo), você poderá cobrar as regras com mais naturalidade. Mas, no começo, deixe o trabalho sujo da disciplina pesada para o pai biológico. Você fica com a parte do acolhimento e da mediação.

Mantendo a chama acesa (sem falar só de crianças)

Por fim, não se percam na função parental. Vocês são um homem e uma mulher que se apaixonaram. É vital para a saúde da família que as crianças vejam o casal demonstrando afeto, respeito e carinho um pelo outro. Isso ensina ao seu enteado sobre relacionamentos saudáveis.[6][7] Mas, mais do que ensinar, isso nutre vocês.

Tenham noites de encontro (date nights) onde é proibido falar de filhos, de ex-mulheres, de pensão ou de problemas escolares. Falem sobre seus sonhos, sobre política, sobre viagens, sobre sexo, sobre qualquer coisa que reconecte vocês dois como amantes e parceiros.

Quando você se sente amada e cuidada pelo seu parceiro, é muito mais fácil ter paciência com o filho dele. Quando o tanque de amor do casal está cheio, os respingos de estresse dos enteados não conseguem apagar a chama. O seu relacionamento amoroso é o pilar central; cuide dele com unhas e dentes, pois é dele que você tirará forças para ser a melhor boadrasta que puder ser.

Terapias e Caminhos de Apoio

Sei que, mesmo com todas essas diretrizes, a prática pode ser avassaladora. Às vezes, o amor não basta e a boa vontade esbarra em traumas complexos. É aqui que a ajuda profissional se torna um divisor de águas. Não encare a terapia como um sinal de fracasso, mas como uma ferramenta de inteligência estratégica para sua família. Aqui estão as abordagens mais indicadas para o nosso tema:

  • Terapia Familiar Sistêmica: Essa é a “padrão ouro” para famílias recompostas. O terapeuta sistêmico não olha para o “problema do enteado”, mas sim para como a família funciona como um todo. Ele ajuda a mapear os lugares de cada um, as lealdades invisíveis e os padrões de comunicação que estão travados. É excelente para definir o papel da madrasta e do pai biológico de forma clara.
  • Constelação Familiar: Embora polêmica para alguns, muitos encontram na visão sistêmica da Constelação (Bert Hellinger) uma paz imensa. Ela trabalha muito a questão da “hierarquia” e do “pertencimento”. Ajuda a madrasta a entender que ela veio depois da mãe biológica e que, ao honrar esse lugar de quem veio antes, o sistema se acalma. Pode ser muito útil para resolver conflitos que parecem irracionais.
  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para a Criança/Adolescente: Se o seu enteado apresenta comportamentos muito desafiadores, agressividade ou sinais de depressão pós-separação, a TCC é muito eficaz. Ela ajuda a criança a identificar emoções, lidar com a raiva e reestruturar pensamentos distorcidos sobre a nova família.
  • Análise ou Terapia Individual para Você: Sim, para você! Ter um espaço seguro para desabafar sua raiva, seu ciúme e suas frustrações sem ser julgada é vital. Um terapeuta pode te ajudar a fortalecer sua autoestima, impor limites e não levar as rejeições do enteado para o coração. Estar emocionalmente forte é o melhor presente que você pode dar à sua nova família.

Referências Bibliográficas:

  • Gottman, J. (2011). The Science of Trust: Emotional Attunement for Couples. W. W. Norton & Company.
  • Hellinger, B. (2006).[8Ordens do Amor. Editora Cultrix.
  • Papernow, P. L. (2013).[2Surviving and Thriving in Stepfamily Relationships: What Works and What Doesn’t. Routledge.[4]
  • Lefebvre, D. (2018). O Desafio das Famílias Recompostas. Editora Vozes.

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