Respire fundo. Se você clicou neste artigo, é provável que esteja carregando um peso no peito que mal consegue descrever em voz alta. Talvez você já tenha se pegado chorando no banheiro enquanto o bebê dormia, ou olhando pela janela do carro com uma vontade súbita de dirigir para longe e nunca mais voltar. E, logo em seguida, veio aquela onda avassaladora de culpa, aquele pensamento intrusivo que diz: “Que tipo de monstro eu sou?”. Eu preciso que você saiba de algo agora mesmo, antes de continuarmos: você não é um monstro. Você é humana. E o que você está sentindo tem nome, tem história e, acredite, tem lugar aqui no nosso espaço de fala.
Quando você entra no consultório e finalmente cria coragem para dizer “eu amo meu filho, mas odeio ser mãe”, o mundo não acaba. O teto não desaba. Pelo contrário, é nesse momento de honestidade brutal que a verdadeira cura começa. O arrependimento materno é, talvez, o último grande tabu da nossa sociedade ocidental. Podemos falar sobre sexo, sobre dinheiro, sobre traumas de infância, mas dizer que a maternidade não foi a “melhor coisa que aconteceu na sua vida” ainda é visto como uma heresia.[2] Mas precisamos conversar sobre isso. Precisamos tirar esse sentimento da sombra, porque é na sombra que ele cresce, adoece e se transforma em ressentimento.
Hoje, quero te convidar a sentar aqui comigo, nessa poltrona virtual, para desconstruirmos juntas essa culpa. Vamos olhar para esse sentimento não como uma sentença de condenação, mas como um dado de realidade.[1][2][3] Vamos entender por que isso acontece, como diferenciar de outros transtornos e, o mais importante, como viver uma vida plena e amorosa com seu filho, mesmo carregando essa cicatriz da escolha. Pegue um chá, feche a porta e vamos ter essa conversa honesta que você tanto precisava.
O Que Realmente Significa o Arrependimento Materno?
A diferença crucial: Amar a criança x Odiar a função
A primeira coisa que precisamos desemaranhar nesse nó emocional é a confusão entre o sujeito e o verbo. A maioria das mulheres que atendo e que trazem essa queixa possuem um amor genuíno, visceral e protetor pelos seus filhos. Elas matariam e morreriam por eles. O problema não é a criança. O problema é a maternidade como instituição, como rotina, como papel social imposto.[2][3] O arrependimento materno não é sobre rejeitar o ser humano que você colocou no mundo; é sobre rejeitar o conjunto de tarefas, a perda de identidade, a carga mental infinita e a anulação do “eu” que a função de mãe exige na nossa cultura atual.[2]
Imagine que você ama viajar, mas odeia a burocracia do aeroporto, o desconforto do avião e o fuso horário. Você ama o destino, mas detesta o processo. Na maternidade, essa analogia é cruelmente ampliada.[1] Você ama o sorriso do seu filho, mas odeia a privação de sono, a perda da autonomia financeira, o tédio das brincadeiras repetitivas e a sensação de que seu corpo e seu tempo não lhe pertencem mais. É perfeitamente possível amar a pessoa (o filho) e odiar a “job description” (o trabalho de ser mãe). Quando conseguimos separar essas duas coisas na terapia, o nível de culpa costuma baixar drasticamente. Você entende que seu amor está preservado, o que está em conflito é o seu estilo de vida e suas expectativas.
Essa distinção é vital porque a sociedade nos vendeu um “pacote fechado”. Nos disseram que, para amar o filho, você precisa amar trocar fraldas às 3 da manhã. Nos disseram que, para ser uma boa mãe, você precisa se sentir realizada abrindo mão da sua carreira ou do seu tempo sozinha. Isso é uma mentira. Você pode nutrir, cuidar e amar profundamente, e ainda assim olhar para a sua vida antiga com uma saudade dolorosa, desejando ter feito escolhas diferentes. Reconhecer isso não anula o amor; apenas humaniza a experiência.
A construção histórica da “Mãe Santificada”[1][4]
Você já parou para pensar de onde vem essa ideia de que a mãe é um ser de luz, inabalável e puramente abnegado? Isso não é biológico, é cultural. Historicamente, especialmente a partir do século XVIII e com forte influência religiosa, construiu-se a imagem da “Mãe Santificada”, uma figura próxima à Virgem Maria, que tudo suporta, tudo crê e que encontra sua única e verdadeira realização no sacrifício pelos filhos. Elisabeth Badinter, uma filósofa francesa fundamental nesse debate, chama isso de “O Mito do Amor Materno”.[5]
Essa construção social nos ensinou que o instinto materno é algo que “baixa” na mulher assim que o bebê nasce, como um download de software que te deixa instantaneamente feliz e apta para cuidar. Quando a realidade bate à porta — com mamilos rachados, choro incessante e uma solidão devastadora — e esse sentimento de plenitude não aparece, a mulher acha que veio “com defeito”. A história nos aprisionou num pedestal. E pedestais são lugares muito solitários e perigosos; qualquer movimento em falso, você cai.
Na terapia, trabalhamos para desconstruir essa idealização. Você não precisa ser santa. Você não precisa achar lindo quando seu filho faz birra no supermercado. Você tem o direito de sentir raiva, tédio e frustração. Entender que essa pressão por perfeição foi fabricada socialmente ajuda a tirar o peso dos seus ombros. Você está tentando se encaixar num molde que foi feito para estátuas, não para mulheres de carne e osso. Quebrar essa imagem sacra é o primeiro passo para encontrar uma maternidade real e possível.
A ambivalência afetiva: é possível sentir duas coisas opostas?
Na psicologia, usamos muito o termo “ambivalência”. E poucas experiências humanas são tão carregadas de ambivalência quanto a maternidade. Ambivalência é a capacidade de sentir duas emoções opostas em relação ao mesmo objeto, ao mesmo tempo. É amar e odiar. É querer estar perto e querer fugir. É sentir uma gratidão imensa pela vida do filho e um luto profundo pela sua própria vida. E sabe de uma coisa? Isso é normal. O cérebro humano é complexo o suficiente para sustentar esses paradoxos.
O problema é que fomos educadas numa lógica binária: ou você é uma boa mãe feliz, ou você é uma má mãe triste. Não nos ensinaram a habitar o meio-termo, a zona cinzenta onde a vida realmente acontece. Você pode estar num parque num domingo de sol, vendo seu filho brincar, sentindo o coração aquecido de amor, e simultaneamente pensando: “Eu poderia estar na Europa agora se não tivesse filhos”. Um pensamento não cancela o outro.[1][2][5][6] Eles coexistem.[5] A dor do arrependimento muitas vezes vem da tentativa de suprimir um dos lados dessa balança.[2]
Quando você tenta silenciar a parte de você que se arrepende, ela grita mais alto em forma de ansiedade ou irritabilidade. Aceitar a ambivalência significa olhar para esses sentimentos contraditórios e dizer: “Ok, hoje eu estou exausta e arrependida, mas ainda assim vou cuidar desse banho com carinho”. Isso é maturidade emocional.[3] Isso é integração. Aceitar que somos seres duais nos liberta da obrigação de uma felicidade linear e constante que simplesmente não existe na vida real de ninguém.
Por Que o Silêncio nos Adoece Tanto?
O medo paralisante do julgamento social (“Sou um monstro?”)
O silêncio em torno do arrependimento materno é ensurdecedor. Ele cria uma barreira invisível entre você e o mundo. O maior medo, sem dúvida, é o julgamento. Vivemos numa era de cancelamento e de tribunais virtuais, onde admitir qualquer falha na maternidade é visto como um crime inafiançável. A mulher que ousa dizer “eu me arrependo” é rapidamente rotulada de egoísta, fria, ingrata ou, o pior de todos, “antinatural”. Esse rótulo de “monstro” é uma forma de controle social para manter as mulheres na linha, cumprindo seu papel sem reclamar.
Esse medo faz com que você use uma máscara social muito pesada. Você sorri nas festinhas de aniversário, concorda com as outras mães sobre como “passa rápido”, posta fotos felizes, mas por dentro está gritando. Manter essa fachada consome uma energia vital gigantesca. É exaustivo fingir ser feliz o tempo todo. E o pior: esse segredo cria um abismo de solidão. Você acha que é a única que sente isso, quando, na verdade, a mulher ao seu lado na fila da escola pode estar sentindo exatamente a mesma coisa.
O medo de ser julgada impede a busca por ajuda. Muitas mulheres chegam ao consultório já num estado avançado de sofrimento psíquico porque passaram anos tentando “engolir” o arrependimento sozinhas. Elas temem que, se falarem, o terapeuta vai chamar o conselho tutelar ou julgá-las. Por isso, é fundamental reforçar: o consultório é um espaço seguro. O julgamento social não entra aqui. Aqui, o seu “monstro” pode sentar, tomar um café e se revelar apenas como uma mulher ferida e sobrecarregada.
A comparação tóxica das redes sociais e a maternidade performática
Se a pressão histórica já era grande, as redes sociais elevaram isso a uma potência insuportável. Abra o seu Instagram agora. O que você vê? Mães perfeitamente maquiadas, casas decoradas, crianças limpas comendo brócolis sorrindo, legendas sobre gratidão e #maternidadereal (que de real, muitas vezes, só tem a hashtag). Essa vitrine de felicidade editada é um veneno para quem já está fragilizada. Você compara o seu bastidor caótico, sujo e cheio de dúvidas com o palco iluminado das outras.
Essa “maternidade performática” cria uma distorção cognitiva. Você começa a acreditar que todo mundo está tirando de letra, menos você. “Por que a Fulana consegue empreender, ter três filhos, treinar crossfit e ainda fazer mesversário temático, e eu não consigo nem lavar o cabelo?”. Essa comparação gera um ciclo de autodepreciação. O arrependimento se intensifica porque você sente que falhou na missão. Você sente que foi enganada pelo comercial de margarina, mas que agora é tarde demais para devolver o produto.
Precisamos fazer um detox dessa perfeição digital. Na terapia, costumo dizer: “pare de seguir quem faz você se sentir inadequada”. A vida online é um recorte minúsculo e altamente selecionado da realidade. Ninguém posta o choro de desespero às 4 da manhã ou a briga com o marido porque ninguém lavou a louça. Entender que a grama do vizinho é sintética ajuda a diminuir a pressão sobre o seu próprio jardim. O arrependimento muitas vezes nasce dessa lacuna entre a expectativa criada pela mídia e a realidade crua do dia a dia.
A confusão com Depressão Pós-Parto e Burnout Parental[7]
É muito importante fazermos uma distinção clínica aqui, embora as linhas possam ser tênues e muitas vezes se sobreponham. O arrependimento materno é frequentemente confundido com Depressão Pós-Parto (DPP) ou Burnout Parental, mas são entidades diferentes. A DPP é uma condição clínica, uma alteração neuroquímica e hormonal que traz sintomas como tristeza profunda, apatia, alterações de sono e apetite. Ela tem tratamento com medicação e terapia e, geralmente, quando a depressão remite, a relação com a maternidade melhora significativamente.
Já o Burnout é o esgotamento. É quando a bateria pifou de vez. É o estresse crônico decorrente da sobrecarga de cuidados. Uma mãe em burnout precisa de descanso, rede de apoio e reorganização da rotina. Se você der a ela uma semana num spa e uma boa noite de sono, ela volta renovada e com saudades do filho. Agora, o arrependimento materno é diferente. Ele é uma postura cognitiva e emocional diante da escolha feita.[1][3][5] Mesmo descansada, mesmo sem estar deprimida, a mulher olha para a maternidade e pensa: “Se eu pudesse voltar no tempo com o conhecimento que tenho hoje, eu não teria tido filhos”.
Isso não significa que não haja sofrimento ou que não precise de tratamento. Pelo contrário. Mas o tratamento para o arrependimento não é “curar” o sentimento como se fosse uma doença, e sim aprender a conviver com essa escolha irreversível de forma saudável. Muitas vezes, o arrependimento vem acompanhado de depressão ou ansiedade, mas ele é a raiz, não apenas o sintoma. Saber diferenciar isso é crucial para que você não passe anos tomando antidepressivos esperando que eles “apaguem” o seu arrependimento. O remédio não muda o passado, nem suas convicções internas. A terapia ajuda a ressignificar o presente.[1]
O Estudo de Orna Donath e a “Permissão” para Falar[2][3][5]
A quebra do paradigma: mulheres que amam, mas voltariam atrás[1]
Não podemos falar sobre esse tema sem citar Orna Donath. Quando essa socióloga israelense publicou seu estudo “Regretting Motherhood” (Mães Arrependidas), ela jogou uma bomba no colo da sociedade. Ela entrevistou mulheres de diversas idades e origens que admitiram abertamente que, se pudessem voltar atrás, não seriam mães. O ponto chave do estudo de Donath não é o ódio às crianças, mas a constatação lúcida de que a maternidade não é para todo mundo, e que muitas mulheres entraram nessa “no automático”, seguindo o script social, e se arrependeram ao ver a realidade.[2]
Esse estudo foi libertador porque deu nome e dados a algo que era tratado apenas como fofoca ou loucura. Donath mostrou que essas mulheres não são exceções monstruosas.[2] Elas são avós, são donas de casa, são profissionais bem-sucedidas. Elas cuidam bem dos seus filhos. A grande revolução foi separar a capacidade de ser mãe do desejo de ser mãe.[2] Você pode ser extremamente competente em algo que detesta fazer. Você pode ser uma ótima mãe, responsável e carinhosa, e ainda assim odiar o papel.
Ao ler os relatos ou saber sobre o estudo, muitas mulheres sentem um alívio físico imediato. “Então eu não sou louca? Existem outras?”. Essa validação externa é poderosa. Ela permite que a mulher saia do isolamento.[2] Saber que uma pesquisadora acadêmica tratou isso com seriedade legitima o seu sentimento. Você percebe que o seu arrependimento não é uma falha moral, mas um fenômeno sociológico e psicológico complexo.[3]
A reação da sociedade: por que incomodamos tanto?
A reação ao livro e ao tema, em geral, é visceral. As pessoas ficam furiosas. Por que? Porque assumir o arrependimento materno ataca a base da estrutura social patriarcal. Se as mulheres começarem a dizer que a maternidade não é esse paraíso todo, quem vai querer ter filhos? Quem vai cuidar da próxima geração de mão de obra de graça? O arrependimento materno é subversivo. Ele questiona a ideia de que a realização feminina passa obrigatoriamente pelo útero.[2]
Além disso, toca na ferida de quem romantiza a própria mãe.[3] Ouvir uma mãe dizer que se arrepende faz com que muitos filhos pensem: “Será que minha mãe também se arrependeu de mim?”. Isso gera insegurança e medo.[1][7] Por isso a sociedade ataca essas mulheres com pedras na mão. É um mecanismo de defesa coletivo para proteger a “instituição” maternidade. Mas nós, na terapia, não estamos aqui para defender instituições. Estamos aqui para cuidar de pessoas.
Você precisa entender que os ataques que você vê na internet ou os olhares tortos da família não são sobre você pessoalmente. São sobre o medo que elas têm de que a “verdade” desmorone o castelo de cartas delas. Você, ao assumir sua verdade, se torna um espelho incômodo. E lidar com isso exige blindagem emocional, algo que trabalhamos muito nas sessões: fortalecer a sua pele para que o julgamento alheio não perfure sua autoestima.
A libertação através da verdade (tirando o peso das costas)
A verdade, por mais dura que seja, liberta. As mulheres que finalmente conseguem verbalizar o arrependimento num ambiente seguro relatam uma sensação de leveza indescritível. É como tirar uma mochila de pedras que carregaram por anos. Parar de fingir consome menos energia. Quando você admite “ok, eu não gosto disso, mas estou aqui e vou fazer o meu melhor”, você para de brigar com a realidade.
Essa aceitação paradoxalmente melhora a relação com a criança. Enquanto você está na negação e na culpa, você tende a ser reativa, irritada. Quando você aceita o arrependimento, você pode começar a negociar com ele. “Eu não gosto de brincar de boneca, e tudo bem. Vou propor outra atividade que eu tolere mais, ou vou contratar alguém para brincar, ou vou fazer isso por 15 minutos cronometrados porque amo minha filha, mesmo odiando a brincadeira”. A verdade traz pragmatismo.
Sair do armário do arrependimento (mesmo que seja apenas dentro do consultório ou com um grupo de apoio muito restrito) permite que você reclame o seu direito à sua própria narrativa. Você deixa de ser uma vítima das circunstâncias e passa a ser a protagonista da sua vida, lidando com as consequências das suas escolhas de forma adulta e consciente.[1]
O Impacto Silencioso na Dinâmica Familiar[2]
O “elefante na sala”: como o não-dito afeta o vínculo com a criança[1][2][5]
Muitas mães acreditam que, se não falarem nada, a criança nunca saberá. Elas tentam compensar o arrependimento interno com uma superproteção externa ou com presentes e permissividade. Mas aqui entra uma questão delicada da psicologia: a comunicação não-verbal. Crianças são radares emocionais extremamente sofisticados. Elas leem microexpressões, tons de voz, a tensão no seu abraço, o suspiro longo que você dá quando elas pedem algo.
Quando existe um arrependimento não trabalhado, ele vira o “elefante na sala”. A criança sente que tem algo errado, mas como a mãe diz “eu te amo, você é minha vida”, a criança entra em confusão. Isso pode gerar ansiedade na criança, que tenta a todo custo “agradar” essa mãe para ver se ela fica feliz de verdade, ou, pelo contrário, a criança se torna desafiadora para testar o vínculo. O segredo tóxico cria uma parede de vidro entre mãe e filho.
Trabalhar o arrependimento na terapia é, na verdade, um ato de amor pelo filho. Porque ao lidar com seus sentimentos, você limpa o canal de comunicação. Você para de emitir sinais mistos. Você pode não dizer ao seu filho “me arrependo de ter tido você” (o que não recomendamos, dependendo da idade e contexto), mas você pode viver uma relação mais leve, sem a tensão constante de estar escondendo um crime. A autenticidade, mesmo que dolorosa, é base para um vínculo seguro.
A sobrecarga mental e o ressentimento na relação conjugal
O arrependimento materno raramente caminha sozinho; ele anda de mãos dadas com a desigualdade de gênero dentro de casa. Muitas mulheres se arrependem não da criança, mas da perda de liberdade que o parceiro não sofreu na mesma medida. Você vê o pai da criança seguindo a vida, jogando futebol, focando na carreira, enquanto sua vida virou de cabeça para baixo. Isso gera um ressentimento corrosivo.
Você começa a olhar para o parceiro com raiva. “Por que a vida dele continuou e a minha acabou?”. Esse ressentimento, se não falado, destrói o casamento. A mulher se sente enganada, sobrecarregada e sozinha. O arrependimento se alimenta dessa injustiça diária. Muitas vezes, na terapia de casal ou individual, descobrimos que o “arrependimento de ser mãe” é, na verdade, um “arrependimento de ter sido mãe com este parceiro e nestas condições“.
Reconhecer isso é fundamental para parar de projetar toda a frustração na criança. Às vezes, o problema é estrutural e conjugal. Redistribuir a carga mental, exigir parternidade ativa (e não apenas “ajuda”) pode não curar o arrependimento totalmente, mas alivia muito a sensação de sufocamento que o alimenta.
A projeção de expectativas: “Eu sacrifiquei tudo por você”
O maior perigo do arrependimento reprimido é a cobrança futura. A mãe que sofre calada, que “se sacrifica” no altar da maternidade odiando cada segundo, está inconscientemente criando uma dívida impagável para o filho. “Eu deixei de ser quem eu era por você”. Essa frase, mesmo que nunca dita em voz alta, paira no ar.
Quando o filho cresce e quer seguir a própria vida, a mãe pode sentir isso como uma traição. “Depois de tudo que eu sofri?”. O filho se sente culpado por existir, pois sabe que sua existência custou a felicidade da mãe. Isso é um fardo pesadíssimo para colocar nos ombros de alguém. Ninguém pediu para nascer, e ninguém deve carregar a responsabilidade pela frustração existencial dos pais.
Na terapia, trabalhamos para que você assuma a responsabilidade pela sua escolha (mesmo que tenha sido uma escolha influenciada pela pressão social). Ao assumir a escolha, você liberta seu filho da dívida. Você entende que o sacrifício foi uma decisão sua, e não culpa dele. Isso rompe o ciclo de culpa transgeracional e permite que seu filho voe sem as amarras do seu arrependimento.
O Caminho da Reconstrução da Identidade
O luto pela vida que não foi vivida[1][4][5][8]
Para avançarmos, precisamos viver um luto. Sim, luto. Não de alguém que morreu, mas de quem você morreu. A mulher que você seria se não tivesse tido filhos morreu. Aquelas viagens, aquela carreira sem interrupções, aquela liberdade espontânea de sair às 22h numa terça-feira… aquela versão da sua vida não existe mais. E dói. Dói muito.
Precisamos validar esse luto. Chorar por essa vida não vivida. Muitas mulheres travam nesse processo porque acham que não têm o direito de sofrer por algo que “escolheram”. Mas toda escolha implica uma perda. E perder a liberdade absoluta é uma perda gigante. Permita-se chorar pela mulher independente que ficou para trás. Faça rituais de despedida se precisar. Escreva uma carta para ela.
Só depois de viver esse luto é que podemos olhar para o que sobrou e para o que nasceu no lugar. Enquanto você ficar olhando para trás, para a porta que se fechou, não consegue ver as janelas que podem se abrir na nova casa. O luto é o processo de digestão dessa perda, para que ela pare de ser um “bolo na garganta” e vire apenas uma memória nostálgica.
Autocompaixão radical: aprendendo a se perdoar por sentir
A autocompaixão é o antídoto para a vergonha. É a prática de se tratar com a mesma gentileza que você trataria sua melhor amiga. Se sua amiga chegasse chorando dizendo que está exausta e se arrepende, você gritaria “Sua monstra!”? Não. Você a abraçaria. Você diria: “Eu entendo, é difícil mesmo, você está fazendo o melhor que pode”. Por que você não faz isso com você mesma?
Precisamos praticar a autocompaixão radical. Isso envolve reconhecer que você foi capturada por uma armadilha cultural. Você não tinha como saber como seria a realidade antes de vivê-la. Você tomou a decisão com as ferramentas e a consciência que tinha na época. Se perdoe pela sua “ingenuidade” do passado. Se perdoe por não ser a supermãe do Instagram.
Aceite seus limites. Aceite que sentir arrependimento é apenas um sentimento, e sentimentos não são fatos, nem comandos. Você pode sentir arrependimento e agir com amor. Essa separação é libertadora. A autocompaixão cria um colchão amortecedor para a sua psique, permitindo que você descanse da guerra contra si mesma.
Redefinindo a maternidade nos seus próprios termos
Finalmente, a reconstrução passa por inventar uma nova forma de ser mãe. Uma forma que caiba na sua vida, e não o contrário. Se o modelo de “mãe que brinca no chão” não serve para você, não force. Talvez você seja a mãe que leva para passear, ou a mãe que lê livros, ou a mãe que cozinha junto. Descubra qual é a sua maternidade possível.
Talvez redefinir signifique voltar a trabalhar cedo, ou colocar na escola em período integral sem culpa, ou viajar sozinha uma vez por ano. Signifique recuperar pedaços da sua identidade antiga e costurá-los na nova rotina. Você não precisa ser só mãe. Você pode ser uma profissional, uma mulher, uma amiga, que também é mãe.
O objetivo não é amar a maternidade loucamente, mas torná-la suportável e, quem sabe, encontrar alegria nas brechas. É sair do papel de vítima do destino e assumir as rédeas da gestão dessa realidade. “Ok, tenho filhos. Não posso devolvê-los. Como posso fazer essa vida ser boa para mim também, e não só para eles?”. Essa é a pergunta de ouro.
Abordagens Terapêuticas que Acolhem o Arrependimento[1][2][6][7]
Chegar ao final deste texto já é um passo terapêutico. Mas, na prática clínica, como tratamos isso? Não existe uma pílula mágica, mas existem caminhos muito eficazes.
A Psicanálise é uma ferramenta poderosa para investigar os significados inconscientes dessa maternidade. Vamos olhar para a relação com a sua própria mãe, para os ideais de ego que você construiu e para a ambivalência do desejo. É um espaço para falar livremente, sem censura, e entender a origem profunda desse arrependimento.[9]
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é fantástica para este tema. Ela trabalha justamente a ideia de aceitar os sentimentos “difíceis” (como o arrependimento) sem lutar contra eles, enquanto nos comprometemos com ações que valorizamos (como cuidar bem da criança). A ACT ajuda a criar essa “flexibilidade psicológica” para carregar o sentimento sem ser paralisada por ele.
Já a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode ajudar a identificar e reestruturar crenças distorcidas (“Se eu não brinco 4 horas por dia, sou um lixo”, “Meu filho vai ser infeliz porque eu não sou a mãe perfeita”). Questionar essas regras rígidas alivia a pressão diária.
E, claro, a Terapia Sistêmica (Familiar), se possível, para envolver o parceiro e reequilibrar as funções parentais, tirando a mãe do lugar de única responsável.
Se você se identificou com esse texto, procure ajuda profissional. Não para “se consertar”, porque você não está quebrada. Mas para encontrar um lugar onde você possa baixar a guarda, tirar a máscara e ser acolhida em toda a sua complexidade humana. O arrependimento materno é um sentimento legítimo. Falar sobre ele não é um erro; é o começo da sua liberdade.
Referências Bibliográficas
- BADINTER, Elisabeth.[5] O Mito do Amor Materno: Um Amor Conquistado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
- DONATH, Orna.[2][3][10] Regretting Motherhood: A Study. Nova Iorque: North Atlantic Books, 2017. (Edição brasileira: Mães Arrependidas, Civilização Brasileira).[3]
- WINNICOTT, D. W. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
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