Casamento sem sexo: É possível ser feliz ou é o fim?

Casamento sem sexo: É possível ser feliz ou é o fim?

Você já se pegou olhando para o lado na cama, vendo seu parceiro dormir, e sentindo um misto de carinho e uma profunda solidão física? Essa é uma cena mais comum do que você imagina. Recebo em meu consultório inúmeras pessoas que amam seus companheiros, admiram a vida que construíram juntos, mas sentem que algo vital se perdeu no caminho: a conexão sexual. A dúvida que fica pairando no ar, pesada e silenciosa, é se é possível sustentar a felicidade quando a paixão parece ter feito as malas e ido embora.

Não existe uma resposta única para todos, pois cada relacionamento tem sua própria dinâmica e seus próprios acordos.[1] Para alguns casais, o sexo é a cola que mantém tudo unido; para outros, é apenas uma das muitas facetas de uma vida compartilhada.[1] O grande problema surge quando há um descompasso, quando um sente falta do toque e da intimidade, enquanto o outro parece estar perfeitamente bem com a distância.[2] É nesse espaço de desencontro que a mágoa e o ressentimento começam a brotar.

Nesta conversa, quero te convidar a olhar para o seu relacionamento sem julgamentos e sem o peso das expectativas sociais que dizem como um casamento “deve” ser. Vamos desconstruir mitos, entender o que está por trás da falta de desejo e explorar caminhos reais para lidar com essa situação.[2][3][4] Se você sente que vive como se estivesse dividindo a casa com um irmão ou um sócio, saiba que existe luz no fim do túnel e formas de reescrever essa história.

O Peso do Silêncio: Entendendo o Impacto Emocional[3]

A conexão entre intimidade emocional e sexual

Muitas vezes tratamos o sexo e o amor como departamentos separados da vida, mas a verdade é que eles moram na mesma casa. A intimidade emocional, aquela sensação de ser compreendido e aceito, funciona como o combustível para a intimidade física. Quando você deixa de compartilhar seus medos, sonhos e pequenas vitórias do dia a dia, o corpo também começa a se fechar. É difícil se despir de corpo e alma para alguém com quem você mal trocou três frases significativas durante a semana.

Essa desconexão não acontece do dia para a noite; ela é silenciosa e progressiva. Começa com um “não” cansado numa terça-feira e evolui para meses sem toque. Você percebe que, sem a vulnerabilidade emocional, o sexo mecânico perde o sentido e a graça. O corpo responde ao que o coração sente, e se o coração está distante, a pele também se retrai. Restaurar o sexo muitas vezes exige, antes de tudo, restaurar a amizade e a cumplicidade que talvez tenham ficado esquecidas na rotina.

Por outro lado, a falta de sexo também pode corroer a intimidade emocional, criando um ciclo vicioso difícil de quebrar.[3] Sem aquele momento de fusão e entrega, vocês podem começar a se sentir menos conectados em outros níveis.[3] O sexo libera hormônios de vínculo, como a ocitocina, que ajudam a manter a sensação de “nós contra o mundo”. Sem essa dose química e afetiva de união, qualquer discussão sobre a louça suja pode parecer uma batalha monumental, porque falta aquela base de afeto físico que amortece os atritos da convivência.

Sentimentos de rejeição e a autoestima

Quando seu parceiro ou parceira evita o sexo, é quase inevitável que você leve isso para o lado pessoal.[2] A mensagem que chega não é “estou cansado” ou “estou estressado”, mas sim “não te desejo mais” ou “você não é suficiente”. Esse sentimento de rejeição é um golpe duro na autoestima de qualquer pessoa. Você começa a se questionar na frente do espelho, procurando defeitos que justifiquem a distância do outro, e isso é devastador para a sua saúde mental.

Essa dor silenciosa se transforma em uma ferida aberta que você tenta esconder. Você pode tentar mudar o visual, emagrecer, comprar roupas novas, tudo na esperança de reacender aquele olhar de desejo. Quando essas tentativas falham, a frustração vira raiva ou, pior, resignação. Você passa a acreditar que não merece ser tocado ou desejado, e essa crença limitante pode se espalhar para outras áreas da sua vida, afetando sua confiança no trabalho e nas amizades.

É fundamental entender que a falta de desejo do outro raramente é sobre você ou sobre sua atratividade. Na maioria dos casos que atendo, a baixa libido está ligada a questões internas do parceiro, estresse, hormônios ou dinâmicas do relacionamento que nada têm a ver com a sua aparência. Separar o comportamento do outro do seu valor pessoal é o primeiro passo para parar de sofrer e começar a enxergar a situação com clareza. Você continua sendo uma pessoa interessante e desejável, independentemente do que acontece (ou não acontece) no seu quarto.

Quando o silêncio fala mais alto que as palavras

O maior inimigo de um casamento sem sexo não é a falta do ato em si, mas o silêncio que se instala ao redor do assunto.[5] O tema vira um “elefante na sala”: todos sabem que ele está lá, ocupando espaço e incomodando, mas ninguém tem coragem de apontar. Vocês jantam, assistem TV e conversam sobre as contas, mas evitam olhar nos olhos um do outro por medo de que o assunto venha à tona e gere mais uma briga ou mais uma rejeição.

Esse silêncio é corrosivo porque é preenchido por suposições. Você assume que ele não te ama mais; ele assume que você só quer usá-lo. Sem diálogo, vocês criam roteiros mentais catastróficos que raramente correspondem à realidade. O medo de magoar ou de ser magoado cria uma barreira intransponível, onde cada um sofre sozinho do seu lado da cama. A falta de comunicação transforma um problema solúvel em um monstro de sete cabeças.

Romper esse silêncio exige coragem e, muitas vezes, uma mudança na forma como falamos. Não adianta cobrar ou acusar, pois isso só gera mais defesa e afastamento. Falar sobre a falta de sexo precisa ser um convite para entender, não uma intimação para performar.[6] É preciso criar um espaço seguro onde ambos possam admitir suas frustrações sem medo de julgamento. Às vezes, apenas o ato de verbalizar “sinto sua falta” já desmonta muros que levaram anos para serem construídos.

Desejo versus Frequência: Qualidade sobre Quantidade

Diferenciando desejo de obrigação

Um dos maiores erros que vejo casais cometerem é transformar o sexo em mais uma tarefa na lista de afazeres domésticos. Sabe aquela sensação de ter que lavar a louça ou pagar um boleto? O sexo entra nessa mesma categoria de “obrigação marital”.[7][8][9][10] Quando isso acontece, o prazer morre. Ninguém sente desejo genuíno quando se sente coagido ou quando percebe que o outro está ali apenas para “cumprir tabela” e evitar uma discussão.

O desejo real nasce da liberdade e da vontade de compartilhar prazer, não do medo de desagradar. Se você faz sexo apenas para manter a paz em casa, seu corpo pode até estar presente, mas sua mente e emoções estão em outro lugar.[3] Isso cria uma experiência desconectada e vazia para ambos. O parceiro, mesmo que não diga nada, percebe quando o toque é automático e sem alma. Essa dinâmica de obrigação é uma receita certa para criar aversão ao toque ao longo do tempo.

Precisamos resgatar a ideia de que o sexo é um playground, um espaço de diversão e relaxamento, não um tribunal de dívidas. É preferível ter encontros menos frequentes, mas onde ambos estejam inteiros e desejantes, do que manter uma frequência alta baseada em sacrifício. Liberte-se da ideia de “débito conjugal”. O seu corpo é seu, e o compartilhamento dele deve ser um presente voluntário, uma celebração da união, e nunca um imposto a ser pago.

O mito da contagem semanal

Vivemos em uma sociedade obcecada por números e performance, e isso infelizmente contaminou nossa visão sobre a vida sexual. Você lê em revistas ou ouve de amigos que a “média normal” é duas ou três vezes por semana, e se o seu casamento não atinge essa cota, você entra em pânico. A verdade é que não existe um “normal” universal.[1][11] O que existe é o que funciona para você e para o seu parceiro. Comparar sua vida íntima com estatísticas é a maneira mais rápida de se sentir inadequado.

Tenho clientes que têm relações uma vez por mês e são extremamente conectados, felizes e satisfeitos. Outros transam três vezes por semana e se sentem miseráveis e distantes. A frequência é apenas um número; o que realmente importa é a qualidade da conexão e se ambos estão confortáveis com esse ritmo. A vida tem fases: a chegada de um filho, um luto na família, uma promoção estressante no trabalho. É natural que a frequência flutue.

A pressão para atingir uma meta numérica só gera ansiedade de desempenho. Em vez de contar quantas vezes aconteceu neste mês, pergunte-se: como nos sentimos quando acontece? Foi bom? Nos sentimos próximos? Rimos? Tivemos prazer? Focar na experiência sensorial e afetiva tira o peso dos ombros e permite que vocês aproveitem o momento presente. Se a frequência caiu, mas a qualidade e o carinho permanecem, talvez não haja um problema tão grande quanto você imagina.

Ressignificando o toque além do ato sexual

Quando o sexo se torna o único objetivo de qualquer contato físico, o toque perde sua inocência e seu poder de acolhimento. Se toda vez que você faz um carinho nas costas ou dá um beijo mais demorado, o outro entende como um “pedido de sexo”, ele pode começar a se esquivar para não criar expectativas que não quer cumprir. Isso leva a um casamento onde não há abraços, beijos ou mãos dadas, transformando o casal em dois estranhos que não se encostam.

Precisamos trazer de volta o toque sem intenção sexual imediata. O abraço que diz “estou aqui com você”, o cafuné enquanto assistem a um filme, o beijo de bom dia que não busca nada além de desejar um bom dia. Esses toques liberam ocitocina e constroem uma ponte de segurança. Quando o corpo entende que pode receber carinho sem ser cobrado por performance sexual, ele relaxa e se abre novamente.

Convido você a praticar a “intimidade não sexual”. Tentem passar uma semana focados apenas em se tocar com carinho, sem avançar para o sexo. Massagens nos pés, andar de mãos dadas, dormir de conchinha. Isso tira a pressão e reestabelece a linguagem corporal do afeto. Muitas vezes, é nesse ambiente de segurança e carinho despretensioso que o desejo sexual, que parecia morto, encontra espaço para renascer timidamente, de forma orgânica e natural.

Quando o “Sem Sexo” é um Problema (e quando não é)

O papel do consenso entre o casal

A chave para responder se um casamento sem sexo é o fim ou não está numa palavra: consenso.[2][7][11] Se ambos os parceiros têm uma libido baixa, ou se ambos valorizam outras formas de intimidade acima do sexo e estão genuinamente felizes com isso, não há problema algum. O casamento não precisa seguir um script de Hollywood para ser válido. Conheço casais que vivem em perfeita harmonia focados em companheirismo, viagens e projetos intelectuais, com o sexo sendo uma nota de rodapé raríssima em suas vidas.

O problema surge quando não há acordo. É a dissonância que causa o sofrimento.[2][3] Se para você o sexo é uma linguagem de amor vital e para o seu parceiro é algo dispensável, vocês têm um conflito de valores que precisa ser gerido.[7] Não é que um esteja certo e o outro errado; são apenas necessidades diferentes.[1][2][5][8][9][10] Mas viver permanentemente insatisfeito, sentindo que uma parte essencial de quem você é está sendo negada, é uma receita para a infelicidade a longo prazo.

É preciso honestidade brutal aqui. Você consegue ser feliz sem sexo pelo resto da vida se isso significar manter essa relação? Para alguns, a resposta é sim, pois o amor e a história construída pesam mais. Para outros, a resposta é não, pois a vitalidade e a conexão física são inegociáveis. Não existe julgamento na sua escolha, mas você precisa fazer essa escolha de olhos abertos, sabendo o que está ganhando e o que está abrindo mão. O consenso pode ser renegociado, mas precisa ser claro para ambos.

Assexualidade e fases da vida

É importante considerar que a falta de interesse sexual pode não ser um problema a ser “consertado”, mas sim uma característica.[2] A assexualidade é uma orientação válida onde a pessoa sente pouca ou nenhuma atração sexual. Se o seu parceiro se identifica assim, não é algo que terapia ou remédios vão mudar, e entender isso é crucial para parar de dar murro em ponta de faca. Aceitar a natureza do outro é a maior prova de amor, mesmo que isso signifique reavaliar o formato da relação.

Além disso, temos as fases da vida biológica. A menopausa nas mulheres e a andropausa nos homens trazem mudanças hormonais drásticas que podem derrubar a libido. Não é falta de amor, é fisiologia. Doenças crônicas, uso de antidepressivos ou medicamentos para pressão também são vilões silenciosos do desejo. Ignorar o corpo físico e tratar tudo como “frieza emocional” é injusto e ineficaz.

Entender essas fases traz alívio. Se sabemos que é uma questão hormonal ou um efeito colateral, podemos buscar ajuda médica ou adaptar a vida sexual para essa nova realidade. O sexo aos 20 anos é diferente do sexo aos 50 ou 60. A definição de prazer pode mudar, focando mais na sensualidade e menos na genitalidade. Adaptar-se às estações do corpo é um sinal de maturidade e inteligência conjugal, permitindo que o casal encontre novas formas de satisfação.

A discrepância de desejo: quando um quer e o outro não

A situação mais clássica nos consultórios é a discrepância de desejo: um quer muito, o outro quer pouco ou nada. Essa gangorra desequilibrada gera um jogo de perseguição e fuga. O parceiro com maior desejo persegue, cobra e reclama; o parceiro com menor desejo se sente pressionado, inadequado e foge. Quanto mais um persegue, mais o outro foge, criando um abismo entre os dois.

Quem tem menos desejo geralmente detém o controle da vida sexual do casal, não por maldade, mas porque o sexo precisa de dois “sim”, enquanto a abstinência precisa de apenas um “não”. Isso deixa o parceiro desejante sentindo-se impotente e refém. Para sair dessa dinâmica, o “perseguidor” precisa parar de pressionar (o que diminui a ansiedade do outro) e o “distanciador” precisa entender que seu parceiro busca conexão, não apenas alívio físico.

O trabalho aqui é encontrar um meio-termo onde ninguém se sinta violentado nem negligenciado. Talvez não seja a frequência ideal de um, nem a do outro, mas uma terceira via possível. Isso exige empatia radical. Tente se colocar no lugar do outro: como é sentir que seu corpo é exigido quando você não tem vontade? E como é sentir que seu amor é rejeitado repetidamente? Quando validamos a dor do outro lado, a guerra cessa e a negociação amorosa pode começar.

O Ciclo da Rotina e os Vilões da Libido

Estresse e cansaço: os maiores inimigos da cama

Sejamos realistas: é difícil pensar em erotismo quando você está exausto, preocupado com as contas e com a agenda de amanhã lotada. O estresse é o maior aniquilador de libido do mundo moderno. O corpo entende o estresse como uma ameaça à sobrevivência, e ninguém para para fazer sexo quando está fugindo de um leão (ou de um prazo impossível no trabalho). O sistema nervoso entra em modo de luta ou fuga, e a função sexual é desligada porque não é prioritária para sobreviver.

Muitos casais chegam em casa, jantam, cuidam dos filhos, limpam a cozinha e, quando finalmente se deitam, tudo o que querem é apagar. Esperar que o desejo surja magicamente às 23h30, depois de um dia exaustivo, é uma utopia. O cansaço físico e mental drena a energia vital necessária para o encontro íntimo. O sexo requer energia, presença e disponibilidade mental, coisas que a rotina moderna rouba de nós diariamente.

A solução passa por gerenciar essa energia. Se o sexo é importante, ele não pode ficar com as sobras do seu dia. Vocês precisam priorizar o descanso e criar brechas de relaxamento. Talvez o sexo tenha que acontecer no sábado de manhã, ou no domingo à tarde, quando vocês estão mais descansados, e não na terça-feira à noite. Reconhecer que vocês são humanos e têm limites de energia ajuda a parar de se culpar e a planejar momentos onde o corpo esteja minimamente disponível para o prazer.

A transição de “amantes” para “sócios” da casa

Com o tempo, é muito fácil o casamento virar uma pequena empresa de gestão doméstica e familiar. As conversas giram em torno da logística: quem busca as crianças, o que tem na geladeira, a manutenção do carro. Vocês se tornam excelentes sócios, ótimos pais, companheiros de quarto eficientes, mas deixam de ser amantes. O papel de “gerente do lar” toma conta e sufoca o papel de “parceiro erótico”.

É difícil sentir desejo sexual pelo seu “sócio”. A erótica precisa de um pouco de mistério, de novidade, de ver o outro como um indivíduo separado, e não apenas como uma extensão das suas obrigações. Quando olhamos para o parceiro e só vemos uma lista de tarefas ou um pai/mãe, a química desaparece. O excesso de familiaridade e a falta de privacidade, especialmente com filhos em casa, matam a tensão sexual necessária para o desejo.

Precisamos “demitir” o gerente de vez em quando. Isso significa proibir conversas sobre problemas domésticos em certos momentos, como no jantar de sexta-feira ou no quarto após certo horário. Significa olhar para o outro e lembrar quem ele era antes de toda essa responsabilidade cair sobre vocês. Resgatar a identidade individual, ter hobbies separados e trazer novidades para a conversa ajuda a quebrar essa dinâmica de sócios e reacender a curiosidade sobre quem é aquela pessoa que dorme ao seu lado.

Hormônios e saúde física: o corpo também fala

Não podemos psicologizar tudo. Às vezes, o problema é puramente biológico. Alterações na tireoide, diabetes, hipertensão e desequilíbrios hormonais (testosterona, estrogênio, progesterona) afetam diretamente a resposta sexual. Se o mecanismo físico não está funcionando bem — se há dor, falta de lubrificação ou dificuldade de ereção —, o sexo se torna uma fonte de ansiedade e desconforto, levando à evitação.

Muitas pessoas têm vergonha de falar sobre isso com o parceiro ou com o médico, sofrendo em silêncio por anos. Mulheres na pós-menopausa podem sentir dor devido ao ressecamento vaginal, e homens podem evitar o sexo por medo de falhar na ereção. Esses problemas físicos criam barreiras psicológicas gigantescas. A pessoa prefere dizer “não estou com vontade” do que admitir “estou com medo de que não funcione” ou “sinto dor”.

Fazer um check-up médico completo é um passo básico e essencial. Regular os hormônios, ajustar medicações e tratar dores físicas pode operar milagres na vida sexual. O corpo é o instrumento do prazer; se ele está desafinado, a música não sai. Cuidar da saúde física é cuidar do casamento. Encoraje seu parceiro a buscar ajuda médica sem críticas, mostrando que o objetivo é o bem-estar dele, e não apenas o seu prazer sexual.

Reacendendo a Chama: Passos Práticos para a Reconexão

A importância do namoro programado

Pode parecer pouco romântico agendar o sexo ou os encontros, mas em uma vida ocupada, o que não é agendado não acontece. A espontaneidade é supervalorizada. No início do namoro, vocês planejavam os encontros, se arrumavam, criavam expectativa. Por que pararam? O “namoro programado” é o compromisso de reservar um tempo sagrado para o casal, onde celulares são proibidos e o foco é total um no outro.

Isso não significa necessariamente marcar “sexo às 20h”, mas sim marcar “tempo de casal”. Pode ser um jantar, um banho juntos, ou apenas deitar no sofá para conversar e se acariciar. Saber que existe esse espaço reservado na agenda reduz a ansiedade e cria uma expectativa positiva. Você passa o dia sabendo que terá aquele momento especial, e isso, por si só, já começa a preparar a mente para a intimidade.

Tratem esse compromisso com a mesma seriedade de uma reunião de trabalho ou uma consulta médica. Não desmarquem por qualquer cansaço. A consistência é o segredo. Com o tempo, esses momentos programados voltam a ser naturais e esperados, criando ilhas de conexão no meio do oceano de responsabilidades. É o resgate do namoro dentro do casamento, lembrando que vocês são, antes de tudo, um homem e uma mulher que se escolheram.

Comunicação não-violenta sobre sexo

Como você fala sobre sexo com seu par? Geralmente, essas conversas acontecem no calor da frustração, cheias de acusações: “você nunca me procura”, “você é frígida”, “você só pensa nisso”. Isso é um ataque, e a resposta natural a um ataque é a defesa. A Comunicação Não-Violenta (CNV) nos ensina a falar sobre nossas necessidades sem culpar o outro.

Tente mudar o script. Em vez de “você nunca…”, use “eu sinto…”. Por exemplo: “Eu me sinto solitário e menos amado quando ficamos muito tempo sem intimidade física. O toque é importante para eu me sentir conectado a você. Como podemos melhorar isso juntos?”. Percebe a diferença? Você está expondo uma vulnerabilidade sua, não apontando um defeito do outro. Isso convida à colaboração e à empatia.[7]

Pergunte também sobre a experiência do outro. “Como é o sexo para você ultimamente?”, “Existe algo que te afasta ou que te incomoda?”. Ouça a resposta sem interromper e sem se justificar. Às vezes, você vai descobrir que o outro se sente pressionado, ou que não gosta de um determinado tipo de toque.[3] Essa escuta ativa e sem julgamentos é a ferramenta mais poderosa para desmontar as barreiras do ressentimento e construir uma nova ponte de entendimento.

Redescobrindo o prazer individual e compartilhado

Para ter desejo pelo outro, você precisa primeiro se sentir um ser sexual. Muitas pessoas “terceirizam” seu prazer, esperando que o parceiro seja o único responsável por acender a chama. Mas a libido é uma energia vital que começa dentro de você. Se você não se toca, não se conhece e não cultiva pensamentos eróticos, é difícil responder ao estímulo do outro. O autoconhecimento e a masturbação (sem culpa) podem ajudar a manter a “máquina” funcionando.

Além disso, é preciso expandir o repertório do casal. Se o sexo virou sempre a mesma sequência previsível, o tédio é inevitável. Redescobrir o prazer compartilhado envolve brincar, rir, tentar coisas novas, ou voltar ao básico do beijo de língua demorado. Tirem o foco do orgasmo e coloquem o foco na sensação. Uma massagem com óleo, um banho juntos, ler um conto erótico… qualquer coisa que quebre o padrão automático.

O objetivo é transformar o sexo em uma experiência de lazer e conexão, não de performance. Quando tiramos a meta de “ter que chegar lá” e passamos a aproveitar o “estar aqui”, a pressão diminui. O prazer deve ser leve, lúdico e restaurador. Convide seu parceiro para explorar, sem a obrigação de que termine em penetração. Muitas vezes, é nessa liberdade de explorar sem roteiro que a paixão encontra espaço para surpreender.

Terapias e Caminhos de Cura[11]

Se vocês tentaram conversar e mudar hábitos, mas ainda se sentem travados, buscar ajuda profissional é um ato de coragem e inteligência. Existem abordagens terapêuticas específicas que funcionam maravilhosamente bem para destravar essas questões. Não vejam a terapia como o “fim da linha”, mas como uma academia para o relacionamento.

Terapia de Casal, especialmente a focada nas emoções (Terapia Focada nas Emoções), ajuda a identificar os ciclos negativos de comunicação. O terapeuta atua como um mediador, traduzindo o que cada um está realmente tentando dizer por trás das críticas e do silêncio. É um espaço seguro para chorar as mágoas acumuladas e aprender novas formas de pedir e dar amor. Vocês aprendem a ser uma equipe novamente, enfrentando o problema juntos, em vez de lutar um contra o outro.

Já a Terapia Sexual é mais diretiva e foca especificamente na disfunção e no prazer. O terapeuta sexual pode prescrever exercícios práticos para fazer em casa, como o “foco sensorial”, onde o casal se toca sem a permissão de avançar para o sexo genital, justamente para redescobrir o prazer do toque sem ansiedade de desempenho. Essa abordagem ajuda a desmistificar crenças sobre sexo, tratar disfunções como vaginismo ou ejaculação precoce, e reeducar o corpo para o prazer.

Por fim, não subestime o poder da Terapia Individual. Muitas vezes, o bloqueio sexual vem de traumas passados, educação religiosa repressora, baixa autoestima ou depressão. Cuidar da sua própria mente, entender seus gatilhos e curar suas feridas pessoais reflete diretamente na qualidade do seu casamento. Quando você se torna uma pessoa mais inteira e resolvida, consegue se relacionar de forma mais saudável e madura.

O casamento sem sexo não precisa ser o fim, a menos que vocês decidam que é. Ele pode ser um sintoma de algo que precisa ser curado, um convite para aprofundar a relação de uma forma que vocês nunca fizeram antes.[8] Com paciência, diálogo honesto e, se necessário, ajuda profissional, é possível não apenas sobreviver a essa fase, mas sair dela com uma intimidade muito mais rica e verdadeira. Lembre-se: o objetivo não é voltar a ser como era no começo, mas construir algo novo e sustentável para quem vocês são hoje.

Referências

  • Mundopsicologos.com – Artigos sobre casamento sem sexo e impacto emocional.
  • Minha Vida / UOL – Matérias sobre felicidade no casamento e frequência sexual.[4]
  • Instituto Cris Monteiro / Oficina de Psicologia – Textos sobre sobrevivência da relação e desejo.
  • Conceitos de Terapia Cognitivo-Sexual e Terapia Focada nas Emoções.

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