Sabe aquela sensação de que você casou não apenas com seu parceiro, mas com um “pacote completo” que inclui opiniões não solicitadas, visitas surpresa e uma pitada de drama familiar? Pois é, sente-se aqui no sofá que precisamos conversar sobre isso. Você não está sozinha e, o mais importante, você não está “louca” por querer ter o seu próprio espaço. A dinâmica entre sogra, nora e a família de origem é um dos temas mais recorrentes e espinhosos que vejo aqui no consultório. É aquele tipo de tensão que começa pequena — um comentário sobre o sal no feijão ou uma dica “inocente” sobre como limpar a casa — e, se não cuidada, pode virar uma bola de neve capaz de soterrar o casamento.
A primeira coisa que quero que você entenda é que estabelecer limites não é um ato de guerra; é um ato de amor-próprio e de proteção ao seu relacionamento. Muitas vezes, nós mulheres somos socializadas para agradar, para sermos as “boas meninas” que acolhem a todos. Quando tentamos colocar uma barreira, a culpa vem galopando.[1] Mas respire fundo. O que vamos explorar hoje são formas de você retomar o controle da sua casa e da sua paz mental, sem precisar transformar o almoço de domingo em um campo de batalha. Vamos olhar para isso com a calma e a estratégia de quem sabe que a saúde mental vale mais do que qualquer convenção social.
Nesta conversa, quero te equipar com ferramentas reais. Nada de teoria vazia. Vamos falar sobre o que você pode fazer, o que você deve esperar do seu parceiro e como identificar quando a situação cruzou a linha do aceitável para o tóxico. Lembre-se: o objetivo não é mudar a sua sogra ou a família dele — spoiler: nós não mudamos ninguém —, mas sim mudar a forma como você reage e interage com eles. Vamos juntas nessa jornada de autoconhecimento e posicionamento?
Entendendo a Dinâmica: Por que é tão difícil?
O choque de culturas familiares e expectativas[1][2][4][5][9]
Você já parou para pensar que cada família opera como um pequeno país, com suas próprias leis, dialetos e rituais? Quando você se une ao seu parceiro, é como se dois diplomatas de nações muito diferentes tentassem governar um novo território. Na família dele, talvez a porta da casa esteja sempre aberta e todos opinem sobre tudo; na sua, talvez a privacidade seja sagrada e visitas precisem ser agendadas com dias de antecedência. Esse choque cultural é inevitável. O problema surge quando uma das partes — geralmente a família de origem dele — acredita que o “jeito deles” é o único jeito certo de viver, invalidando completamente a cultura que você traz ou a nova cultura que vocês dois estão tentando criar.
Além das diferenças culturais, existem as expectativas silenciosas. Muitas sogras idealizaram por anos como seria a vida do filho adulto, quem ele namoraria, onde moraria e como criaria os netos. Quando você entra em cena e a realidade difere desse roteiro mental, a frustração dela pode se manifestar como crítica.[2][10] Você, por sua vez, esperava ser acolhida como uma filha, ou pelo menos respeitada como uma adulta autônoma. Quando essas expectativas colidem, o ressentimento começa a brotar.[2] É fundamental reconhecer que não se trata apenas de “maldade”, mas de um luto não processado pelas expectativas frustradas de ambos os lados.[1][12]
Entender isso tira um pouco o peso pessoal da situação. Não é necessariamente sobre você ser “insuficiente”, mas sobre o sistema familiar dele estar tentando manter o equilíbrio antigo (homeostase) enquanto você representa a mudança. Eles estão acostumados a funcionar de um jeito há 30 anos. A sua chegada balança as estruturas. O desafio aqui é você não se dobrar para caber na forma deles, mas sim ajudar a construir uma nova forma, onde as diferenças sejam, no mínimo, toleradas com respeito.
A síndrome do ninho vazio e o apego excessivo
Vamos falar abertamente sobre o que acontece com muitas mães quando os filhos saem de casa. Para muitas mulheres da geração anterior, a maternidade não foi apenas um papel, foi a identidade inteira delas. Elas abriram mão de carreiras, hobbies e até da vida conjugal para focar 100% nas crianças. Quando esse “projeto de vida” (o filho) decide ter a própria vida, elas sentem um vazio existencial aterrorizante. A intromissão na sua vida, muitas vezes, é uma tentativa desesperada de ela se sentir útil e relevante novamente. Criticar como você cuida da casa ou do bebê é a forma distorcida de ela dizer: “Eu ainda sei fazer isso melhor, eu ainda sou necessária”.
Isso, claro, não justifica o comportamento invasivo, mas nos ajuda a entender a raiz do problema. O apego excessivo muitas vezes mascara uma profunda solidão ou um casamento falido onde o filho ocupava o lugar de companheiro emocional da mãe.[10] Quando você “leva” esse filho, você retira a muleta emocional dela.[2][5] O ciúme que você percebe não é sexual, mas é um ciúme de posição, de prioridade. Ela teme perder o posto de mulher mais importante na vida dele, e cada decisão que vocês tomam sem consultá-la confirma esse medo irracional.
Lidar com essa síndrome exige uma dose de compaixão, mas uma dose dupla de firmeza. Você não pode preencher o vazio existencial dela; isso é tarefa para ela (e talvez para um terapeuta dela). Tentar apaziguar esse apego cedendo às vontades dela é como dar água salgada para quem tem sede: nunca sacia e só piora a situação. O limite precisa ser colocado justamente para que ela entenda que o papel de “mãe de criança pequena” acabou, e agora ela precisa descobrir quem ela é além da maternidade ativa.
O lugar de cada um na nova hierarquia
Aqui entramos no ponto nevrálgico da questão: a hierarquia familiar. Biblicamente e psicologicamente, o conceito de “deixar pai e mãe e unir-se à sua mulher” é a base para a saúde conjugal. Quando vocês se casaram ou foram morar juntos, formaram um novo Núcleo Familiar Principal.[1] Pais, sogros e irmãos passaram a ser a “família estendida” ou parentes. Isso soa duro, mas é a realidade estrutural necessária. A prioridade, a lealdade e a confidencialidade devem estar primeiramente no casal. Se a energia flui mais para a família de origem do que para o casamento, o sistema entra em colapso.
O conflito acontece porque a sogra muitas vezes não recebeu o memorando dessa mudança de cargo. Ela quer continuar ocupando o topo da pirâmide, tomando decisões ou tendo voto de minerva. E, sejamos honestas, às vezes o filho (seu parceiro) não desocupou a cadeira de “filhinho” para sentar na cadeira de “marido”. Se ele continua correndo para a mãe a cada briga de vocês ou consultando-a antes de tomar decisões financeiras, ele está subvertendo a hierarquia e convidando o caos para dentro da sua sala de estar.
Você precisa visualizar essa hierarquia claramente. Imagine círculos concêntricos. No centro, está você, seu parceiro e seus filhos (se tiverem). No círculo de fora, estão os avós e tios. Quem está fora não pode ditar as regras de quem está dentro. Essa clareza visual te ajuda a não se sentir culpada quando diz “não”. Você não está sendo má; você está apenas protegendo as fronteiras do seu território soberano. Uma nação sem fronteiras não é um país, é terra de ninguém. O mesmo vale para o seu casamento.
O Papel Crucial do Seu Parceiro[2][3][4][12][13]
Ele precisa ser o porteiro da relação
Vou ser muito direta com você agora: a maioria dos problemas com sogra não são problemas de sogra, são problemas de marido. Ele é a ponte entre você e a família dele. Se a ponte está quebrada, o tráfego de problemas invade sua vida sem filtro. O papel dele é atuar como um porteiro ou um filtro. É ele quem deve dizer à mãe dele: “Mãe, não fale assim com minha esposa”, ou “Mãe, nós decidimos que não vamos viajar no Natal, e por favor não insista”. Quando você tem que fazer esse trabalho sujo, você automaticamente vira a vilã da história.
Quando ele se omite, ele deixa você exposta.[2] É injusto exigir que você estabeleça limites com pessoas com as quais ele tem 30 anos de intimidade e vícios de relacionamento. Se ele fica calado enquanto a mãe te alfineta no almoço de domingo, o silêncio dele é uma concordância. Ele precisa entender que, ao formar uma família com você, ele assumiu o dever de proteger essa nova família. Isso não significa brigar ou desrespeitar os pais dele, mas significa ser firme e claro sobre onde termina a autoridade deles e começa a de vocês.[3]
Muitas vezes, os homens têm medo de magoar a “mamãe”. Eles foram condicionados a serem bons meninos. Mas parte do amadurecimento masculino é suportar o desconforto de desagradar os pais para honrar a esposa. Se ele não assume esse papel de porteiro, você ficará eternamente na defensiva, sentindo-se uma intrusa na sua própria vida. Converse com ele sobre isso, não na hora da raiva, mas num momento calmo, explicando que você precisa que ele seja o escudo, não o espectador.
O perigo de ficar “em cima do muro”[3][6]
Não existe neutralidade quando se trata de limites familiares. Quando seu parceiro diz “ah, ela é assim mesmo, releva” ou “não quero me meter, resolvam vocês”, ele está, na verdade, escolhendo o lado da mãe. Por quê? Porque o status quo favorece a mãe. “Deixar como está” significa permitir que a invasão continue. Essa postura de isenção é extremamente prejudicial para a confiança do casal. Você começa a sentir que não é a prioridade, que seus sentimentos são secundários e que, na hora do aperto, você está sozinha.
Essa falta de posicionamento cria uma fenda enorme na intimidade. É difícil admirar e desejar um parceiro que age como uma criança amedrontada diante dos pais. A postura “em cima do muro” gera ressentimento acumulado.[2] Você engole sapos para não criar conflito com ele, mas esses sapos viram gastrite, ansiedade e explosões de raiva por motivos banais. Ele precisa descer do muro e pisar no quintal de vocês.
Explique para ele que “ficar de fora” é uma ilusão. Ele já está dentro. A inércia dele é uma ação que valida o desrespeito. Peça a ele para observar a situação com empatia: “Como você se sentiria se meu pai criticasse seu trabalho ou sua forma de dirigir toda semana e eu dissesse que é só o jeito dele?”. A empatia pode ser a chave para tirá-lo dessa passividade perigosa.[3]
Cortando o cordão umbilical emocional[2]
O corte do cordão umbilical físico acontece no nascimento, mas o emocional, para alguns homens, nunca acontece de verdade. Vemos homens de 30, 40 anos que ainda buscam a aprovação materna como se fossem meninos de 5 anos mostrando um desenho. Eles tomam decisões de carreira, financeiras e até habitacionais baseados no que “a mãe vai achar”. Enquanto esse cordão não for cortado, não há espaço para você se conectar plenamente com ele. O espaço emocional dele já está ocupado.
Cortar esse cordão dói. A mãe vai chorar, vai fazer drama, vai dizer que foi abandonada. É um processo de diferenciação necessário. Ele precisa entender que desagradar a mãe não é matá-la. É apenas viver a própria vida. Muitas vezes, a terapia individual para ele é essencial nesse processo, pois esses vínculos são profundos e operam no inconsciente.
Seu papel aqui é apoiar esse crescimento, não atacar a mãe dele (o que só gera defesa), mas apontar os comportamentos. “Amor, percebi que você mudou nossa decisão depois de falar com sua mãe. Isso me faz sentir insegura sobre nossos acordos”. Ajude-o a ver o padrão. O homem só se torna verdadeiramente adulto quando percebe que a opinião da mãe é apenas um conselho, não uma ordem suprema.
Comunicação Assertiva na Prática[8]
A técnica do “Disco Arranhado” para impor limites
Você conhece aquela situação em que você explica, justifica, argumenta e a pessoa continua insistindo? Com parentes invasivos, a explicação é inimiga da paz.[2] Quanto mais você explica, mais munição você dá para eles debaterem. A técnica do “Disco Arranhado” é simples e libertadora: você repete a sua decisão calmamente, com as mesmas palavras ou variações mínimas, sem oferecer novas justificativas.
Por exemplo, a sogra insiste que vocês devem ir almoçar lá no domingo, mas vocês querem descansar.
Ela: “Mas eu fiz o prato que ele gosta!”
Você: “Agradeço o convite, mas este domingo vamos ficar em casa.”
Ela: “Mas vocês nunca vêm, é uma desfeita!”
Você: “Entendo que fique chateada, mas este domingo vamos ficar em casa.”
Ela: “Vocês não gostam mais da família?”
Você: “Gostamos muito, mas este domingo vamos ficar em casa.”
Percebe? Você não entrou na discussão sobre “gostar da família” ou sobre a frequência das visitas. Você manteve o foco no limite. É cansativo no início, mas vence pela exaustão e pela clareza. Eles aprendem que “não” é “não”, e não o início de uma negociação. Mantenha o tom de voz calmo, baixo e firme. Sem raiva, apenas constatação.
Como dizer “não” sem se justificar excessivamente
A justificativa é o refúgio da culpa. Sentimos que, para ter o direito de dizer não, precisamos ter uma desculpa “válida” (como uma doença ou trabalho). Mas “não quero” é um motivo válido. “Vamos descansar” é um motivo válido. Quando você começa a se justificar demais — “Ah, é que o pneu do carro tá murcho e o cachorro tá doente e eu tô com dor de cabeça” — você passa a mensagem de que, se não fossem esses impedimentos, você seria obrigada a ceder.
Treine frases curtas e diretas. “Infelizmente, não poderemos ir.” “Isso não funciona para nós.” “Agradeço a sugestão, mas vamos fazer do nosso jeito.” O silêncio após o não é poderoso. Diga a frase e pare. Resista à vontade de preencher o silêncio com desculpas. Esse espaço vazio obriga a outra pessoa a lidar com o limite que você acabou de traçar.
Lembre-se que você não está pedindo permissão para viver sua vida, você está apenas informando suas decisões. É uma mudança de postura interna que reflete na sua fala.[2][13] Quando você tira a necessidade de aprovação da equação, o “não” flui com naturalidade, sem o peso da culpa.
Saindo da triangulação e falando direto
A triangulação é o jogo favorito de famílias disfuncionais. A sogra fala mal de você para o marido, o marido fala para você, você reclama da sogra para a cunhada. É um telefone sem fio tóxico. Uma das formas mais eficazes de quebrar esse ciclo é a comunicação direta, quando possível e seguro. Se a sogra fez um comentário passivo-agressivo sobre sua roupa, em vez de reclamar com o marido depois, responda na hora, com classe: “O que a senhora quis dizer com esse comentário?”
Fazer a pessoa explicar a ofensa geralmente a desmonta. Se ela disser “ah, nada, é brincadeira”, você encerra: “Ah, entendi. É que não soou engraçado para mim”. Pronto. Sem briga, mas com limite. Outra forma de evitar triangulação é proibir que tragam fofocas até você. Se alguém vier com “Sua sogra disse que…”, corte na hora: “Prefiro não saber. Se ela tiver algo a dizer, ela pode falar comigo”.
Isso cria um campo de força ao seu redor. As pessoas percebem que você não joga o jogo da intriga. Você se torna “chata” para fofocar, o que é ótimo, pois elas param de te usar como depósito de lixo emocional. A saúde mental agradece.
Sinais de Alerta: Quando Passa do Limite[1][2][3][5][8][12][13]
Identificando a manipulação passivo-agressiva
A agressividade aberta é fácil de combater. Se alguém te xinga, você sabe que foi atacada. Mas a agressividade passiva é traiçoeira. Ela vem disfarçada de preocupação, de “brincadeirinha”, de esquecimento ou de elogio torto.[2] “Nossa, que corajosa você de sair com essa roupa, eu jamais teria essa autoconfiança” — isso não é um elogio, é uma crítica velada ao seu corpo ou estilo. Ou aquela sogra que “esquece” de te avisar do jantar de aniversário e depois diz: “Ah, achei que meu filho tinha te avisado, vocês não conversam?”.
Esses comportamentos são desenhados para te fazer parecer louca se você reclamar. “Nossa, como você é sensível, foi só um comentário”. O sinal de alerta aqui é o seu estômago. Se você sai de uma interação sentindo-se drenada, confusa ou com raiva, mesmo que “nada demais” tenha sido dito, houve agressão passiva. Confie na sua intuição.
Não tente desmascarar o passivo-agressivo com lógica, pois eles sempre negarão. Apenas não reaja emocionalmente. Eles se alimentam da sua irritação. Responda com literalidade entediada ou ignore completamente. Quando a “piada” não gera risos nem raiva, ela perde a função.
A invasão de privacidade disfarçada de ajuda
“Eu vim aqui só para dobrar as roupas de vocês, estava uma bagunça!” — Soa como ajuda, certo? Errado. É invasão.[2][9][13] Entrar na sua casa sem avisar, mexer nas suas gavetas, reorganizar sua cozinha ou dar banho no seu filho do jeito dela sem te consultar são formas de demarcar território. A mensagem subliminar é: “Você não é capaz de cuidar disso direito, eu preciso intervir”.
Muitas vezes, aceitamos essa invasão porque estamos cansadas e precisamos de ajuda prática. Mas o preço cobrado é a sua autonomia.[2] Se a ajuda vem com controle, não é ajuda, é pedágio. É fundamental estabelecer regras claras para visitas e chaves de casa. “Agradeço a intenção, mas prefiro que não mexa no meu armário. Eu gosto de organizar do meu jeito”.
Se ela tem a chave da sua casa e entra sem bater, troque a fechadura. Parece drástico, mas sua casa é seu santuário. A privacidade do casal é sagrada e necessária para a intimidade. Não permita que a “ajuda” se torne a porta de entrada para a anulação da sua autoridade no seu lar.
O uso dos netos como ferramenta de poder
Este é o ponto mais doloroso. Avós tóxicos muitas vezes usam as crianças para atingir os pais. Desrespeitam regras alimentares, falam mal da mãe para a criança, ou competem pelo afeto do neto com presentes caros que os pais não podem dar. “Sua mãe é chata, na casa da vovó pode tudo”. Isso não é amor de avó, é alienação e desrespeito.
Quando os limites com os netos são cruzados, a tolerância deve ser zero. Isso confunde a cabeça da criança e mina sua autoridade materna/paterna. Deixe claro: “Se as regras sobre doces/horários/telas não forem respeitadas, as visitas serão supervisionadas ou suspensas”. O acesso aos netos é um privilégio, não um direito constitucional irrevogável.
Proteja seus filhos dessa dinâmica. Eles absorvem a tensão. Se a avó é tóxica com você, ela eventualmente será tóxica com a criança quando ela crescer e começar a ter vontade própria. Estabelecer limites aqui é proteção infantil.
A Psicologia do “Filho de Mãe”[1][5]
Entendendo o complexo de Édipo mal resolvido
Sem querer dar uma aula chata de psicanálise, precisamos falar sobre o Édipo. Em termos simples, é a fase onde o menino “namora” a mãe e rivaliza com o pai. O saudável é que ele perceba que a mãe tem dono (o pai) e vá buscar sua própria mulher fora. Quando isso não se resolve — muitas vezes porque o pai foi ausente ou a mãe o capturou emocionalmente —, o filho cresce sentindo que a mãe é a mulher da vida dele.
Qualquer outra mulher (você) será vista inconscientemente como uma amante, uma intrusa. Ele se sente culpado por “trair” a mãe ao amar você. A mãe, por sua vez, age como a esposa traída. É uma dinâmica perversa e invisível.[2] Você percebe isso quando ele não consegue dizer não para ela, como se devesse fidelidade absoluta.
Entender isso te ajuda a ver que você está lutando contra fantasmas muito antigos. Não é pessoal. É uma estrutura psíquica que precisa ser quebrada. E a única forma de quebrar é ele assumindo o lugar de homem adulto, renunciando ao papel de “príncipe da mamãe”.
A culpa como moeda de troca no relacionamento mãe-filho[1]
A culpa é o combustível dessa relação disfuncional. A mãe instalou botões de culpa nele desde a infância. “Eu sacrifiquei tudo por você”, “Você vai me deixar sozinha agora que estou velha/doente?”. Essas frases ativam um terror infantil de abandono no seu parceiro. Ele age não por amor, mas por medo e culpa.
Quando você pede para ele colocar limites, você está pedindo para ele enfrentar esse monstro da culpa. É aterrorizante para ele. Tenha paciência, mas não seja cúmplice. Aponte a manipulação: “Você percebe que ela só passa mal quando vamos viajar?”. Aos poucos, a realidade pode perfurar a bolha da culpa.
Diferenciando cuidado materno de controle obsessivo[2]
Cuidado liberta; controle aprisiona. O cuidado materno saudável prepara o filho para o mundo. O controle obsessivo quer manter o filho no ninho para sempre. Mães controladoras disfarçam suas exigências de “preocupação”. “Liguei 10 vezes porque estava preocupada!” — não, ligou para checar onde ele estava.
Ajude seu parceiro a ver essa diferença. Um adulto de 30 anos não precisa reportar seus passos à mãe. Isso não é amor, é vigilância. Reconhecer que o “amor” que ele recebeu veio envenenado com controle é um passo doloroso, mas libertador para ele se tornar um marido inteiro.
Blindagem Emocional e Autocuidado[9]
O conceito de “Jardim Fechado” para sua mente
Imagine que sua mente é um jardim. Se você deixar o portão aberto, qualquer um entra, pisa nas flores, joga lixo e vai embora. Você precisa fechar esse portão. O que a sua sogra pensa de você é problema dela, não seu. As críticas dela são lixo emocional que ela está tentando jogar no seu jardim. Não aceite a entrega.
Pratique o desapego da opinião alheia. Você sabe quem você é, você sabe que é uma boa mãe, uma boa esposa. A validação interna deve gritar mais alto que a crítica externa. Quando ela falar, visualize um vidro à prova de som entre vocês. Você vê a boca mexendo, mas o veneno não te atinge.
Validando seus sentimentos mesmo quando te chamam de louca
O gaslighting (manipulação psicológica) faz você duvidar da sua sanidade.[7] “Você está exagerando”, “Não foi isso que eu disse”. Nessas horas, valide-se. Escreva o que aconteceu. Converse com uma amiga de confiança ou terapeuta. “Eu me senti desrespeitada e meu sentimento é real”.
Não deixe que a narrativa deles reescreva a sua realidade. Você tem o direito de se sentir incomodada com a visita sem aviso, com o palpite na educação do seu filho. Seus sentimentos são o termômetro da sua dignidade. Se o termômetro subiu, é porque tem febre. Confie nele.
Quando o afastamento temporário é a única cura
Às vezes, nenhum diálogo funciona. Os limites são atropelados repetidamente. Nesses casos, o afastamento (contato zero ou contato mínimo) não é punição, é autopreservação. Você tem o direito de não frequentar lugares onde é maltratada. Seu marido pode ir visitar a mãe dele sozinho (desde que não leve os filhos para um ambiente tóxico sem sua supervisão).
Se dê o direito de pular o Natal, de bloquear no WhatsApp, de não atender o telefone. Sua saúde mental é a base da sua família. Se você desmoronar, tudo desmorona. Às vezes, a distância física é a única forma de manter a sanidade emocional. E não se sinta culpada por escolher se salvar.
Terapias e Abordagens Clínicas
Para fechar nosso papo, quero falar sobre como a ajuda profissional pode ser o divisor de águas aqui. Muitas vezes, tentar resolver isso sozinha é como tentar fazer uma cirurgia em si mesma. Dói e não funciona bem.
A Terapia Sistêmica Familiar é a “padrão ouro” para esses casos. Ela não olha para o indivíduo isolado, mas para o sistema, as regras invisíveis e as lealdades familiares. O terapeuta ajuda a redesenhar as fronteiras e a redistribuir os papéis, tirando a sogra do centro e colocando o casal no comando. É fantástica para entender os padrões que se repetem há gerações.
Outra abordagem excelente é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), especialmente para você ou para seu parceiro individualmente. Ela ajuda a identificar as crenças limitantes (“se eu disser não, serei rejeitado”) e a treinar habilidades sociais e assertividade. É muito prática e focada na mudança de comportamento e na redução da ansiedade.
Por fim, a Terapia de Casal (como a abordagem Imago ou EFT – Terapia Focada nas Emoções) é vital se o conflito com a sogra estiver destruindo a conexão de vocês. Essas terapias ajudam o casal a se unir, a entender as feridas emocionais um do outro e a formar aquela “aliança inquebrável” que é a única defesa real contra a intromissão externa. Se o seu parceiro topar, é o melhor investimento que vocês podem fazer.
Lembre-se: limites salvam relacionamentos. Ao colocar a cerca no lugar certo, você não está expulsando ninguém, está apenas definindo onde é o seu lar. Respire, se priorize e, se precisar, busque ajuda.[2][3][5] Você consegue.
Referências
- Cloud, H., & Townsend, J. (2017). Limites: Quando dizer sim, quando dizer não. Editora Vida.
- Forward, S. (2002).[1][2] Toxic In-Laws: Loving Strategies for Protecting Your Marriage. HarperCollins.
- Minuchin, S. (1974). Families and Family Therapy.[8] Harvard University Press.
- Carter, B., & McGoldrick, M. (1989). The Changing Family Cycle: A Framework for Family Therapy. Allyn & Bacon.
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