Você já sentiu como se estivesse vivendo o filme “Feitiço do Tempo”, mas na sua vida amorosa? Sabe aquela sensação de mudar de parceiro, de cenário, de fase da vida, mas, no final das contas, os problemas, as brigas e o desfecho serem exatamente os mesmos? Se você balançou a cabeça concordando, respire fundo. Você não tem um “dedo podre” e não nasceu destinado ao sofrimento. O que você está vivenciando tem nome, sobrenome e, o mais importante, tem cura. Vamos conversar sobre padrões repetitivos e como a terapia pode ser a chave para destravar a vida amorosa que você realmente merece.
Muitas vezes, carregamos a crença de que o amor é uma questão de sorte ou destino. Ficamos esperando que a pessoa certa apareça magicamente e conserte tudo o que doeu antes. A verdade é um pouco mais complexa e, ao mesmo tempo, libertadora. O amor saudável é uma construção que começa muito antes do primeiro encontro: ele começa dentro da sua própria mente e história. Enquanto não olharmos para os roteiros invisíveis que dirigem nossas escolhas, continuaremos contratando atores diferentes para encenar a mesma peça dramática.
Neste artigo, vamos mergulhar fundo no porquê disso acontecer. Quero pegar na sua mão e te guiar pelos bastidores da sua mente, sem “psicologês” complicado, mas com a profundidade necessária para gerar mudança real. Vamos entender a origem desses ciclos, por que seu cérebro parece viciado no que faz mal e, claro, como reescrever esse final. Prepare-se para olhar para sua história com novos olhos.
O que são padrões repetitivos no amor?
Quando falamos de padrões repetitivos, estamos nos referindo a uma série de escolhas, comportamentos e dinâmicas relacionais que ocorrem de forma cíclica e automática.[6][7] É como se existisse um “script” interno que dita por quem você se apaixona e como a relação se desenvolve.[1] Você pode jurar que desta vez é diferente, afinal, ele ou ela parece o oposto do seu ex. Mas, passados alguns meses, a sensação de negligência, o ciúme excessivo ou a falta de comunicação voltam a assombrar. Isso não é coincidência.
Esses padrões funcionam como trilhos de trem. Uma vez que o trem está em movimento, ele tende a seguir o caminho que já foi construído, a menos que alguém intencionalmente mude a chave dos trilhos. Na vida amorosa, esses trilhos são formados por nossas primeiras experiências de afeto, nossas crenças sobre o que merecemos e nossas defesas emocionais.[4][7][8] O padrão repetitivo é, na verdade, uma tentativa desesperada e inconsciente de resolver uma dor antiga em um novo cenário, mas usando as mesmas ferramentas quebradas de sempre.
Identificar que estamos presos em um padrão é o primeiro passo para a liberdade, mas também é um dos mais dolorosos. Exige que a gente pare de culpar exclusivamente o outro — “todos os homens são iguais” ou “ninguém quer nada sério” — e comece a olhar para o denominador comum de todas as suas relações: você.[9] Não digo isso para gerar culpa, mas para devolver a você o poder de mudança. Se o padrão está em você, a chave para desligá-lo também está.[5][9]
A origem na infância e os primeiros vínculos[1][4][10][11]
Nossa “escola do amor” acontece muito antes do primeiro beijo. Ela ocorre na sala de casa, observando como nossos pais se tratavam e, principalmente, como eles nos tratavam. A teoria do apego nos ensina que a maneira como fomos cuidados, protegidos ou negligenciados na infância cria um molde interno sobre o que esperar do amor.[4][7] Se você teve cuidadores inconstantes — ora carinhosos, ora distantes —, pode ter aprendido que o amor é ansiedade e que precisa “lutar” ou “mendigar” por atenção para ser visto.
Por outro lado, se você cresceu em um ambiente onde as emoções eram reprimidas ou vistas como fraqueza, pode ter desenvolvido um estilo evitante.[12] Na vida adulta, isso se traduz em buscar parceiros que, assim que a intimidade se aprofunda, você sente uma vontade incontrolável de fugir ou se fechar. O cérebro infantil grava essas dinâmicas não como “ruins” ou “boas”, mas como “familiares”. E para o nosso inconsciente, o familiar é seguro, mesmo que seja doloroso.
Muitas vezes, buscamos parceiros que possuem características, positivas ou negativas, semelhantes às dos nossos pais.[5][7] Isso acontece porque estamos, inconscientemente, tentando “curar” a relação com nossos pais através do parceiro. É como se a criança ferida dentro de você dissesse: “Se eu conseguir fazer essa pessoa fria me amar, finalmente provarei que sou digno de amor”. Infelizmente, essa é uma missão fadada ao fracasso, pois o parceiro não é seu pai nem sua mãe, e colocar essa carga sobre ele apenas perpetua o ciclo de frustração.
A “Zona de Conforto” desconfortável
O termo “zona de conforto” é enganoso, porque muitas vezes de confortável ela não tem nada. Seria mais preciso chamá-la de “zona de familiaridade”. Por que alguém ficaria em um relacionamento onde é desvalorizado, criticado ou ignorado? Porque, por mais terrível que seja, aquele sofrimento é conhecido. O desconhecido — um amor tranquilo, recíproco e sem dramas — pode parecer assustadoramente entediante ou até suspeito para quem nunca experimentou a paz emocional.
Imagine que você passou a vida inteira dormindo no chão duro. Se alguém te oferecer uma cama macia de penas, é provável que você estranhe, sinta dor nas costas e queira voltar para o chão. O chão é ruim, mas é o seu chão. Nos relacionamentos, isso explica por que muitas pessoas “sabotam” relações saudáveis.[5] Quando tudo está calmo, o sistema de alerta dispara: “Onde está o drama? Onde está a adrenalina da incerteza?”. O cérebro, viciado no caos, interpreta a paz como tédio ou falta de paixão.
Romper com essa zona de conforto exige coragem para tolerar a estranheza de ser bem tratado. Exige reprogramar o que entendemos como “química”. Muitas vezes, o que chamamos de “fogo” ou “conexão instantânea” é apenas o nosso trauma reconhecendo outro trauma compatível. Sair dessa zona significa aprender a se sentir atraído pelo que faz bem, e não apenas pelo que faz sentir algo intenso. É um processo de reeducação emocional que, embora desafiador, é totalmente possível.
Sinais de que você está preso em um ciclo[4][5][9][10][11][12][13][14][15]
Como saber se você está apenas passando por uma fase ruim ou se está realmente preso em um padrão repetitivo? O primeiro sinal é a previsibilidade do sofrimento. Se você consegue prever exatamente como a briga vai começar, o que será dito e como você se sentirá no final — exausto, incompreendido, sozinho —, é um grande alerta. Outro sinal clássico é a sensação de que você muda os rostos, mas a dinâmica permanece. Talvez o ex fosse viciado em trabalho e o atual seja viciado em videogame, mas a sensação de solidão e de estar em segundo plano é idêntica.
Outro indicativo forte é a desproporção da sua reação emocional. Se uma pequena rejeição (como uma mensagem não respondida imediatamente) gera um pânico avassalador de abandono ou uma raiva explosiva, é provável que uma ferida antiga tenha sido tocada. Reagimos não apenas ao fato presente, mas a todo o histórico de rejeições acumuladas. Quando a reação é maior que o fato, o passado está presente na sala.
Também devemos observar o tipo de “papel” que assumimos. Você é sempre a “salvadora” que encontra parceiros problemáticos para consertar? Ou é sempre a “vítima” que acaba com pessoas controladoras? Ou quem sabe o “rebelde” que nunca consegue se comprometer? Esses papéis são armaduras que vestimos lá atrás para sobreviver e que esquecemos de tirar. Reconhecer qual personagem você interpreta na sua novela amorosa é fundamental para começar a escrever um novo roteiro.
Por que o cérebro escolhe o sofrimento conhecido?
Pode parecer masoquismo, mas garanto a você que não é. O cérebro humano tem uma prioridade biológica: sobrevivência, não felicidade. Para garantir a sobrevivência, ele adora prever o futuro com base no passado. Se você sobreviveu a um ambiente caótico na infância, seu cérebro registrou aquele caos como “o jeito que a vida é”. Tentar algo diferente gasta energia e traz riscos desconhecidos. Portanto, repetir o sofrimento é, biologicamente, uma forma de economizar energia e manter-se em terreno conhecido.
Além disso, existe uma tentativa de domínio.[9] Quando repetimos uma situação traumática, existe uma fantasia inconsciente de que “desta vez será diferente”.[1][2][4][5][7] É como repetir uma fase difícil de um videogame na esperança de que agora você saiba como vencer o chefe final. O problema é que, na vida real, não podemos vencer o jogo tentando mudar o outro jogador; só podemos vencer mudando a nós mesmos ou escolhendo não jogar aquele jogo específico.
Entender essa biologia tira o peso da culpa moral. Você não repete padrões porque é “burro” ou “gosta de sofrer”. Você repete porque seu sistema nervoso foi moldado dessa forma e está operando no piloto automático. A terapia entra exatamente aí: para desligar o piloto automático e assumir o comando manual das suas escolhas. Vamos explorar os mecanismos psicológicos por trás dessa repetição.
A compulsão à repetição[2][4][5][6][8][10]
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, cunhou o termo “compulsão à repetição” para explicar esse fenômeno intrigante.[2] Ele observou que as pessoas tendem a se colocar repetidamente em situações angustiantes, revivendo traumas antigos.[2][4][5][6][7][8] Para Freud, isso não é um erro do sistema, mas uma função psíquica. O inconsciente não conhece o conceito de tempo como nós. Para ele, o passado está acontecendo agora. Ao repetir a cena, a psique tenta elaborar o que ficou mal resolvido.[1][4][5][7][8]
Pense nisso como um disco riscado. A música toca até certo ponto, encontra um arranhão e volta. O disco continua girando e repetindo aquele trecho na esperança de passar adiante, mas o arranhão impede. Na vida amorosa, o “arranhão” é o trauma ou a necessidade não atendida.[7][12] Voltamos para relações que nos fazem sentir pequenos, invisíveis ou controlados porque estamos tentando, inconscientemente, reescrever a história original onde nos sentimos assim pela primeira vez.
A grande armadilha da compulsão à repetição é que ela busca a cura no lugar errado. Buscamos a cura no exterior, no outro, esperando que o parceiro aja diferente do que nossos pais agiram. Mas, paradoxalmente, escolhemos parceiros incapazes de agir diferente, justamente porque eles se encaixam no molde do trauma. A cura real só acontece quando a repetição é interrompida pela consciência e a elaboração ocorre dentro do consultório terapêutico, e não na encenação dramática da vida real.
A química do cérebro e o vício emocional
Não podemos ignorar a bioquímica do amor e da dor. Relacionamentos instáveis, cheios de idas e vindas, brigas e reconciliações apaixonadas, geram picos de dopamina e adrenalina. Isso cria um ciclo de vício muito semelhante ao de substâncias químicas. Os momentos de “lua de mel” após uma crise liberam uma enxurrada de neurotransmissores de prazer que aliviam a ansiedade gerada pelo conflito. O cérebro aprende que o alívio vem depois da dor, e começa a buscar a dor para ter o alívio.
Esse ciclo de reforço intermitente é extremamente viciante. Se você ganhasse um prêmio toda vez que jogasse uma moeda, logo ficaria entediado. Mas se você ganha o prêmio apenas de vez em quando e de forma imprevisível, você fica obcecado pelo jogo. Relacionamentos abusivos ou disfuncionais operam nessa lógica.[5][6][9][10][14] A incerteza mantém você engajado, hipervigilante e quimicamente dependente da validação daquele parceiro.
Sair desse ciclo exige passar por uma espécie de abstinência.[9] Quando você começa a se relacionar com alguém estável e seguro, pode sentir falta daquela “montanha-russa”. Pode parecer que “falta amor”, quando na verdade só falta o drama. O trabalho terapêutico ajuda a regular o sistema nervoso para que ele possa apreciar a calma e a constância, substituindo a necessidade de picos de adrenalina pela satisfação duradoura da oxitocina e da serotonina, hormônios ligados ao vínculo seguro e ao bem-estar.
Crenças limitantes e autossabotagem[5][9][10][11]
Por trás de todo padrão repetitivo existe um sistema de crenças que o sustenta.[7][9][12] São as “verdades” que contamos a nós mesmos sobre quem somos e o que merecemos. Frases como “Eu sou muito complicado para ser amado”, “Homens sempre traem” ou “Se eu mostrar quem sou de verdade, serei abandonado” funcionam como profecias autorrealizáveis. Se você acredita que será traído, seu comportamento de ciúme excessivo e controle pode acabar empurrando o parceiro para longe ou até mesmo atraindo alguém que confirme sua suspeita.
A autossabotagem é o mecanismo de defesa que entra em ação quando as coisas começam a dar certo demais. Se sua crença central é “não sou merecedor”, um relacionamento feliz gera uma dissonância cognitiva. O cérebro pensa: “Isso não combina com o que eu sei sobre mim”. Para resolver esse conflito, você inconscientemente cria um problema, inicia uma briga ou se afasta, apenas para voltar ao estado de “não merecimento” que é coerente com sua autoimagem.
Desmantelar essas crenças é como reformar a fundação de uma casa. Não adianta apenas pintar as paredes (mudar o visual, o corte de cabelo) se a estrutura está comprometida. Precisamos cavar fundo e questionar a origem dessas ideias. Quem disse que você não é amável? Essa voz é sua ou é um eco de críticas antigas? Substituir crenças limitantes por crenças fortalecedoras é um passo essencial para permitir que o amor saudável entre e permaneça na sua vida.
O impacto dos Esquemas Iniciais Desadaptativos[12]
Na psicologia, existe uma abordagem chamada Terapia do Esquema, que é fantástica para entender padrões repetitivos. Ela sugere que, durante a infância, se nossas necessidades emocionais básicas não são atendidas, desenvolvemos “Esquemas Iniciais Desadaptativos”.[12] Pense neles como óculos com lentes coloridas que colocamos muito cedo e esquecemos de tirar. Tudo o que vemos — nós mesmos, os outros e o futuro — é filtrado por essas lentes distorcidas.[12]
Esses esquemas são traços de personalidade arraigados que lutam para se manter vivos.[5][12] Eles são rígidos e resistem à mudança.[10] Quando um esquema é ativado, somos inundados por emoções intensas e infantis, perdendo a capacidade de agir como adultos racionais.[5] Identificar qual esquema está operando na sua vida amorosa é como acender a luz em um quarto escuro: os monstros não desaparecem magicamente, mas você finalmente vê com o que está lidando e pode escolher como agir.
Vou apresentar três dos esquemas mais comuns que destroem vidas amorosas, e quero que você observe com honestidade se algum deles ressoa com a sua experiência. Lembre-se: ter um esquema não é uma sentença de condenação, é apenas um mapa de onde suas feridas estão localizadas e onde o trabalho de cura precisa acontecer.
O esquema de Abandono
Quem carrega o esquema de Abandono vive com a sensação iminente de que as pessoas que ama vão embora, morrer ou trocá-lo por alguém “melhor”. Essa pessoa pode ter vivido perdas reais na infância, divórcios traumáticos ou tido pais imprevisíveis. Na vida adulta, o medo do abandono é tão avassalador que cria um paradoxo: o comportamento excessivamente apegado, ciumento e controlador acaba sufocando o parceiro e provocando, muitas vezes, o abandono que tanto se temia.
Alternativamente, a pessoa pode evitar se relacionar profundamente para não correr o risco de ser deixada (“eu vou embora antes que você me deixe”). É uma vida vivida em estado de alerta constante, interpretando qualquer silêncio ou mudança de humor do parceiro como um sinal de fim. Esse esquema impede o relaxamento e a entrega, pois a base da relação é o medo, não a confiança.[9]
Tratar o esquema de abandono envolve aprender a ser uma base segura para si mesmo.[7] É descobrir que, mesmo que o outro vá embora, você, como adulto, não vai “morrer” ou deixar de existir, como a criança interior sente. É construir a permanência do objeto: saber que o amor existe mesmo quando o outro não está presente ou disponível naquele exato segundo.
O esquema de Privação Emocional[12]
Este é um dos esquemas mais difíceis de identificar porque ele é definido pelo que não aconteceu. Não é sobre apanhar ou ser xingado, mas sobre não ter sido ouvido, acolhido ou compreendido. A pessoa com esquema de Privação Emocional sente um vazio crônico e a certeza de que ninguém jamais será capaz de suprir suas necessidades de afeto e empatia.[12] Elas costumam ser excelentes ouvintes, cuidam de todos, mas sentem que ninguém cuida delas.
Nos relacionamentos, elas tendem a escolher parceiros frios, distantes ou egocêntricos, repetindo a familiaridade da privação. Elas não pedem o que precisam porque acreditam que não adianta, e depois se ressentem porque o outro não adivinhou. O ciclo é: “eu dou tudo, não recebo nada, me sinto sozinho, mas continuo aqui”.
Romper esse esquema exige aprender a validar as próprias necessidades e, o mais difícil, expressá-las de forma clara.[15] Exige correr o risco de pedir colo e acreditar que se é merecedor desse calor. A terapia ajuda a pessoa a parar de se sentir “invisível” e a começar a selecionar parceiros que tenham capacidade emocional de troca, e não apenas parceiros que precisam ser salvos ou cuidados.[4]
O esquema de Defectividade
O esquema de Defectividade carrega a crença central de “eu sou falho, ruim, inadequado ou indigno”.[12] A pessoa sente uma vergonha profunda de quem é. Ela acredita que, se alguém chegar muito perto e a conhecer de verdade, vai descobrir seus defeitos e rejeitá-la inevitavelmente. Isso gera uma ansiedade enorme diante da intimidade.
Para compensar, alguns se tornam perfeccionistas, tentando ser o parceiro ou parceira “troféu” para garantir que não serão rejeitados. Outros se rendem ao esquema e escolhem parceiros críticos e abusivos, que confirmam a voz interna que diz “você não vale nada”. Há também os que atacam, tornando-se arrogantes para esconder a fragilidade interna.
Curar a defectividade é um trabalho de autoaceitação radical. É abraçar suas sombras e entender que ser imperfeito é humano, não um crime. É entender que você é digno de amor por causa de quem você é, e não apesar de quem você é. Quando paramos de esconder nossas supostas falhas, tiramos o poder desse esquema e abrimos espaço para sermos amados de forma autêntica e relaxada.
Como a Terapia reescreve sua história amorosa
Chegamos à parte mais esperançosa da nossa conversa. Se os padrões foram aprendidos, eles podem ser desaprendidos. O cérebro possui neuroplasticidade, o que significa que ele pode criar novos caminhos neurais em qualquer idade. A terapia não é apenas um lugar para desabafar; é um laboratório de mudança de vida. É onde você leva o seu roteiro antigo, rasga as páginas que não servem mais e começa a ditar um novo capítulo.
A terapia oferece algo que a vida cotidiana raramente oferece: um espaço seguro e sem julgamentos para examinar suas dores. O terapeuta funciona como um espelho limpo, ajudando você a ver o que está sujo no seu rosto (seus comportamentos) sem criticar você por estar sujo. Essa relação terapêutica torna-se, muitas vezes, o modelo de primeira relação saudável e segura que o paciente experimenta, servindo de base para as relações lá fora.
O processo não é mágico nem instantâneo. Exige compromisso e coragem para enfrentar o desconforto da mudança.[9] Mas o resultado é a liberdade de escolher quem você quer ser nos seus relacionamentos, em vez de ser um refém do seu passado. Vamos ver como esse processo acontece na prática dentro do consultório.
Identificação e tomada de consciência[4][5][6][8][9][10][11][13]
Você não pode mudar o que não percebe.[10] O primeiro grande trabalho da terapia é trazer o inconsciente para a luz. É o momento do “Aha!”, onde as fichas caem. O terapeuta ajuda você a ligar os pontos: “Ah, então eu grito com meu marido quando me sinto ignorada porque era assim que eu fazia para meu pai olhar para mim?”. Essas conexões tiram o comportamento do piloto automático.
Nesta fase, mapeamos os gatilhos. O que exatamente faz você se sentir inseguro? É o tom de voz? A demora na resposta? O olhar? Ao identificar os gatilhos, você ganha uma fração de segundo entre o estímulo e a resposta. É nesse pequeno intervalo que reside a sua liberdade. Em vez de reagir cegamente, você começa a observar a reação nascendo e pode escolher não embarcar nela.
A tomada de consciência também envolve nomear as emoções. Muitos de nós só conhecem “bem” ou “mal”. Aprender a diferenciar raiva de tristeza, ou ansiedade de excitação, é crucial. Quanto mais precisão você tiver sobre o que sente, menos refém das emoções você será. A consciência é o freio de mão que puxamos para parar o trem desgovernado dos padrões repetitivos.[4][9]
Ressignificação do passado[1]
Depois de entender o “porquê”, precisamos tratar a ferida. Ressignificar não é mudar os fatos — o que aconteceu, aconteceu. Ressignificar é mudar o peso e a interpretação que damos aos fatos hoje. É olhar para aquela criança que se sentiu abandonada e dizer: “Não foi culpa sua. Eles não sabiam dar o que não tinham. Mas agora eu estou aqui e cuido de você”.
Esse processo muitas vezes envolve técnicas de imaginação, cartas não enviadas ou diálogos em cadeira vazia. O objetivo é tirar a carga emocional congelada no passado. Quando processamos essas dores antigas, elas deixam de ser “feridas abertas” que doem com qualquer toque e viram “cicatrizes”. A cicatriz é a marca da história, mas ela não dói mais. Você lembra, mas não revive.
Ao ressignificar, deixamos de exigir que o parceiro atual pague a dívida dos nossos pais ou ex-parceiros. Limpamos a lente dos óculos. Começamos a ver o outro como um ser humano real, com suas próprias falhas e qualidades, e não como um personagem do nosso drama interno. Isso abre espaço para a empatia e para o amor adulto, que aceita o outro sem tentar moldá-lo às nossas carências.
Construção de novos comportamentos[4][5][6][8]
Insight sem ação é apenas filosofia. A terapia precisa desembocar em mudanças práticas no dia a dia. Esta é a fase de “treinamento”. Definimos pequenos passos para quebrar o padrão. Se o seu padrão é se calar e fugir do conflito, o desafio da semana pode ser expressar uma pequena insatisfação. Se o padrão é o ciúme, o desafio pode ser não checar o celular do parceiro mesmo com vontade.
Aqui, celebramos as pequenas vitórias. Aprender a tolerar o desconforto de agir diferente é como ir à academia: no começo dói, os músculos tremem, mas com o tempo você ganha força. O terapeuta atua como um treinador, encorajando e ajustando a estratégia quando algo não sai como esperado.
Construir novos comportamentos também significa aprender a escolher melhor. Definimos quais são os “inegociáveis” para você em uma relação. Aprendemos a identificar “bandeiras vermelhas” logo no início e, o mais importante, a ter a coragem de ir embora quando a relação não é saudável.[9] É a construção da autoestima na prática: “Eu me amo o suficiente para não aceitar menos do que respeito e reciprocidade”.
Terapias Indicadas[5][9][15]
Para encerrar nossa conversa, quero que você saiba que existem ferramentas específicas e muito potentes para ajudar nesse processo. Embora a “terapia de fala” tradicional seja útil, algumas abordagens são especialmente eficazes para quebrar padrões repetitivos:
Terapia do Esquema: Como mencionei, essa abordagem foca diretamente na identificação e tratamento dos esquemas formados na infância. Ela utiliza técnicas vivenciais para “reparentalizar” a criança interior, suprindo emocionalmente o que faltou lá atrás. É altamente indicada para quem sente que seus problemas são profundos e recorrentes.[5]
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Focada no aqui e agora, a TCC é excelente para identificar crenças limitantes e distorções cognitivas. Ela oferece ferramentas práticas para testar a realidade (“Será que ele não respondeu porque não me ama ou porque está ocupado?”) e alterar comportamentos disfuncionais.[6][10]
Constelação Familiar / Terapia Sistêmica: Essa abordagem olha para o indivíduo como parte de um sistema maior.[5][9] Muitas vezes, repetimos padrões por lealdade inconsciente aos nossos ancestrais (“Eu sou infeliz no amor como minha mãe foi, para pertencer a esta família”). A visão sistêmica ajuda a desemaranhar esses nós e permite que você ocupe o seu próprio lugar na vida, livre de destinos que não são seus.
Psicanálise: Para quem busca uma compreensão profunda das raízes inconscientes e da compulsão à repetição.[1][2][4][7] É um processo de longo prazo que visa reestruturar a personalidade através da fala livre e da análise da transferência (a relação com o terapeuta).
Não importa qual caminho você escolha, o importante é começar. Você não precisa carregar o peso dos seus padrões para sempre. Existe uma vida amorosa leve, madura e feliz esperando por você do outro lado da terapia. Dê esse passo por você.
Referências
- Busin, Yuri. Por que repetimos os mesmos padrões nos relacionamentos?. Disponível em: yuribusin.com.br
- CNN Brasil.[11] Por que repetimos padrões ruins em relacionamentos?. Disponível em: cnnbrasil.com.br
- Instituto Labinas. Por Que Repito os Mesmos Padrões nos Relacionamentos?. Disponível em: institutolabinas.com.br
- Young, Jeffrey E., et al. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras. Artmed.
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