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Transtornos

Psicodiagnóstico: o que é, como funciona, quanto custa e por que pode mudar sua vida

Psicodiagnóstico: o que é, como funciona, quanto custa e por que pode mudar sua vida

Um guia completo e honesto, escrito para você entender de verdade esse processo.

O psicodiagnóstico é, na minha opinião, uma das ferramentas mais poderosas e ainda pouco compreendidas dentro do universo da psicologia. Muita gente chega ao consultório sem saber direito o que esperar, com aquela mistura de curiosidade e receio que a gente conhece bem. Se você está aqui tentando entender o que é essa avaliação, como ela funciona na prática, quanto vai custar e se vale mesmo a pena para você, chegou ao lugar certo. Vamos conversar sobre isso com calma, sem termos complicados e com bastante honestidade.

01O que é psicodiagnóstico e por que ele existe

A origem do termo e seu significado real

Você provavelmente já ouviu falar em diagnóstico médico, certo? O psicodiagnóstico funciona de maneira parecida, só que o foco não é o corpo, é a mente. O termo foi usado pela primeira vez por Hermann Rorschach em 1921, o mesmo psicólogo suíço que criou aquele famoso teste das manchas de tinta. Desde então, o conceito cresceu e hoje abrange um conjunto estruturado de procedimentos que busca entender como você pensa, sente e se comporta.

Na prática, o psicodiagnóstico é uma avaliação psicológica feita com propósitos clínicos. Ele não é uma conversa informal nem uma simples aplicação de questionários. É um processo científico, com início, meio e fim, que usa técnicas específicas para mapear seu funcionamento emocional, cognitivo e comportamental. O objetivo não é te rotular. É te conhecer com mais profundidade para que o tratamento seja mais certeiro e eficaz.

Quando uma pessoa chega com queixas como ansiedade intensa, dificuldade de concentração, humor instável ou relacionamentos que não funcionam, o psicodiagnóstico ajuda a psicóloga a entender o que está por trás dessas queixas. É a diferença entre dar um remédio para a dor sem saber de onde ela vem e investigar a causa real para tratar o problema de fato.

Como o psicodiagnóstico se diferencia da terapia

Essa é uma dúvida que aparece com frequência aqui no consultório: “Mas isso é a mesma coisa que fazer terapia?” A resposta curta é não, mas a história completa é mais interessante. O psicodiagnóstico é uma avaliação. A terapia é um processo de tratamento. Eles podem acontecer com a mesma profissional, mas têm objetivos diferentes.

Na terapia, você trabalha questões emocionais ao longo do tempo, constrói novas formas de pensar e agir, processa experiências difíceis. No psicodiagnóstico, a psicóloga está investigando, coletando dados, aplicando técnicas e analisando resultados para chegar a uma compreensão mais completa de quem você é e do que está acontecendo com você. Pense assim: o psicodiagnóstico é o mapa, e a terapia é a jornada.

Em muitos casos, o psicodiagnóstico precede a terapia. Ele indica qual abordagem terapêutica faz mais sentido para o seu caso específico, se há necessidade de encaminhamento para psiquiatria, se existe algum transtorno que precisa de atenção especializada. Mas há também o chamado psicodiagnóstico interventivo, que já tem efeito terapêutico durante o próprio processo de avaliação, porque o paciente começa a se compreender melhor enquanto responde às perguntas e realiza os testes.

Quem pode fazer o psicodiagnóstico

Aqui é importante ser direta: o psicodiagnóstico é de aplicação exclusiva de psicólogos. Isso não é burocracia, é proteção sua. A aplicação e interpretação dos instrumentos psicológicos exige formação específica e, em muitos casos, pós-graduação na área de avaliação psicológica. O Conselho Federal de Psicologia regulamenta isso por meio de resoluções que garantem padrões éticos e científicos no processo.

Portanto, se alguém que não é psicólogo propõe fazer uma avaliação do seu perfil psicológico usando testes clínicos, cuidado. Isso não é psicodiagnóstico, é algo que não tem respaldo legal nem científico. A profissional precisa ter registro ativo no Conselho Regional de Psicologia e, idealmente, especialização em avaliação psicológica.

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Outro ponto que vale destacar: o plano de avaliação nunca é padrão para todo mundo. Cada pessoa tem uma história, uma queixa e um contexto diferente. A psicóloga monta o conjunto de instrumentos que vai usar levando em conta exatamente o que você trouxe na sua demanda inicial. Isso faz toda a diferença na qualidade e na precisão dos resultados.

  • Psicodiagnóstico é uma avaliação psicológica clínica, não uma terapia
  • Foi criado por Hermann Rorschach em 1921 e evoluiu muito desde então
  • É exclusivo de psicólogos com formação adequada
  • Serve para mapear o funcionamento emocional, cognitivo e comportamental
  • Pode preceder a terapia ou ser interventivo (com efeito terapêutico durante o processo)

02Como o psicodiagnóstico é feito na prática

A entrevista inicial: onde tudo começa

O primeiro contato, chamado de entrevista de triagem ou anamnese, é o momento em que você e a psicóloga se conhecem de verdade. Não é uma sessão de terapia e também não é um interrogatório. É uma conversa estruturada onde a profissional vai escutar sua queixa principal, entender seu histórico de vida, sua história familiar, seus relacionamentos, suas experiências significativas. É como se ela estivesse montando o contexto antes de olhar os detalhes.

Nessa fase, a psicóloga também observa como você se comporta, como você fala, como você lida com as perguntas, se há sinais de ansiedade, de defesa, de abertura. Tudo isso é informação. A entrevista inicial é, muitas vezes, a etapa mais rica do psicodiagnóstico, porque é onde aparecem as nuances que nenhum teste consegue capturar com a mesma profundidade.

Após essa primeira conversa, a psicóloga já começa a formular hipóteses. Não diagnósticos ainda, mas caminhos possíveis. Será que o que está acontecendo tem relação com depressão? Com um transtorno de ansiedade? Com dificuldades de aprendizagem? Com traços de personalidade específicos? Essas hipóteses vão guiar a escolha dos instrumentos que serão aplicados nas sessões seguintes.

Os testes psicológicos e instrumentos utilizados

Aqui é onde muita gente fica curiosa, e com razão. Existem dezenas de instrumentos que podem ser usados em um psicodiagnóstico, e a escolha depende totalmente da sua demanda. Os mais conhecidos são os testes de personalidade, como o Rorschach (aquele das manchas de tinta) e o TAT. Mas há também testes cognitivos, como o WAIS para adultos e o WISC para crianças e adolescentes, que avaliam inteligência, memória, atenção e raciocínio.

Além dos testes formais, a psicóloga pode usar técnicas projetivas, como pedir para você fazer um desenho ou contar uma história a partir de uma imagem. Essas técnicas acessam conteúdos que às vezes você nem consegue verbalizar, coisas que estão no fundo do seu funcionamento psíquico sem que você tenha consciência delas. Não é mágica, é metodologia científica aplicada com sensibilidade clínica.

Questionários e escalas também entram no processo. Instrumentos como o BDI (para depressão), o BAI (para ansiedade) e escalas de personalidade como o MMPI trazem dados quantitativos que complementam as observações qualitativas da psicóloga. A combinação de múltiplos instrumentos é o que garante a consistência e a validade do resultado final. Nenhum teste isolado é capaz de dar uma resposta completa.

A devolutiva: o momento mais importante

Depois de aplicar os instrumentos e analisar os dados, a psicóloga prepara a devolutiva. Esse é o momento em que ela vai te apresentar os resultados, explicar o que foi encontrado, o que isso significa na prática e quais são as recomendações. A devolutiva não é a leitura fria de um relatório. É uma conversa, uma troca, um espaço onde você pode perguntar, questionar, entender.

Um bom relatório de psicodiagnóstico não te coloca numa caixa. Ele descreve como você funciona, quais são seus recursos psicológicos, onde estão suas vulnerabilidades, o que pode estar gerando sofrimento e o que pode ser fortalecido. É um documento sobre você, escrito para te ajudar, e não para te definir de forma rígida e permanente.

Muitas pessoas saem da devolutiva com uma sensação de alívio enorme. Saber que o que você sente tem nome, que tem explicação, que existe caminho de cuidado, é algo profundamente libertador. Outras saem com o coração mais pesado, porque o que foi encontrado traz responsabilidades novas. De qualquer forma, a devolutiva deve ser feita com cuidado, respeito e ética, garantindo que você tenha todas as informações necessárias para seguir em frente.

  • O processo começa com a entrevista de anamnese, que mapeia história e queixa
  • Testes cognitivos avaliam inteligência, memória, atenção e raciocínio
  • Técnicas projetivas acessam conteúdos inconscientes de forma indireta
  • A combinação de vários instrumentos garante maior precisão
  • A devolutiva é a conversa final onde os resultados são apresentados com cuidado

03Quando você deveria considerar fazer um psicodiagnóstico

Sinais em adultos que indicam a necessidade de avaliação

Tem situações em que a gente sente que algo está errado, mas não consegue nomear o quê. Você acorda cansado sem dormir mal, sente uma tristeza que não tem causa aparente, tem crises de choro que te surpreendem, ou percebe que sua raiva está fora de proporção com o que aconteceu. Esses são sinais de que seu sistema emocional está mandando um recado que merece atenção.

Outros indicativos comuns em adultos incluem dificuldades recorrentes nos relacionamentos afetivos ou profissionais, sensação persistente de que você não consegue avançar na vida, comportamentos repetitivos que você mesmo reconhece como problemáticos mas não consegue mudar, pensamentos intrusivos, dificuldade de concentração que afeta seu trabalho ou estudo, ou episódios de despersonalização, quando você sente que está fora do seu próprio corpo.

Também vale considerar o psicodiagnóstico quando você está prestes a iniciar um processo terapêutico longo e quer entrar nele com clareza sobre quais são suas demandas reais. Muitas vezes a queixa que a pessoa traz não é a queixa principal. O psicodiagnóstico ajuda a encontrar o que está realmente no centro do sofrimento, o que torna a terapia muito mais eficiente desde o começo.

O psicodiagnóstico infantil: quando os pais precisam ouvir

Quando uma criança começa a apresentar dificuldades na escola, brigas frequentes com colegas, choros sem motivo aparente, recusa em ir à escola, dificuldades de aprendizagem, hiperatividade ou retraimento excessivo, os pais muitas vezes ficam sem saber o que fazer. O psicodiagnóstico infantil existe exatamente para isso: entender o que está acontecendo com a criança de uma forma que respeite seu momento de desenvolvimento.

Com crianças, o processo é bem diferente de um adulto. A psicóloga usa técnicas lúdicas, jogos, desenhos, brincadeiras, porque é através do brincar que a criança se expressa. Ela não vai sentar numa cadeira e responder perguntas como um adulto faria. Mas o que emerge nesse espaço lúdico é extremamente rico e revela muito sobre o mundo interno da criança.

O psicodiagnóstico infantil também envolve os pais de forma ativa. As entrevistas com os responsáveis são fundamentais, e em muitos casos a escola também é contatada. Isso porque o comportamento da criança em casa pode ser bem diferente do comportamento na escola, e essas diferenças dizem muito. Ao final, as recomendações são pensadas para todo o sistema ao redor da criança, e não só para ela.

Contextos menos óbvios que também se beneficiam

O psicodiagnóstico não é apenas para quem está em crise ou com sofrimento evidente. Existe uma demanda crescente por avaliações em contextos de orientação vocacional e profissional, onde jovens e adultos querem entender melhor seus talentos, suas limitações, seus padrões de tomada de decisão antes de fazer escolhas importantes de carreira.

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No contexto jurídico, o psicodiagnóstico é usado em processos de guarda, adoção e avaliação de capacidade civil, entre outros. Na área educacional, auxilia na identificação de transtornos de aprendizagem e na elaboração de estratégias de ensino personalizadas. Na psicologia do trânsito, é parte do processo de avaliação para carteira de habilitação em categorias especiais.

Há também pessoas que buscam o psicodiagnóstico por uma motivação que eu acho muito bonita: simplesmente querer se conhecer melhor. Sem uma crise aparente, sem um transtorno evidente, mas com uma curiosidade genuína sobre seus próprios padrões. Essa é uma das formas mais saudáveis de usar essa ferramenta, como um investimento em autoconhecimento.

  • Sintomas emocionais persistentes em adultos são uma indicação clara
  • Dificuldades escolares, sociais e comportamentais em crianças pedem avaliação
  • O processo infantil usa técnicas lúdicas e envolve a família
  • Contextos jurídicos, educacionais e vocacionais também usam psicodiagnóstico
  • Buscar autoconhecimento sem estar em crise é igualmente válido

04Benefícios, limitações e quanto custa o psicodiagnóstico

O que você ganha com um psicodiagnóstico bem feito

O benefício mais imediato é a clareza. Quando você passa por um psicodiagnóstico bem conduzido, sai sabendo muito mais sobre si mesmo do que quando entrou. Isso não é uma afirmação poética, é algo que acontece concretamente no consultório. Padrões que você repetia sem entender o motivo ganham explicação. Medos que pareciam irracionais se revelam como respostas a experiências passadas. Relacionamentos que nunca funcionaram passam a fazer mais sentido dentro de um contexto mais amplo.

Outro benefício direto é a personalização do tratamento. Com as informações do psicodiagnóstico em mãos, a psicóloga consegue construir um plano terapêutico muito mais adequado à sua realidade. Em vez de usar uma abordagem genérica, ela vai trabalhar com o que você realmente precisa, potencializando os resultados da terapia. Isso economiza tempo, dinheiro e sofrimento desnecessário.

O psicodiagnóstico também tem um papel importante na desestigmatização dos transtornos mentais. Quando uma pessoa recebe um diagnóstico de TDAH, depressão ou transtorno de ansiedade, isso não é uma sentença. É uma informação que abre portas: para o tratamento adequado, para a compreensão de pessoas próximas, para adaptações no trabalho ou na escola, para a autocompaixão. Saber que o que você sente tem uma explicação é, muitas vezes, o primeiro passo para parar de se culpar pelo sofrimento.

Limitações que você precisa conhecer antes de começar

Seria desonesto da minha parte não falar sobre as limitações. Nenhuma ferramenta clínica é perfeita, e o psicodiagnóstico não é exceção. Uma das limitações mais importantes é que a interpretação dos instrumentos pode variar entre profissionais. Dois psicólogos aplicando os mesmos testes podem chegar a conclusões com ênfases diferentes, o que reforça a importância de buscar profissionais bem formados e com experiência comprovada na área.

O estigma em torno da saúde mental pode dificultar o processo. Se a pessoa chega com resistência, com medo de ser julgada ou rotulada, ela pode não se abrir completamente nas entrevistas, o que compromete a qualidade dos dados coletados. A relação de confiança com a psicóloga é fundamental para que o psicodiagnóstico funcione de verdade. Sem abertura, os resultados ficam incompletos.

Também existe a questão do acesso. O psicodiagnóstico pode ser caro se custeado de forma privada, e nem todos os planos de saúde cobrem o processo completo. Em serviços públicos, a espera pode ser longa e os recursos são limitados. Essas são barreiras reais que afetam principalmente populações mais vulneráveis, e que o sistema de saúde mental ainda precisa resolver com mais urgência.

O valor do psicodiagnóstico: o que esperar financeiramente

Essa pergunta aparece muito e faz todo o sentido. O valor do psicodiagnóstico varia bastante dependendo da região do Brasil, da experiência da profissional, dos instrumentos utilizados e do número de sessões necessárias. Em geral, o processo completo envolve entre 5 e 10 encontros, o que já dá uma ideia do investimento envolvido.

Nos grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, o valor por sessão de avaliação pode variar entre R$150 e R$400, dependendo da profissional e do contexto. O custo total de um psicodiagnóstico completo, incluindo a devolutiva e o relatório, pode ficar entre R$1.000 e R$4.000. Isso pode parecer muito, mas quando comparado ao custo de um tratamento inadequado ou de anos em terapia sem direcionamento claro, o investimento se justifica.

Algumas alternativas de acesso incluem os serviços-escola das universidades de psicologia, onde alunos em formação avançada realizam avaliações supervisionadas por professores experientes a custos muito mais acessíveis ou gratuitamente. O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e o NASF também podem oferecer avaliações psicológicas na rede pública, embora a disponibilidade varie muito por município.

  • O principal benefício é a clareza sobre si mesmo e o direcionamento do tratamento
  • A personalização terapêutica pós-diagnóstico reduz tempo e custo do tratamento
  • Limitações incluem variação na interpretação e barreiras de acesso
  • O custo varia entre R$1.000 e R$4.000 no setor privado
  • Serviços-escola e CAPS oferecem alternativas acessíveis

05Tipos de psicodiagnóstico e abordagens contemporâneas

Psicodiagnóstico compreensivo versus interventivo

No modelo tradicional, que chamamos de psicodiagnóstico compreensivo, a avaliação é um processo separado do tratamento. A psicóloga avalia, conclui, entrega o relatório e depois o paciente pode ou não iniciar um processo terapêutico. Esse modelo ainda é bastante utilizado e tem sua validade, especialmente em contextos onde o objetivo é uma avaliação formal para fins judiciais, educacionais ou médicos.

Como estabelecer regras claras para evitar atritos por redes sociais
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Já o psicodiagnóstico interventivo parte de uma premissa diferente: o processo de avaliação em si já é terapêutico. Desenvolvida a partir das ideias de Winnicott e posteriormente elaborada por pesquisadoras brasileiras como Ocampo e Arzeno, essa abordagem entende que quando o paciente está sendo ouvido, quando as perguntas certas são feitas, quando ele começa a refletir sobre seus próprios padrões, algo já está mudando. O diagnóstico e o tratamento se entrelaçam desde o início.

Essa abordagem interventiva tem sido cada vez mais valorizada porque respeita a subjetividade do paciente, cria uma relação mais colaborativa entre psicóloga e cliente, e muitas vezes produz efeitos terapêuticos significativos em curto prazo. Para quem está em sofrimento agudo e precisa de resultado rápido, essa pode ser uma estratégia muito mais humanizada e eficaz.

O psicodiagnóstico nas diferentes abordagens teóricas

A psicologia não é uma área uniforme. Existem diversas abordagens teóricas, cada uma com sua forma de compreender o ser humano e, consequentemente, sua maneira de conduzir o psicodiagnóstico. Na abordagem psicanalítica, o foco está nos processos inconscientes, nas dinâmicas internas, nos conflitos psíquicos que não são acessíveis pela consciência direta. Os instrumentos projetivos têm um papel central aqui.

Na psicologia cognitivo-comportamental, o psicodiagnóstico tende a ser mais focado em comportamentos observáveis, padrões de pensamento disfuncionais e respostas emocionais. Os instrumentos são mais estruturados, as escalas mais objetivas, e o objetivo é mapear de forma precisa os esquemas cognitivos e os gatilhos comportamentais que mantêm o sofrimento.

A neuropsicologia traz uma perspectiva adicional importante, especialmente nos casos onde há suspeita de comprometimento neurológico, como após um AVC, em casos de TDAH, autismo ou demências. Nesses casos, os testes cognitivos ganham ainda mais relevância, avaliando funções como memória, atenção, linguagem e funções executivas de forma muito detalhada. Cada abordagem contribui com um ângulo diferente e, muitas vezes, a integração de perspectivas é o que produz o diagnóstico mais completo.

Tendências atuais e o psicodiagnóstico online

A pandemia de Covid-19 acelerou uma transformação que já estava acontecendo: a digitalização dos serviços de saúde mental. O Conselho Federal de Psicologia regulamentou a realização de parte do psicodiagnóstico em formato remoto, e isso trouxe tanto oportunidades quanto desafios novos para a prática clínica.

As entrevistas, as devolutivas e alguns questionários podem ser realizados com qualidade em formato online por videochamada. No entanto, os testes que exigem observação de comportamento motor, tarefas práticas com materiais físicos e avaliação de aspectos como lateralidade e motricidade ainda precisam ser feitos presencialmente. Ou seja, o formato híbrido é frequentemente o mais adequado.

Confiança Traz Paz ao Casal
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Outra tendência importante é a discussão crescente sobre a padronização dos instrumentos para populações diversas. Muitos testes psicológicos foram desenvolvidos com base em amostras de populações específicas, geralmente brancas e de classe média. Há um movimento robusto dentro da psicologia brasileira para rever essas normas e criar instrumentos que reflitam melhor a diversidade cultural, racial e socioeconômica do Brasil, garantindo diagnósticos mais justos e precisos para todos.

  • O modelo compreensivo separa avaliação do tratamento; o interventivo os une
  • Cada abordagem teórica conduz o psicodiagnóstico com instrumentos e focos diferentes
  • A neuropsicologia foca em funções cognitivas em casos de comprometimento neurológico
  • O formato online é permitido para parte do processo, mas não para tudo
  • Há demanda crescente por instrumentos padronizados para populações diversas

Exercícios para aprofundar o aprendizado

Dois exercícios práticos para você fixar o que aprendeu e já começar a se observar com mais cuidado.

Exercício 1: Mapeando suas queixas

Pegue um papel e uma caneta, ou abra o bloco de notas do seu celular. Reserve 15 minutos sem distrações. Escreva as respostas para estas perguntas, sem filtrar ou julgar o que vai aparecer:

1. Quais são as três situações recorrentes na sua vida que mais te causam sofrimento ou frustração? Descreva cada uma em três frases.

2. Esses padrões aparecem em mais de uma área da sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde, finanças)? Se sim, anote em quais.

3. Há quanto tempo esses padrões existem? Você consegue lembrar quando começaram?

4. Já buscou ajuda para algum deles? Se sim, o que funcionou ou não funcionou?

Resposta e ReflexãoAo terminar esse exercício, você provavelmente vai perceber que seus sofrimentos não são aleatórios. Eles formam padrões. E padrões têm história, têm explicação, têm ponto de origem. Esse mapeamento é exatamente o tipo de material que você levaria para uma primeira entrevista de psicodiagnóstico. A psicóloga vai usar essas informações para começar a formular hipóteses sobre o que está acontecendo com você. Se ao escrever surgir algo que te surpreendeu ou te tocou profundamente, anote isso separado. Muitas vezes, o que nos surpreende é o que mais precisa de atenção.

Exercício 2: Reconhecendo recursos e vulnerabilidades

Esse exercício tem duas partes. Na primeira, escreva cinco características suas que você considera pontos fortes. Não precisa ser grandiosa: pode ser “sou persistente”, “me importo com as pessoas”, “consigo me organizar bem sob pressão”. O que for verdadeiro para você.

Na segunda parte, escreva três áreas onde você reconhece que tem mais dificuldade. Não estou falando de defeitos no sentido de julgamento moral, mas de padrões que te atrapalham: “tenho dificuldade de estabelecer limites”, “evito conflito até o ponto de explodir”, “começo muita coisa e não termino”.

Depois de escrever as duas listas, olhe para elas juntas e responda: existe alguma relação entre seus pontos fortes e suas dificuldades? Muitas vezes, a mesma característica que é recurso num contexto se torna vulnerabilidade em outro.

Resposta e ReflexãoO psicodiagnóstico tem exatamente esse objetivo: identificar forças e fraquezas no funcionamento psicológico, como definiu a pesquisadora Jurema Cunha. Quando você já chegou ao consultório com essa autopercepção desenvolvida, o processo é mais rico e mais rápido. A relação entre recursos e vulnerabilidades é uma das mais fascinantes na psicologia clínica: a pessoa que é extremamente empática muitas vezes tem dificuldade de colocar suas próprias necessidades primeiro; a pessoa altamente organizada pode ter dificuldade com o imprevisível. Perceber isso em você mesmo é o início de um autoconhecimento que vai além de qualquer teste.

+Tabela comparativa: principais aspectos do psicodiagnóstico

AspectoPsicodiagnóstico CompreensivoPsicodiagnóstico InterventivoAvaliação NeuropsicológicaAvaliação Psicológica Geral
Objetivo principalDiagnóstico formal e relatórioDiagnóstico + efeito terapêuticoAvaliar funções cognitivasCompreensão ampla do funcionamento
Quem realizaPsicólogo especializadoPsicólogo clínico treinadoNeuropsicólogoPsicólogo (diversos contextos)
Instrumentos típicosRorschach, WAIS, MMPI, TATEntrevistas, hora lúdica, projetivosWISC, WAIS, testes de memória e atençãoVariados, conforme objetivo
Número de sessões5 a 10 sessões5 a 8 sessões8 a 12 sessões2 a 5 sessões
Resultado entregueLaudo/relatório formalDevolutiva + orientaçõesRelatório neuropsicológico detalhadoParecer ou devolutiva oral
Contexto de usoClínico, jurídico, educacionalClínico, terapêuticoNeurológico, reabilitação, educacionalSeleção, orientação, clínico
Custo estimado (privado)R$1.500 a R$4.000R$1.000 a R$3.500R$2.000 a R$5.000R$500 a R$2.000
Foco teórico predominantePsicanálise e psicometriaPsicanálise relacionalNeurociências e cogniçãoVariado
Indicado paraDiagnósticos formais, laudosSofrimento emocional, autoconhecimentoTDAH, AVC, autismo, demênciasSeleção profissional, orientação
Disponível no SUSParcialmente (CAPS)ParcialmenteMuito limitadoSim, em alguns serviços

O psicodiagnóstico não é o fim de um caminho. É o começo de um entendimento mais honesto sobre você mesmo e sobre o que você precisa para viver melhor.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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