A exaustão de tentar ser perfeita para os outros o tempo todo

A exaustão de tentar ser perfeita para os outros o tempo todo

O peso invisível da armadura perfeita

A origem da necessidade de agradar

Muitas vezes, quando nos sentamos para conversar no consultório virtual, percebo que a exaustão que você sente não vem do trabalho braçal ou das horas de sono perdidas, mas de uma bagagem antiga que você carrega. Essa necessidade incessante de agradar e de ser perfeita geralmente não começou ontem; ela tem raízes profundas na nossa história, muitas vezes lá na infância.[2][9] Talvez você tenha sido aquela criança que recebia amor condicional, onde o afeto e a atenção vinham apenas quando você tirava notas altas, era obediente ou não dava trabalho. Aprendemos cedo que “ser boa” é a moeda de troca para “ser amada”, e essa equação perigosa nos segue até a vida adulta.[8]

Ao crescer com essa programação, o cérebro entende que qualquer falha, qualquer deslize ou qualquer momento em que desagradamos alguém é uma ameaça real à nossa segurança emocional. Você passa a escanear o ambiente constantemente, tentando prever o que os outros esperam de você antes mesmo que eles peçam, numa tentativa desesperada de garantir seu lugar no grupo. É cansativo porque é um trabalho de tempo integral: monitorar as expectativas alheias e moldar sua personalidade para caber nelas, como se a sua existência só tivesse validade se for útil ou agradável para o outro.[4]

Entender essa origem é o primeiro passo para soltar o peso.[3] Não é que você “nasceu assim” ou que há algo de errado na sua essência.[4] O que aconteceu foi uma estratégia de sobrevivência que funcionou quando você era pequena e dependente, mas que agora, como adulta, se tornou uma armadilha. Você não precisa mais performar para garantir seu jantar ou seu teto, mas o seu sistema emocional ainda reage como se precisasse. Reconhecer que esse comportamento foi aprendido nos dá a esperança real e concreta de que ele pode ser desaprendido, abrindo espaço para uma forma de se relacionar mais leve e autêntica.

Quando o elogio vira uma prisão[7]

É curioso como algo aparentemente positivo, como um elogio, pode se tornar uma das correntes mais pesadas que carregamos. Quando você constrói uma identidade baseada em ser a “resolutiva”, a “forte”, a “perfeita” ou a “que nunca falha”, cada elogio reforça essa estrutura rígida. Você ouve “nossa, não sei como você dá conta de tudo” e, em vez de se sentir bem, sente um frio na barriga, porque agora a barra subiu mais um pouco. O elogio deixa de ser um reconhecimento e passa a ser uma meta mínima para o dia seguinte, criando um ciclo vicioso onde você precisa correr cada vez mais rápido apenas para permanecer no mesmo lugar de aprovação.

Essa dinâmica transforma a sua vida em uma performance constante, onde não há espaço para o erro, para o cansaço ou para a humanidade. Você se torna refém da imagem que criou. Se todos te veem como a pessoa que nunca precisa de ajuda, pedir auxílio soa como uma confissão de fracasso. Se todos te elogiam por ser calma e compreensiva, expressar raiva ou frustração parece proibido. A prisão do elogio é solitária porque as pessoas amam a personagem que você montou, mas raramente conhecem a pessoa exausta que vive nos bastidores, sustentando as cordas dessa marionete impecável.

Precisamos começar a questionar o valor desses elogios que nos desumanizam. Será que vale a pena ser admirada por “aguentar tudo” se o preço é não sentir nada além de cansaço? A liberdade começa quando paramos de trabalhar pelo aplauso e começamos a trabalhar pela nossa saúde mental. Isso pode significar desapontar a plateia momentaneamente ao dizer “hoje não consigo”, mas é o único caminho para sair dessa prisão dourada e reencontrar quem você é quando ninguém está olhando e aplaudindo.

A diferença entre excelência e perfeccionismo[1][3][4][7][8][11][12]

Vamos esclarecer uma confusão muito comum que vejo todos os dias: achar que perfeccionismo é o mesmo que buscar excelência. Não são a mesma coisa, e entender a diferença pode salvar sua sanidade.[11] A busca pela excelência é interna; é sobre você querer fazer o seu melhor, aprender, crescer e sentir orgulho do seu esforço. Ela é focada no processo e permite erros, pois entende que falhas são degraus de aprendizado. A excelência é motivada pelo entusiasmo e pelo desejo de evolução pessoal.

Já o perfeccionismo, esse que te deixa exausta, é focado externamente. Ele não é sobre fazer bem feito; é sobre não ser criticada. O perfeccionismo é um escudo de vinte toneladas que arrastamos na esperança de que, se fizermos tudo certo, não seremos julgadas, rejeitadas ou envergonhadas. A motivação do perfeccionismo não é a qualidade do trabalho, mas o medo da vergonha. Enquanto a excelência diz “fiz o meu melhor e estou satisfeita”, o perfeccionismo diz “o que será que eles vão pensar disso?”.

Essa distinção é crucial porque nos permite continuar sendo competentes e dedicadas sem a neurose da perfeição. Você pode entregar um projeto excelente no trabalho e ainda assim ter erros de digitação num e-mail informal. Você pode ser uma mãe ou pai excelente e, ainda assim, pedir pizza porque está cansada demais para cozinhar. A excelência é flexível e respira; o perfeccionismo é rígido e sufocante.[1] Mudar a chave mental de “preciso ser perfeita para ser aceita” para “quero fazer um bom trabalho porque isso me realiza” tira o peso do julgamento alheio das suas costas.

Sinais de que você está vivendo para a plateia

O medo paralisante de dizer não[7][13]

Você conhece bem aquela pausa angustiante antes de responder a um pedido. Alguém te pede um favor, algo que você não tem tempo, vontade ou energia para fazer, e seu corpo inteiro grita “NÃO”. Mas, o que sai da sua boca é um “claro, sem problemas”. Esse medo paralisante de dizer não é um dos sintomas mais clássicos de quem vive tentando manter uma imagem imaculada. Por trás desse “sim” automático, existe um terror profundo de que, ao negar algo, você deixará de ser útil e, consequentemente, deixará de ser importante ou amada por aquela pessoa.

O problema é que cada “sim” que você diz para os outros quando queria dizer “não” é um “não” que você diz para si mesma. Você diz não para o seu descanso, não para o seu tempo de lazer, não para a sua saúde mental. Com o tempo, essa incapacidade de estabelecer limites cria uma agenda lotada de compromissos que não refletem seus desejos, mas sim as demandas do mundo. Você se torna uma coadjuvante na própria vida, reagindo às solicitações alheias em vez de agir conforme suas próprias prioridades.

Aprender a dizer não não é sobre ser egoísta ou grosseira; é sobre honestidade relacional. Quando você diz sim querendo dizer não, está oferecendo uma ajuda ressentida, uma presença pela metade. As pessoas ao seu redor, aquelas que realmente te valorizam, preferem sua honestidade do que sua exaustão. O medo de que o outro vá embora se você impuser um limite é, na maioria das vezes, uma projeção da sua insegurança.[2] Relações saudáveis não apenas sobrevivem aos “nãos”, elas se fortalecem com eles, pois o respeito mútuo pelos limites é a base de qualquer conexão verdadeira.

A validação externa como única fonte de energia

Imagine que sua autoestima é um balde furado. Você passa o dia inteiro correndo para enchê-lo com a aprovação dos outros: um “obrigado” do chefe, um like na foto, um comentário sobre como você é prestativa. Por um momento, o balde enche e você se sente bem, sente que tem valor. Mas, como o balde está furado — ou seja, você não tem validação interna —, essa energia vaza rapidamente. Minutos ou horas depois, você se sente vazia novamente e precisa correr atrás de mais aprovação para se sentir estável. Isso é viver à base de validação externa.[3]

Viver assim é estar numa montanha-russa emocional constante, onde seu humor e sua sensação de valor dependem inteiramente de fatores que você não controla. Se alguém te trata mal ou ignora seu esforço, seu dia acaba, e você questiona sua competência inteira.[4] Você entregou as chaves da sua estabilidade emocional na mão de terceiros, deixando que o humor do seu parceiro, a pressa do seu chefe ou a indiferença de um amigo ditem como você se sente sobre si mesma. É uma forma de viver extremamente vulnerável e cansativa.

O processo de terapia muitas vezes foca em tapar os furos desse balde. Precisamos construir uma fonte interna de validação, onde você saiba o seu valor independentemente de aplausos ou críticas. É aprender a se parabenizar, a reconhecer seu esforço e a se acolher nos dias difíceis, sem esperar que o mundo faça isso por você. Quando a sua fonte de energia vem de dentro, a aprovação externa se torna algo bom de ter, mas não algo vital para sua sobrevivência. Você deixa de ser uma pedinte de afeto para ser a proprietária da sua autoestima.

O corpo fala: sintomas físicos da performance constante[7][11]

A mente pode tentar se enganar dizendo que “está tudo bem” e que “é só mais uma semana cheia”, mas o corpo não sabe mentir. A exaustão de tentar ser perfeita tem um custo biológico altíssimo. O estado de alerta constante — essa vigilância para não errar e para agradar a todos — mantém seu sistema nervoso simpático ativado o tempo todo. É como se você estivesse fugindo de um leão 24 horas por dia. O resultado disso é uma inundação de cortisol e adrenalina que, a longo prazo, corrói sua saúde física.

Você pode começar a notar sintomas que parecem desconectados, mas que são gritos do seu corpo pedindo uma trégua. O bruxismo que tritura seus dentes à noite, a gastrite que ataca sempre que há um conflito, as dores de cabeça tensionais que aparecem no fim do dia, ou aquela insônia onde você fica repassando todas as conversas que teve para garantir que não disse nada “errado”. Essas não são apenas coincidências médicas; são manifestações somáticas da pressão que você exerce sobre si mesma para manter a máscara da perfeição.[4][11]

Ignorar esses sinais é perigoso.[12] Muitas vezes, só paramos quando o corpo entra em colapso, seja através de uma crise de pânico, uma enxaqueca incapacitante ou uma doença autoimune que se agrava com o estresse. Olhar para esses sintomas com carinho e não como “falhas” do seu corpo é essencial. Seu corpo está tentando te proteger, te avisando que o ritmo está insustentável. A cura começa quando passamos a ouvir esses sinais como um convite para desacelerar e para baixar a guarda, entendendo que nenhuma aprovação externa vale a sua integridade física.

O custo emocional de nunca tirar a máscara

A solidão de não ser visto de verdade

Existe uma solidão muito específica e dolorosa que atinge quem tenta ser perfeito: a solidão de estar rodeado de gente, mas sentir que ninguém te conhece de verdade. Quando você passa a vida mostrando apenas a sua versão editada, polida e agradável, as pessoas se conectam com essa imagem, não com você. Elas amam a “você” que resolve problemas, que nunca reclama, que está sempre sorrindo. Mas e a “você” que chora no chuveiro? E a “você” que tem medos, inseguranças e dias de mau humor? Essa parte fica escondida, trancada a sete chaves.

Essa dinâmica cria um abismo intransponível. Mesmo quando recebe amor e carinho, você não consegue absorvê-lo totalmente, porque uma voz lá no fundo sussurra: “Se eles soubessem quem eu sou de verdade, se vissem a bagunça que está aqui dentro, não gostariam de mim”. Você se sente uma fraude, um impostor na própria vida, sempre com medo de ser descoberta. É exaustivo manter uma personagem, e é profundamente triste perceber que, ao tentar garantir o amor de todos sendo perfeita, você acabou se isolando em uma torre de marfim onde ninguém consegue entrar.

Quebrar essa solidão exige coragem para mostrar as rachaduras. A verdadeira conexão humana acontece na vulnerabilidade, não na perfeição. Nós nos conectamos com as histórias de superação, com as falhas engraçadas, com as dores compartilhadas. Ao esconder suas imperfeições, você está, ironicamente, escondendo as partes mais humanas e relacionáveis de si mesma. Permitir ser vista, com defeitos e tudo, é o único jeito de sentir que o amor que recebemos é real e direcionado a nós, e não à máscara que vestimos.

Ressentimento silencioso contra quem você ajuda

Este é um ponto delicado, mas precisamos falar sobre ele: a raiva secreta. Quando você se doa demais, ultrapassando seus limites para agradar e ser perfeita, você inevitavelmente começa a criar um “banco de horas” emocional. Você faz tudo pelo marido, pelos filhos, pelo chefe, pelos amigos. E, lá no fundo, espera que eles reconheçam esse sacrifício e retribuam na mesma moeda, ou pelo menos que percebam o quanto você está sofrendo. Mas, como você faz tudo sorrindo e sem pedir nada, eles assumem que você está feliz fazendo aquilo.

Isso gera um ressentimento silencioso e corrosivo. Você começa a se irritar com as pessoas que ama. Pensa coisas como “ninguém faz nada por mim”, “será que eles não veem que estou cansada?”, “eu tenho que pensar em tudo sozinha”. Essa raiva é o resultado direto da sua falta de limites. As pessoas não têm bola de cristal; se você oferece disponibilidade total, elas vão aceitar. O ressentimento é o sinal vermelho da sua psique avisando que você está dando mais do que pode e recebendo menos do que precisa.

O perigo desse ressentimento é que ele vaza. Ele sai em forma de respostas atravessadas, de uma ironia amarga, de uma frieza repentina ou de uma explosão desproporcional por um motivo banal. E então, a culpa vem em dobro, porque a “mulher perfeita” não deveria sentir raiva. Reconhecer esse sentimento não faz de você uma pessoa má; faz de você uma pessoa que precisa desesperadamente renegociar os contratos das suas relações. É preciso transformar essa raiva passiva em comunicação ativa e assertiva.

Burnout afetivo e exaustão mental

O destino final dessa estrada de perfeccionismo e agradabilidade compulsiva é o burnout. E não estou falando apenas do burnout profissional, mas de um burnout afetivo e existencial. Chega um momento em que a alma simplesmente não tem mais combustível.[9] Você acorda e a sensação é de um peso esmagador, uma apatia onde nada mais parece ter cor ou sabor. As coisas que antes você fazia com prazer para agradar, agora parecem obrigações torturantes. A bateria social pifa e a vontade é de se esconder numa caverna e não falar com ninguém por um mês.

Essa exaustão mental é caracterizada por uma névoa cognitiva — dificuldade de concentração, esquecimentos, indecisão. É o cérebro entrando em modo de economia de energia após anos operando em superaquecimento. Emocionalmente, você pode se sentir anestesiada ou, pelo contrário, ter uma labilidade emocional onde chora por comerciais de margarina. É o colapso da estrutura que você manteve rígida por tanto tempo. A armadura ficou pesada demais e, finalmente, você caiu de joelhos.

Embora assustador, esse ponto de quebra pode ser um momento decisivo de cura. É o momento em que a vida te obriga a parar porque você não quis parar por vontade própria. É o ultimato do seu organismo dizendo “não dá mais para viver assim”. Muitas mulheres chegam à terapia nesse estado, achando que quebraram de vez, mas na verdade, é apenas o fim da personagem e o começo, doloroso mas necessário, do resgate da própria vida. O burnout é o grito final por autenticidade.

Reconstruindo a identidade além da aprovação[2][4]

Identificando seus próprios valores versus valores herdados[4]

Se eu te perguntasse agora quem você é, tirando os papéis que você desempenha (mãe, esposa, profissional, filha), o que sobraria? Para quem passou a vida tentando agradar, essa pergunta é aterrorizante. Muitas vezes, você perseguiu metas que nem eram suas: o casamento “certo”, a carreira “estável”, a casa “arrumada”. Você seguiu um script escrito pela sociedade ou pela sua família, acreditando que a felicidade estaria no final desse arco-íris de conformidade. Mas a felicidade não está lá, porque esses valores não são seus.

O processo de reconstrução começa com uma investigação quase arqueológica. Precisamos escavar sob as camadas de “deverias” para encontrar o que realmente faz seus olhos brilharem. O que você valoriza? É liberdade? É criatividade? É tranquilidade? Talvez você descubra que odeia organizar festas, embora faça as melhores festas da família. Talvez descubra que prefere uma vida simples no campo a uma carreira corporativa de sucesso. Separar o que você quer do que você aprendeu que deveria querer é libertador.

Quando você começa a alinhar suas ações com seus valores reais, e não com a expectativa alheia, a exaustão diminui. Viver a sua verdade requer menos energia do que sustentar uma mentira. É claro que isso pode gerar atritos, pois as pessoas ao seu redor estão acostumadas com a sua versão antiga. Mas a paz de deitar a cabeça no travesseiro sabendo que você viveu o seu dia, e não o dia que os outros queriam que você vivesse, é impagável. É o retorno para casa, para dentro de si mesma.

A arte de decepcionar os outros para não se decepcionar

Aqui está uma verdade dura, mas necessária: você não vai conseguir se curar da exaustão sem decepcionar algumas pessoas. É matematicamente impossível priorizar a si mesma e continuar atendendo a todas as demandas externas com a mesma intensidade de antes. Aprender a decepcionar os outros é uma habilidade de vida essencial. É entender que a decepção do outro é responsabilidade do outro, não sua. Se alguém fica chateado porque você não pôde emprestar dinheiro ou porque não foi ao evento, essa é uma emoção que eles precisam gerenciar.

Nós temos um pavor quase fóbico de decepcionar, como se fôssemos causar um dano irreparável. Mas a realidade é que as pessoas são mais resilientes do que imaginamos. Elas superam. O mundo não acaba porque você disse não. Ao contrário, ao começar a decepcionar os outros em pequenas doses — não atendendo o telefone na hora do jantar, não se voluntariando para a tarefa extra —, você está, na verdade, parando de se decepcionar. Você está honrando o compromisso mais importante da sua vida: aquele que você tem com o seu bem-estar.

Troque a culpa pela responsabilidade. A culpa diz “fiz algo errado ao priorizar meu descanso”. A responsabilidade diz “eu sou responsável pela minha saúde mental, e isso exige escolhas difíceis”. Pratique a “decepção benevolente”. Decepcione as expectativas irreais que colocaram sobre você para que você possa surpreender a si mesma com uma vida mais leve, íntegra e verdadeira.

Aceitando a vulnerabilidade como força e não fraqueza

Fomos treinadas para ver a vulnerabilidade como um defeito, uma rachadura na armadura que pode ser usada pelos inimigos. Mas na terapia, e na vida, descobrimos que a vulnerabilidade é, na verdade, nossa maior força. É preciso ser muito forte para dizer “eu não sei”, “estou com medo”, “eu errei” ou “preciso de ajuda”. A perfeição é frágil; qualquer toque a quebra. A vulnerabilidade é flexível; ela nos permite dobrar sem quebrar, cair e levantar.

Aceitar a vulnerabilidade significa aposentar a super-mulher. Significa que você pode ter dias ruins e isso não anula o seu valor. Significa que você pode ter dúvidas e isso não anula sua competência. Quando você se permite ser vulnerável, você dá permissão implícita para que todos ao seu redor também baixem suas guardas. Isso cria ambientes mais seguros, famílias mais unidas e amizades mais profundas. A tensão de ter que manter a aparência se dissipa, dando lugar ao relaxamento de simplesmente ser.

Comece a praticar a vulnerabilidade em ambientes seguros. Conte sobre um fracasso para uma amiga querida. Admita o cansaço para o seu parceiro sem se justificar. Chore se tiver vontade, sem pedir desculpas. Cada ato de vulnerabilidade é um tijolo a menos no muro que te separa do mundo e um passo a mais em direção à sua humanidade plena. A perfeição é uma estátua de mármore: fria e intocável. A vulnerabilidade é pele, sangue e vida.

Estratégias práticas para o dia a dia

Pequenos exercícios de imperfeição proposital

Para combater o perfeccionismo, precisamos de algo que na psicologia chamamos de “exposição”. Precisamos nos expor ao nosso maior medo: a imperfeição, e ver que o mundo não acaba. Eu costumo recomendar “exercícios de imperfeição proposital”. São pequenas ações deliberadas para quebrar o padrão rígido do seu cérebro. Por exemplo, envie um e-mail informal para uma amiga sem reler três vezes, talvez até deixando passar um erro de digitação propositalmente. Ou convide alguém para ir à sua casa quando ela não estiver 100% arrumada, com alguma louça na pia ou brinquedos no chão.

A ideia é gerar uma pequena dose de ansiedade e ficar com ela, observando-a diminuir sozinha sem que você precise “consertar” a situação. Saia de casa sem maquiagem para ir à padaria. Deixe uma tarefa não urgente incompleta propositalmente no fim do dia e vá descansar. O objetivo é treinar o seu cérebro para entender que “feito é melhor que perfeito” e que as catástrofes que você imagina (ser rejeitada, ser humilhada) não acontecem de fato quando você é imperfeita.

Com o tempo, esses pequenos atos de rebeldia contra a perfeição vão afrouxando as correntes.[4][8] Você começa a perceber que as pessoas nem notam os detalhes que te tiram o sono. Você descobre que a louça na pia não afasta os amigos verdadeiros. Esses exercícios devolvem a proporção correta das coisas: a vida é suja, caótica e imperfeita, e tentar higienizá-la o tempo todo é uma batalha perdida. Abrace o caos controlado e veja sua liberdade aumentar.

Scripts mentais para impor limites sem culpa

Muitas vezes, sabemos que precisamos dizer não, mas travamos na hora do “como”. Nos falta vocabulário, pois nossa linguagem padrão é a da submissão e da agradabilidade. Ter “scripts” prontos, frases que você ensaia e tem na manga, ajuda muito a reduzir a ansiedade no momento do confronto. Você não precisa inventar uma desculpa elaborada na hora; você só precisa acessar seu banco de dados de limites.

Por exemplo, experimente a técnica do “sanduíche”: Elogio + Não + Agradecimento. “Fico muito honrada que você pensou em mim para esse projeto (Elogio), mas no momento não tenho disponibilidade na agenda para me dedicar como ele merece (Não). Obrigada por entender (Agradecimento/Fechamento)”. Outra frase poderosa para ganhar tempo: “Preciso checar minha agenda e meus níveis de energia antes de te responder. Te retorno amanhã”. Isso evita o “sim” automático e te dá tempo de pensar racionalmente.

E lembre-se: “Não” é uma frase completa. Você não precisa justificar, explicar ou dar desculpas. “Não poderei ir” é suficiente. Quanto mais você explica, mais abre brechas para o outro tentar te convencer. Pratique esses scripts na frente do espelho. Sinta como as palavras soam na sua boca. No começo vai parecer artificial e você vai sentir o coração disparar, mas com a prática, impor limites se tornará tão natural quanto dar bom dia. É uma questão de treino muscular emocional.

O detox da comparação nas redes sociais

Não podemos falar de perfeccionismo hoje sem falar das telas que carregamos no bolso. As redes sociais são vitrines de curadoria extrema, onde todos mostram apenas seus melhores ângulos, suas conquistas e seus momentos felizes. Para uma mente perfeccionista, isso é veneno puro. Você compara os seus bastidores caóticos, com roupa suja e choro, com o palco iluminado da vizinha virtual. Essa comparação é desleal e alimenta a sensação de insuficiência constante.

A estratégia aqui é fazer uma limpa radical no seu feed. Siga a regra: se esse perfil me faz sentir ansiosa, “menos” ou inadequada, eu paro de seguir ou silencio. Não importa se é uma amiga, uma blogueira famosa ou um familiar. Seu feed deve ser um lugar de inspiração e conexão, não de tortura. Comece a seguir pessoas que mostram a vida real, que falam de fracassos, que mostram a pele sem filtro e a casa bagunçada. Diversifique as vozes que você consome.

Além disso, estabeleça limites físicos com o celular. Não comece o dia rolando o feed e vendo a vida perfeita dos outros antes mesmo de escovar os dentes. Isso já seta o seu cérebro para o modo de falta e comparação. Tente ficar as primeiras e as últimas horas do dia desconectada. Volte a olhar para a sua própria vida, para o seu café da manhã real, para as pessoas reais à sua frente. A vida acontece fora da tela, e é lá que você precisa ser “boa o suficiente”, não no Instagram.


Análise: Como a terapia online aborda essa questão

Ao lidar com a exaustão do perfeccionismo e a necessidade de aprovação, a terapia online oferece um espaço seguro e acessível para desconstruir esses padrões. Algumas abordagens se destacam nesse tratamento:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): É extremamente eficaz para identificar as “crenças centrais” (como “só sou amada se for perfeita”) e os “pensamentos automáticos” que geram ansiedade. O terapeuta trabalha com o paciente para desafiar a validade desses pensamentos e criar experimentos comportamentais (como os exercícios de imperfeição) para testar novas formas de agir.
  • Terapia do Esquema: Foca em entender as necessidades emocionais não atendidas na infância e como elas formaram “esquemas” (padrões rígidos). Para quem sofre da “síndrome da boazinha”, essa abordagem ajuda a acolher a criança interior vulnerável e a fortalecer o modo “adulto saudável”, ensinando a pessoa a suprir suas próprias necessidades emocionais.[8]
  • Psicanálise: Oferece um espaço para investigar o desejo inconsciente por trás da perfeição. Por que preciso tanto desse olhar do outro? Qual falta estou tentando preencher? A fala livre permite que o sujeito se escute e perceba que está vivendo o desejo do Outro, abrindo caminho para a construção de um desejo próprio.

A terapia online, especificamente, tem a vantagem de permitir que o paciente faça esse trabalho no seu próprio ambiente, muitas vezes facilitando a vulnerabilidade por estar em um local seguro fisicamente. Além disso, a flexibilidade ajuda a combater a ideia de que a terapia é “mais uma obrigação” na agenda lotada, tornando-se um momento de pausa e autocuidado real.

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