O direito ao lazer: como encontrar grupos de apoio e atividades inclusivas
Família e Maternidade

O direito ao lazer: como encontrar grupos de apoio e atividades inclusivas

O direito ao lazer é um dos direitos sociais mais ignorados e ao mesmo tempo mais necessários para a saúde humana. Está escrito na Constituição Federal de 1988, no artigo 6º, ao lado de saúde, educação e moradia. Está reafirmado na Lei Brasileira de Inclusão, no artigo 42, que garante especificamente o acesso de pessoas com deficiência à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades. Mas entre o que está escrito na lei e o que acontece na vida real de milhões de brasileiros, existe um abismo que a teoria jurídica sozinha não consegue fechar.

Se você já se sentiu culpado por querer descansar, se já adiou o lazer porque parecia frescura diante de tantas obrigações, se já deixou de sair porque o lugar não era acessível, se já desistiu de uma atividade porque não encontrou companhia ou estrutura, esse artigo foi escrito para você. Não como um manual de regras, mas como uma conversa honesta sobre o que o lazer faz pela sua mente, pelo seu corpo e pelos seus vínculos, e sobre como encontrar caminhos reais para exercer esse direito que é seu, independentemente da sua condição física, econômica ou social.

Vamos com calma, mas vamos.


1. O lazer não é luxo, é direito — e isso está escrito na lei

1.1 O que a Constituição e a LBI garantem na prática

A Constituição Federal brasileira de 1988 foi pioneira ao incluir o lazer entre os direitos sociais fundamentais. Isso significa que o Estado tem a obrigação de garantir condições para que todos os cidadãos possam acessar momentos de descanso, recreação, cultura e entretenimento. Não é uma cortesia. É uma obrigação legal do poder público, tão séria quanto garantir acesso à saúde ou à educação.

Para pessoas com deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão, a Lei 13.146 de 2015, foi ainda mais longe. O artigo 42 estabelece que a pessoa com deficiência tem direito à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. O artigo 43 determina que o poder público deve promover a participação de pessoas com deficiência em atividades artísticas, intelectuais, culturais, esportivas e recreativas. O artigo 44 obriga teatros, cinemas, estádios e locais de espetáculos a reservarem espaços e assentos acessíveis. E o artigo 45 exige que hotéis e meios de hospedagem sejam construídos com princípios de desenho universal.

Saber que esses direitos existem é importante porque muda a forma como você pode se posicionar diante de um espaço inacessível, de um evento sem audiodescrição, de um parque sem rampa. Você não está pedindo um favor. Você está exigindo o cumprimento de uma lei. E essa distinção, pequena no papel, é enorme na prática. Quando você sabe que está no seu direito, a abordagem muda. A postura muda. E muitas vezes o resultado também muda.

1.2 Por que esse direito ainda parece um privilégio para tantas pessoas

Apesar de todo o arcabouço legal, a realidade é que o lazer ainda é vivido como privilégio por uma parcela enorme da população brasileira. Pessoas com deficiência, pessoas de baixa renda, cuidadores sobrecarregados, trabalhadores em regime de jornada excessiva, moradores de periferias sem equipamentos públicos de qualidade, idosos sem transporte adequado. Para todos eles, o lazer que a lei garante existe no papel, mas não no bairro onde moram, não no ônibus que não tem plataforma acessível, não no cinema que só reservou dois assentos para cadeirantes numa fileira sem visibilidade.

A advogada e ativista Maria do Amparo Pereira Lopes, que é pessoa com deficiência, descreveu com muita precisão esse descompasso: espaços culturais inacessíveis, ausência de transporte adaptado nos fins de semana e barreiras atitudinais ainda afastam muitos brasileiros do lazer digno. Ela não está falando de casos isolados. Ela está descrevendo uma estrutura que precisa mudar, mas que só muda quando as pessoas afetadas por ela conhecem seus direitos, se organizam em grupos e pressionam por mudanças.

Além disso, existe uma cultura profunda de desvalorização do descanso no Brasil. Uma herança de uma sociedade que historicamente associou o ócio à preguiça e o trabalho ininterrupto à virtude. Essa cultura faz com que muitas pessoas, especialmente mulheres e cuidadores, sintam culpa quando tentam ter tempo para si. Como se dedicar tempo ao próprio bem-estar fosse um desvio de rota, e não exatamente o que sustenta a capacidade de continuar cuidando e produzindo. Esse equívoco precisa ser nomeado para poder ser desconstruído.

1.3 O que acontece com a saúde mental de quem não descansa

A ciência não tem dúvidas sobre isso: o lazer não é opcional para a saúde mental. É estrutural. Quando o ser humano não tem acesso a períodos genuínos de descanso e prazer, o organismo entra em um estado de alerta crônico que tem consequências diretas no funcionamento do sistema nervoso, do sistema imunológico e da saúde emocional. Ansiedade, depressão, burnout, irritabilidade, dificuldade de concentração e de memória, todos esses quadros têm na privação de descanso e lazer um fator de risco importante.

Os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning descreveram o lazer como uma necessidade de “quebra da rotina” que funciona como equilíbrio necessário para a saúde mental e o bem-estar. Em sociedades modernas altamente normativas e rotineiras, onde a maioria das atividades do dia segue um script previsível, o lazer é o único espaço onde as emoções podem se mover com mais liberdade, onde a criatividade pode aparecer, onde o corpo e a mente encontram renovação. Sem esse espaço, a pessoa vai se esgotando de dentro para fora, muitas vezes sem perceber até que o sinal de alarme já chegou em formato de crise.

Para pessoas com deficiência ou com condições crônicas de saúde, esse esgotamento pode ser ainda mais acelerado, porque a rotina de cuidados, de tratamentos, de adaptações e de luta por direitos já consome uma energia enorme. O lazer, nesse contexto, não é um extra. É uma necessidade terapêutica. É o que recarrega o sistema para continuar.


2. As barreiras que ninguém está vendo (mas todo mundo sente)

2.1 A barreira física que fecha a porta antes de você chegar

Imagine planejar uma tarde de cinema com a família. Você pesquisa o horário, escolhe o filme, organiza o transporte, chega ao shopping e descobre que a rampa de acesso ao cinema está bloqueada por uma exposição temporária. Ou que os assentos reservados para cadeirantes ficam na fileira mais lateral, de onde a tela praticamente não se vê. Ou que o banheiro adaptado está sendo usado como depósito. Essa não é uma situação inventada. É o relato cotidiano de milhões de famílias brasileiras que incluem pessoas com deficiência.

A barreira física é a mais visível das barreiras ao lazer inclusivo, mas também a que com maior frequência é tratada como um detalhe sem importância por quem não a enfrenta. Calçadas quebradas que impedem o deslocamento até o ponto de ônibus. Piscinas sem elevadores de acesso. Parques sem brinquedos adaptados. Museus com escadas e sem plataformas. Teatros com audiodescrição disponível apenas em determinados dias da semana, sem divulgação adequada. Cada uma dessas barreiras fisicamente pequena se traduz em uma exclusão enorme para a pessoa que depende de acessibilidade para participar.

O movimento LIA, Lazer, Inclusão e Acessibilidade, nasceu exatamente dessa realidade. Fundado em Curitiba por mães de crianças com deficiência que cansaram de encontrar parques inacessíveis, o movimento cresceu para mais de 40 cidades e 18 estados, reunindo famílias, voluntários e profissionais em torno de uma causa simples e urgente: crianças com deficiência têm o direito de brincar nos mesmos parques que todas as outras crianças. Não em parques especiais, separados. Nos mesmos. Porque inclusão não é ter um espaço à parte. É fazer parte do mesmo espaço.

2.2 A barreira atitudinal: o preconceito que ninguém admite ter

A barreira física é concreta, pode ser fotografada, pode ser denunciada ao Ministério Público, pode ser cobrada judicialmente. A barreira atitudinal é mais escorregadia, porque existe nos olhares, nos comentários, nas suposições e nas expectativas que as pessoas fazem sobre o que alguém com deficiência ou com alguma diferença pode ou não pode, quer ou não quer, merece ou não merece.

É o atendente que fala com o acompanhante em vez de falar com a pessoa com deficiência. É a família que decide não levar o filho autista ao cinema porque “vai incomodar as outras pessoas”. É a turma que não convida a colega cadeirante para o passeio porque “seria difícil demais para ela.” É o capacitismo, o preconceito contra pessoas com deficiência ou com condições que fogem ao padrão de funcionamento esperado, que atua de forma silenciosa e constante, impedindo que essas pessoas sequer expressem o desejo de participar.

Esse tipo de barreira é especialmente grave porque internamente ela se instala. A pessoa que foi repetidamente excluída começa a se autoexcluir. Deixa de pedir para ir junto. Deixa de expressar preferências. Deixa de ocupar espaços que são seus por direito porque aprendeu, através de repetidas experiências de rejeição ou de invisibilidade, que sua presença naqueles espaços é problemática. Combater a barreira atitudinal começa por nomear o capacitismo quando ele aparece, no ambiente de quem convive e de quem é afetado por ele.

2.3 A barreira econômica e o lazer que só existe para quem pode pagar

Uma das realidades mais cruas sobre o lazer no Brasil é que boa parte das opções disponíveis e acessíveis estruturalmente tem custo. E esse custo, para famílias de baixa renda que incluem pessoas com deficiência, frequentemente não cabe no orçamento. A consulta, a fralda, o remédio, o transporte até o centro de reabilitação já comprometem boa parte do que entra. O ingresso do teatro, a mensalidade da natação adaptada, a aula de musicoterapia ficam para quando sobrar. E raramente sobra.

O lazer público e gratuito, que deveria existir em parques, praças, bibliotecas e centros culturais acessíveis em todos os bairros, ainda é distribuído de forma profundamente desigual nas cidades brasileiras. Os bairros mais ricos concentram mais equipamentos públicos de qualidade, mais áreas verdes, mais espaços de convivência. Os bairros periféricos, onde mora a maior parte das famílias em situação de vulnerabilidade, têm menos estrutura, menos segurança e menos opções.

Isso não significa que não há caminhos. Significa que é preciso conhecer os que existem, reivindicar os que faltam, e usar a criatividade e o coletivo para criar aquilo que nenhum equipamento público ainda oferece na sua realidade. Grupos de famílias que se revezam para criar experiências de lazer inclusivo em casa, no condomínio, na praça do bairro. Redes de apoio mútuo que trocam informações sobre programações gratuitas e acessíveis na cidade. Coletivos que organizam passeios e atividades com baixo custo e alto cuidado. Essas iniciativas existem, crescem e fazem diferença.


3. Atividades inclusivas que existem e que muita gente não conhece

3.1 Esportes adaptados: muito além da cadeira de rodas

Quando se fala em esporte adaptado, a maioria das pessoas pensa em paraolimpíadas, em cadeira de rodas, em atletas de alto rendimento com condições de deficiência específicas. Mas o universo dos esportes adaptados é muito mais amplo e muito mais acessível do que essa imagem sugere. E o esporte adaptado não é só para quem quer competir. É para quem quer se mover, socializar, cuidar do corpo e encontrar prazer no movimento.

O futebol de 5, modalidade adaptada para pessoas com deficiência visual, usa uma bola com guizos internos para que os jogadores a localizem pelo som. O goalball é um esporte criado especificamente para essa população, com regras próprias e uma lógica de jogo que desafia a percepção espacial e a coordenação de forma fascinante. A natação adaptada acolhe pessoas com os mais variados tipos de deficiência, com profissionais treinados para adaptar técnicas e equipamentos. O vôlei sentado, o atletismo com guias, o tênis em cadeira de rodas, o ciclismo tandem com um guia para pessoas com deficiência visual, todas essas modalidades existem, têm clubes, têm federações, têm comunidades ativas e muitas delas têm acesso gratuito ou subsidiado por programas governamentais e por ONGs.

A ONG AdaptSurf, por exemplo, criada em 2007, possibilita o acesso ao surf para pessoas com deficiência, com cadeiras adaptadas, esteiras na areia, instrutores especializados e uma rede de voluntários que torna a experiência do mar acessível a quem raramente tem essa oportunidade. Projetos como esse mudam vidas, não só pela atividade em si, mas pelo que ela representa: o direito de experienciar o prazer, o risco calculado, a conquista, a conexão com o ambiente natural. Nada disso é reservado a quem não tem deficiência.

3.2 Cultura, arte e entretenimento acessíveis

O acesso à cultura é um dos aspectos mais subestimados do lazer inclusivo, e também um dos que mais impactam a qualidade de vida e o desenvolvimento cognitivo e emocional. Cinema com audiodescrição e legendas para pessoas surdas. Teatro com tradução em Libras e peças com versões com linguagem adaptada. Museus com exposições táteis, onde obras podem ser tocadas, e com visitas guiadas com descrições detalhadas para pessoas com deficiência visual. Bibliotecas com acervos em Braille e em formatos digitais acessíveis. Festivais com intérpretes de Libras em todos os palcos. Essas ferramentas existem e crescem no Brasil, embora ainda de forma desigual e insuficiente.

A tecnologia assistiva tem ampliado esse universo de forma acelerada. Aplicativos de leitura de tela, ferramentas de realidade aumentada em museus, plataformas de streaming com recursos de acessibilidade integrados, audioguias em museus, legendas automáticas de qualidade crescente. Tudo isso significa que o acesso à cultura para pessoas com deficiência sensorial tem hoje recursos que não existiam há dez anos. O desafio é que muita gente ainda não sabe que esses recursos existem, e muitas instituições culturais ainda não os implementaram de forma consistente.

Vale pesquisar especificamente as programações acessíveis de museus, teatros e cinemas na sua cidade. Muitos equipamentos culturais públicos têm, ao menos mensalmente, sessões com recursos de acessibilidade. Organizações como a Retina Brasil e grupos de defesa de direitos de pessoas com deficiência frequentemente divulgam essas programações. Estar conectado a essas redes é uma forma prática de não perder as oportunidades que já existem.

3.3 Lazer comunitário e atividades de baixo custo com alto impacto

Nem todo lazer precisa de ingresso, de equipamento especial, de deslocamento longo ou de agendamento. Existe um universo de possibilidades de lazer comunitário e de baixo custo que muitas vezes é esquecido exatamente porque a cultura do consumo ensinou que diversão de qualidade precisa ser cara.

Grupos de caminhada acessível em parques públicos. Círculos de leitura adaptada em bibliotecas de bairro. Oficinas de artesanato, música e dança oferecidas por centros de convivência e Centros de Referência de Assistência Social, os CRAS, espalhados por todo o país. Festas comunitárias organizadas por associações de moradores. Piqueniques coletivos com famílias de crianças com deficiência, como os organizados pelo coletivo Mães T21 RN, que reúnem famílias, crianças e apoiadores em torno de musicoterapia, convivência e suporte mútuo. Essas experiências têm um valor que vai muito além do que qualquer análise de custo-benefício consegue capturar. Porque elas constroem pertencimento. E pertencimento é uma das necessidades humanas mais básicas e mais profundamente relacionadas ao bem-estar.

Olhar para o que existe perto de onde você mora, buscar no CRAS da sua cidade as programações disponíveis, se conectar com grupos de famílias com situações parecidas com a sua, essas são ações concretas que não custam nada e que podem abrir janelas de lazer que você talvez não soubesse que existiam.


4. Grupos de apoio: onde encontrar, como se aproximar e o que esperar

4.1 ONGs, coletivos e movimentos que fazem a diferença no Brasil

O Brasil tem uma rede de organizações da sociedade civil dedicadas ao lazer inclusivo e ao apoio a pessoas com deficiência e suas famílias que é muito mais robusta do que a maioria das pessoas imagina. A APAE, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, está presente em todo o país e oferece, além de atendimento especializado, oficinas artísticas, atividades esportivas e de lazer e eventos de convivência comunitária. O IBDD, Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência, atua em várias frentes, incluindo o acesso ao lazer como componente de qualidade de vida. A AMR, em Minas Gerais, oferece apoio à saúde, à reabilitação e à inclusão social em múltiplas dimensões.

O movimento LIA, já citado aqui, é um exemplo de como a organização de famílias pode gerar impacto em escala. Partindo de uma mãe em Curitiba que queria que a filha pudesse brincar no parque do bairro, o movimento cresceu para mais de 40 cidades e 18 estados, envolveu mais de 500 mil voluntários e impactou positivamente mais de 40 mil pessoas. Isso não surgiu de uma política pública. Surgiu da necessidade, da indignação transformada em ação e do poder do coletivo.

Para encontrar organizações na sua cidade, um bom ponto de partida é o CRAS do seu município, que costuma ter informações atualizadas sobre grupos e serviços disponíveis na região. Outra porta de entrada é o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, presente na maioria das capitais e de muitas cidades médias, que agrega informações sobre iniciativas locais. Procurar no Google pelo nome da sua deficiência ou condição específica junto à palavra “grupo” e à sua cidade frequentemente revela iniciativas locais que não têm grande visibilidade na mídia mas que existem e acolhem.

4.2 Grupos online: comunidade, informação e pertencimento

Uma das transformações mais significativas dos últimos anos para pessoas com deficiência e suas famílias foi a expansão das comunidades online. Grupos no Facebook, no WhatsApp, no Instagram, no Telegram e em fóruns especializados criaram redes de apoio que antes simplesmente não existiam para quem morava longe de grandes centros, para quem tinha dificuldade de locomoção ou para quem simplesmente não havia encontrado ainda outras pessoas na mesma situação.

Nesses grupos, circulam informações sobre atividades inclusivas, eventos acessíveis, recursos disponíveis, dicas práticas, indicações de profissionais, relatos de experiências e, acima de tudo, a sensação de não estar sozinho. Que para muitas famílias que lidam com deficiência ou com condições raras de saúde é uma das coisas mais valiosas que existe. A pesquisadora Maria Luísa Paes, da UFRN, que estuda a maternidade de mulheres com filhos com deficiência, identificou que a ausência de redes de apoio institucional é um dos principais desafios enfrentados por essas mães. Os grupos online, mesmo que imperfeitos e às vezes caóticos, preenchem parte desse vácuo.

Ao se aproximar de um grupo online, é razoável ter algumas expectativas calibradas. Grupos são feitos de pessoas, com suas limitações, seus momentos ruins e suas dinâmicas. Nem todo grupo vai ser o certo para você. Às vezes é preciso experimentar mais de um antes de encontrar uma comunidade onde a troca funciona de forma saudável. Mas quando se encontra, a diferença na qualidade de vida e no acesso à informação é notável.

4.3 Como criar um grupo de apoio quando o que você precisa não existe

Em muitas cidades, especialmente as menores, simplesmente não existem grupos organizados de suporte para determinadas situações. Não há um grupo de famílias de crianças autistas. Não há um coletivo de pessoas com deficiência visual interessadas em atividades de lazer. Não há uma rede de apoio para cuidadores. Nesses casos, a saída pode ser criar o que falta.

Criar um grupo de apoio não exige recurso financeiro, sede ou registro formal. Exige apenas que uma pessoa esteja disposta a ser o ponto de encontro inicial. Pode começar com uma mensagem num grupo de pais na escola: “Alguém mais tem filho com TEA e gostaria de marcar uma tarde de lazer?” Pode começar com um cartaz num centro de saúde. Pode começar numa conversa com a assistente social do CRAS da sua região. O começo pode ser pequeno. Um encontro, três pessoas, uma praça. O que importa é que o espaço seja criado.

Com o tempo, um grupo que começa pequeno pode crescer, pode formalizar-se como associação, pode captar recursos, pode influenciar políticas locais. O movimento LIA começou assim. O coletivo Mães T21 RN começou assim. A maioria das iniciativas transformadoras começa assim: de uma necessidade real, de uma pessoa que decidiu não esperar que outra pessoa resolvesse.


5. Como construir uma rotina de lazer que realmente funcione

5.1 Começar pequeno sem se sentir pequeno

Uma das armadilhas mais comuns quando se fala em incluir o lazer na rotina é a sensação de que, se não for algo grandioso, frequente e bem estruturado, não conta. Que um passeio de 20 minutos na praça não é suficiente. Que uma tarde por mês de atividade cultural não faz diferença. Que se não houver um programa regular e consistente, não vale a pena começar.

Vale. Qualquer início vale. Qualquer pequena ruptura na rotina de pressão e cuidado e responsabilidade que abre espaço para o prazer e o descanso já tem valor. A ciência do bem-estar mostra que micro-experiências positivas, pequenas mas genuínas, acumulam efeito. Uma xícara de café tomada em silêncio sem nenhuma tela por perto. Um jardim público frequentado no trajeto de volta para casa. Uma música favorita ouvida de propósito, do início ao fim, sem interrupção. Um livro aberto por quinze minutos antes de dormir. Esses momentos não são o substituto de um lazer mais amplo. Mas eles sustentam a saúde emocional enquanto esse lazer mais amplo está sendo construído.

Para famílias que incluem membros com deficiência, o início pode ser ainda mais gradual porque há questões práticas a resolver: acessibilidade do espaço, profissional de suporte, transporte, tempo. Isso não significa que deve ser adiado. Significa que pode ser planejado em etapas. A primeira etapa pode ser apenas pesquisar o que existe. A segunda, visitar um espaço. A terceira, fazer uma atividade uma vez. E assim por diante, sem pressa, mas sem parar.

5.2 Envolver a família sem sobrecarregar ninguém

O lazer inclusivo mais poderoso é aquele que não separa, que não exige que uma pessoa seja levada a um espaço especial enquanto as outras ficam em outro lugar. É o lazer que acontece junto, onde a atividade é pensada para que todos possam participar de alguma forma, no ritmo de cada um, com as adaptações necessárias sendo vistas como parte natural da experiência e não como complicações.

Envolver a família no lazer inclusivo começa por uma conversa sobre o que cada pessoa gosta e o que cada pessoa precisa para participar. Essa conversa pode ser surpreendente. Muitas vezes, os membros da família que precisam de adaptações têm preferências muito claras que nunca foram perguntadas. E quando são ouvidas, quando a atividade é planejada ao redor delas e não apesar delas, a experiência muda de qualidade para todos.

É importante também reconhecer os limites de quem cuida. Cuidadores que estão no limite do esgotamento não conseguem proporcionar experiências de lazer genuínas, porque estão apenas executando mais uma tarefa. O lazer da pessoa que é cuidada e o lazer do cuidador são igualmente necessários. Não precisam acontecer sempre juntos. O cuidador que tem seu próprio espaço de descanso e prazer tem mais energia, mais paciência e mais alegria para compartilhar. Isso não é egoísmo. É sustentabilidade do cuidado.

5.3 O lazer como prática de autocuidado e não como tarefa a cumprir

Aqui chegamos ao ponto mais importante de tudo: para que o lazer funcione como o instrumento de saúde que ele é, ele precisa deixar de ser uma obrigação e se tornar uma escolha genuína. Isso exige uma mudança interna que é, talvez, a mais difícil de todas.

Quando o lazer é vivido como mais uma tarefa da lista, com horário marcado, com a pressão de “aproveitar bem o tempo” e de fazer coisas “que valham a pena”, ele perde exatamente a função que deveria ter. O lazer que restaura é aquele que acontece de forma suficientemente livre para que o sistema nervoso entenda que não há nada para resolver, nenhuma entrega para fazer, nenhuma ameaça para gerenciar. Que é, simplesmente, um momento para estar.

Isso pode exigir prática. Pessoas que viveram muito tempo sem lazer, especialmente cuidadores e pessoas que estão em situação de vulnerabilidade há muito tempo, frequentemente não sabem mais o que as faz sentir prazer. Foram tantos anos no modo sobrevivência que o modo prazer ficou em standby. Nesses casos, o processo de reconectar com o lazer pode começar com uma pergunta simples: o que eu gostava de fazer quando era criança? O que me faz perder a noção do tempo? O que me faz sorrir sem precisar de razão? Essas respostas, pequenas que sejam, são o fio pelo qual se pode começar a tecer de volta uma vida que tem espaço para o prazer. E essa vida é um direito seu.


Exercícios para fixar o aprendizado


Exercício 1: O mapa do meu lazer

O que fazer:

Pegue uma folha em branco e divida-a em quatro colunas. Na primeira, escreva “O que eu gosto de fazer para me divertir ou descansar.” Na segunda, “O que impede que eu faça mais disso.” Na terceira, “O que poderia ajudar a remover ou reduzir esse impedimento.” Na quarta, “Um passo pequeno que eu poderia dar ainda essa semana.”

Não se apresse. Leve o tempo que precisar para preencher cada coluna com honestidade. Não precisa ser nada grandioso ou inspirador. Pode ser “gosto de sentar no sol por 15 minutos” ou “gosto de ouvir música alta sem fone.” O que importa é que seja verdadeiro.

Resposta esperada:

Esse exercício funciona porque torna concreto o que muitas vezes permanece como uma vaga sensação de que “a vida não tem espaço para lazer.” Ao mapear os impedimentos reais, fica mais fácil identificar quais são estruturais e precisam de apoio externo para ser resolvidos, e quais são internos, como a culpa, o hábito de priorizar tudo menos si mesmo, a crença de que descansar é improdutivo. As colunas 3 e 4 são as mais transformadoras porque tiram o lazer da esfera do desejo e colocam na esfera da ação. Um passo pequeno dado ainda essa semana muda a relação com o lazer de forma muito mais eficaz do que um planejamento grandioso que fica para depois.


Exercício 2: O encontro que você vai marcar

O que fazer:

Identifique uma atividade inclusiva, um evento, um grupo, uma organização ou uma iniciativa de lazer na sua cidade que você ainda não conhece. Pode ser o parque público mais próximo com estrutura acessível, pode ser um grupo online de famílias com a mesma condição que a sua, pode ser uma sessão de cinema com audiodescrição, pode ser uma atividade no CRAS do seu bairro.

Pesquise durante 15 minutos. Anote o que encontrou. Marque uma data específica, no calendário, com hora, para ir pela primeira vez ou para entrar em contato com esse grupo ou espaço. Não deixe como “em breve”. Coloque uma data real.

Resposta esperada:

A maioria das pessoas que diz que quer ter mais lazer inclusivo na vida não tem o hábito de pesquisar o que existe porque isso também dá trabalho. E esse trabalho, somado à falta de tempo e energia que muitos cuidadores e pessoas com deficiência já carregam, faz com que o lazer fique sempre adiado. Esse exercício quebra exatamente esse ciclo ao criar um compromisso concreto, com data e com um destino específico. Quinze minutos de pesquisa e uma data no calendário são suficientes para iniciar uma mudança de rotina que pode impactar diretamente o bem-estar de toda a família. O primeiro encontro pode ser curto, pode ser tímido, pode não ser perfeito. Mas o que ele faz é criar uma memória de que é possível. E memórias de que é possível são o que sustenta a persistência.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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