Como Criar uma Rede de Apoio Segura para sua Família
Família e Maternidade

Como Criar uma Rede de Apoio Segura para sua Família

Existe um provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. Essa frase, repetida em livros de parentalidade e rodas de conversa, carrega uma verdade que vai muito além da criação dos filhos. Ela aponta para algo que sociedades inteiras foram esquecendo ao longo das últimas décadas: nenhuma família sobrevive bem no isolamento. Criar uma rede de apoio segura para sua família não é luxo nem fraqueza. É um dos investimentos mais inteligentes e necessários que qualquer pessoa pode fazer pela saúde emocional, física e relacional de todo o núcleo familiar.

A vida moderna fez um trabalho cuidadoso de convencer as famílias de que deveriam dar conta de tudo sozinhas. Trabalho, filhos, casa, finanças, saúde mental, tudo organizado e resolvido internamente, sem precisar de ninguém. E o resultado disso está visível por toda parte: pais exaustos, mães sobrecarregadas, casais sem tempo um para o outro, crianças criadas sem referências adultas além dos próprios pais. A rede de apoio familiar é a resposta prática e humana a esse modelo que não funciona.


O que é uma rede de apoio e por que sua família precisa de uma

Uma rede de apoio familiar é o conjunto de pessoas, vínculos e recursos que uma família pode acionar quando precisar de ajuda, seja em momentos de crise ou nas demandas cotidianas que simplesmente não cabem apenas em dois ou três pares de mãos. Ela pode ser composta por avós, tios, amigos próximos, vizinhos, colegas de trabalho, membros de comunidades religiosas, profissionais de saúde, e até grupos online de famílias com experiências parecidas.

O que define se alguém faz parte da rede não é o grau de parentesco. É o grau de confiança. Você pode ter um irmão que mora a cinco quarteirões e que nunca está disponível quando você precisa, e um vizinho que está na porta em dez minutos quando a situação aperta. A rede é feita de presença real, não de obrigação familiar.

A ilusão da autossuficiência familiar

Durante muitos anos, o modelo de família nuclear, pai, mãe e filhos, funcionando como uma unidade autossuficiente, foi vendido como o ideal. Cada família no seu quadrado. Cada problema resolvido internamente. Pedir ajuda era interpretado como sinal de que algo estava errado, que os pais não estavam dando conta, que o casal não era capaz.

Esse modelo gerou um custo enorme. Pesquisas na área de saúde mental mostram que o isolamento social é um dos fatores de risco mais significativos para depressão, ansiedade e burnout parental. Não é coincidência que os índices de depressão pós-parto tenham aumentado justamente nas sociedades onde as famílias estão mais fragmentadas geograficamente e socialmente. Quando uma mãe não tem com quem dividir o peso das primeiras semanas com um bebê, o que deveria ser um momento de alegria vira uma prova de resistência que ela não pediu para fazer sozinha.

A autossuficiência familiar é uma ilusão porque vai contra a biologia e contra a história da espécie humana. Seres humanos são animais sociais. Sempre viveram em grupos. Sempre dividiram os cuidados com as crianças, a produção de alimentos, a proteção do território. A família nuclear isolada é um fenômeno muito recente, e está mostrando suas rachaduras de forma muito clara.

Rede informal e rede formal: dois pilares que se complementam

Quando se fala em rede de apoio, as pessoas costumam pensar imediatamente nas pessoas próximas: família, amigos, vizinhos. Essa é a chamada rede informal, e ela é o coração de qualquer sistema de suporte familiar. Ela oferece o tipo de apoio que não vem com horário marcado, que aparece com uma marmita na porta ou que fica com os filhos numa tarde de emergência.

Mas existe também a rede formal, formada por instituições e profissionais, como escolas, postos de saúde, creches, centros comunitários, psicólogos, pediatras, assistentes sociais, grupos de apoio organizados. Essa rede tende a entrar em cena conforme os filhos crescem e as demandas se tornam mais complexas. E ela é tão importante quanto a informal, especialmente para famílias que não têm uma rede informal robusta.

As duas redes se complementam. A rede informal oferece calor humano, presença, acolhimento emocional. A rede formal oferece estrutura, conhecimento técnico, continuidade. Uma família que tem as duas funcionando bem tem uma base muito mais sólida do que aquela que depende exclusivamente de uma delas. Entender que os dois pilares existem e que ambos merecem atenção é o primeiro passo para construir um sistema de suporte que realmente funcione.

O que acontece com as famílias que não têm esse suporte

Quando uma família não tem rede de apoio, o peso de tudo recai sobre uma ou duas pessoas. E esse peso, quando sustentado por tempo suficiente, produz consequências que vão muito além do cansaço. A sobrecarga crônica compromete a saúde mental dos cuidadores, reduz a qualidade do tempo que eles conseguem oferecer às crianças, e frequentemente gera conflitos no casal que têm mais a ver com esgotamento do que com incompatibilidade.

Crianças criadas sem a presença de outros adultos de referência além dos pais também perdem algo importante. Cada pessoa na vida de uma criança oferece um tipo diferente de conexão, de perspectiva, de modelo de mundo. Um avô que conta histórias, uma tia que tem um jeito diferente de resolver problemas, uma vizinha que trata a criança com carinho genuíno: cada uma dessas figuras contribui para a formação da identidade e da sensação de pertencimento da criança. Quando esses vínculos estão ausentes, a criança cresce com um repertório relacional mais estreito.

Do ponto de vista da saúde mental dos pais, a ausência de rede de apoio está diretamente associada ao aumento dos níveis de ansiedade e depressão. A sensação de que você está sozinho carregando algo que seria para muitos não é só emocional. Ela tem impacto fisiológico mensurável: eleva o cortisol, compromete o sono, reduz a capacidade de regulação emocional. Isso significa que pais sem rede de apoio não são apenas pais mais cansados. São pais com menos recursos internos para oferecer o que seus filhos precisam. E essa é a razão mais prática do mundo para levar a construção dessa rede a sério.


Por onde começar: mapeando quem já faz parte da sua rede

Antes de sair construindo novas conexões, vale parar e olhar para o que já existe. Muitas pessoas subestimam a rede que já têm, não porque ela seja inexistente, mas porque ela nunca foi claramente identificada e ativada. Existem pessoas ao seu redor que estariam dispostas a ajudar se você pedisse, mas que nunca foram chamadas porque você nunca perguntou.

Mapear a rede que já existe é o ponto de partida mais honesto. Não para julgar se ela é grande ou pequena o suficiente, mas para entender com o que você já conta, onde estão as lacunas, e onde estão os recursos que ainda não foram usados.

Como identificar suas conexões reais de confiança

Pense nas pessoas da sua vida e faça uma triagem honesta. Não estamos falando de quem você gosta, nem de quem você vê com frequência. Estamos falando de quem você chamaria se tivesse uma emergência às onze da noite. Quem você chamaria se precisasse que alguém ficasse com seus filhos sem aviso prévio? Quem você ligaria se estivesse num momento de crise emocional e precisasse de alguém que de fato ouvisse?

Essa triagem revela com clareza quem faz parte da rede real e quem está apenas no círculo social. E não tem problema se a lista for pequena. Uma rede de apoio de qualidade não precisa ser numerosa. Ela precisa ser confiável. Três pessoas que aparecem de verdade valem mais do que vinte que você teria vergonha de ligar.

O critério mais útil para identificar quem pertence à rede é a reciprocidade de confiança ao longo do tempo. Não uma ou duas vezes, mas de forma consistente. Pessoas que já estiveram presentes nos seus momentos difíceis, que mantiveram o que prometeram, que você sabe que não vão julgar nem falar para os outros o que você compartilhou. Esses vínculos de confiança real são os alicerces da rede.

A diferença entre ter muitos conhecidos e ter apoio verdadeiro

Vivemos na era das conexões. Centenas de contatos no celular, dezenas de amigos em redes sociais, grupos de WhatsApp que você nem lembra mais por que entrou. Essa abundância de contatos pode criar a ilusão de que você tem muita gente por perto. Mas quantidade de contatos e qualidade de apoio são coisas muito diferentes.

Um conhecido é alguém com quem você teria uma boa conversa num evento social, mas que você hesitaria em ligar num momento de dificuldade. Um apoio verdadeiro é alguém com quem você não precisaria explicar muito antes de pedir ajuda. Alguém que já te conhece bem o suficiente para entender o contexto, que você sabe que não vai usar sua vulnerabilidade de forma negativa depois, e com quem a relação tem história suficiente para sustentar a necessidade.

Reconhecer essa diferença é libertador. Quando você para de contar os conhecidos como se fossem rede de apoio, e começa a investir conscientemente nos vínculos que de fato têm profundidade, a sua vida relacional muda. Você gasta menos energia mantendo relações superficiais e mais energia nutrindo as que realmente importam. E é exatamente nessas relações nutridas que o suporte real vai aparecer quando você precisar.

Familiares, amigos, vizinhos e comunidade: cada um com seu papel

Dentro de uma rede de apoio bem construída, diferentes pessoas ocupam diferentes papéis. E entender esse mapa de papéis ajuda a não sobrecarregar ninguém e a acionar a pessoa certa para cada tipo de necessidade.

Familiares próximos, quando a relação é saudável, costumam ser os mais acionados para ajuda prática com as crianças: buscar na escola, ficar com os filhos no fim de semana, ajudar durante uma doença. Eles já conhecem as crianças, já têm um vínculo estabelecido, e em geral estão mais disponíveis para esse tipo de suporte continuado.

Amigos próximos, especialmente aqueles que estão no mesmo momento de vida, oferecem algo diferente: escuta, identidade compartilhada, a sensação de que você não está sozinho no que está vivendo. Um amigo que também tem filhos pequenos entende de um jeito que um familiar sem filhos pode não entender. Ele não precisa de explicação contextual. Ele já está no contexto.

Vizinhos são um recurso subestimado e precioso. A proximidade geográfica os torna os mais acionáveis em situações de emergência. Uma vizinha que pode receber seus filhos por uma hora enquanto você resolve um imprevisto, um vizinho que tem a chave sobressalente de casa: esses apoios parecem pequenos, mas no dia em que você precisa, eles são enormes. E a comunidade em sentido mais amplo, a escola dos seus filhos, o grupo da academia, a paróquia, o clube de bairro, oferece o senso de pertencimento que é o tecido social no qual a família está inserida. Pertencer a uma comunidade ativa é uma das formas mais eficazes de construir rede sem que pareça uma tarefa.


Como construir novas conexões de apoio do zero

E se você chegou até aqui e percebeu que a sua rede é menor do que gostaria? Que você fez a triagem honesta e a lista de conexões reais ficou curtinha? Isso é muito mais comum do que você imagina, e não é motivo para culpa. É um ponto de partida.

Construir rede do zero, ou ampliar uma rede que está raquítica, exige intenção. Não acontece por acaso. Mas também não precisa ser um projeto formal ou artificioso. Começa com pequenas escolhas cotidianas de presença e abertura.

Onde encontrar pessoas que compartilham os mesmos valores

A pergunta mais prática para quem quer ampliar sua rede é: onde estão as pessoas que estão passando pelo mesmo momento de vida que eu? Porque o solo mais fértil para construir vínculos de apoio é a experiência compartilhada.

Se você tem filhos pequenos, os espaços frequentados por outras famílias com crianças na mesma faixa etária são pontos de partida naturais: a escola dos filhos, o parquinho do bairro, grupos de atividades infantis, aulas de musicalização ou natação para bebês, grupos de gestantes e puérperas. Nesses espaços, você já tem o contexto em comum, o que facilita muito o início de uma conexão que pode se aprofundar.

Se os seus filhos já são adolescentes, os espaços mudam, mas a lógica é a mesma. Associações de pais da escola, grupos de voluntariado, atividades comunitárias, grupos de interesse compartilhado. O importante é estar presente em espaços onde o contato se repete ao longo do tempo, porque vínculo se constrói com repetição. Um contato eventual dificilmente se torna apoio real. O que transforma conhecidos em rede é o acúmulo de encontros que vão construindo familiaridade, confiança e história compartilhada.

A arte de pedir ajuda sem vergonha e sem dívida emocional

Pedir ajuda é, para muitas pessoas, uma das coisas mais difíceis. A cultura do “se virar sozinho” está tão enraizada que pedir apoio pode gerar sensações de vergonha, fraqueza ou até culpa. E esse bloqueio é um dos maiores inimigos da construção de uma rede de apoio, porque uma rede que nunca é ativada não serve para nada.

Existe uma distinção importante entre pedir ajuda de um lugar de desespero e pedir ajuda de um lugar de confiança relacional. No primeiro caso, o pedido vem carregado de ansiedade e frequentemente cria uma relação de dependência. No segundo, o pedido é um ato de confiança, uma forma de dizer ao outro: eu sei que posso contar com você, e isso fortalece o vínculo.

Pedir ajuda de forma saudável também passa por ser específico. “Me ajuda” é vago e coloca o outro numa posição desconfortável de ter que adivinhar o que você precisa. “Você consegue buscar meu filho na escola quinta-feira às quatro?” é claro, respeitoso com o tempo do outro, e mais fácil de atender. Quando você pede de forma específica, você facilita o sim, reduz o constrangimento do não, e deixa a relação mais leve para os dois lados.

Como transformar conhecidos em apoio real ao longo do tempo

Vínculos de apoio não surgem prontos. Eles são construídos em camadas, ao longo do tempo, por meio de pequenas trocas que vão criando familiaridade e confiança. Você não vai pedir a alguém que acabou de conhecer para ficar com seus filhos por um dia inteiro. Mas você pode começar com algo menor: um convite para um café, uma oferta de carona, uma mensagem verificando como a outra pessoa está.

Esses pequenos gestos têm um papel fundamental na construção de vínculos. Eles comunicam interesse genuíno, presença e disponibilidade. E quando você os pratica de forma consistente com algumas pessoas, a relação vai ganhando profundidade naturalmente. Em algum momento, aquele conhecido vira alguém que você chamaria numa emergência, não porque você planejou isso, mas porque a confiança foi se construindo encontro após encontro.

Uma coisa que vale prestar atenção é a reciprocidade ao longo desse processo. Se você percebe que está sempre sendo o que está disponível, mas que quando precisa a pessoa nunca está, é um sinal claro de que aquela relação não tem o equilíbrio necessário para compor uma rede de apoio sustentável. Rede de apoio não é uma relação de prestação de serviços. É uma troca, e para durar precisa ser sentida como justa pelos dois lados.


Mantendo a rede viva e saudável

Construir a rede é apenas metade do trabalho. A outra metade é mantê-la viva. E essa manutenção exige atenção continuada, porque vínculos que não são nutridos se enfraquecem, e uma rede que se enfraquece vai estar inativa exatamente quando você mais precisar dela.

Manter a rede viva não significa falar com todo mundo todos os dias. Significa cultivar os vínculos importantes com regularidade suficiente para que a conexão não se perca, e para que a outra pessoa saiba que você está ali para ela também.

A reciprocidade como base de qualquer rede sustentável

Toda rede de apoio que dura é construída sobre reciprocidade. Isso não significa que as trocas precisam ser simétricas em tempo real, às vezes você vai precisar muito mais do que pode oferecer, e às vezes vai ser o oposto. Mas ao longo do tempo, uma relação onde só uma das partes oferece e a outra só recebe não se sustenta.

A reciprocidade funciona em camadas. Há a reciprocidade prática, que é a troca de ajudas concretas, eu fico com seus filhos essa semana, você fica com os meus na próxima. Mas há também a reciprocidade emocional, que é talvez mais importante: estar presente para a outra pessoa quando ela precisa, ouvir quando ela está sobrecarregada, perguntar como ela está sem esperar que ela precise pedir.

Essa reciprocidade emocional é o que diferencia uma rede de apoio genuína de um sistema de trocas utilitárias. Quando as pessoas da sua rede sentem que você de fato se importa com elas, não apenas com o que elas podem fazer por você, o vínculo tem uma base afetiva que o torna muito mais resiliente. Ele suporta períodos de distância, diferenças de disponibilidade, e até desentendimentos ocasionais, porque a confiança está assentada em algo real.

Como estabelecer limites dentro da rede sem romper vínculos

Pertencer a uma rede de apoio não significa estar disponível para tudo o tempo todo. Significa fazer parte de um sistema de suporte mútuo que funciona de forma saudável, e isso inclui o direito de dizer não quando você genuinamente não tem como ajudar.

Muitas pessoas evitam dizer não por medo de decepcionar ou de parecer pouco solidárias. O resultado é que acabam se comprometendo além do que podem, ficam ressentidas, e a relação sofre mais do que sofreria com um não honesto dado no momento certo. Um não dito com cuidado, acompanhado de uma explicação genuína e de uma alternativa quando possível, fortalece a relação, não a enfraquece. Ele comunica que você é uma pessoa que cumpre o que diz, que não faz promessas que não pode manter, e que confia no outro o suficiente para ser honesta sobre os seus limites.

O mesmo vale para reconhecer quando uma pessoa da sua rede está te acionando além do que é sustentável. Existem relações que se transformam em dependência de um lado só, onde uma pessoa sempre precisa e a outra sempre dá, sem equilíbrio possível. Quando isso acontece, a conversa honesta sobre o que é possível oferecer é o caminho. Não como rejeição, mas como ajuste necessário para que a relação continue existindo de forma saudável para os dois.

Cuidando da qualidade das relações, não só da quantidade

Existe uma tentação de querer ter uma rede grande. Quanto mais gente, mais segura. Mas na prática, uma rede de apoio não funciona como uma apólice de seguro onde mais cobertura é sempre melhor. Ela funciona como um tecido de relações reais, e tecidos de qualidade são mais resistentes do que tecidos grandes e frouxos.

Investir na qualidade das relações que já existem na sua rede vai mais longe do que sair adicionando pessoas. Qualidade aqui significa profundidade de conhecimento mútuo, consistência de presença, confiança construída ao longo do tempo, e alinhamento de valores suficiente para que vocês se entendam nas coisas que importam, especialmente quando se trata de criar filhos.

Cuidar da qualidade também significa estar atenta ao estado das relações. Vínculos passam por fases. Uma amizade que estava muito próxima pode esfriar por um período, e isso não significa que acabou. Mas significa que precisa de atenção. Uma mensagem genuína perguntando como a pessoa está, um convite para se ver, uma lembrança de algo que ela mencionou meses atrás: esses pequenos gestos de cuidado são o que mantém o tecido da rede firme ao longo do tempo.


A rede de apoio profissional: quando e como incluir especialistas

Existe um aspecto da rede de apoio que muitas famílias deixam de lado até que a situação se torne urgente: o suporte profissional. Psicólogos, terapeutas, pediatras, assistentes sociais e outros especialistas não são recursos para situações de crise apenas. Eles fazem parte de uma rede de apoio bem estruturada desde o início, como peças preventivas e não apenas curativas.

Incluir profissionais na sua rede não é admitir que você não está dando conta. É reconhecer que certas demandas exigem um tipo de conhecimento e de escuta que vai além do que amigos e familiares podem oferecer, por mais bem-intencionados que sejam.

Psicólogos, terapeutas e profissionais de saúde como parte da rede

Um psicólogo ou terapeuta é, talvez, o profissional mais valioso que uma família pode ter na sua rede de apoio formal. Não porque as famílias estejam sempre em crise, mas porque a vida cotidiana produz pressões, conflitos e transições que se beneficiam enormemente de um espaço de reflexão conduzido por alguém treinado para isso.

Um casal que tem um terapeuta de referência não precisa esperar que a crise chegue para buscar ajuda. Pode ir periodicamente, trabalhar questões antes que elas se tornem nós difíceis de desfazer, e ter um profissional que já conhece a história do casal disponível caso algo mais sério apareça. Esse tipo de investimento preventivo é muito mais eficaz do que a terapia de emergência, quando a situação já está desgastada e as emoções estão à flor da pele.

O mesmo vale para o acompanhamento das crianças. Um psicólogo infantil pode ajudar a identificar precocemente dificuldades emocionais ou comportamentais, oferecer ferramentas para que os pais lidem com certas fases do desenvolvimento, e ser um recurso de apoio em momentos de transição, como a entrada na escola, o nascimento de um irmão, ou uma separação familiar. Ter esse profissional já como referência, antes da urgência, faz toda a diferença na qualidade do suporte que ele consegue oferecer.

Instituições e serviços comunitários que sua família pode acionar

Além dos profissionais individuais, existem instituições e serviços comunitários que compõem a rede formal de apoio familiar e que muitas famílias simplesmente desconhecem ou não acionam por não saber que podem.

Centros de referência em assistência social, conhecidos como CRAS, oferecem orientação e suporte a famílias em situação de vulnerabilidade. Escolas e creches públicas têm, em muitos casos, serviços de orientação educacional e acompanhamento psicossocial. Unidades básicas de saúde oferecem acompanhamento de saúde mental além do físico. Grupos de apoio para pais, muitas vezes organizados por clínicas, igrejas ou organizações comunitárias, criam espaços onde as famílias podem compartilhar experiências e encontrar suporte de quem está passando por situações parecidas.

O desafio, em muitos casos, é simplesmente saber que esses recursos existem e onde encontrá-los. Vale a pena fazer esse mapeamento na sua cidade antes de precisar. Saber com antecedência onde está o serviço de saúde mental mais próximo, qual é o contato do psicólogo da escola dos seus filhos, ou que existe um grupo de apoio para pais no seu bairro, te coloca numa posição muito mais preparada do que descobrir tudo isso no meio de uma crise.

Como integrar o apoio profissional sem substituir o humano

Uma dúvida que aparece frequentemente é se o apoio profissional substitui o apoio humano da rede informal. A resposta é não, e entender isso é importante para que os dois tipos de suporte funcionem de forma complementar e não concorrente.

O apoio profissional oferece estrutura, técnica, neutralidade e continuidade de cuidado especializado. O apoio humano da rede informal oferece calor, presença, identidade compartilhada e a sensação de pertencimento que nenhum profissional, por mais competente que seja, pode replicar. Um psicólogo não vai buscar seus filhos na escola. Uma amiga próxima não vai conduzir uma terapia familiar. Cada um tem um papel distinto, e os melhores resultados aparecem quando os dois estão funcionando.

A integração saudável entre os dois tipos de apoio acontece quando a família entende claramente para que serve cada um. Quando tem um problema emocional que precisa de escuta técnica e imparcial, busca o profissional. Quando precisa de presença humana, de um abraço, de alguém que simplesmente esteja junto, aciona a rede informal. Quando esses papéis estão bem definidos, ninguém é sobrecarregado além do que pode oferecer, e o sistema funciona de forma muito mais eficiente para todos.


Exercícios para Aprofundar o Aprendizado

Exercício 1 — O mapa da sua rede atual

Pegue uma folha de papel e desenhe um círculo no centro. Escreva o nome da sua família dentro desse círculo. Ao redor dele, desenhe três anéis concêntricos: o primeiro para as pessoas mais próximas e de maior confiança, o segundo para as pessoas de contato regular mas menos íntimas, e o terceiro para conhecidos e recursos comunitários.

Agora, coloque cada pessoa e instituição que faz parte da sua vida em um desses anéis. Não pense demais. Coloque onde parece natural. Depois que o mapa estiver pronto, olhe para ele e responda: quais são os anéis mais vazios? Onde estão as lacunas mais importantes? Em quais tipos de necessidade, apoio emocional, ajuda prática, suporte profissional, sua rede está mais frágil?

Resposta esperada do exercício: Ao fazer esse mapa, a maioria das pessoas percebe que o anel mais próximo é muito pequeno, muitas vezes com apenas uma ou duas pessoas. E que o anel do meio está cheio de pessoas que até aparecem no cotidiano, mas que nunca foram verdadeiramente ativadas como apoio. O mapa também costuma revelar uma ausência quase total de recursos formais no terceiro anel, o que indica uma rede que depende exclusivamente das relações pessoais para funcionar, sem estrutura profissional de suporte. Essa visualização não serve para gerar ansiedade sobre o que falta, mas para criar um plano consciente de onde investir energia relacional nas próximas semanas e meses.


Exercício 2 — A conversa que você está adiando

Pense em uma pessoa da sua vida com quem você gostaria de ter uma relação de apoio mais próxima, alguém que você confia, mas com quem a relação nunca aprofundou o suficiente para virar rede de verdade. Pode ser uma vizinha, um colega de trabalho, um pai da escola dos seus filhos, um familiar distante com quem o contato esfriou.

Agora, escreva como seria a conversa que iniciaria esse aprofundamento. Não precisa ser uma conversa dramática nem uma declaração de amizade. Pode ser simples: um convite para tomar um café, uma mensagem perguntando como a pessoa está, uma oferta de ajuda em algo que você sabe que ela está precisando. Escreva o que você diria, e depois responda: o que tem te impedido de ter essa conversa ou de fazer esse gesto até agora?

Resposta esperada do exercício: O que aparece com mais frequência nesse exercício é o medo de parecer invasivo, ou a suposição de que a outra pessoa não está interessada em se aproximar. Muitas pessoas descobrem, ao escrever a conversa, que ela é muito menos complicada do que parecia na cabeça. O gesto que parecia exigir coragem enorme, na prática se resume a uma mensagem de três linhas ou um convite rápido. A distância entre onde a relação está agora e onde poderia estar é muitas vezes menor do que você imagina. E o único passo que falta é o primeiro, que você decidiu não dar ainda. Esse exercício é um convite a dar esse passo essa semana. Não amanhã. Essa semana.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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