Como Elogiar o Esforço em vez da Inteligência e Desenvolver uma Mentalidade de Crescimento
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Como Elogiar o Esforço em vez da Inteligência e Desenvolver uma Mentalidade de Crescimento

Existe uma frase que a maioria de nós já ouviu, disse ou recebeu alguma vez: “Nossa, você é muito inteligente.” Parece um elogio inofensivo, não é? Parece até bonito. O problema é que essa frase, por mais bem-intencionada que seja, pode estar fazendo exatamente o oposto do que você imagina. Ao elogiar a inteligência em vez do esforço, você não está motivando ninguém. Você está, na verdade, instalando uma crença que vai limitar o crescimento da pessoa a longo prazo. Esse é o coração do que a psicóloga americana Carol Dweck chamou de mentalidade de crescimento, um dos conceitos mais estudados e aplicados da psicologia moderna, com impacto direto na educação, no trabalho, nos relacionamentos e no modo como você se relaciona consigo mesmo.

Este artigo vai te mostrar o que a ciência descobriu sobre como elogiar o esforço em vez da inteligência, por que essa distinção importa muito mais do que parece, e o que você pode fazer de concreto a partir de hoje para cultivar uma mentalidade de crescimento na sua vida e na vida das pessoas ao seu redor.


O que a ciência descobriu sobre elogios e aprendizado

Antes de falar em técnica, vale entender por que esse assunto chegou a ser tão estudado. O interesse de Carol Dweck pelo tema começou décadas antes de ela publicar o livro que tornaria o conceito de growth mindset popular no mundo inteiro. Ela queria entender por que algumas crianças desistiam diante de um problema difícil, enquanto outras se motivavam ainda mais. A resposta que ela encontrou não estava na inteligência das crianças. Estava no que elas acreditavam sobre si mesmas e sobre a natureza das suas próprias capacidades.

E o que moldava essa crença? Em grande parte, o que os adultos ao redor diziam sobre elas. Esse achado transformou completamente a forma de pensar sobre elogios, educação e desenvolvimento humano.

O experimento que mudou a forma de pensar sobre elogios

Em um dos estudos mais citados de Dweck, um grupo de crianças foi dividido em dois. Ambos os grupos receberam o mesmo teste de matemática, com nível de dificuldade moderado, e ambos foram bem. A diferença veio depois: um grupo recebeu um elogio focado na inteligência, “Uau, você tirou uma ótima nota. Você deve ser muito inteligente”, enquanto o outro grupo recebeu um elogio focado no esforço, “Uau, você tirou uma ótima nota. Você deve ter se dedicado muito.”

Depois disso, as crianças foram convidadas a escolher o próximo teste: um mais fácil ou um mais difícil. A maioria das crianças elogiadas pela inteligência escolheu o mais fácil. Faz sentido, quando você pensa bem: se o seu valor está ligado a ser inteligente, você não pode arriscar parecer o contrário. Já a maioria das crianças elogiadas pelo esforço escolheu o mais difícil. Para elas, um desafio maior era uma oportunidade de aprender mais, não uma ameaça à identidade.

O experimento foi além. Quando ambos os grupos receberam um teste muito mais difícil e se saíram mal, a reação foi completamente diferente. As crianças elogiadas pela inteligência ficaram desmotivadas, disseram que não gostavam do teste, e quando ofereceram um novo teste de dificuldade similar ao primeiro, tiveram desempenho pior do que no início. As crianças elogiadas pelo esforço, por outro lado, persistiram mais, demonstraram mais prazer no processo, e ao retornar ao nível original, tiveram desempenho melhor. Um único elogio havia criado trajetórias completamente diferentes.

Por que elogiar a inteligência pode ser um tiro no pé

Quando você diz para alguém que ela é inteligente, você está atrelando o valor dela a uma característica que ela não controla. Inteligência, na visão popular, é algo com que você nasce ou não. Então, quando a pessoa que você chamou de inteligente trava diante de um problema difícil, o que ela conclui? Que talvez não seja tão inteligente assim. E se não for tão inteligente assim, o que vale ela tentar?

Esse raciocínio acontece de forma muito rápida, quase inconsciente, mas é devastador para a motivação. Pesquisas mostram que crianças que recebem elogios frequentes sobre a inteligência tendem a escolher atividades mais fáceis, a evitar situações onde possam errar, e a interpretar qualquer dificuldade como evidência de uma incapacidade interna. Elas ficam presas em um ciclo onde só se sentem seguras quando estão no terreno conhecido, e o terreno conhecido não cresce.

Adultos não são diferentes. Um profissional que cresceu ouvindo que é talentoso e brilhante vai desenvolver o mesmo padrão: prefere não tentar do que tentar e parecer menos capaz. Prefere fazer o que já sabe do que se expor ao risco de aprender algo novo de forma desajeitada. E essa preferência vai comprometendo o desenvolvimento ao longo do tempo, em uma velocidade que muitas vezes passa despercebida até o momento em que a pessoa se dá conta de que parou de crescer.

O que acontece no cérebro quando elogiamos o esforço

Dweck e outros pesquisadores apontam que o cérebro tem uma capacidade de adaptação que costumamos subestimar. Quando alguém aprende algo novo, conexões neurais se formam. Quando esse aprendizado é repetido, essas conexões se fortalecem. O cérebro literalmente muda com a experiência. Essa descoberta, conhecida como neuroplasticidade, dá uma base biológica concreta para a mentalidade de crescimento: a inteligência não é fixa porque o cérebro não é fixo.

Quando você elogia o esforço, você está reforçando exatamente esse processo. Você está dizendo, em essência: “O que você fez, a dedicação, a persistência, a tentativa, isso tem valor. E é isso que produz resultado.” Esse tipo de elogio ativa o que os pesquisadores chamam de motivação intrínseca, aquela que vem de dentro, que não depende de aprovação externa para se sustentar. A criança, ou o adulto, começa a associar o ato de se esforçar com algo positivo em si mesmo, não apenas com o resultado que vem depois.

Do ponto de vista neurológico, o esforço e a persistência diante de desafios ativam regiões do cérebro ligadas ao aprendizado e à resolução de problemas de forma mais robusta do que a realização fácil de tarefas simples. Quando a tarefa é difícil e a pessoa persiste, o cérebro trabalha mais, e trabalhar mais é exatamente o que cria crescimento real. Elogiar o esforço é, portanto, reforçar o comportamento que mais contribui para o desenvolvimento da inteligência que tanto queremos celebrar.


Mentalidade fixa x mentalidade de crescimento na vida real

Falar de mentalidade fixa e mentalidade de crescimento pode soar teórico, mas esses dois modos de pensar aparecem em situações bem concretas do dia a dia. Eles estão na forma como você reage a um feedback negativo no trabalho, na maneira como você explica para o seu filho por que ele tirou uma nota baixa, e até na forma como você fala consigo mesmo quando erra em algo que importa.

Reconhecer esses padrões na prática é o primeiro passo para poder mudá-los. E isso exige mais honestidade do que técnica, pelo menos no começo.

Como a mentalidade fixa se instala sem que a gente perceba

Ninguém acorda um dia e decide adotar uma mentalidade fixa. Ela se instala aos poucos, por meio de mensagens que vamos recebendo ao longo da vida sobre quem somos e do que somos capazes. Quando uma criança ouve repetidamente que é “a filha inteligente da família”, ela aprende que esse é o seu papel. E manter papéis é exaustivo e paralisante.

A instalação acontece também pela observação. Quando uma criança vê um pai desistir de aprender algo novo porque “não tem jeito para isso”, ela aprende que certas habilidades são questão de ter ou não ter, e não de aprender ou não aprender. Quando um professor trata o erro como falha e não como etapa, os alunos aprendem que errar é perigoso. Essas lições não vêm em forma de discurso. Vêm em forma de atitude, de reação, de tom de voz.

Para adultos, a mentalidade fixa costuma se manifestar em frases muito específicas: “Eu não tenho talento para isso”, “Nunca fui bom em matemática”, “Liderança não é para mim”, “Sou assim mesmo.” Cada uma dessas frases fecha uma porta. E o mais curioso é que, na maioria das vezes, quem as diz acredita genuinamente nelas, sem perceber que estão sendo construídas e não descobertas.

Os sinais de que você ou alguém ao seu redor está operando com mentalidade fixa

Existe um conjunto de comportamentos bastante reconhecível que indica a presença de uma mentalidade fixa em funcionamento. O primeiro é a evitação de desafios. A pessoa consistentemente escolhe o caminho mais seguro, o projeto mais fácil, a tarefa que ela já sabe fazer bem. Não porque seja preguiçosa, mas porque o risco de parecer incapaz é grande demais.

O segundo sinal é a dificuldade de lidar com críticas construtivas. Em vez de receber o feedback como informação útil, a pessoa com mentalidade fixa tende a interpretá-lo como um julgamento pessoal. O feedback deixa de ser sobre o trabalho e passa a ser sobre ela. Isso torna qualquer processo de melhoria muito mais pesado do que precisaria ser.

Um terceiro sinal é a tendência de comparação negativa com outras pessoas. Quando alguém ao redor vai bem, em vez de se inspirar, a pessoa com mentalidade fixa se sente diminuída. O sucesso alheio vira uma prova de que ela não é suficientemente boa, em vez de uma evidência de que o crescimento é possível. Esses padrões podem coexistir em diferentes graus na mesma pessoa, e identificá-los em si mesmo pede uma dose saudável de autoconsciência, sem julgamento.

Como a mentalidade de crescimento transforma a relação com o erro

O erro é o ponto onde tudo muda, dependendo da mentalidade que você traz para ele. Para quem opera com mentalidade fixa, errar é uma sentença: prova que você não tem o que é preciso. Para quem tem mentalidade de crescimento, errar é dado: informação sobre o que ainda não está funcionando e que pode ser ajustado.

Essa diferença pode parecer pequena, mas ela determina o que acontece depois do erro. Quem vê o erro como sentença para. Processa mal o ocorrido, evita situações similares no futuro, e carrega aquele episódio como evidência de limitação. Quem vê o erro como dado analisa, ajusta, tenta de novo. E tenta de novo com mais informação do que tinha antes, o que significa que a próxima tentativa tem mais chance de funcionar.

A pesquisadora Jo Boaler, educadora de Stanford especializada em aprendizado de matemática, descreve algo fascinante: quando erramos, sinapses no cérebro são ativadas. O cérebro trabalha para processar o que aconteceu. Esse processo em si já é aprendizado, mesmo antes de qualquer correção. Ou seja, errar já é crescer, desde que o erro seja encarado como informação e não como identidade.


Como elogiar o esforço na prática

Aqui chegamos na parte que a maioria das pessoas realmente quer saber: o que fazer de diferente no dia a dia. Porque entender o conceito é uma coisa. Mudar a forma como você fala, reage e elogia é outra, e essa é a parte que exige prática consciente.

A boa notícia é que as mudanças não precisam ser grandes. Pequenos ajustes na linguagem, feitos de forma consistente, já têm impacto mensurável na mentalidade de quem está ao seu redor, seja seu filho, seu aluno, seu colaborador, ou você mesmo.

A diferença entre elogiar a pessoa e elogiar o processo

Essa é a distinção central de todo o trabalho de Dweck, e ela é mais simples do que parece. Elogiar a pessoa significa atribuir o resultado a algo que ela é: “Você é muito inteligente”, “Você tem um dom natural”, “Você é incrível.” Elogiar o processo significa atribuir o resultado ao que ela fez: “Você se dedicou muito a isso”, “A forma como você insistiu até encontrar a solução foi impressionante”, “Você tentou estratégias diferentes até achar o caminho.”

A diferença fundamental é o locus de controle. Quando você elogia o que a pessoa é, você conecta o resultado a algo que ela não controla e, portanto, que ela não pode reproduzir intencionalmente. Quando você elogia o que ela fez, você conecta o resultado a um comportamento que ela pode repetir, intensificar e aprimorar. Você está, essencialmente, dando a ela a chave do próprio sucesso.

Outro ponto importante é ser específico. Um elogio genérico como “parabéns, muito bem!” tem muito menos impacto do que um elogio que nomeia o comportamento concreto que merece reconhecimento. “Eu vi você travar no terceiro parágrafo e tentar de novo três vezes até sair. Isso é o que faz a diferença.” Esse tipo de elogio faz a pessoa identificar o que exatamente funcionou, o que aumenta a chance de ela repetir.

Frases que funcionam e frases que sabotam

Algumas substituições de linguagem, praticadas com consistência, já começam a mudar o ambiente emocional e motivacional de qualquer relação. Em vez de “Você é muito inteligente”, tente “Você realmente se dedicou a entender isso.” Em vez de “Você tem um talento natural para isso”, tente “O jeito como você praticou isso se mostra agora.” Em vez de “Isso é fácil para você”, tente “Você já desenvolveu essa habilidade bem.”

Do outro lado, existem frases que parecem encorajar, mas na prática sabotam. “Nem todo mundo tem o seu talento” coloca o sucesso no dom, não no esforço. “Você foi o melhor da turma” incentiva a comparação em vez do foco no próprio crescimento. “Você é tão esperto, vai conseguir qualquer coisa” cria uma pressão de manutenção de imagem que paralisa em vez de liberar.

Uma frase que merece atenção especial é “isso é fácil”. Quando um adulto diz para uma criança “isso é fácil, você consegue”, a intenção é encorajar. Mas se a criança tentar e não conseguir, a conclusão que ela vai tirar não é “isso é difícil”. A conclusão vai ser “eu não sou capaz de fazer nem coisas fáceis.” O efeito é o oposto do pretendido. O caminho mais honesto e mais útil é dizer: “Isso pode ser desafiador. Mas você tem o que precisa para trabalhar nele.”

Elogiar adultos também funciona: aplicação no trabalho e nos relacionamentos

Um erro comum é pensar que essa discussão é sobre crianças. Ela começa nas crianças porque é onde os padrões se formam, mas os mesmos mecanismos operam em adultos, dentro de equipes de trabalho, em relacionamentos afetivos e na forma como cada um de nós se trata internamente.

No ambiente de trabalho, um gestor que consistentemente reconhece o esforço, a criatividade de abordagem e a persistência dos seus colaboradores cria uma cultura muito diferente daquela onde só os resultados são celebrados. Quando apenas o resultado importa, as pessoas param de tentar o que é difícil. Quando o processo importa, as pessoas se sentem seguras para inovar, para errar e para tentar de novo. Essa é a diferença entre uma equipe que se acomoda e uma equipe que cresce.

Nos relacionamentos afetivos, a aplicação também é poderosa. Reconhecer o esforço do outro para se comunicar melhor, para mudar um padrão antigo, para aparecer de uma forma diferente é uma forma de cuidado que vai muito além do elogio estético ou do resultado visível. “Eu percebi que você tentou lidar com isso de um jeito diferente do habitual. Isso importa para mim.” Essa frase faz mais pelo vínculo do que qualquer “você está linda hoje.”


O poder do “ainda não” e a linguagem do crescimento

Carol Dweck tem uma expressão favorita quando fala sobre mentalidade de crescimento, e ela é surpreendentemente simples: “ainda não.” Duas palavras que mudam completamente o horizonte de uma afirmação. “Eu não consigo fazer isso” é uma sentença. “Eu ainda não consigo fazer isso” é um ponto de partida. A diferença parece pequena, mas o impacto é profundo.

Essa mudança de linguagem não é apenas cosmética. Ela reflete e reforça uma forma diferente de encarar o tempo e o desenvolvimento. “Ainda não” pressupõe que o aprendizado está em curso, que existe um caminho entre onde você está e onde você quer chegar, e que percorrer esse caminho é possível.

Como uma palavra muda a trajetória de alguém

A linguagem que usamos não apenas descreve o que pensamos. Ela molda o que pensamos. Quando uma criança diz “eu não consigo” e o adulto responde com “você quer dizer que ainda não consegue?”, algo acontece naquele momento: a criança é convidada a reposicionar a dificuldade no tempo. Em vez de uma conclusão, a dificuldade passa a ser uma etapa. Essa reposição muda o que a mente faz em seguida.

Uma mente que ouve “eu não consigo” tende a encerrar o processo. Uma mente que ouve “eu ainda não consigo” tende a perguntar: “o que eu preciso fazer para chegar lá?” São perguntas completamente diferentes, que levam a comportamentos completamente diferentes. E a diferença começa na linguagem.

O “ainda não” também tem um efeito importante na relação com o tempo. Em uma cultura que valoriza resultados rápidos, ele reintroduz a ideia de que crescer leva tempo, e que isso não é um defeito, é uma característica do processo. Alguém que está “ainda não” em uma habilidade não é um fracasso. É uma pessoa em desenvolvimento. E desenvolvimento é exatamente o que queremos estar fazendo a vida toda.

Criando um vocabulário de crescimento no dia a dia

Além do “ainda não”, existe um conjunto de expressões que, quando se tornam hábito, criam um ambiente cotidiano de crescimento. “O que você aprendeu com isso?” é uma das mais poderosas. Em vez de focar no resultado, ela direciona a atenção para o processo e para o que pode ser carregado adiante. Essa pergunta, feita de forma genuína e não como cobrança, muda a forma como a pessoa processa qualquer experiência, inclusive as que não saíram como planejado.

“O que você tentaria diferente da próxima vez?” é outra pergunta que abre caminho para o crescimento. Ela pressupõe que vai existir uma próxima vez, que o processo continua, e que a experiência anterior tem valor informativo para o próximo passo. É o oposto de analisar o que deu errado para culpar, e o começo de analisar o que deu errado para aprender.

“Isso está difícil agora, e tudo bem” é uma frase que parece simples, mas que oferece algo muito raro: permissão para estar em processo. Muita gente carrega uma vergonha profunda de não saber fazer algo ainda. Dizer que é tudo bem ter dificuldade não é rebaixar a expectativa. É reconhecer que dificuldade é o sinal de que você está na borda do seu crescimento, que é exatamente onde o aprendizado acontece.

O erro como parte do processo, não como fim da linha

Poucas coisas revelam mais claramente a mentalidade que opera em alguém do que a forma como essa pessoa reage ao próprio erro. Pense em como você reage quando erra algo em público. Você sente vergonha e quer desaparecer? Você analisa o que aconteceu com curiosidade? Você se flagela internamente por dias? Você segue em frente sem muita emoção?

Nenhuma dessas reações é errada por si só. Mas algumas são mais úteis do que outras quando o objetivo é crescer. A vergonha paralisante, em especial, é um sinal claro de mentalidade fixa em operação: o erro foi interpretado como evidência de uma limitação permanente, e a resposta emocional reflete isso.

Construir uma relação saudável com o erro começa por mudar o que o erro significa. Não “eu errei porque não tenho capacidade”, mas “eu errei porque ainda estou aprendendo, e aprendizado inclui erro.” Não “esse erro me define”, mas “esse erro me informa.” Essa mudança não é ingenuidade nem minimização. É uma postura realista diante do que o aprendizado realmente é: um processo iterativo, não linear, que inclui necessariamente tentativas que não funcionam antes de encontrar o que funciona.


Cultivando a mentalidade de crescimento em você mesmo

Até aqui, falamos muito sobre como elogiar outros, como falar com crianças, como criar ambientes de crescimento em equipes e relacionamentos. Mas existe uma aplicação que antecede tudo isso e que muitas vezes é deixada de lado: a forma como você se relaciona com seus próprios limites, erros e desafios.

Você não consegue cultivar uma mentalidade de crescimento genuína ao redor se você mesmo opera com mentalidade fixa por dentro. A coerência entre o que você diz e o que você vive é o que determina se sua influência sobre os outros é real ou superficial.

Reconhecer os próprios padrões de mentalidade fixa

O primeiro passo é a observação honesta. Preste atenção nas situações em que você evita tentar algo novo. Observe quando você interpreta um feedback como ataque pessoal. Note quando você compara seu desempenho com o de outra pessoa e sai da comparação sentindo que não é suficiente. Esses são os momentos em que a mentalidade fixa está no volante.

Não se trate com dureza quando identificar esses padrões. A autocrítica excessiva é, ela mesma, um produto da mentalidade fixa: a ideia de que você deveria ser diferente do que é agora, em vez de reconhecer que está em processo de mudar. O objetivo da observação é criar consciência, não criar mais uma camada de julgamento.

Uma ferramenta simples é nomear o padrão quando ele aparece. “Ah, aqui está a mentalidade fixa falando.” Essa nomeação cria uma distância saudável entre você e o pensamento, permitindo que você observe em vez de ser engolido. É o mesmo princípio que a terapia cognitivo-comportamental usa quando pede que o paciente identifique pensamentos automáticos: a consciência do padrão já reduz o poder que ele tem sobre você.

Práticas concretas para reprogramar sua forma de encarar desafios

Uma das práticas mais eficazes é deliberadamente escolher fazer algo em que você não é bom. Não para se torturar, mas para praticar o desconforto de estar aprendendo. Fazer uma aula de algo que você nunca tentou antes, assumir um projeto fora da sua zona de conforto, participar de uma conversa sobre um tema onde você não tem domínio. Cada uma dessas experiências é uma oportunidade de praticar a mentalidade de crescimento em campo real.

Outra prática poderosa é manter o foco no processo em vez do resultado durante uma atividade desafiadora. Em vez de ficar monitorando “estou indo bem ou mal?”, redirecione a atenção para “o que estou aprendendo aqui?” ou “o que posso tentar diferente agora?” Esse redirecionamento não elimina o interesse no resultado, mas tira o resultado do lugar de único critério de valor da experiência.

A prática da gratidão pelo esforço próprio também tem impacto real. Ao fim do dia, em vez de listar apenas o que você conquistou, liste o que você tentou, mesmo que não tenha dado o resultado esperado. “Hoje eu tentei uma abordagem nova na reunião. Não funcionou como eu esperava, mas aprendi que aquele formato não serve para esse contexto.” Isso treina o cérebro a valorizar o esforço como dado relevante, não apenas o resultado.

Por que o autoconhecimento é o ponto de partida de tudo

Você pode saber de cor todas as frases certas para elogiar o esforço dos outros. Pode aplicar a técnica do “ainda não” com maestria. Pode criar um ambiente de crescimento no trabalho que seja referência. Mas se internamente você ainda acredita que seu valor como pessoa está ligado ao que você produz, ao quanto você sabe, ao quanto você parece competente, a mentalidade fixa vai continuar operando, só que de forma mais sofisticada e disfarçada.

O autoconhecimento é o que permite identificar onde essas crenças se instalaram, quais experiências as reforçaram, e o que de fato você acredita, no nível mais profundo, sobre a sua capacidade de crescer. Esse processo não acontece em uma tarde. Ele é contínuo, e às vezes pede apoio terapêutico para avançar de verdade.

Mas ele começa com uma pergunta honesta: você acredita que pode aprender o que ainda não sabe? Não como resposta intelectual, mas como crença real, que você sente no corpo quando enfrenta algo difícil? Essa crença, ou a ausência dela, é o ponto de partida de tudo o que vem depois.


Exercícios para Aprofundar o Aprendizado

Exercício 1 — O diário do processo

Durante sete dias, ao final de cada dia, escreva três coisas que você tentou naquele dia, independentemente do resultado. Não o que você conquistou. O que você tentou. Pode ser uma conversa difícil que você iniciou, uma habilidade nova que você praticou, um problema que você enfrentou de uma forma diferente da habitual.

Ao lado de cada item, escreva uma linha sobre o que você aprendeu com aquela tentativa, mesmo que tenha dado errado. No final dos sete dias, leia tudo de uma vez e responda: o que esse registro revela sobre onde você já está crescendo?

Resposta esperada do exercício: Ao fazer esse exercício, a maioria das pessoas percebe que já está se esforçando mais do que reconhecia. Porque o foco cotidiano costuma ir para os resultados e para o que não funcionou, e raramente para o processo em si. Quando você registra as tentativas, você começa a perceber o seu próprio esforço como algo real e valioso, não apenas como um meio para um fim. Esse reconhecimento, feito de forma sistemática, vai construindo uma base interna de valorização do processo que muda, gradualmente, a forma como você enfrenta novos desafios. Você começa a ver o esforço não como algo que você faz quando não é suficientemente talentoso, mas como o próprio caminho do crescimento.


Exercício 2 — O inventário de elogios

Pense nas últimas duas semanas. Elenque três situações em que você elogiou alguém, seja um filho, parceiro, colega ou funcionário. Para cada situação, responda: o que você elogiou? A pessoa ou o processo? A característica ou o comportamento? O resultado ou o esforço?

Depois, reescreva cada elogio da forma como ele ficaria se fosse focado no processo, no comportamento concreto, na dedicação ou na estratégia usada. Compare as duas versões e observe: qual delas você acha que teria mais impacto duradouro sobre a motivação da pessoa?

Resposta esperada do exercício: Ao fazer esse inventário, a maioria das pessoas percebe que seus elogios habituais são muito mais focados na pessoa do que no processo. “Você é incrível”, “Que talento”, “Você arrasou.” Esses elogios têm um efeito imediato positivo, mas não ensinam nada. Quando você reescreve os elogios com foco no processo, percebe que eles ficam mais longos, mais específicos e, no início, até parecem menos naturais. Isso é sinal de que é algo novo. A prática consiste exatamente nisso: fazer o esforço de observar o comportamento concreto antes de elogiar, e nomear esse comportamento com clareza. Com o tempo, isso se torna hábito. E quando se torna hábito, você começa a mudar, de forma silenciosa e consistente, a relação que as pessoas ao seu redor têm com o próprio crescimento.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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