Desmistificando o Terrible Twos: Como Sobreviver à Fase da Afirmação
Família e Maternidade

Desmistificando o Terrible Twos: Como Sobreviver à Fase da Afirmação

Se você chegou até aqui com aquela sensação de que seu filho de dois anos acordou um dia completamente diferente, saiba que você não está sozinho nessa. O terrible twos, também chamado de fase da afirmação ou crise dos dois anos, é um dos temas mais pesquisados por pais e cuidadores no Brasil, e também um dos mais mal compreendidos. Muita gente chega ao consultório achando que fez alguma coisa errada, que perdeu o controle da situação ou que seu filho “virou outro”. A boa notícia é que não. O que aconteceu foi justamente o que deveria acontecer.

Essa fase tem nome, tem explicação e, o que é melhor, tem saída. Não uma saída de emergência cheia de truques mágicos, mas uma saída real, construída com compreensão, paciência e algumas ferramentas práticas que você pode começar a usar ainda hoje. Ao longo deste artigo, você vai entender o que está por trás de cada birra, de cada “não”, de cada choro aparentemente sem sentido. E vai perceber que seu filho não está tentando destruir sua sanidade. Ele está simplesmente se tornando uma pessoa.


O que é o terrible twos e por que esse nome assusta tanto

A origem do termo e o que ele realmente significa

O termo terrible twos vem do inglês e significa, literalmente, “terríveis dois anos”. Surgiu nos Estados Unidos por volta do século XX para descrever o período em que crianças ao redor dos dois anos de idade começam a apresentar comportamentos desafiadores: birras intensas, recusas frequentes, choros repentinos e uma necessidade crescente de fazer tudo do jeito delas. O nome pegou porque captura bem a sensação dos pais que vivem esse período. Mas, como muitos rótulos, ele é mais dramático do que preciso.

O problema com o nome é que ele coloca toda a carga no adjetivo “terrível”. E quando você começa a encarar algo como terrível antes mesmo de entendê-lo, já está na defensiva. Você entra na fase esperando o pior, e o pior parece se confirmar em cada momento difícil. Mas se você trocar essa lente e passar a enxergar essa fase como a fase da afirmação, tudo muda. Não é uma fase em que seu filho está errado. É uma fase em que ele está certo no processo que precisa atravessar.

Do ponto de vista do desenvolvimento humano, essa fase marca o início da individualização da criança. Ela começa a perceber que é um ser separado dos pais, com vontades, preferências e limites próprios. Isso é, neurologicamente falando, um salto enorme. E como todo salto, ele vem com alguma turbulência. Nomear essa turbulência de “terrível” é como chamar de catastrófico o momento em que uma criança aprende a andar e cai várias vezes. Ela não está falhando. Ela está aprendendo.

Por que essa fase não é assim tão terrível

Aqui vai uma perspectiva que talvez você nunca tenha ouvido: o terrible twos é, na verdade, um sinal saudável. Quando uma criança entra nessa fase com toda a intensidade que ela costuma trazer, isso significa que o vínculo que você construiu com ela foi seguro o suficiente para que ela se sentisse protegida para explorar. Crianças que não passam por essa fase de forma mais ou menos intensa às vezes têm um sinal de que algo no vínculo emocional pode precisar de atenção.

Dito isso, ser saudável não significa ser fácil. Uma fase pode ser completamente normal e, ao mesmo tempo, exaustiva. As duas coisas coexistem sem problema. O que muda quando você entende a normalidade do processo é a sua relação com ele. Em vez de resistir, você começa a atravessar. Em vez de querer que pare logo, você consegue observar com um pouco mais de distância. E essa distância, por menor que seja, já faz uma diferença enorme no seu estado emocional do dia a dia.

Existe também uma parte bonita nessa fase que quase nunca aparece nos artigos de internet, nos grupos de pais ou nas conversas de corredor na escola. É o início da personalidade da criança se mostrando de forma mais clara. Aquele “não” irritante que ela usa para tudo? É ela descobrindo que tem opinião. Aquela insistência em vestir a roupa sozinha, mesmo levando dez minutos e saindo torta? É ela desenvolvendo autonomia. Cada birra carrega, lá no fundo, um embrião de autoconhecimento.

Quando começa e quando termina de verdade

Apesar do nome sugerir uma fase pontual que acontece exatamente aos dois anos, a realidade é um pouco mais fluida do que isso. Muitas crianças começam a apresentar os primeiros sinais já a partir dos 18 meses. Outras só entram com força total perto dos dois anos e meio ou três anos. Não há um relógio biológico universal que faz a chave virar em todo bebê ao mesmo tempo.

O que os especialistas observam é que o pico dos comportamentos desafiadores costuma ocorrer entre os 18 meses e os três anos de idade. Depois disso, à medida que a linguagem se desenvolve e a criança consegue expressar melhor o que sente, a intensidade das reações vai diminuindo. Não desaparece do dia para a noite, mas vai cedendo espaço para formas mais elaboradas de comunicação. Você começa a ouvir mais “eu estou com raiva porque você não me deixou pegar isso” e menos choros inconsoláveis sem explicação aparente.

E se durar mais do que os três anos? Algumas crianças continuam com comportamentos mais desafiadores além dessa faixa etária, o que pode indicar algumas questões que vale observar. Pode ser simplesmente uma variação do desenvolvimento normal. Pode ser uma criança mais intensa por temperamento. Pode também ser um sinal de que algo precisa de atenção no ambiente familiar ou no desenvolvimento emocional. Nada disso é motivo para entrar em pânico, mas sim para observar com cuidado e buscar orientação quando necessário.


O que está acontecendo dentro da cabeça do seu filho de 2 anos

O cérebro em pleno desenvolvimento e a explosão emocional

Para entender o terrible twos, você precisa entender um pouco de neurociência básica, mas prometo que vai ser simples. O cérebro humano tem duas grandes regiões que importam muito para essa conversa. A primeira é o sistema límbico, que processa as emoções, as reações instintivas, o medo, a raiva, a frustração. A segunda é o córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio, pela tomada de decisões, pelo controle dos impulsos e pela capacidade de dizer para si mesmo “vou respirar antes de reagir”.

Em um adulto, esses dois sistemas se comunicam e se regulam mutuamente. Mas no cérebro de uma criança de dois anos, o córtex pré-frontal ainda está em construção. E vai continuar em construção por muitos anos ainda. Isso significa que quando seu filho entra em modo birra, o sistema límbico está no comando absoluto. Ele não tem, neurologicamente falando, a capacidade de se acalmar sozinho, de raciocinar sobre a situação ou de entender que “isso vai passar”. Ele só sente. Com tudo.

Isso não é desculpa para o comportamento. É uma explicação para ele. E existe uma diferença enorme entre esses dois conceitos. Quando você entende que seu filho não é capaz de se regular emocionalmente por conta própria ainda, você para de exigir dele uma habilidade que ele ainda não tem. Você para de dizer “para de fazer isso” e começa a pensar em como ajudá-lo a atravessar aquele momento. Essa mudança de perspectiva é pequena no enunciado, mas enorme na prática.

A busca por autonomia: quem é esse pequeno ser que surgiu?

Antes dos dois anos, a criança vive em grande parte no mundo do outro. Os pais decidem o que ela come, o que veste, quando dorme, quando sai. Ela participa, claro, mas de forma passiva. A partir dos dois anos, algo muda por dentro dela. Ela começa a perceber que é um ser separado, com vontade própria, e que essa vontade importa. Esse é um momento crucial do desenvolvimento da identidade, e é completamente saudável que ela queira exercer essa autonomia.

O problema é que o mundo não foi construído para atender a cada vontade de uma criança de dois anos. Você precisa chegar em algum lugar no horário. O supermercado tem horário de fechar. O brinquedo não está disponível agora. E quando a realidade bate de frente com a vontade dela, o resultado é aquela crise que você conhece bem. A frustração não é fraqueza. É o encontro entre o desejo que nasceu e os limites que o mundo apresenta. E esse encontro é parte essencial do crescimento.

Você já reparou como ela quer fazer tudo sozinha nessa fase? Calçar o tênis, subir a escada, abrir o pote de biscoito. E como fica furiosa quando você tenta ajudar sem ela pedir? Isso não é teimosia. É o instinto de autonomia funcionando. Ela está dizendo, com o corpo e com a reação, que precisa experimentar suas próprias capacidades. Cada vez que você interfere antes de ela precisar, você interrompe esse experimento. Às vezes é necessário interferir. Mas quando não for, deixe ela tentar.

A linguagem que ainda não acompanha o que ele quer dizer

Aqui está um dos grandes paradoxos do terrible twos que poucos artigos explicam com clareza: a criança entende muito mais do que consegue expressar. Aos dois anos, o repertório de compreensão é significativamente maior do que o repertório de produção de fala. Ela entende que está frustrada, que quer algo específico, que algo a incomodou. Mas não tem palavras suficientes para colocar tudo isso para fora.

Pense em uma situação em que você já tentou se comunicar em um idioma que não domina. Você sabe o que quer dizer. Você sente a urgência de se expressar. Mas as palavras não saem da forma certa. Agora imagine que isso acontece várias vezes por dia, com um sistema nervoso ainda imaturo, sem a capacidade de dizer para si mesmo “calma, vai dar certo”. Essa é mais ou menos a experiência do seu filho durante o terrible twos. A birra, muitas vezes, é simplesmente a única ferramenta de comunicação disponível.

O que isso implica na prática? Que uma das coisas mais poderosas que você pode fazer nessa fase é nomear as emoções pelo seu filho. Antes que a crise exploda ou durante ela, diga em voz alta o que você observa que ele está sentindo. “Você está com raiva porque não conseguiu encaixar o bloco.” “Você está triste porque o parque fechou.” Isso tem um efeito quase imediato de validação, porque ele sente que foi compreendido. E quando a criança se sente compreendida, a intensidade da reação diminui. Não zera, mas diminui. Com o tempo, ela começa a aprender que existem palavras para o que sente.


Os sinais que você vai ver no dia a dia e que são completamente normais

Birras, choros e o clássico jogar-se no chão

A birra é, sem dúvida, o símbolo maior do terrible twos. Ela pode acontecer no supermercado, na casa da vovó, no meio do restaurante, no banheiro antes do banho ou aparentemente do nada, sem nenhum gatilho visível para você. E ela costuma ter uma intensidade desproporcional ao evento que a desencadeou. Uma birra de dez minutos porque o copo d’água era azul e ela queria o vermelho. Vinte minutos porque a banana partiu ao meio quando ela queria inteira. Isso não é exagero dramático. É processamento emocional de alguém que ainda não tem outra ferramenta.

O que acontece durante a birra, do ponto de vista neurológico, é exatamente o que foi descrito antes: o sistema límbico assumiu o controle. E aqui vem algo importante que os pais precisam ouvir. Não adianta tentar resolver, negociar ou raciocinar com uma criança que está no meio de uma crise. O cérebro dela literalmente não está disponível para isso naquele momento. O que ela precisa é de presença, de calma e de tempo para que o sistema nervoso dela volte ao estado de equilíbrio. Você não precisa fazer nada além de estar lá, sem se desmanchar junto.

Depois que a crise passa, aí sim você pode conversar. Não em um tom de “vamos falar sobre o que você fez de errado”, mas sim em um tom de “o que aconteceu? Você estava com raiva do quê?”. Essa conversa não vai ensinar a lição de uma vez só. Ela vai ensinar pela repetição, ao longo de semanas e meses. E um dia, mais cedo do que você imagina, você vai notar que a criança começou a usar palavras no lugar do choro. Esse dia vai parecer milagre. Mas é desenvolvimento.

O “não” que vira a palavra favorita

Você chama ela para o almoço. “Não.” Você oferece o brinquedo favorito. “Não.” Você pergunta se ela quer um abraço. “Não.” E então você desiste de oferecer o abraço e ela chora porque queria o abraço. Se isso parece familiar, seja bem-vindo ao mundo do “não” automático. Essa é uma das características mais desconcertantes do terrible twos e também uma das mais significativas do ponto de vista do desenvolvimento.

O “não” automático não é sempre uma recusa real. Na maioria das vezes, é um teste de autonomia. A criança está verificando o que acontece quando ela se opõe. Ela está descobrindo que tem poder sobre as situações. E, mais importante, está testando se o adulto mantém a consistência ou cede. Por isso, um dos erros mais comuns nessa fase é transformar cada “não” em uma batalha. Quando você briga com ela por cada recusa, você está, sem querer, alimentando o comportamento. A criança aprende que o “não” gera reação, e reação é atenção, e atenção é o que ela mais quer.

Uma estratégia que funciona melhor é dar a ela escolhas dentro de limites que você controla. Em vez de perguntar “você quer almoçar?”, que abre espaço para o “não”, você diz “você quer arroz com feijão ou macarrão hoje?”. Você devolve a ela a sensação de controle, que é o que ela realmente quer, sem abrir mão da estrutura que a situação precisa. Esse ajuste simples na forma de comunicar reduz a quantidade de confrontos de forma considerável.

Agressividade física: quando morder e bater fazem parte do processo

Poucos comportamentos assustam mais os pais durante o terrible twos do que a agressividade física. Quando a criança morde o coleguinha na escola, dá um tapa no irmão menor ou bate no pai quando contrariada, a reação natural é de desespero. “Meu filho é agressivo. O que eu fiz de errado?” A resposta mais honesta é que, provavelmente, você não fez nada de errado. E seu filho não é agressivo no sentido que você está imaginando.

Morder, bater e chutar na fase do terrible twos são formas de comunicação física. Quando a fala não está disponível para expressar uma emoção intensa, o corpo entra em cena. É o jeito que o sistema nervoso dela encontrou para descarregar aquilo que não tem nome ainda. Isso não significa que deve ser ignorado ou tolerado. Mas significa que a resposta não pode ser raiva e punição, porque a punição não ensina a habilidade que falta. Ela apenas suprime o comportamento temporariamente, sem resolver a causa.

O que funciona é intervir no momento com firmeza e calma: “Não se bate. Quando você está com raiva, você faz assim”, e aí você mostra uma alternativa. Pode ser apertar os punhos, pisar no chão, soprar forte. Não precisa ser elaborado. Precisa ser consistente. Toda vez que o comportamento aparecer, você responde da mesma forma. Com o tempo, a criança começa a incorporar essa alternativa. Não acontece rápido, mas acontece.


Estratégias que funcionam na prática sem você virar refém das birras

Como manter a calma quando tudo parece caos

Aqui vai uma verdade que você precisa ouvir: você não vai conseguir ajudar seu filho a regular as emoções dele se as suas próprias emoções estiverem desreguladas. Isso não é crítica, é neurociência. Quando dois sistemas nervosos entram em colapso ao mesmo tempo, o resultado é caos multiplicado. Mas quando um adulto consegue manter a calma diante do caos da criança, essa calma se torna reguladora. A criança começa a se acalmar no campo energético do adulto.

Mas como manter a calma? Essa é a pergunta de um bilhão de reais. Primeiro, você precisa identificar o que especificamente te desregula. É o choro no espaço público? É a sensação de estar sendo observado por outras pessoas? É o cansaço acumulado de uma semana difícil? Cada adulto tem seus gatilhos específicos, e conhecê-los é o primeiro passo para trabalhar com eles. Quando você sabe o que te desregula, você pode se preparar antes de entrar nessas situações.

Segundo, ter um plano. Não um plano elaborado, mas um script interno simples. “Quando ela começar a crise, eu vou respirar três vezes, vou me abaixar na altura dela e vou dizer em voz baixa que entendo o que ela sente.” Ter esse roteiro memorizado diminui a chance de você reagir de forma impulsiva no pico do estresse. Não precisa ser perfeito. Na maioria das vezes, você vai errar. E tudo bem. O que importa é a direção, não a perfeição.

Rotina e limites: os pilares que trazem segurança real

A rotina é, sem dúvida, uma das ferramentas mais subestimadas na criação de filhos pequenos. Crianças nessa faixa etária têm uma necessidade enorme de previsibilidade. O cérebro delas está tentando mapear o mundo, e um mundo previsível é um mundo seguro. Quando a criança sabe que depois do banho vem a janta, que depois da janta vem a história e que depois da história vem o sono, ela não precisa gastar energia tentando descobrir o que vem a seguir. Essa energia fica disponível para o que realmente importa: explorar, aprender e se desenvolver.

Isso não significa que você precisa de um cronograma militar. Significa que a sequência das coisas importa mais do que o horário exato. O jantar pode ser às 18h ou às 19h conforme o dia, mas a sequência banho-janta-história-sono precisa ser consistente. Quando você quebra essa sequência com frequência, a criança fica mais ansiosa e, consequentemente, mais propensa às crises. Não porque ela seja difícil, mas porque o mundo dela ficou imprevisível.

Os limites funcionam de forma parecida. Uma criança sem limites claros é uma criança ansiosa, não uma criança livre. Ela precisa saber onde estão as bordas para se sentir segura dentro delas. Limites precisam ser claros, consistentes e sustentados com calma. “Você pode brincar aqui, mas não pode subir nessa cadeira.” Se ela subir, você retira com firmeza e calma e repete o limite. Sem grito, sem ameaça, sem longa explicação. Quanto mais simples e consistente, mais eficaz.

Como validar emoções sem ceder às exigências

Validar uma emoção não significa dizer sim para o comportamento. Esse é um dos mal-entendidos mais comuns que aparecem em consultório. Os pais às vezes sentem que se validarem a tristeza ou a raiva da criança, estão incentivando a birra. Mas essas são duas coisas completamente diferentes. Você pode dizer “eu sei que você está com raiva porque não pode ficar mais tempo no parque” e ao mesmo tempo se levantar e ir embora do parque. As duas coisas coexistem.

A validação tem um papel neurológico específico: ela acessa o sistema límbico da criança de uma forma que acalma, em vez de acirrar. Quando a criança sente que foi compreendida, o sistema nervoso dela começa a desescalar. Quando ela sente que foi ignorada ou que a emoção dela foi desqualificada, o sistema nervoso dela escala ainda mais. Por isso, frases como “para de chorar, não é nada” ou “que bobagem, isso não dói” têm o efeito oposto ao que os pais esperam. Elas aumentam a intensidade da reação.

A estrutura de comunicação que funciona melhor nessa fase tem três partes. Primeiro, você nomeia o que ela sente. Segundo, você valida que faz sentido ela sentir isso. Terceiro, você mantém o limite. “Você está com raiva porque não pode comer doce agora. Eu entendo que você queria muito. E hoje não vai ter doce.” Essa sequência não elimina a crise. Mas ela cria uma experiência emocional diferente para a criança, e é pela repetição dessas experiências que ela vai aprendendo a se regular.


O que essa fase revela sobre você como pai ou mãe

Seus gatilhos emocionais entram em cena

O terrible twos faz uma coisa muito curiosa com os pais: ele coloca em xeque coisas que estavam bem guardadas dentro de você. Coisas da sua própria infância, da sua relação com autoridade, do seu medo de parecer fraco ou de ser julgado. Quando você se vê gritando com uma criança de dois anos que está chorando no chão do supermercado, não é apenas cansaço. Em geral, existe um gatilho emocional antigo por baixo disso.

Muitos pais descobrem, durante essa fase, que têm uma dificuldade enorme com a sensação de perder o controle. Outros percebem que ficam muito afetados pelo julgamento alheio, especialmente quando a crise acontece em público. Outros ainda descobrem que quando o filho os rejeita com um “não quero você, quero mamãe”, aquilo desperta uma ferida antiga de rejeição que eles nem sabiam que tinham. Nenhum desses padrões é culpa sua. Mas todos eles precisam da sua atenção.

A boa notícia é que a parentalidade, e especialmente essa fase, é uma das maiores oportunidades de crescimento pessoal que a vida oferece. Cada vez que você para diante de um gatilho e se pergunta “o que está acontecendo comigo agora?”, em vez de só reagir, você está fazendo um trabalho de autoconhecimento real. Não é fácil. Mas é transformador. E os benefícios não ficam só em você, eles chegam direto nos seus filhos.

Construindo vínculo mesmo nos momentos mais difíceis

O vínculo entre pais e filhos não é construído apenas nos momentos bonitos. Não é só no beijo de boa noite, no dia de parque ou na risada compartilhada. O vínculo se consolida de verdade nos momentos de crise, quando a criança está no pior dela e você continua lá. Quando ela está irracional, irritante e aparentemente impossível de agradar, e mesmo assim você não vai embora, não se fecha, não a rejeita.

Isso não significa que você precisa ser perfeito. Significa que a presença, mesmo imperfeita, já é suficiente. Quando você erra e grita, e depois se aproxima, se desculpa e reconecta, você está ensinando algo extremamente valioso: que é possível se machucar e se reconectar. Que o conflito não destrói o amor. Que os relacionamentos têm reparo. Essa é uma das lições mais importantes que uma criança pode aprender, e ela aprende com você.

Existem práticas simples que fortalecem o vínculo especificamente durante essa fase. Uma delas é o tempo de qualidade intencional: dez a quinze minutos por dia em que você segue a liderança da criança nas brincadeiras, sem dar ordens, sem ensinar, sem direcionar. Só segue. Isso preenche uma necessidade emocional dela que, quando satisfeita, reduz o comportamento de demanda ao longo do dia. Pode parecer pouco, mas a pesquisa sobre parentalidade mostra que é muito mais eficaz do que horas de convivência dividida com telas, trabalho ou distrações.

Quando buscar ajuda profissional é o movimento mais inteligente

Existe uma diferença entre o terrible twos esperado e algo que precisa de atenção especializada. E reconhecer essa diferença é, na verdade, um ato de amor pelos seus filhos. Nem todo comportamento desafiador de uma criança de dois anos é apenas a fase. Algumas crianças têm dificuldades de processamento sensorial que intensificam as crises. Outras podem estar apresentando sinais de atraso de desenvolvimento que precisam de intervenção precoce. Outras ainda podem estar respondendo a um ambiente familiar que precisa de suporte.

Alguns sinais que indicam que vale buscar ajuda incluem: crises de intensidade ou duração que parecem fora do comum mesmo para essa fase, ausência de desenvolvimento de fala dentro do esperado para a idade, comportamentos de agressividade que não diminuem com o tempo e as intervenções, sinais de ansiedade intensa na criança, ou dificuldade significativa dos pais em lidar com a situação de forma que está afetando a saúde mental da família. Cada um desses pontos, isolado ou em conjunto, é razão suficiente para marcar uma consulta.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza e muito menos de fracasso. É o reconhecimento de que você está diante de algo que precisa de mais do que boas intenções. Pode ser um pediatra, pode ser um psicólogo infantil, pode ser um terapeuta familiar. O importante é não esperar a situação chegar a um ponto de exaustão total antes de pedir suporte. A parentalidade não foi feita para ser feita sozinha, e as redes de apoio, sejam elas profissionais ou afetivas, fazem toda a diferença.


Dois exercícios para fixar o aprendizado

Exercício 1: O Diário das Crises

Durante uma semana, toda vez que seu filho entrar em crise, anote em um caderno ou no celular três informações: o horário em que aconteceu, o que antecedeu a crise e qual foi a sua reação interna naquele momento, não a reação externa, mas o que você sentiu por dentro.

Ao final da semana, releia as anotações e procure padrões. Há um horário em que as crises são mais frequentes? Geralmente antes do jantar, quando a criança está com sono ou fome? Qual gatilho emocional seu apareceu com mais frequência? Você ficou com vergonha? Com raiva? Com impotência?

Resposta e objetivo do exercício: O diário não é para você resolver tudo de uma vez. É para você sair do modo reativo, em que você só responde às crises quando elas já chegaram ao pico, e entrar em um modo mais observador. Quando você começa a identificar padrões, começa a antecipar situações e a se preparar para elas. Com o tempo, você vai perceber que muitas crises têm gatilhos previsíveis, como fome, cansaço ou excesso de estimulação, e que com alguns ajustes simples de rotina é possível reduzir a frequência delas. Além disso, o mapeamento dos seus próprios gatilhos emocionais é o primeiro passo para trabalhar com eles, seja sozinho ou com apoio terapêutico.


Exercício 2: A Frase de Validação Personalizada

Escolha um comportamento específico do seu filho que mais te desafia nessa fase. Pode ser a birra no momento do banho, o “não” para tudo na hora de dormir, a agressividade com o irmão. Agora, com esse comportamento em mente, escreva uma frase de validação que você vai usar toda vez que ele acontecer. Essa frase precisa ter três partes: nomear o sentimento, validar que faz sentido sentir isso e manter o limite com clareza.

Exemplo: se a crise for no banho, a frase pode ser “Eu vejo que você está com raiva porque precisa parar de brincar para tomar banho. Faz sentido você não querer parar agora. E o banho precisa acontecer, então vamos juntos.”

Treine essa frase em voz alta, sozinho, antes de precisar usá-la. Parece estranho, mas o treino em momento de calma ajuda o cérebro a acessar a frase em momentos de estresse, quando a tendência natural é reagir de forma impulsiva.

Resposta e objetivo do exercício: a frase de validação não é uma fórmula mágica que vai acabar com a birra imediatamente. Ela é uma ferramenta de comunicação que, usada com consistência, vai ensinando ao seu filho que as emoções têm nome e que é possível atravessá-las com segurança. Com o tempo, você vai perceber que a criança começa a usar as mesmas palavras que você usou. Ela vai dizer “eu tô com raiva” em vez de se jogar no chão. Esse momento é pequeno na aparência, mas é enorme no que representa: ela aprendeu a nomear o que sente porque você fez isso por ela primeiro.


O terrible twos não é uma fase que você precisa sobreviver como se fosse uma tempestade. É uma fase que você pode atravessar com mais presença, mais entendimento e, surpreendentemente, com mais conexão do que você imagina ser possível. Não vai ser linear. Vai ter dias em que tudo vai funcionar e dias em que nada vai funcionar. Mas você está lendo sobre isso, buscando entender, querendo fazer diferente. E isso já diz muito sobre quem você é como pai ou mãe.

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

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