Ensinando o conceito de "compartilhar" sem forçar a criança
Família e Maternidade

Ensinando o conceito de “compartilhar” sem forçar a criança

Ensinando o conceito de compartilhar sem forçar a criança é um dos temas que mais aparecem nas consultas com famílias de crianças pequenas. Toda semana uma mãe ou um pai chega até aqui com aquela expressão exausta e um pouco culpada, querendo entender por que o filho não consegue simplesmente dividir um brinquedo sem transformar aquilo num drama completo de fim de tarde. E o que mais oiço antes de qualquer outra coisa é: “será que eu estou errando em alguma coisa?”

A resposta curta é não. Você não está errando. Você está lidando com um ser humano em plena construção, tentando ensinar algo que nem adulto faz sempre com facilidade. A boa notícia é que existe um caminho mais tranquilo do que o que você tem tentado, e é exatamente sobre esse caminho que vamos conversar aqui. Então se acomoda, porque esse papo vai fazer bastante sentido para a sua realidade.


Por que forçar a criança a compartilhar não funciona

Essa é a parte que muita gente não quer ouvir, mas que vai te liberar de uma carga enorme. Forçar não ensina. Forçar só produz obediência temporária, e obediência temporária não é aprendizado. É uma pausa no conflito que vai voltar na próxima vez com a mesma intensidade, ou até mais.

Quando você obriga uma criança a entregar o brinquedo que ela está segurando, o que acontece ali dentro não é “ah, entendi que dividir é bom”. O que acontece é um misto de confusão, frustração e insegurança. Ela não compreendeu a situação. Ela simplesmente cedeu à pressão de um adulto com mais poder do que ela. Isso é muito diferente de aprender, e a diferença entre essas duas coisas vai aparecer nos comportamentos dela meses e anos depois.

Pesquisas na área do desenvolvimento infantil mostram que crianças forçadas a compartilhar frequentemente desenvolvem uma resistência ao ato de dividir. Elas ficam mais vigilantes com os próprios objetos, não menos. O efeito é exatamente o oposto do que você está tentando alcançar. Então, antes de segurar a mão do seu filho e forçar aquele brinquedo para o amiguinho, respira fundo. O caminho mais eficaz não começa com a força. Começa com a compreensão.

O que acontece no cérebro da criança quando ela é forçada

O cérebro de uma criança pequena ainda está em plena construção. A região responsável pelo controle emocional, pela empatia e pela tomada de decisões mais elaboradas, que é o córtex pré-frontal, não estará completamente desenvolvida até a idade adulta. Quando você pede para uma criança de dois ou três anos que “pense no amiguinho”, você está fazendo uma demanda que o cérebro dela ainda não tem estrutura para atender de forma consistente. Isso não é desculpa para não ensinar. É um convite para você ajustar as suas expectativas.

Quando a criança é forçada a compartilhar antes de estar pronta emocionalmente, o que ela aprende é que os próprios sentimentos não importam. Ela aprende que quando alguém mais forte quer algo que é dela, ela precisa ceder. Esse padrão pode gerar dificuldades sérias mais tarde, porque você não estava apenas ensinando sobre brinquedos. Estava ensinando sobre como ela deve responder à pressão social. E esse aprendizado vai muito além do parquinho.

Existe ainda outro fator importante aqui: a tensão que fica no corpo depois de uma situação forçada. A criança que foi obrigada a entregar o brinquedo está com raiva. Com uma raiva que não sabe nomear, que não sabe expressar de forma construtiva. Essa energia precisa ir para algum lugar, e ela frequentemente vai para o próximo conflito, com mais intensidade. Quando você entende isso, começa a perceber que resolver rápido na superfície às vezes cria um problema maior logo adiante.

A fase do “é meu” é normal e necessária

Entre dois e quatro anos, a criança vive uma das fases mais importantes do desenvolvimento humano: a construção da identidade individual. Ela está descobrindo que é um ser separado dos outros, que tem vontades próprias, que existe um “eu” nesse mundo. E parte dessa descoberta passa exatamente pela posse. “Isso é meu” não é malcriação. É a criança praticando o senso de identidade.

A neuropsicóloga Ana Paula Cuoccolo Macchia explica que essa fase egocêntrica é biologicamente programada. A criança não está sendo cruel quando não quer dividir. Ela está sendo neurologicamente normal. Entender isso muda completamente a forma como você reage no momento de tensão. Você para de interpretar o comportamento como um defeito de caráter e começa a vê-lo como o que ele é: uma etapa do crescimento.

Se você consegue olhar para esse comportamento como parte do processo, você para de se envergonhar na frente dos outros pais e começa a agir de forma mais eficaz. Você para de punir o desenvolvimento e começa a guiar o seu filho pelo processo. Isso é exatamente o que essa fase exige: paciência estratégica, não confronto.

Os erros mais comuns que os pais cometem sem perceber

O primeiro erro é a humilhação pública. Quando você diz “que feio, dá o brinquedo para o amiguinho” na frente de todo mundo no parque, você não está ensinando generosidade. Você está ensinando vergonha. E vergonha não cria pessoas generosas. Cria pessoas que escondem o que sentem para evitar o julgamento dos outros.

O segundo erro é a ameaça. “Se você não dividir, vou contar para o fulano que você é egoísta.” Isso é manipulação emocional, e crianças pequenas absorvem esse tipo de comunicação de forma muito profunda. Elas podem até dividir na hora, mas o aprendizado que fica não é sobre generosidade. É sobre medo de julgamento. Aquele filho que cresceu sob ameaças pode se tornar adulto que compartilha apenas para ser aprovado, não porque genuinamente quer.​

O terceiro erro é ignorar os sentimentos da criança antes de partir para a solução. Você entra no conflito, vê o brinquedo disputado e já resolve sem primeiro perguntar o que aconteceu. Nomear o que a criança está sentindo antes de agir é a primeira parte do processo. “Você não quer emprestar agora porque acabou de pegar o carrinho, entendi.” Isso não significa que ela vai ficar com o brinquedo para sempre. Significa que você está vendo ela como uma pessoa com sentimentos válidos, e isso cria confiança. Confiança, por sua vez, cria abertura para o aprendizado.


O desenvolvimento do compartilhar por faixa etária

Compartilhar não é uma habilidade que aparece do nada. Ela se constrói em camadas, ao longo dos anos, e cada fase da infância tem o seu próprio nível de capacidade para lidar com isso. Quando você entende em que ponto do desenvolvimento o seu filho está, você para de cobrar o impossível e começa a oferecer o suporte certo.

Essa é uma das partes que mais alivia os pais quando conversamos sobre isso. A sensação de que algo está “errado” com a criança quase sempre vem de expectativas desalinhadas com a idade. Você não pede para um bebê que ainda não anda que corra uma maratona. Da mesma forma, você não pede para uma criança de dois anos que pratique empatia avançada como um adulto.

Entender as fases não é uma forma de dar desculpas para o comportamento da criança. É uma forma de agir com precisão. Quando você sabe o que a criança consegue processar em cada etapa, você ajusta o seu suporte e os seus pedidos de forma que eles realmente cheguem onde precisam chegar. É como ajustar o tamanho de uma ferramenta para o trabalho que você precisa fazer.

De 0 a 2 anos: o mundo ainda sou eu

Nos primeiros dois anos de vida, a criança vive o que os estudiosos chamam de fase de indiferenciação. Ela e o mundo são praticamente a mesma coisa na percepção dela. Não existe ainda uma distinção clara entre o “eu” e o “outro”, então a ideia de dividir simplesmente não faz sentido cognitivo nessa fase. Não adianta pedir. O aparato neurológico para processar esse pedido ainda não está montado.

Nessa fase, o que você pode fazer é começar a apresentar a linguagem do compartilhar de forma leve e completamente sem cobrança. Quando você divide algo com ela e diz em voz alta “olha, mamãe está dividindo o pão com você”, você está plantando a semente. Não espere colheita imediata. Apenas plante. Essa repetição vai construindo uma memória de linguagem que vai fazer muito sentido lá na frente, quando a capacidade cognitiva para processar o conceito surgir.

Também é importante que você não crie situações de conflito desnecessárias nessa faixa etária. Se duas crianças de um ano estão disputando o mesmo objeto, a melhor intervenção é redirecionar a atenção de uma delas para outro brinquedo. Um discurso sobre generosidade não vai chegar onde você quer nessa fase. A distração resolve o conflito imediato sem criar tensão desnecessária.

De 2 a 4 anos: a consciência do outro começa a surgir

Aqui é onde a maioria dos conflitos acontece, e também onde a maioria dos pais mais sofre. A criança de dois a quatro anos está exatamente na fronteira entre “eu sou tudo” e “existe outro aqui”. Ela começa a perceber que os outros têm desejos, mas ainda não consegue priorizar esses desejos acima dos seus. É uma transição real e, às vezes, bem barulhenta.

Nessa fase, a abordagem mais eficaz é o revezamento com tempo definido. Em vez de pedir para a criança “dividir”, você propõe que ela usa o brinquedo por um tempo e depois passa para o amigo. Isso respeita a necessidade de posse dela enquanto introduz o conceito de espera e de turno. Você não está pedindo para ela abrir mão. Você está apresentando a ideia de que as coisas continuam existindo mesmo quando estão momentaneamente nas mãos de outra pessoa.​

Outra estratégia que funciona bem aqui é a nomeação dos objetos. Quando você deixa claro para a criança o que é dela, o que é do amigo e o que é de uso coletivo, você organiza a percepção dela sobre o mundo material. Isso reduz a ansiedade que está por trás de grande parte da recusa em compartilhar. A criança muitas vezes não quer dividir porque tem medo de perder. Quando ela entende os limites do que é seu e tem a garantia de que vai receber de volta, ela relaxa a guarda.

De 4 a 6 anos: quando a empatia começa a entrar em cena

A partir dos quatro anos, a criança começa a desenvolver o que chamamos de teoria da mente, que é a capacidade de entender que os outros têm pensamentos e sentimentos diferentes dos seus. Essa é a base da empatia, e é aqui que o compartilhar começa a fazer sentido de verdade para ela. Não apenas como uma obrigação, mas como um ato com consequências reais para outra pessoa.

Nessa fase, você já pode usar conversas mais elaboradas. Perguntas do tipo “como você acha que o Lucas se sentiu quando você não quis emprestar o carrinho?” começam a fazer sentido real. A criança já consegue processar isso e, muitas vezes, surpreende pela profundidade da resposta que dá. Ela já sente que pode ter magoado o amigo, mesmo que ainda não saiba exatamente o que fazer com esse sentimento. Esse é o momento de ajudá-la a transformar esse sentimento em ação.

Os estudos mostram que crianças entre quatro e seis anos tendem a compartilhar mais com quem têm laços afetivos, ou seja, com amigos próximos e familiares. Isso é importante para você entender: a sua criança pode não compartilhar com uma criança desconhecida no parque e dividir tudo com o primo que ela vê todo fim de semana. Isso não é seletividade problemática. É o desenvolvimento social funcionando exatamente como deveria. A generosidade com desconhecidos vem depois, à medida que o senso de segurança cresce.


Como criar um ambiente que ensina naturalmente

Antes de qualquer técnica, antes de qualquer estratégia específica, existe um fator que determina mais do que qualquer outro a capacidade da criança de compartilhar: o ambiente que você cria ao redor dela. Um ambiente seguro, onde ela sente que suas coisas são respeitadas e que os seus sentimentos são ouvidos, é paradoxalmente o ambiente onde ela mais aprende a dividir.

A segurança emocional é a base de tudo. Quando a criança sente que os adultos ao redor respeitam os limites dela, ela desenvolve confiança. E confiança é exatamente o que permite que ela abra a mão para dividir. Ninguém compartilha com tranquilidade aquilo que tem medo de perder para sempre. Esse princípio vale para crianças, para adolescentes e para adultos.

Criar esse ambiente não exige que você faça nada grandioso. Exige consistência nas pequenas coisas do dia a dia. Responder quando ela chama, respeitar quando ela diz que não quer um abraço agora, não pegar os brinquedos dela sem pedir. Cada um desses pequenos gestos constrói a sensação de segurança que vai, com o tempo, tornar o compartilhar algo natural e não ameaçador para ela.

Você como modelo vivo de compartilhamento

Você não precisa de um manual para ensinar compartilhamento. Você já tem a ferramenta mais poderosa: o seu próprio comportamento. Crianças aprendem pelo que observam muito mais do que pelo que ouvem, e esse dado é consistente em décadas de pesquisa sobre desenvolvimento infantil.

Quando você divide o último pedaço de fruta com seu parceiro, quando você empresta um livro para uma amiga e fala sobre isso em voz alta, quando você diz “vou dividir minha água com a vovó porque ela está com sede”, você está ensinando sem precisar dar nenhuma palestra. A criança absorve tudo isso de forma natural, sem resistência, porque não é uma obrigação imposta. É só o que acontece em casa.

Esse é o tipo de aprendizado que gruda de verdade. Não é o que você fala nos momentos de conflito. É o que você faz nas horas tranquilas do cotidiano. Então, antes de pensar em qualquer estratégia para o seu filho, pensa na sua própria prática de compartilhamento. Você divide o que tem? Você fala sobre isso de forma natural? Você pede emprestado e devolve na hora combinada? Essas ações diárias são o currículo mais importante que a criança vai ter sobre esse tema.

A linguagem certa que abre portas

As palavras que você usa em momentos de tensão fazem uma diferença enorme. “Dá para o seu amigo” soa como um comando que apaga a vontade da criança. “Você pode emprestar o carrinho para o João por um tempinho?” é um convite que preserva a autonomia dela. A diferença entre essas duas frases não é apenas semântica. A primeira posiciona você como autoridade que remove os direitos dela. A segunda posiciona você como mediador que apresenta uma possibilidade.

A criança que recebe um convite tem a chance de tomar uma decisão. E quando ela decide compartilhar a partir de um convite, o aprendizado é muito mais profundo do que quando ela simplesmente obedece a uma ordem. Ela aprendeu que pode escolher. Ela aprendeu que a sua decisão tem impacto no outro. Isso é completamente diferente de aprender que precisa ceder quando um adulto manda.

Outra virada de linguagem importante é substituir a palavra “dividir” por “emprestar”. Dividir soa como perda definitiva para uma criança pequena. Emprestar preserva a ideia de que o objeto vai voltar. Isso reduz a resistência de forma significativa, porque a criança não sente que está perdendo algo. Ela está apenas fazendo uma pausa no uso. “O carrinho vai para o Lucas por cinco minutos e depois volta para você” é uma frase que a criança pequena consegue processar com muito menos angústia do que “você precisa dividir o carrinho com o Lucas”.​

Brincadeiras coletivas que ensinam sem pressão

Jogos e brincadeiras coletivas são os contextos mais ricos para o aprendizado do compartilhamento, porque neles a divisão surge como necessidade natural da própria atividade, e não como imposição de um adulto. Não existe um vilão mandando ninguém dividir nada. A própria situação cria a necessidade, e a criança resolve junto com os outros.

Quando você propõe que as crianças montem um quebra-cabeça juntas, cada uma precisa das peças que o outro tem. Quando você dá uma única caixa de tinta para um grupo desenhar, o compartilhamento acontece dentro da dinâmica da brincadeira. Atividades como cartolina coletiva, onde cada criança contribui com uma parte de um grande desenho, ou jogos cooperativos, onde o objetivo é que todos ganhem juntos, são formas de praticar o compartilhar de forma completamente orgânica.

Cuidado apenas com as brincadeiras que criam competição intensa, onde o foco passa a ser vencer, não cooperar. Você pode usar o futebol, por exemplo, para ensinar trabalho em equipe. Mas precisa ter atenção para que o resultado do jogo não vire o único ponto de atenção. O processo de jogar junto, de passar a bola, de defender o companheiro, esses são os momentos de aprendizado que você quer destacar ao conversar com a criança depois da brincadeira.


Estratégias práticas para o dia a dia

Teoria é ótimo. Mas você precisa de coisas concretas para usar agora, naquele momento em que o conflito acontece na sala, com duas crianças gritando pelo mesmo brinquedo e você ainda tentando resolver outros três problemas ao mesmo tempo. As estratégias a seguir são para esse momento real.

Elas não são mágica. Nenhuma vai funcionar sempre e em todas as situações, porque crianças são seres humanos complexos e cada dia é um dia diferente. Mas elas são ferramentas que, quando usadas com consistência, vão construindo um padrão de comportamento ao longo do tempo. A criança não muda da noite para o dia. Mas ela muda com repetição, com segurança e com um adulto que sabe para onde está indo.

Antes de entrar em cada estratégia, um aviso importante: consistência vale mais do que perfeição. Você vai errar às vezes. Vai gritar quando não queria, vai forçar quando estava tentando não forçar. Isso faz parte. O que define o desenvolvimento da criança não é a ausência de erro. É o padrão geral de como você costuma responder.

O brinquedo especial e o direito de não compartilhar

Existe algo que a criança não precisa compartilhar. E isso é completamente válido. Definir com o seu filho um ou dois brinquedos que são só dele, que nenhuma outra criança vai usar, é uma estratégia que reduz a ansiedade de forma significativa e, paradoxalmente, aumenta a disposição para dividir o restante.​

Luana

Luana Psico é psicóloga clínica (CRP 07 /2044 formada pela Unicamp, com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental / Psicanálise / Gestalt.  Facebook 
Com 30 anos de experiência, Luana dedica-se a oferecer um espaço seguro, ético e acolhedor para seu público,  adultos e adolescentes] que buscam autoconhecimento e qualidade de vida.   Em sua prática diária, atua ajudando pacientes a lidarem com questões como ansiedade, depressão, estresse, luto e transições de carreira. Instagram  

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *