Sente-se confortavelmente. Respire fundo. Quero começar nossa conversa hoje fazendo uma pergunta que talvez você evite fazer a si mesmo na correria da segunda-feira de manhã. Você está apenas sobrevivendo aos seus dias ou está realmente vivendo eles? Parece a mesma coisa, eu sei. Acordamos, pagamos contas, resolvemos problemas e voltamos a dormir. Mas existe uma diferença silenciosa e profunda entre funcionar e existir.[1]
Muitas vezes, recebo aqui no consultório pessoas que têm “tudo”. Têm o emprego estável, a família estruturada, saúde física em dia. E, no entanto, carregam um peso invisível nos ombros. Elas me dizem que sentem um buraco no peito, uma sensação de que falta algo que não tem nome. Se você já sentiu que estava no piloto automático, apenas cumprindo tabela sem entender o “para que” de todo o seu esforço, saiba que você não está sozinho. E, mais importante, existe um caminho para iluminar essa estrada escura.
Hoje vamos conversar sobre a Logoterapia. Não se assuste com o nome técnico. Vamos chamar de “a cura pelo sentido”. Essa abordagem não quer saber apenas dos traumas da sua infância ou dos seus impulsos biológicos.[1] Ela quer saber o que faz seus olhos brilharem. Ela quer ajudar você a encontrar aquela luz teimosa que insiste em brilhar mesmo quando tudo ao redor parece escuridão absoluta. Vamos juntos descobrir como isso se aplica à sua vida, aqui e agora.
O Que é a Logoterapia? (A Cura Pelo Sentido)
Muito Além de Apenas “Pensar Positivo”[1][5]
É comum as pessoas confundirem a busca por sentido com aquele otimismo ingênuo de redes sociais.[1] Você sabe do que estou falando. Aquelas frases feitas que dizem “sorria e tudo vai dar certo”. A Logoterapia não é sobre isso.[1] Ela é pé no chão. Ela é realista. Ela reconhece que a vida pode ser dura, injusta e dolorosa.[1] A proposta aqui não é fingir que a dor não existe, mas sim encontrar um motivo para continuar caminhando apesar da dor.
Pense nisso como um farol em uma tempestade. O farol não faz a tempestade parar. As ondas continuam batendo, o vento continua soprando.[1] Mas o farol dá uma direção. Ele impede que o barco se perca na imensidão escura. A Logoterapia ajuda você a construir esse farol interno.[1] É uma abordagem que diz que a vida tem sentido em todas as circunstâncias, mesmo nas mais miseráveis.[1][3] Isso exige coragem. Exige que você olhe para a sua realidade sem filtros e, ainda assim, decida que vale a pena.
Quando você muda a sua perspectiva, tudo muda.[1] Não é mágica, é uma mudança de postura.[1] Deixamos de perguntar “por que isso está acontecendo comigo?” e passamos a perguntar “o que a vida espera de mim nessa situação?”. Essa pequena inversão tira você da posição de vítima e o coloca na cadeira de piloto.[1] E é exatamente aí que a cura começa a acontecer, quando você assume a responsabilidade pela sua resposta diante do mundo.[1]
A História de Viktor Frankl: Luz nos Campos de Concentração[1][3]
Para entender a profundidade do que estamos falando, precisamos olhar para quem criou tudo isso.[1] Viktor Frankl não era um teórico trancado em uma biblioteca confortável em Viena.[1] Ele era um psiquiatra judeu que viveu o inferno na Terra.[1] Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi prisioneiro em quatro campos de concentração, incluindo Auschwitz. Ele perdeu quase toda a família: esposa, pais, irmão. Ele foi despido de tudo o que tinha, de sua identidade, de suas roupas, de seus manuscritos.
Imagine a situação. Frio extremo, fome, trabalhos forçados, brutalidade diária e a constante ameaça da câmara de gás. Frankl observou algo fascinante e terrível naqueles campos.[1] Ele percebeu que os prisioneiros que sobreviviam não eram necessariamente os mais fortes fisicamente.[1] Eram aqueles que tinham um “para que” viver.[1][4][6][7] Podia ser o desejo de reencontrar um filho, a vontade de terminar um livro ou simplesmente a decisão de não deixar que os guardas quebrassem seu espírito.
Frankl sobreviveu e nos deixou esse legado. Ele provou na própria carne que, se um ser humano consegue encontrar sentido no sofrimento de um campo de concentração, então é possível encontrar sentido em qualquer lugar.[1] A história dele não serve para diminuir o seu sofrimento atual, mas para mostrar a força incrível que você carrega dentro de si. Se existe um propósito, o ser humano suporta quase qualquer “como”.[1][7] Essa é a base de tudo o que vamos conversar hoje.
A Diferença Vital: Prazer, Poder e Sentido[2][3]
A psicologia tem várias escolas, e cada uma foca em algo diferente. Sigmund Freud, que você certamente já ouviu falar, dizia que somos movidos pela busca do prazer.[1][2] É aquela vontade de satisfazer nossos desejos e instintos.[1] Já Alfred Adler, outro grande nome, dizia que o que nos move é a busca pelo poder, a vontade de nos afirmarmos e superarmos nossas inferioridades.[1] Mas Frankl olhou para o ser humano e disse: “Isso não é tudo”.[1]
Você pode ter todo o prazer do mundo. Pode comer as melhores comidas, viajar para os melhores lugares. E ainda assim se sentir vazio. Você pode ter todo o poder, ser o chefe da empresa, ter status e dinheiro.[1] E ainda assim se sentir miserável. A Logoterapia propõe que a motivação primária da nossa espécie é a “Vontade de Sentido”.[1][3][6][8] Nós queremos saber que a nossa vida importa. Queremos sentir que nossa existência faz diferença.
É por isso que vemos tantas pessoas ricas e famosas entrando em depressão profunda ou em vícios destrutivos.[1] Elas saciaram a vontade de prazer e a vontade de poder, mas a vontade de sentido ficou faminta. Entender essa diferença é libertador. Se você está se sentindo insatisfeito mesmo tendo uma vida “confortável”, talvez não seja ingratidão da sua parte.[1] Talvez seja apenas a sua dimensão humana pedindo por algo mais profundo do que conforto.[1]
Os Três Pilares da Sua Existência[1][2][4][8]
A Liberdade da Vontade: Você Não é Uma Vítima[1][5][9]
Vamos falar sobre liberdade. Mas não a liberdade política ou a liberdade de ir e vir.[1] Estou falando de algo que ninguém pode tirar de você. Frankl ensinava que nós não somos livres das condições.[1] Você não escolhe seus genes, não escolhe onde nasceu e, muitas vezes, não escolhe as doenças ou tragédias que batem à sua porta. Essas são as condições biológicas, psicológicas e sociais.[1] Elas existem e nos limitam.[1]
Porém, e aqui está o grande segredo, nós somos livres para escolher a nossa atitude diante dessas condições. Essa é a liberdade da vontade.[1][3][6][8][10] Imagine que você está preso no trânsito engarrafado. Você não tem liberdade para fazer os carros voarem.[1] O fato (o trânsito) é imutável naquele momento.[1] Mas você é livre para escolher se vai passar aquela hora xingando e buzinando, aumentando sua pressão arterial, ou se vai usar aquele tempo para ouvir um audiolivro, refletir ou simplesmente praticar a paciência.
Essa liberdade última é o que nos torna humanos.[1] O cachorro age por instinto.[1] Se você o chuta, ele morde ou foge.[1] Nós temos um espaço entre o estímulo e a resposta.[1] Nesse espaço reside a nossa liberdade.[1] Você sempre pode escolher como vai responder ao que a vida fez com você.[1][7] É uma liberdade pesada, pois traz responsabilidade, mas é também a única forma de assumirmos o controle real da nossa biografia.
A Vontade de Sentido: O Combustível da Vida[1]
Já falamos que essa é a nossa motivação principal. Mas como ela funciona na prática? A vontade de sentido não é algo que a gente inventa.[1][2] Não adianta acordar e dizer “hoje vou inventar que o sentido da minha vida é colecionar selos”. O sentido precisa ser descoberto, não criado. Ele é algo que nos puxa, que nos atrai.[1] É como se o mundo estivesse fazendo perguntas e nós precisássemos responder com nossas ações.
Quando essa vontade de sentido é bloqueada, nós adoecemos.[1] Não é uma doença física, é uma doença do espírito.[1] Ficamos apáticos, cínicos, desmotivados. Por outro lado, quando estamos engajados em algo que faz sentido para nós, somos capazes de sacrifícios incríveis.[1] Pense nas mães e pais que acordam de madrugada para cuidar de um filho doente. Eles estão cansados, mas não desistem. Por quê? Porque existe um sentido, um amor que justifica aquele cansaço.
A vontade de sentido é o que nos tira da cama nos dias difíceis.[1] Ela é o oposto da depressão.[1] Enquanto a depressão nos puxa para baixo e para dentro, a vontade de sentido nos puxa para frente e para fora.[1] Ela nos conecta com o mundo, com as outras pessoas, com causas maiores que nós mesmos. É o combustível mais potente que existe, mais forte que cafeína ou qualquer estimulante, porque alimenta a alma e não apenas o corpo.[1]
O Sentido da Vida: Ele Muda, Mas Sempre Existe[8]
Uma das maiores angústias que ouço é: “Qual é o sentido da minha vida?”. As pessoas esperam uma resposta única, grandiosa, escrita em letras douradas, que valha para a vida inteira. A Logoterapia traz um alívio imenso ao dizer que isso não existe.[1] O sentido da vida não é algo estático.[1][2][3][4][5][7][9][11] Ele muda. O sentido da sua vida aos 20 anos é diferente do sentido aos 40 ou aos 80.[1]
E mais do que mudar com a idade, ele muda a cada situação.[1] O sentido da vida neste exato momento, enquanto você lê este texto, pode ser buscar conhecimento para melhorar a si mesmo. Daqui a pouco, o sentido pode ser ajudar seu filho com a lição de casa. Mais tarde, pode ser simplesmente descansar para recuperar as forças.[1] A vida é uma sequência de momentos, e cada momento oferece um sentido único e específico.[1]
A pergunta não é “qual o sentido da vida no geral?”, mas “qual o sentido deste momento?”. O que a vida está pedindo de você agora? Às vezes, o sentido é agir.[1] Às vezes, é contemplar. Às vezes, é suportar com dignidade uma situação difícil.[1][5] Se você parar de procurar uma missão grandiosa e começar a prestar atenção nas pequenas tarefas e amores do seu dia a dia, vai perceber que o sentido está escondido nos detalhes, esperando para ser realizado por você.[1]
Enfrentando o Vazio Existencial[1][2]
A “Neurose de Domingo”: Por Que o Tédio Dói?
Você já sentiu aquela melancolia estranha no final da tarde de domingo? Aquele momento em que a correria da semana parou, as distrações diminuíram e, de repente, você se vê sozinho com seus pensamentos. Frankl chamava isso de “neurose de domingo”.[1] É aquele vazio que aparece quando não temos a obrigação do trabalho para nos manter ocupados e distraídos da nossa própria existência.[1]
Esse fenômeno é muito comum hoje em dia.[1] Vivemos em uma sociedade que corre muito, justamente para não ter que parar e pensar.[1] Quando a velocidade diminui, o vazio existencial aparece.[1] É uma sensação de tédio profundo, de que nada vale a pena, de indiferença. Não é tristeza, é ausência. É como estar em uma sala branca sem móveis.
Muitas pessoas tentam combater esse tédio preenchendo o tempo desesperadamente.[1] Maratonam séries sem prestar atenção, rolam o feed das redes sociais por horas até o dedo doer, comem sem fome. Tudo para não ter que encarar o silêncio. Mas a Logoterapia nos convida a ouvir esse silêncio.[1] A neurose de domingo não é sua inimiga; ela é um sinal.[1] Ela está dizendo que há espaço na sua vida para algo mais significativo do que apenas “passar o tempo”.
Quando Tentamos Preencher o Buraco com Coisas Erradas[1]
O natureza tem horror ao vácuo.[1] Quando sentimos esse vazio existencial, a tendência instintiva é tentar preenchê-lo.[1] E, infelizmente, muitas vezes escolhemos os materiais errados para essa obra. É aqui que surgem as compulsões.[1] Compras excessivas, abuso de álcool, drogas, sexo desprovido de afeto, jogo patológico. São tentativas desesperadas de anestesiar a angústia da falta de sentido.[1]
Também vemos a busca desenfreada por dinheiro e status.[1] A pessoa pensa: “Se eu tiver aquele carro, vou me sentir completo”. Ela compra o carro. A alegria dura dois dias. O vazio volta. Então ela pensa: “Preciso de uma casa maior”. E o ciclo continua. É como tentar encher um balde furado. O problema não é a falta de água (coisas), é o furo (falta de sentido).
Identificar isso é doloroso, mas necessário.[1] Se você percebe que está sempre buscando a próxima “dose” de prazer ou a próxima conquista material, e mesmo assim a satisfação nunca se fixa, pare. Respire. Você não está quebrado. Você está apenas tentando resolver um problema espiritual com soluções materiais. E isso nunca vai funcionar. A cura para o vazio não é ter mais, é ser mais.[1]
O Chamado da Consciência: O Vazio Como Alerta[1]
Gosto de dizer aos meus pacientes que o vazio existencial é como a luz do painel do carro que indica falta de combustível. Você pode ficar com raiva da luz, pode tentar quebrá-la ou colar uma fita adesiva em cima para não ver.[1] Mas nada disso resolve o problema e, eventualmente, o carro vai parar. A luz não é o problema; ela é o aviso.[1]
O vazio é a sua consciência gritando por atenção.[1] A consciência é o órgão de sentido.[1] É ela que fareja onde está o significado das coisas.[1] Quando você sente esse incômodo, é a sua parte mais saudável dizendo: “Ei, você pode mais. Você tem potenciais que não está usando.[1] Existe amor para dar que você está guardando”.
Em vez de fugir desse sentimento, convido você a sentar-se com ele. Pergunte ao seu vazio: “O que está faltando?”. Talvez falte criatividade. Talvez falte conexão humana. Talvez falte transcendência. Encarar o vazio é o primeiro passo para preenchê-lo com algo real.[1] Não tenha medo. O vazio é apenas um espaço esperando para ser mobiliado com as suas escolhas autênticas.[1]
Três Caminhos Práticos para Encontrar Sentido
Valores Criativos: O Que Você Entrega ao Mundo?
Agora vamos para a prática. Como preencher esse vazio? Frankl identificou três grandes avenidas. A primeira são os Valores Criativos.[1] Isso se refere ao que você dá ao mundo.[1] É a sua contribuição. E, por favor, não pense que precisa pintar a Capela Sistina ou escrever um best-seller para ser criativo.
O valor criativo está no seu trabalho bem feito. Está na forma como você organiza sua casa. Está no jardim que você cuida. Está na solução que você encontra para um problema no escritório. Está no bolo que você faz para o café da tarde. Sempre que você coloca a sua marca pessoal em algo, transformando uma ideia em realidade, você está realizando um valor criativo.[1]
Pergunte-se: O que eu faço que torna o mundo (ou o meu pequeno mundo ao redor) um lugar melhor ou mais bonito? Se você sente que seu trabalho é inútil, tente encontrar micro-sentidos nele.[1] Como você pode fazer essa tarefa de uma forma que sirva melhor a alguém? A criatividade é a impressão digital da sua alma no mundo material.[1] Quando criamos, nos sentimos vivos porque vemos o resultado da nossa existência.[1]
Valores Vivenciais: A Arte de Amar e Apreciar[1]
A segunda avenida são os Valores Vivenciais.[1] Se os criativos são sobre o que damos ao mundo, os vivenciais são sobre o que recebemos do mundo.[1] Aqui entra a capacidade de apreciar a beleza, a bondade e a verdade.[1] É encontrar sentido em uma experiência. Pode ser assistir a um pôr do sol incrível, ouvir uma sinfonia que te arrepia ou saborear uma refeição deliciosa.[1]
Mas o ápice dos valores vivenciais é o amor.[1] Amar alguém é a forma mais profunda de vivenciar outro ser humano.[1] Quando amamos, vemos o potencial do outro, vemos quem ele pode vir a ser. O amor valida a existência.[1][5] Encontrar sentido no sorriso de um filho, no abraço de um parceiro ou na conversa com um amigo leal é uma fonte inesgotável de nutrição para a alma.[1]
Você tem se permitido vivenciar? Ou está sempre correndo, olhando para o relógio? Parar para cheirar uma flor não é clichê de poeta; é uma necessidade psicológica.[1] Permitir-se ser tocado pela beleza da vida é uma forma poderosa de encontrar sentido.[1] Se você não pode criar nada hoje, experimente apreciar algo ou alguém. O sentido estará lá, esperando por você.
Valores Atitudinais: A Postura Diante do Sofrimento Inevitável[1]
Aqui chegamos na parte mais difícil e mais nobre da Logoterapia. E se você não puder criar (está doente, paralisado)? E se não puder vivenciar (está isolado, sofrendo)? Ainda há sentido? Sim. Aqui entram os Valores Atitudinais. É o sentido que encontramos na postura que adotamos diante de um sofrimento inevitável.[1]
Note a palavra “inevitável”. Se o sofrimento pode ser evitado, deve ser evitado.[1] Sofrer desnecessariamente não é heroísmo, é masoquismo.[1] Mas se a dor é inegociável — uma doença incurável, a morte de um ente querido, uma tragédia — então somos desafiados a mudar a nós mesmos.[1] Transformamos a tragédia em triunfo pessoal.
É o caso de alguém que, diante de um diagnóstico terminal, escolhe usar seu tempo restante para deixar mensagens de amor para a família, em vez de se entregar à amargura. Ou alguém que transforma o luto em uma causa para ajudar outros.[1] O sofrimento deixa de ser apenas dor e vira sacrifício, vira exemplo, vira crescimento. É encontrar a luz na mais profunda escuridão.[1] Ninguém quer sofrer, mas se o sofrimento chegar, saiba que ele não precisa ser vazio. Ele pode ser a alavanca para a sua maior evolução humana.[1]
Ferramentas da Logoterapia para Sua Rotina[1]
Autodistanciamento: A Capacidade de Rir de Si Mesmo
Você se leva muito a sério? A maioria de nós leva.[1] Ficamos obcecados com nossos sintomas, nossos medos, nossa imagem. A Logoterapia propõe o Autodistanciamento.[1] É a capacidade humana de se afastar de si mesmo, de se olhar de fora.[1] É como se você fosse uma mosca no teto observando você mesmo agindo.
Uma forma prática de fazer isso é através do humor.[1] O humor é uma arma poderosa contra o desespero.[1] Quando conseguimos rir das nossas próprias neuroses, dos nossos medos irracionais, tiramos o poder deles. Se você tem medo de gaguejar numa apresentação, em vez de lutar contra isso, tente dizer a si mesmo: “Hoje vou gaguejar como um campeão mundial!”.
Essa técnica, chamada intenção paradoxal, quebra o ciclo do medo. Ao desejar ou rir daquilo que teme, você se distancia do sintoma.[1] Você mostra que você é maior que o seu medo. Tente exercitar isso. Quando estiver muito preocupado, tente olhar para a situação como se fosse uma cena de comédia. O alívio é quase imediato.[1] Você recupera a soberania sobre suas emoções.[1]
Autotranscendência: Sair do Centro do Próprio Umbigo[1]
O olho humano foi feito para ver o mundo, não para ver a si mesmo.[1] Ele só vê a si mesmo quando está doente (catarata) ou num espelho.[1] Da mesma forma, o ser humano foi feito para se direcionar para algo ou alguém fora de si.[1] Isso é Autotranscendência.[1] Quanto mais você foca em si mesmo — “eu serei feliz?”, “eu serei bem-sucedido?” — mais a felicidade foge.
A felicidade é como uma borboleta. Se você correr atrás dela, ela foge. Se você se sentar e cuidar do jardim (focar no sentido, na tarefa, no outro), ela pousa no seu ombro. A ferramenta aqui é o foco no outro. Se você está se sentindo triste, experimente fazer algo de bom para alguém sem esperar nada em troca.
Visite um asilo, ajude um vizinho, escute um amigo com atenção real. Ao esquecer de si mesmo por um momento e se entregar a uma causa ou pessoa, você paradoxalmente se encontra.[1] A cura muitas vezes vem de parar de olhar para a ferida e começar a olhar para quem precisa da sua ajuda.[1] A autotranscendência nos conecta com a teia da vida.[1]
Derreflexão: Parando de Alimentar o Problema[8]
Você já teve insônia porque ficou preocupado que não conseguiria dormir? Isso é hiper-reflexão.[1] Você pensa tanto no problema que o pensamento vira o problema. A Derreflexão é a técnica de ignorar o sintoma para focar no sentido.[1] É tirar o holofote do que está errado e colocar no que está certo ou no que precisa ser feito.
Na prática sexual, por exemplo, muitos problemas surgem porque a pessoa fica se auto-observando (“será que vou ter desempenho?”).[1] Isso mata a espontaneidade. A solução é focar no parceiro, na entrega, e não em si mesmo.[1]
No dia a dia, se você sente o coração acelerar de ansiedade, em vez de ficar monitorando o batimento (“meu Deus, está batendo a 100 por minuto”), force sua atenção para algo externo. Leia um livro difícil, faça uma conta matemática, organize uma gaveta. Ao retirar a atenção do sintoma, você o deixa “morrer de fome”.[1] Use sua energia para algo construtivo, e o problema muitas vezes diminui sozinho por falta de plateia.
Terapias e Caminhos de Tratamento[1]
Como Funciona uma Sessão de Logoterapia
Se você decidir procurar um logoterapeuta, não espere ficar anos deitado num divã falando apenas do passado.[1] A terapia é face a face.[1] É um encontro entre dois seres humanos. O terapeuta não é um juiz silencioso, mas um companheiro de caminhada.[1] O foco será muito no presente e no futuro.
Vamos investigar a sua “caixa de ferramentas” de sentido. O terapeuta vai fazer perguntas que ampliam sua visão, como: “Apesar de tudo isso que você está passando, o que ainda o mantém de pé?”. O objetivo é rastrear os vestígios de sentido na sua vida e fortalecê-los.[1] É um processo de desafiar suas crenças limitantes e acordar a sua vontade de sentido.[1] É uma terapia que convoca você a agir, a tomar decisões e a assumir a autoria da sua vida.[1]
Biblioterapia: A Cura Através da Leitura[1]
Muitas vezes, indico livros como parte do tratamento. E o primeiro da lista é sempre “Em Busca de Sentido”, do próprio Viktor Frankl.[1] Ler sobre a experiência dele tem um efeito terapêutico imediato.[1] Coloca nossos problemas em perspectiva. Você percebe que se ele conseguiu, você também tem recursos internos para lidar com suas batalhas.[1]
A leitura de biografias de pessoas que superaram grandes obstáculos também é excelente.[1] Isso nos dá modelos, nos inspira.[1] A biblioterapia funciona porque nos tira do isolamento.[1] Percebemos que as dores humanas são universais e que outros já trilharam o caminho da escuridão para a luz.[1] Use os livros como remédio para a alma.
Integrando o Sentido em Outras Práticas de Saúde[1]
A Logoterapia convive muito bem com outras abordagens.[1] Se você precisa de medicação psiquiátrica para um desequilíbrio químico, tome.[1] A Logoterapia não nega a biologia.[1][11] O remédio pode dar o chão biológico, mas o sentido dá o motivo para caminhar.[1] Práticas como meditação, exercícios físicos e arte-terapia também são potencializadas quando você coloca uma intenção, um sentido nelas.
Se você sente que esse vazio está grande demais para lidar sozinho, procure ajuda profissional. Um psicólogo especializado em Logoterapia e Análise Existencial pode ser o guia que falta para você reencontrar sua bússola.[1] Lembre-se: pedir ajuda é um ato de coragem e um forte indicativo de que você ainda aposta na vida.[1]
Espero que essa nossa conversa tenha acendido pelo menos uma pequena faísca aí dentro. A vida está esperando por você, com todas as suas perguntas e desafios. E a resposta, meu caro leitor, só você pode dar. Vá viver.
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