Feedback: A importância de dizer à terapeuta o que funciona para você

Feedback: A importância de dizer à terapeuta o que funciona para você

Começar a terapia é um passo corajoso e muitas vezes desafiador para qualquer pessoa. Você entra em uma sala, seja ela física ou virtual, e se dispõe a abrir sua vida para alguém que acabou de conhecer. Nesse processo inicial, é muito comum que você assuma uma postura de quem está ali apenas para receber orientações, como se a terapeuta fosse a detentora de todas as respostas e você, o receptáculo passivo. No entanto, a terapia não funciona como uma consulta médica tradicional onde você relata um sintoma e recebe uma receita pronta. Ela é uma construção conjunta, um espaço vivo que depende da troca constante para florescer e trazer os resultados que você tanto busca.

Essa dinâmica de troca é o que chamamos de aliança terapêutica, e ela só se fortalece quando existe honestidade de ambos os lados. Muitas vezes, percebo que clientes hesitam em compartilhar o que realmente pensam sobre as sessões, com medo de serem indelicados ou de questionarem a autoridade da profissional. Mas a verdade é que a sua percepção é a bússola que guia o nosso trabalho. Sem saber como você se sente em relação ao método, ao ritmo ou até mesmo às palavras que usamos, ficamos navegando no escuro, tentando adivinhar o que faz sentido para a sua realidade única.

Por isso, quero convidar você a repensar o seu papel dentro do consultório. Entender que sua voz tem poder e que dizer “isso não funcionou para mim” é um dos maiores presentes que você pode dar ao seu processo de cura. Quando você traz esse feedback, não está criticando a pessoa da terapeuta, mas sim ajustando a ferramenta para que ela sirva melhor à sua obra. Vamos mergulhar juntas nessa ideia e explorar como você pode transformar sua terapia através da comunicação assertiva e transparente.

O papel vital do feedback na sua evolução[1][2][3]

A terapia é, antes de tudo, um relacionamento humano focado no seu bem-estar e crescimento. Diferente de outras relações onde talvez você precise agradar ou manter as aparências, aqui o objetivo central é a sua verdade crua e nua. O feedback funciona como um mecanismo de calibração essencial.[4] Imagine que estamos dirigindo um carro juntas: eu posso conhecer as estradas e as técnicas de direção, mas só você sabe se o banco está confortável, se a temperatura está agradável ou se estamos indo rápido demais para o seu gosto. Sem essas informações, a viagem pode se tornar exaustiva e pouco produtiva.

Quando você retém suas impressões sobre o processo, cria-se um ruído invisível na comunicação. Pode ser que eu esteja utilizando uma abordagem mais confrontativa achando que isso está te motivando, quando na verdade está gerando ansiedade e bloqueio em você. Se você não me sinaliza isso, continuarei seguindo por um caminho que não está trazendo benefícios, desperdiçando seu tempo e energia emocional. O feedback traz luz para esses pontos cegos e permite que a terapia seja personalizada em tempo real, adaptando-se às suas necessidades do momento, que podem mudar de uma semana para a outra.

Além disso, a ausência de feedback pode levar a uma estagnação do tratamento ou até ao abandono da terapia. Muitas pessoas desistem de se cuidar porque sentem que “não estava funcionando”, quando na verdade apenas um pequeno ajuste de rota era necessário. Ao assumir a responsabilidade de compartilhar o que funciona, você toma as rédeas do seu processo. Isso transforma a terapia de algo que é “feito em você” para algo que é “feito com você”, aumentando drasticamente as chances de sucesso e a profundidade das transformações alcançadas.

A terapia como uma via de mão dupla[5]

Entenda que a terapia não é um monólogo onde eu analiso e você escuta. É um diálogo profundo onde duas especialistas se encontram: eu, especialista em saúde mental e comportamento humano, e você, a maior especialista na sua própria vida e história. Para que esse encontro funcione, precisamos que as duas expertises estejam na mesa. Eu trago as técnicas, as teorias e a escuta qualificada, mas você traz a matéria-prima e a validação se aquelas ferramentas são úteis no seu cotidiano.

Essa colaboração exige que você abandone a ideia de que a terapeuta tem uma bola de cristal. Por mais experiente que eu seja, não consigo ler pensamentos ou sentir exatamente o que você sente quando eu faço uma intervenção. Às vezes, uma frase que digo com a intenção de acolher pode soar para você como pena ou condescendência. Se você me devolve essa percepção, criamos uma oportunidade riquíssima de explorar por que aquilo tocou você dessa forma e como podemos nos comunicar melhor.

Essa troca constante cria um ambiente de segurança psicológica.[6] Saber que você pode dizer “não gostei disso” ou “prefiro não falar sobre isso agora” sem ser julgada ou repreendida é libertador. Isso mostra que o espaço terapêutico é realmente seu. Eu estou ali como uma facilitadora, mas o protagonismo é todo seu. Quando essa dinâmica de via de mão dupla se estabelece, a terapia flui com muito mais naturalidade e os insights surgem com mais clareza e frequência.

O perigo do “silêncio educado”

Muitas vezes fomos criadas para sermos “boas meninas” ou “pessoas educadas”, o que nos leva a evitar conflitos ou discordâncias a qualquer custo. Na terapia, isso se manifesta no que chamo de “silêncio educado”. É aquele momento em que a terapeuta faz uma interpretação totalmente equivocada sobre o seu sentimento e você apenas acena com a cabeça, concordando para não criar um clima chato. Ou quando sugerimos uma tarefa de casa que você sabe que não vai fazer, mas diz “claro, vou tentar” só para agradar.

Esse silêncio é um sabotador silencioso do seu progresso. Ele cria uma falsa sensação de avanço. Eu posso achar que estamos em sintonia e avançando super bem, enquanto você se sente cada vez mais desconectada e incompreendida. Com o tempo, isso gera frustração e a sensação de que a terapia é superficial. Você começa a ir para as sessões apenas para cumprir tabela, sem a esperança real de mudança, porque uma parte fundamental da sua experiência está sendo omitida.

Romper com o silêncio educado exige coragem, mas é um exercício terapêutico em si. Aprender a dizer “não é bem assim” para uma figura de autoridade (como a terapeuta muitas vezes é vista) é um treino poderoso de assertividade que você levará para a vida lá fora. Se você consegue impor limites e corrigir a rota comigo, num ambiente seguro, ficará muito mais fácil fazer o mesmo com seu chefe, seu parceiro ou seus familiares. O consultório é o laboratório para essas experimentações.

Acelerando seus resultados com a verdade

A honestidade brutal sobre o que funciona ou não é um catalisador de resultados. Pense na terapia como um tratamento medicamentoso que precisa de ajuste de dosagem. Se você não avisa ao médico que o remédio está dando dor de cabeça, ele não pode ajustar a dose ou trocar o princípio ativo. Na psicoterapia, o feedback honesto nos permite descartar rapidamente estratégias ineficazes e focar no que realmente traz alívio e insight para você.

Quando você me diz “essa técnica de respiração me deixa mais ansiosa em vez de relaxar”, economizamos semanas de tentativas frustradas. Imediatamente podemos buscar outras vias, como técnicas de aterramento visual ou relaxamento muscular progressivo. Essa agilidade só é possível quando você se compromete com a verdade do que sente, sem filtros sociais. Isso torna o processo mais dinâmico e focado na resolução dos seus problemas, evitando que fiquemos rodando em círculos em torno de métodos que não se aplicam a você.

Além disso, ver que a terapeuta acolhe sua verdade e muda a abordagem aumenta sua confiança no processo. Você percebe que ali é um lugar onde a realidade importa mais do que a teoria. Isso gera um engajamento maior da sua parte. Clientes que dão feedback tendem a se sentir mais donas da sua jornada e, consequentemente, se esforçam mais para aplicar as descobertas no dia a dia. A verdade, dita com clareza, é o combustível que faz a terapia avançar quilômetros em poucas sessões.

Derrubando o mito de que a terapeuta sabe tudo

Existe uma idealização muito comum da figura do psicólogo como um ser iluminado, detentor de um saber absoluto sobre a mente humana. Essa visão, embora lisonjeira, é perigosa e irreal. Nós estudamos muito, sim, conhecemos padrões de comportamento e neurociência, mas somos falíveis e limitadas pela nossa própria perspectiva. Eu não tenho acesso direto à sua subjetividade; tudo o que sei sobre você passa pelo filtro do que você me conta e de como eu interpreto isso.

Achar que a terapeuta sabe tudo coloca você numa posição de inferioridade e dependência. Você pode começar a duvidar da sua própria intuição ou dos seus sentimentos porque “a doutora disse que é assim”. Isso é o oposto do que queremos. O objetivo da terapia é fortalecer a sua autonomia, não criar uma nova dependência. Reconhecer que eu posso errar, que posso interpretar mal ou sugerir algo que não cabe na sua vida, humaniza nossa relação e tira o peso de você ter que se encaixar em um diagnóstico ou teoria.

Ao desconstruir esse mito, você se permite questionar. E o questionamento é fértil. Quando você pergunta “por que estamos fazendo isso?” ou diz “não vejo sentido nessa conexão que você fez”, você me obriga a repensar e a explicar melhor. Muitas vezes, é nesse debate que surgem as compreensões mais profundas. A terapia não é sobre eu te dar respostas prontas, é sobre construirmos juntas as perguntas certas que levarão você às suas próprias respostas.

Nós somos treinadas para ouvir verdades

Uma das maiores preocupações que ouço é o medo de magoar a terapeuta. “Ah, não queria dizer que não gostei porque ela se esforçou tanto”. Quero que você saiba de uma coisa muito importante: parte fundamental da minha formação é aprender a lidar com o feedback, inclusive o negativo, sem levar para o lado pessoal. Minha autoestima não depende de eu acertar 100% das vezes com você, mas sim da minha capacidade de manter um vínculo honesto e profissional.

Eu estou preparada para ouvir que errei a mão, que fui insensível ou que falei algo que não fez sentido. Na verdade, eu anseio por isso. O feedback negativo é muito mais valioso tecnicamente do que o elogio vazio. Ele me dá dados concretos para trabalhar. Quando você me diz que algo incomodou, eu não fico ofendida; eu fico curiosa. Eu quero entender o que aconteceu, o que aquela fala acionou em você. Isso se torna material de trabalho, e não motivo de mágoa.

Não precisa pisar em ovos comigo. A relação terapêutica é um dos poucos lugares no mundo onde você não precisa cuidar dos sentimentos do outro. O espaço é para os seus sentimentos. Se você tiver que gastar energia preocupada em como eu vou reagir, sobra menos energia para tratar das suas questões. Confie no meu profissionalismo e na minha capacidade de conter e processar o que você traz, seja amor, raiva, decepção ou gratidão. Tudo isso é bem-vindo.

A honestidade fortalece o vínculo terapêutico[3][7]

Pode parecer contraditório, mas expressar insatisfação aproxima você da sua terapeuta. Relações superficiais são aquelas onde tudo é sempre “maravilhoso” e “perfeito”. Relações reais e profundas suportam o conflito e a discordância. Quando você traz um incômodo e eu acolho isso com respeito e validade, nossa confiança mútua se aprofunda. Você passa a confiar que eu aguento o tranco e que estou verdadeiramente comprometida com você, e não com meu ego.

Esse processo de ruptura e reparação é extremamente terapêutico. Muitos de nós têm históricos de relações onde expressar desagrado resultava em rejeição ou abandono. Na terapia, você vive uma experiência corretiva: você expressa desagrado e a relação continua firme, ou até melhora. Isso ensina ao seu cérebro emocional que é seguro ser autêntica e que conflitos podem ser resolvidos através do diálogo, sem destruição do vínculo.

O vínculo terapêutico é o principal preditor de sucesso na terapia, mais importante até que a técnica utilizada. E esse vínculo é feito de verdade. Quanto mais você se mostra, inclusive nas partes que discordam de mim, mais eu conheço a verdadeira você. E quanto mais eu conheço a verdadeira você, melhor eu posso te ajudar. A honestidade remove as barreiras de polidez e nos permite acessar o núcleo das questões com uma cumplicidade muito maior.

Reajustando a rota do tratamento

A terapia não é um trilho de trem fixo, é uma trilha na mata que abrimos juntas. Às vezes, planejamos ir para o norte, mas no meio do caminho percebemos que o terreno é instável ou que há uma paisagem mais interessante a oeste. O feedback é o que nos permite parar, olhar o mapa e decidir mudar a direção. Sem ele, continuaríamos marchando obstinadamente para um lugar que não faz mais sentido para o seu momento de vida.

Pode ser que começamos a terapia focadas na sua ansiedade no trabalho, mas com o tempo você percebe que o buraco é mais embaixo, talvez questões familiares. Se você não me diz “olha, acho que já falamos demais de trabalho, o que me dói mesmo é a relação com minha mãe”, eu posso demorar muito para perceber essa mudança de prioridade. Você tem o direito e o dever de pedir essa mudança de foco. A agenda da sessão é sua.

Esse reajuste também vale para a forma. Talvez no início você precisasse de muito acolhimento e escuta passiva, mas agora, mais fortalecida, você sinta falta de desafios e de puxões de orelha mais firmes. As suas necessidades mudam conforme você evolui.[6] Me avisar que “agora eu aguento mais verdade” me autoriza a mudar minha postura e a usar ferramentas diferentes que antes talvez fossem prematuras. A terapia cresce com você.[3]

Traduzindo sentimentos em palavras úteis

Saber que precisa dar feedback é uma coisa; saber como fazer isso é outra. Muitas pessoas travam porque não encontram as palavras “certas” ou técnicas para expressar o que sentem. A boa notícia é que você não precisa usar termos técnicos ou fazer uma análise psicológica da sessão. O melhor feedback é aquele simples, direto e focado na sua experiência, no “eu sinto”, “eu percebo”, “eu preciso”.

Não se preocupe em formular um discurso perfeito. Às vezes, um simples “isso não bateu bem” é suficiente para abrirmos uma investigação. O importante é comunicar o desconforto ou a falta de conexão com algo que foi dito ou proposto. Lembre-se que a terapeuta está lá para ajudar você a desembolar esses sentimentos. Se você começar a frase, eu vou te ajudar a terminá-la.

Para facilitar, pense em termos de impacto. Como aquela sessão impactou sua semana? Você saiu mais leve ou mais pesada? Você conseguiu aplicar o que conversamos ou pareceu tudo muito abstrato? Trazer essas observações concretas sobre o pós-sessão ajuda muito a terapeuta a calibrar a abordagem. Vamos ver alguns exemplos práticos de como verbalizar essas questões sem medo.

Quando a abordagem parece passiva demais

Existem momentos em que você sente que está apenas desabafando e a terapeuta está muito calada, apenas ouvindo. Para algumas fases, isso é ótimo, mas se você sente necessidade de mais intervenção, diga. Você pode falar: “Sinto que estou falando muito e rodando em círculos. Eu gostaria que você me interrompesse mais e me pontuasse onde estou me enganando”. Ou: “Preciso de ferramentas mais práticas, sinto falta de saber o que fazer com tudo isso que sinto”.

Esse tipo de fala me ajuda a entender que você está pronta para a ação. Algumas linhas teóricas priorizam o silêncio, mas a maioria das terapeutas modernas sabe adaptar seu nível de atividade se o cliente solicitar. Pedir por “tarefas de casa”, leituras ou exercícios práticos é uma forma excelente de demonstrar que você quer levar a terapia para além da hora da sessão.

Não tenha receio de parecer exigente. Você está investindo seu tempo e dinheiro. Dizer “eu preciso de mais trocas e menos silêncio” é um direcionamento claro que facilita muito o meu trabalho. Eu saberei que posso ser mais diretiva e propositiva sem invadir seu espaço, pois você me deu essa permissão explícita.

Quando o foco da sessão parece errado

Às vezes a conversa flui para um assunto lateral e passamos 40 minutos falando de uma série de TV ou de uma briga pequena que não é o ponto central da sua dor. A terapeuta pode achar que aquilo é uma metáfora importante ou que você precisava relaxar, mas você pode estar sentindo que está desperdiçando tempo. Se isso acontecer, você tem total liberdade para interromper e dizer: “Podemos mudar de assunto? Sinto que estamos fugindo do que realmente me incomodou essa semana”.

Outra situação comum é quando a terapeuta foca muito no passado e você quer resolver um incêndio no presente, ou vice-versa. Você pode dizer: “Entendo que minha infância é importante, mas hoje eu preciso urgentemente de ajuda para lidar com meu chefe amanhã. Podemos focar nisso?”. Esse redirecionamento garante que você saia da sessão com o alívio ou a estratégia que foi buscar.

Lembre-se: você é a dona da pauta. Eu posso sugerir conexões, mas se elas não ressoam agora, não adianta forçar. Me avisar que o foco está errado evita que terminemos a sessão com aquela sensação de “não falei nada do que queria”. Você pode até trazer uma listinha de tópicos no início para garantir que não nos percamos.

Quando uma ferramenta não faz sentido

É muito comum eu sugerir um exercício, como escrever um diário, meditar ou fazer uma conversa difícil com alguém, e a cliente sentir uma aversão imediata à ideia. Em vez de concordar e não fazer, diga na hora: “Sinceramente, eu detesto escrever. Teria outra forma de processar isso?”. Ou: “A ideia de falar com ele agora me paralisa. Podemos pensar em um passo menor antes disso?”.

Não existe uma única ferramenta para curar uma dor. Se a meditação não funciona para você, podemos tentar o relaxamento muscular, a pintura, a caminhada consciente ou simplesmente a respiração. Se escrever é chato, talvez gravar áudios funcione. O meu arsenal de técnicas é vasto, mas eu só vou buscar outra ferramenta se eu souber que a primeira falhou ou não foi bem aceita.

Recusar uma ferramenta não é recusar o tratamento. É refinar o tratamento.[3] Quando você diz “isso não é para mim”, você me desafia a ser criativa e a buscar algo que se encaixe na sua personalidade e rotina. O melhor exercício é aquele que você realmente faz, não aquele que é teoricamente perfeito mas impraticável para você.

O impacto do feedback na sua autonomia emocional

Aprender a dar feedback na terapia tem um efeito colateral maravilhoso: ele treina você para ter autonomia emocional na vida. A terapia é um microcosmo das suas relações lá fora. Se você consegue identificar o que sente, validar esse sentimento e comunicá-lo com clareza para mim, você começa a desenvolver essa musculatura para usar com o mundo. Você deixa de ser uma passageira passiva da vida e assume o volante.

A autonomia emocional significa que você não depende da validação externa para saber o que é bom para você. Quando você diz “isso não funciona para mim” na terapia, você está exercitando a autoescuta. Você está confiando mais na sua percepção interna do que na autoridade externa. Esse movimento é fundamental para a construção de uma autoestima sólida e madura.

Além disso, esse processo quebra o padrão de dependência. O objetivo final de qualquer boa terapia é que você não precise mais de terapia. Ao participar ativamente do processo, criticando e ajustando, você internaliza a voz terapêutica. Você aprende a se fazer as perguntas que eu faria e a corrigir sua própria rota. O feedback é o treino prático para a sua independência futura.

Saindo da posição de passividade

Muitas de nós fomos ensinadas a esperar que os outros adivinhem nossas necessidades ou a aceitar o que nos é dado sem reclamar. Na terapia, quebrar essa passividade é curativo. Ao se posicionar, você afirma para si mesma: “Eu importo. Minha opinião importa. Meu conforto importa”. Isso é uma revolução interna, especialmente para quem sempre se colocou em segundo plano.

Essa mudança de postura altera a química do seu cérebro. Você sai do modo de “desamparo aprendido” e entra no modo de “agência pessoal”. Você percebe que pode influenciar o seu ambiente e as suas relações para que elas sejam mais nutritivas para você. Começa na cadeira da terapeuta, mas logo se expande para a cadeira do escritório e para o sofá da sala de casa.

Ser ativa na terapia também faz com que você aproveite muito mais cada real investido. Você para de esperar que a “cura” venha de mim e entende que a cura é produzida pelo encontro das nossas mentes, onde a sua participação ativa é 50% do trabalho. Você se torna co-autora da sua nova história.

Aprendendo a expressar necessidades em outras relações

A habilidade de dizer “eu prefiro assim” ou “isso me magoa” para a terapeuta é diretamente transferível. Imagine que você treinou comigo como dizer que não gostou de uma interpretação minha. Na semana seguinte, quando seu parceiro fizer um comentário que te desagrada, você já terá o modelo mental de como se posicionar sem agressividade, mas com firmeza.

Nós usamos a relação terapêutica como um “role-play” seguro da vida real. Se você consegue estabelecer limites comigo, que sou uma figura de autoridade e cuidado, você consegue estabelecer limites com sua mãe, com seu chefe ou com seus amigos. O feedback na terapia é um ensaio geral para a comunicação não-violenta e assertiva que queremos que você tenha em todas as áreas da vida.

Muitas clientes relatam que, depois que começaram a ser mais honestas nas sessões, sentiram-se mais corajosas para ter conversas difíceis que adiavam há anos. Elas perceberam que o mundo não acaba quando elas expressam uma necessidade ou um desagrado. Pelo contrário, as relações se tornam mais claras e respeitosas.

Validando sua própria percepção da realidade[6][8]

Pessoas que sofreram gaslighting ou que cresceram em ambientes invalidantes muitas vezes duvidam da própria sanidade ou percepção. “Será que eu estou exagerando?”, “Será que foi isso mesmo que ele disse?”. Quando você traz um feedback na terapia e eu digo “Faz todo sentido você se sentir assim, obrigada por me falar”, você recebe uma validação poderosa da sua realidade.

Esse exercício contínuo de checar sua percepção e vê-la aceita ajuda a reconstruir a confiança em si mesma. Você para de precisar de cinco amigas confirmando que você está certa antes de tomar uma atitude. Você aprende que o seu desconforto é um sinal válido por si só, que não precisa de aprovação de um comitê para ser real.

Validar sua percepção é o primeiro passo para a autoproteção. Se você confia no seu “cheiro” de que algo está errado na terapia e fala sobre isso, você também confiará no seu instinto quando estiver em uma situação de risco ou diante de uma pessoa mal-intencionada lá fora. É um resgate da sua sabedoria interior.

Sinais de que o feedback foi bem recebido (ou não)[1][3][6][8][9][10][11]

Depois de criar coragem e falar, como saber se a terapeuta realmente acolheu o que você disse? Uma boa profissional não apenas ouve, ela demonstra através de atitudes que compreendeu. O primeiro sinal é a postura: ela não se defende, não se justifica excessivamente e não tenta convencer você de que você está errada. Ela mantém uma postura curiosa, querendo entender mais, e agradece pela sua franqueza.

Outro sinal claro é a mudança na dinâmica. Se você pediu menos silêncio e na sessão seguinte ela trouxe textos, perguntas e intervenções mais ativas, ponto para ela! Isso mostra flexibilidade e competência técnica para transitar entre diferentes modos de atendimento. Você sente que foi ouvida porque a “dança” da sessão mudou o ritmo para acompanhar o seu passo.

Porém, existem os sinais de alerta (red flags). Se a terapeuta fica visivelmente irritada, fria, sarcástica ou tenta inverter a culpa dizendo que “isso é sua resistência”, cuidado. Uma profissional que não suporta feedback talvez não esteja preparada para lidar com a complexidade do seu caso. A terapia deve ser um espaço seguro; se o feedback torna o ambiente hostil, é um forte indicativo de que talvez seja hora de reconsiderar a escolha da profissional.

A postura acolhedora e curiosa

A reação ideal a um feedback difícil é a curiosidade benevolente. Eu devo olhar para o que você trouxe como um presente, uma peça do quebra-cabeça que faltava. “Nossa, que interessante você sentir isso. Me conte mais, em que momento exatamente eu te perdi?”. Essa abertura mostra que o ego da terapeuta está sob controle e que o foco é o seu bem-estar.

O acolhimento também se vê na linguagem corporal. A terapeuta mantém contato visual, acena, se inclina para frente. Ela valida seu sentimento: “Sinto muito que minha fala tenha soado assim, não foi minha intenção, mas entendo perfeitamente como você ouviu dessa forma”. Isso desarma a tensão e transforma o conflito em conexão.

Quando a terapeuta acolhe sua crítica, ela modela para você como lidar com críticas na sua vida: sem desmoronar e sem atacar de volta. É um aprendizado pelo exemplo. Você vê que é possível errar, reconhecer o erro e seguir em frente com dignidade e respeito.

Mudanças visíveis na dinâmica das sessões[12]

Palavras são bonitas, mas ações são transformadoras. O feedback só é efetivo se gerar mudança. Se você pediu para não tocarmos em um assunto traumático por enquanto e eu respeito isso religiosamente nas sessões seguintes, você sabe que o feedback funcionou. Se você pediu para encerrarmos a sessão pontualmente porque o atraso te gera ansiedade e eu passo a ser rigorosa com o horário, isso é cuidado em forma de ação.

Essas mudanças visíveis renovam o contrato terapêutico. Você sente que a terapia está “fresca” de novo, que não estamos no piloto automático. A cada ajuste, o processo se torna mais sob medida para você. É como ajustar uma roupa: no começo fica larga aqui, apertada ali, mas com os ajustes certos, ela passa a cair como uma luva.

Observe se, após a conversa, o clima fica mais leve. Geralmente, depois de um feedback honesto, há uma sensação de “ar limpo” na sala. A tensão do não-dito se dissipa e a colaboração flui melhor. Se a mudança acontece, celebre isso também! Dizer “gostei muito de como foi hoje” é um feedback positivo que reforça o novo comportamento da terapeuta.

Quando considerar trocar de profissional[11][12]

Infelizmente, nem toda terapeuta está pronta para ouvir. Se você tenta conversar sobre o que não está funcionando e recebe defensiva, ironia, ou se ela ignora completamente seu pedido e continua fazendo tudo igual, isso é um problema. A rigidez excessiva é inimiga da boa terapia. Se a profissional coloca a técnica ou a teoria dela acima da sua vivência, há uma inversão de valores perigosa aí.

Também preste atenção se você se sente punida após dar feedback. Se a terapeuta se torna distante, cancela sessões com frequência ou faz comentários passivo-agressivos, isso é antiético e prejudicial. Você não está ali para lidar com a imaturidade emocional da sua terapeuta. O espaço é seu.

Trocar de terapeuta não é fracasso, é autocuidado. Às vezes o “santo não bate”, ou a abordagem não serve, ou a profissional não está num bom momento.[11][12] Se você tentou o diálogo, tentou o ajuste e não houve acolhimento, saia com a consciência tranquila. Você fez a sua parte. Buscar alguém que ressoe com você e que respeite sua voz é fundamental para sua saúde mental.


Análise: Áreas da Terapia Online[6]

O feedback é crucial em todas as modalidades, mas na terapia online ele ganha contornos específicos e áreas de recomendação que merecem destaque:

  1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Online: Nesta abordagem, que é muito estruturada e focada em metas, o feedback é praticamente parte da técnica. Funciona muito bem online para tratar ansiedade, pânico e depressão. O feedback aqui ajuda a ajustar as “tarefas de casa” digitais e a medir a eficácia das intervenções semana a semana. É altamente recomendada para quem busca objetividade e gosta de ver progresso mensurável.
  2. Psicanálise e Terapias Psicodinâmicas Online: Aqui o foco é a fala livre e o inconsciente. O feedback sobre o “setting” (o ambiente virtual, as pausas, o silêncio) é vital. Como não temos o corpo presente, dizer “senti sua falta de atenção quando a conexão travou” ou “o delay me atrapalha” é essencial para manter a transferência analítica. É indicada para quem busca autoconhecimento profundo e entende que o vínculo virtual também é real.
  3. Terapias Breves e Focadas em Solução: Para questões pontuais como luto, separação ou decisões de carreira, o feedback precisa ser rápido. “Isso está ajudando a resolver meu problema agora?”. Online, essa modalidade é excelente para quem tem pouco tempo e precisa de foco. O feedback garante que cada minuto da videochamada seja aproveitado ao máximo para a resolução do conflito.

Independente da área, a regra de ouro permanece: a tecnologia é apenas o meio; a cura acontece na relação. E uma relação saudável só existe com comunicação transparente. Use as ferramentas digitais (chat, e-mail, áudio) a seu favor para dar esse feedback se falar “ao vivo” na câmera for difícil no começo. O importante é não calar a sua voz.

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