Notificações e lembretes: Usando a tecnologia para não esquecer a sessão

Notificações e lembretes: Usando a tecnologia para não esquecer a sessão

O Fenômeno do Esquecimento na Terapia

Resistência ou agenda cheia

Você já se pegou olhando para o relógio e percebendo que sua sessão começou há vinte minutos ou pior, que ela aconteceu ontem. É muito comum ouvirmos no consultório a justificativa da falta de tempo ou da correria do dia a dia. Vivemos em uma sociedade do desempenho onde cada minuto é cronometrado e preenchido por demandas de trabalho, família e redes sociais. Quando você diz que esqueceu por causa da agenda cheia, eu acredito genuinamente que sua rotina é pesada. O volume de informações que processamos diariamente é absurdo e nosso cérebro precisa selecionar o que é prioridade para garantir a sobrevivência imediata. Nesse cenário, o espaço para a reflexão e para o cuidado mental acaba sendo empurrado para o final da lista de prioridades.

No entanto, precisamos olhar com mais carinho e profundidade para esse esquecimento. Na psicologia, sabemos que nem todo esquecimento é apenas uma falha de memória ou falta de organização logística. Muitas vezes, esquecer a sessão é um mecanismo de defesa sutil contra tocar em feridas que estão doendo ou assuntos que preferimos evitar naquela semana específica. Se a semana foi difícil ou se tocamos em um ponto nevrálgico na sessão anterior, sua mente pode tentar te “proteger” da dor fazendo com que você simplesmente apague o compromisso da memória. É o que chamamos de resistência, e ela adora se disfarçar de “reunião de última hora” ou “trânsito mental”.

Diferenciar a falta de organização da resistência psíquica é o primeiro passo para garantir que você esteja presente no seu processo. Quando usamos a tecnologia para blindar o horário, removemos a desculpa logística. Se o celular apita, o relógio vibra e o computador notifica, e mesmo assim você não aparece, então temos um material riquíssimo para trabalhar na próxima sessão. A tecnologia serve aqui como um teste de realidade. Ela nos ajuda a ver se o buraco é mais embaixo ou se você realmente só precisava de um empurrãozinho digital para se organizar melhor.

O impacto da rotina caótica

Manter uma rotina minimamente estruturada é essencial para a saúde mental e para o sucesso do processo terapêutico. Quando sua vida está um caos, com horários de sono desregulados, alimentação feita às pressas e trabalho invadindo a madrugada, a terapia sofre. O caos externo geralmente reflete um caos interno. Nesse ambiente desordenado, a sessão de terapia pode ser vista pelo seu cérebro como mais uma obrigação estressante, em vez de um espaço de acolhimento e pausa. O esquecimento aqui surge como um sintoma de exaustão cognitiva. Sua mente está tão sobrecarregada tentando apagar incêndios que não consegue reter a informação de que terça-feira às 15h é o seu momento.

A tecnologia entra nesse ponto não apenas como um despertador, mas como uma ferramenta de estruturação cognitiva. Ao delegar para o aparelho a função de lembrar, você libera espaço mental para processar o que realmente importa. É um alívio cognitivo saber que você não precisa ficar repetindo mentalmente “não posso esquecer a terapia” o dia todo. A notificação externa atua como uma âncora de realidade no meio da tempestade da sua rotina. Ela fura a bolha do piloto automático e te traz de volta para o compromisso que você assumiu consigo mesmo.

Além disso, a regularidade do lembrete ajuda a criar um ritmo. O nosso corpo e a nossa mente adoram ritmo. Saber que toda semana, naquele mesmo horário, aquele mesmo som vai tocar, começa a preparar sua biologia para o trabalho terapêutico. A previsibilidade reduz a ansiedade. Quando você confia que seu sistema de notificações funciona, você relaxa a vigilância excessiva e pode focar nas suas tarefas do dia a dia, sabendo que será avisado na hora certa de parar e olhar para dentro.

A autossabotagem inconsciente

Você marcou a sessão porque quer melhorar, quer mudar, quer se sentir bem. Mas uma parte de você, aquela parte que se acostumou com o sofrimento ou que tem medo do desconhecido que a mudança traz, pode jogar contra. Chamamos isso de autossabotagem. Esquecer a sessão é uma das formas mais clássicas de autossabotagem no processo terapêutico. É uma maneira não verbal de dizer “não estou pronto para lidar com isso hoje” ou “não quero mexer nisso agora”. É curioso notar como esses esquecimentos costumam acontecer justamente quando estamos prestes a ter um insight importante ou quando a terapia está começando a gerar mudanças reais na vida do paciente.

A autossabotagem opera nas sombras. Ela não avisa que vai agir. Você simplesmente “esquece”. E depois vem a culpa. A culpa por ter faltado, por ter gastado dinheiro (se a sessão for cobrada mesmo com a falta), por ter deixado o terapeuta esperando. Esse ciclo de esquecimento e culpa pode ser paralisante e, em alguns casos, levar ao abandono total da terapia. A pessoa sente tanta vergonha de ter esquecido duas ou três vezes seguidas que prefere sumir a ter que explicar ou encarar o motivo real da ausência.

O uso de lembretes tecnológicos forçados ajuda a romper esse ciclo. É difícil argumentar com um alarme que toca alto e uma notificação que pisca na tela. A tecnologia não julga, ela apenas executa. Isso retira o peso emocional da lembrança e coloca o ato de comparecer na esfera prática. Enfrentar a notificação exige uma decisão consciente: “Vou desligar isso e não vou” ou “Vou parar o que estou fazendo e vou entrar na sala”. Transformar a autossabotagem inconsciente em uma escolha consciente é um progresso terapêutico imenso. Você sai da passividade do “esqueci” para a responsabilidade do “escolhi”.

Ferramentas Digitais como Aliadas

O poder da Agenda Google e sincronização

Usar uma agenda digital não é apenas sobre anotar compromissos, é sobre visualizar a sua vida. A Agenda Google, ou qualquer equivalente, permite que você veja a terapia ocupando um espaço físico no seu tempo. Eu recomendo fortemente o uso de blocos de tempo com cores diferentes. Coloque sua terapia em uma cor que te traga calma ou que sinalize importância, diferente da cor usada para reuniões de trabalho estressantes. Quando você visualiza a semana e vê aquele bloco colorido, seu cérebro já começa a processar que aquele tempo está reservado e indisponível para outras demandas.

A sincronização entre dispositivos é fundamental. Você não pode depender de um lembrete que só apita no computador do escritório se você estiver na rua, ou que só toca no tablet que ficou na mesa de cabeceira. A nuvem permite que o lembrete te persiga — no bom sentido — onde quer que você esteja. Configure para que a notificação apareça no celular e no desktop simultaneamente. Isso cria uma malha de segurança. Se você estiver focado no trabalho, o computador avisa. Se estiver no trânsito, o celular avisa. Essa onipresença da agenda digital é uma das maiores aliadas contra a dispersão.

Outra funcionalidade pouco usada, mas muito útil, é o convite da agenda. Peça para seu terapeuta te enviar o convite do evento. Isso formaliza o compromisso digitalmente. Ao aceitar o convite, o horário entra na sua grade automaticamente e, muitas vezes, já vem com o link da videochamada embutido. Isso elimina aquela correria de última hora procurando “onde está o link da sessão” no WhatsApp ou no e-mail, o que por si só já gera uma ansiedade que pode atrapalhar o início do atendimento. Facilitar o acesso é tão importante quanto lembrar do horário.

Alarmes estratégicos e recorrentes

Um único alarme cinco minutos antes da sessão geralmente não é suficiente, especialmente para quem tem TDAH ou uma rotina muito intensa. O ideal é criar uma arquitetura de alarmes. Eu sugiro configurar três momentos distintos. O primeiro deve ser no dia anterior ou no início do dia. Esse serve para você se planejar mentalmente: “hoje é dia de terapia”. Isso evita que você marque aquela reunião interminável colada no horário da sessão ou que assuma compromissos que vão te deixar exausta antes mesmo de começar a falar.

O segundo alarme deve ser disparado uma hora antes. Esse é o alarme de preparação. É o momento de começar a desacelerar, de fechar as abas do navegador que não são urgentes, de ir ao banheiro, de pegar um copo d’água. É o aviso para o seu cérebro começar a mudar a chave do modo “produtividade” para o modo “introspecção”. Muitas pessoas chegam na sessão afobadas, com a cabeça ainda no e-mail que acabaram de enviar, e levam vinte minutos só para conseguir aterrissar no setting terapêutico. Esse alarme de uma hora antes ajuda a garantir que você chegue inteira.

O terceiro alarme é o de “ação”, dez ou cinco minutos antes. É a hora de logar, testar o microfone e respirar fundo. A tecnologia dos alarmes recorrentes no celular é maravilhosa porque você configura uma vez e ela trabalha para você para sempre. Não confie na sua memória semanal para reativar o despertador. Deixe programado para repetir toda semana, indefinidamente. A consistência do aviso sonoro cria um condicionamento. Com o tempo, só de ouvir aquele toque específico, seu corpo já vai saber que é hora de se cuidar.

Apps de organização de tarefas

Além das agendas tradicionais, os aplicativos de listas e gestão de tarefas como Todoist, Trello ou Notion podem ser grandes parceiros. Eles funcionam de uma maneira diferente da agenda. Enquanto a agenda marca o tempo, esses apps marcam a intenção. Você pode criar uma tarefa recorrente chamada “Sessão de Terapia” que precisa ser “ticada” ou concluída. O ato físico de marcar o check-box ao final da sessão libera dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa. Isso reforça positivamente o comportamento de comparecer.

Esses aplicativos também permitem que você anote tópicos ao longo da semana. Sabe quando acontece algo na quinta-feira e você pensa “preciso falar disso na terapia”, mas chega na terça-feira seguinte e você esqueceu completamente? Use o app de tarefas para criar uma lista de “Pautas para Terapia”. Além de te lembrar da sessão em si, isso te mantém conectado com o processo durante os dias de intervalo. A notificação do app pode servir não só para te lembrar do horário, mas para te lembrar de ler o que você anotou.

A organização visual nesses aplicativos ajuda a reduzir a ansiedade. Ver a terapia como parte integrante das suas tarefas semanais, e não como um evento isolado e estranho, ajuda a naturalizar o cuidado mental. Quando a terapia está na mesma lista que “fazer compras” e “enviar relatório”, ela ganha status de realidade prática. Ela deixa de ser algo abstrato e se torna algo concreto que requer sua atenção e presença. Use a tecnologia para tirar a terapia do campo das ideias e colocá-la no campo da ação.

O Papel das Notificações Automáticas

O reforço externo via SMS e WhatsApp

Muitos softwares de gestão de clínicas e consultórios hoje oferecem o envio automático de lembretes. Não encare isso como spam ou como uma cobrança chata. Encare como um suporte do seu terapeuta para com você. Receber um SMS 24 horas antes dizendo “Lembrete do seu horário amanhã” é uma forma de cuidado. Significa que aquele horário é seu, que alguém está esperando por você e que aquele espaço está reservado. É uma validação externa do seu compromisso.

O WhatsApp, sendo a ferramenta de comunicação mais usada no nosso país, é um canal excelente para isso. A notificação ali, no meio das suas conversas de trabalho e família, coloca a terapia no fluxo da sua vida social e profissional. Porém, é importante configurar essas notificações para que elas não sejam apenas mais uma bolinha verde ignorada. Se o sistema do seu terapeuta permite, peça para que a mensagem chegue em um horário que você costuma estar mais tranquilo para ler e confirmar. A confirmação é um passo importante: ao responder “confirmado”, você firma um mini contrato verbal consigo mesmo.

Se o seu terapeuta não usa um sistema automatizado, não tenha vergonha de pedir para que ele te mande um “oi” no dia. Ou melhor, combine que vocês trocarão confirmações. Claro que a responsabilidade principal é sua, mas no início do tratamento ou em fases mais difíceis, esse auxílio externo funciona como rodas de apoio em uma bicicleta. Com o tempo, você pode não precisar mais desse aviso externo, mas usá-lo como ferramenta de transição é inteligente e válido.

A responsabilidade compartilhada do vínculo

A terapia é uma relação de via dupla. Embora o tratamento seja sobre você, o vínculo é construído a dois. Quando estabelecemos um sistema de notificações e lembretes, estamos fortalecendo esse laço. O lembrete automático simboliza a constância do terapeuta. Ele está lá. A estrutura está lá. A tecnologia faz a ponte entre a disponibilidade do profissional e a sua necessidade. Entender que existe uma outra pessoa do outro lado da tela, que preparou aquele tempo para te ouvir, ajuda a combater a vontade de faltar por preguiça ou desânimo.

A tecnologia aqui serve para mediar a relação humana. Não é sobre o robô te mandando mensagem, é sobre o que aquela mensagem representa. Ela representa a manutenção do setting terapêutico. O setting online precisa de bordas, precisa de limites claros, já que não temos a porta física do consultório para fechar. A notificação de confirmação é a borda digital. Ela delimita que o contrato está valendo. Respeitar essa notificação é respeitar a relação que você está construindo com seu terapeuta.

Essa responsabilidade compartilhada também alivia a tensão. Você sabe que será lembrado, então pode relaxar. Seu terapeuta sabe que o sistema enviou o aviso, então ele pode contar com sua presença ou, no mínimo, saber que você foi avisado. Isso profissionaliza a relação e diminui ruídos de comunicação. Menos mal-entendidos sobre datas e horários significam mais tempo focado no que realmente importa: suas questões emocionais e seu desenvolvimento pessoal.

O perigo de ignorar as notificações

Existe um risco real na “cegueira de notificação”. Recebemos tantos avisos por dia — iFood, Instagram, e-mail, banco — que nosso cérebro aprende a ignorar tudo o que apita. Se o lembrete da terapia cair nessa vala comum, ele perde a eficácia. Você vê a mensagem, seu cérebro registra, mas você não age. Cinco minutos depois, você esqueceu. Para evitar isso, você precisa tornar a notificação da terapia “sagrada” ou, no mínimo, diferenciada.

Mude o som da notificação desse lembrete específico. Coloque um toque que você não usa para mais nada. Se possível, configure para que a vibração seja diferente. O objetivo é criar um estímulo sensorial distinto que corte o ruído de fundo. Se você apenas deslizar a notificação para o lado pensando “ah, tá, depois eu vejo”, a chance de esquecimento é altíssima. A regra de ouro é: a notificação da terapia exige uma ação imediata, nem que seja apenas parar por 10 segundos e respirar fundo.

Ignorar sistematicamente esses lembretes pode ser um sinal de que você está desengajado do processo. Se você percebe que toda semana, quando o aviso chega, você sente irritação, tédio ou vontade de fingir que não viu, traga isso para a sessão. Fale para o seu terapeuta: “Quando recebo o lembrete automático, me sinto sufocada”. Isso é material de trabalho. A sua reação à tecnologia diz muito sobre como você lida com compromissos, com autoridade e com o cuidado consigo mesma. Use a sua reação à notificação como um termômetro do seu engajamento.

A Psicologia por Trás do Compromisso

Criando o hábito do autocuidado digital

O compromisso com a terapia não nasce pronto, ele é construído. E a tecnologia pode ser a ferramenta que ajuda a cimentar esse hábito. Na psicologia comportamental, falamos muito sobre gatilhos e recompensas. A notificação é o gatilho. A sessão é o comportamento. O bem-estar (ou o alívio) pós-sessão é a recompensa. Para que esse loop se torne um hábito sólido, o gatilho precisa ser consistente. Se você confia apenas na sua cabeça, o gatilho falha. Se você usa a tecnologia, o gatilho é garantido.

Transformar a notificação em um ritual de autocuidado muda a sua relação com o celular. O aparelho deixa de ser apenas uma fonte de demanda e passa a ser um instrumento de saúde. Quando você configura seu “Não Perturbe” para ligar automaticamente durante a sessão, você está dizendo para o mundo e para si mesmo que aquele momento é inviolável. Esse ato de configurar o celular é, em si, um ato terapêutico de estabelecimento de limites.

A repetição cria a estrutura. Depois de alguns meses seguindo religiosamente os lembretes digitais, você vai perceber que seu corpo começa a pedir pela sessão mesmo antes do alarme tocar. A tecnologia serviu como andador até que você aprendesse a andar sozinha. Mas não tenha pressa de largar o andador. Em momentos de estresse, voltamos a padrões antigos, então manter os lembretes ativos é uma forma de prevenção contra recaídas na desorganização. O autocuidado digital é manter essas estruturas funcionando mesmo quando achamos que não precisamos mais delas.

A preparação mental pré-sessão

A sessão de terapia não começa quando a câmera abre. Ela começa quando você se dispõe a ir. No modelo online, perdemos o trajeto físico — o tempo de deslocamento no carro ou no ônibus que servia para ir “entrando no clima”. Sem esse tempo de transição, corremos o risco de entrar na sessão frios, ainda agitados pelas tarefas domésticas ou laborais. A tecnologia precisa recriar esse “tempo de trânsito” virtualmente.

Use os lembretes para criar um ritual de pré-sessão. Quando o alarme de 15 minutos tocar, ele não serve só para avisar do horário. Ele serve para você ir buscar seu caderno de anotações, encher sua garrafa de água, fechar a porta do quarto, colocar os fones de ouvido. Esses pequenos gestos físicos sinalizam para sua psique que o cenário mudou. Você está construindo uma bolha de privacidade e introspecção dentro da sua casa.

Sem essa preparação, você gasta os primeiros quinze minutos da sessão apenas tentando se acalmar e se conectar. Isso é desperdício de tempo e de energia psíquica. O lembrete tecnológico é o porteiro que abre a porta do consultório virtual. Respeite esse porteiro. Se você ignora o tempo de preparação, você entra na sessão pela metade. A qualidade do seu trabalho terapêutico depende diretamente de como você chega para o encontro, e a tecnologia te dá a chance de chegar preparada, centrada e pronta.

O custo emocional da ausência

Faltar à terapia tem um preço que vai além do valor da consulta. Existe um custo emocional na quebra do contrato de confiança consigo mesma. Toda vez que você se compromete a estar lá e não aparece, você registra internamente uma pequena falha. “Eu não consigo me priorizar”, “eu não levo minha saúde a sério”. Esses pensamentos, mesmo que inconscientes, minam sua autoestima. O esquecimento frequente gera uma sensação de incapacidade e descontrole sobre a própria vida.

A tecnologia atua como um redutor de danos nesse aspecto. Ao garantir sua presença através de múltiplos lembretes, você acumula vitórias. “Eu fui”, “eu estava lá”, “eu me priorizei”. Essa sensação de dever cumprido fortalece o ego e aumenta a autoeficácia. Você prova para si mesma que é capaz de manter um compromisso difícil e desafiador. A regularidade traz resultados, e os resultados motivam a continuidade. É um ciclo virtuoso.

Além disso, a ausência quebra o ritmo do processo. A terapia é como uma novela ou uma série; se você pula três capítulos, fica difícil entender o enredo e retomar o fio da meada. O terapeuta precisa gastar tempo recapitulando, reconectando. A tecnologia garante a continuidade narrativa da sua história. Não subestime o poder de estar presente toda semana. É na constância que as grandes mudanças são elaboradas e consolidadas. O lembrete no celular é o guardião dessa constância.

Estratégias Comportamentais e Assistentes Virtuais

O uso de comandos de voz e assistentes

Se digitar na agenda te dá preguiça, use a voz. Assistentes como Siri, Alexa ou Google Assistant são perfeitos para quem tem resistência à organização manual. Ao final da sessão, enquanto ainda está com a sensação de tarefa cumprida, apenas diga em voz alta: “Alexa, me lembre da terapia na próxima terça às 14 horas”. Pronto. O esforço é zero. A barreira de entrada para a organização é eliminada. Falar é mais rápido e natural do que abrir um app e digitar.

Você pode configurar rotinas nesses assistentes. Por exemplo, criar um “Modo Terapia”. Quando você diz “hora da terapia”, a assistente pode automaticamente colocar o celular no silencioso, diminuir as luzes do ambiente (se você tiver lâmpadas inteligentes) e tocar uma música suave por dois minutos antes de parar. Isso cria uma ambientação sensorial que favorece o relaxamento e a abertura emocional. A tecnologia trabalha para criar o clima ideal.

Usar a voz também ajuda a externalizar o compromisso. Quando você fala em voz alta, você ouve a si mesma assumindo a responsabilidade. É diferente de apenas pensar. O comando de voz é uma ordem que você dá para a máquina e para o seu cérebro. Use a tecnologia mais moderna a seu favor para reduzir o atrito entre a intenção de ir à terapia e a ação de realmente estar lá.

Bloqueio de tempo e modo foco

Nossos celulares hoje possuem ferramentas nativas de “Foco” ou “Bem-estar Digital” que são subutilizadas. Você pode programar seu aparelho para entrar em “Modo Terapia” automaticamente durante o horário da sua sessão. Isso significa que, naquele intervalo, nenhuma notificação de Instagram, WhatsApp ou e-mail vai aparecer na tela. Apenas chamadas de emergência de contatos selecionados (como filhos ou pais idosos) passarão pelo filtro.

Isso é crucial porque a notificação que chega durante a sessão é uma invasão. Ela rouba sua atenção, interrompe seu raciocínio e quebra o clima emocional. Você está chorando ou elaborando algo profundo e, de repente, o celular vibra com uma promoção de pizza. Isso é desastroso para o processo. O bloqueio tecnológico garante a integridade do espaço terapêutico. Você protege sua atenção, que é o recurso mais valioso que você tem naquele momento.

Além do celular, existem bloqueadores para navegadores no computador. Se você faz terapia pelo notebook, é tentador deixar o e-mail aberto em outra aba “só para dar uma olhadinha”. Não faça isso. Use extensões que bloqueiam o acesso a sites específicos durante aquele horário. Force a tecnologia a te manter presente. A disciplina nem sempre precisa vir da força de vontade; ela pode vir de um sistema bem configurado que impede a distração antes que ela aconteça.

Gamificação da própria assiduidade

O ser humano adora jogos e recompensas. Você pode aplicar a lógica dos games (gamificação) para se manter fiel à terapia. Use apps de rastreamento de hábitos (habit trackers) para marcar cada sessão que você compareceu. Ver a corrente de dias consecutivos (streaks) crescendo gera uma motivação extra para não quebrar a sequência. Você não quer ver aquele buraco no seu calendário bonitinho de vitórias.

Crie recompensas reais associadas a esses marcos tecnológicos. Se você completar um mês sem atrasos e sem esquecimentos (registrados no app), você se dá um presente. Pode ser um livro, um jantar especial, um tempo extra de descanso. O cérebro aprende por associação. Se ir à terapia — que muitas vezes é difícil e doloroso — estiver associado a uma recompensa positiva no final do mês e a um visual gratificante no aplicativo, a resistência diminui.

Essa estratégia funciona muito bem para quem é visual e orientado a metas. A tecnologia fornece o feedback imediato do seu progresso. Você consegue olhar para o aplicativo e ver: “Uau, já fui a 12 sessões seguidas”. Isso tangibiliza o esforço. Muitas vezes achamos que não estamos evoluindo, mas os dados mostram que estamos lá, firmes, comparecendo. E comparecer é metade da cura.

Análise das Áreas da Terapia Online

Ao observarmos o uso dessas tecnologias de lembretes e notificações, percebemos que elas se encaixam como uma luva em diversas abordagens terapêuticas que migraram para o online.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o uso de registros, tarefas de casa e monitoramento de humor é central. Apps que notificam o paciente para preencher esses registros ou lembrar da sessão são extensões diretas da técnica clínica. A tecnologia aqui funciona como um co-terapeuta que ajuda na reestruturação cognitiva e na ativação comportamental.

Para a Psicanálise, que lida muito com a associação livre e a resistência, o uso da tecnologia para garantir a presença é fundamental para manter o setting. Embora o esquecimento seja analisado como ato falho, a presença virtual constante garantida pelos lembretes permite que a análise aconteça. O “divã virtual” precisa ser sustentado por uma estrutura tecnológica robusta para que a transferência ocorra.

Já nas Terapias Breves e Focais, onde o tempo é curto e os objetivos são muito específicos, não há espaço para perder sessões por esquecimento. A otimização do tempo através de agendas sincronizadas é vital para o sucesso do tratamento em curto prazo.

Por fim, na Terapia para TDAH e Neurodivergências, essas ferramentas não são apenas úteis, são essenciais. Elas funcionam como próteses executivas, auxiliando nas funções de planejamento e memória que estão deficitárias. O terapeuta que ensina seu paciente a usar essas tecnologias está, na verdade, fornecendo ferramentas de autonomia que servirão para a vida toda, muito além da sessão de terapia. O uso inteligente das notificações transforma a tecnologia de uma fonte de distração em uma poderosa aliada da saúde mental.

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