Dissociação: “Parece que saí do meu corpo”
É muito comum ouvir no consultório relatos que começam com um olhar um pouco perdido e a frase hesitante: “Sinto como se eu não estivesse realmente aqui”. Talvez você já tenha vivenciado isso. Você está caminhando pela rua, conversando com alguém ou até mesmo olhando-se no espelho, e de repente, uma chave vira. A realidade perde a cor, o som parece abafado ou distante, e você tem a nítida sensação de que é apenas um observador da sua própria vida, como se estivesse assistindo a um filme sobre si mesmo.[1]
Essa experiência pode ser absolutamente aterrorizante na primeira vez que acontece. O medo imediato que surge é o de estar perdendo a sanidade, de que o controle sobre a própria mente está escorrendo pelos dedos. Quero começar dizendo algo muito importante e que você precisa absorver agora: você não está enlouquecendo. O que você está sentindo tem nome, tem explicação científica e, o mais importante, é uma resposta biológica do seu cérebro que, ironicamente, está tentando proteger você.
Vamos navegar juntos por esse tema complexo. Quero que você entenda não apenas o que é essa sensação de “sair do corpo”, mas como ela funciona, por que ela aparece e, principalmente, como você pode gentilmente convidar a si mesmo a voltar para o momento presente. Vamos conversar sobre dissociação, despersonalização e desrealização de uma forma que faça sentido para a sua vivência, longe dos termos técnicos frios e distantes.
O Que é Essa Sensação de “Não Estar Aqui”?
A dissociação é um mecanismo de defesa fascinante e, ao mesmo tempo, desconcertante do nosso sistema nervoso. Imagine que o seu cérebro possui um disjuntor de segurança, exatamente como o da rede elétrica da sua casa. Quando a tensão emocional, o estresse ou o medo se tornam altos demais para serem processados de uma só vez, o sistema “desarma” para evitar um curto-circuito total. Esse desligamento temporário é o que chamamos de dissociação.[2][3][4][5] É uma desconexão entre seus pensamentos, suas emoções, suas memórias e até mesmo sua identidade.[1][3][4]
Na prática clínica, percebemos que a dissociação não é um evento único e igual para todos.[1] Ela existe em um espectro. Todos nós dissociamos um pouco quando dirigimos um carro por um trajeto conhecido e chegamos ao destino sem lembrar do caminho, ou quando estamos tão absortos em um livro que não ouvimos alguém chamar nosso nome. No entanto, quando falamos da sensação de “sair do corpo” que causa sofrimento e angústia, estamos geralmente nos referindo a dois fenômenos específicos que andam de mãos dadas: a despersonalização e a desrealização.[1][3][4][6][7][8]
Entender a diferença entre elas é o primeiro passo para tirar o poder assustador desses sintomas. Não se trata de uma falha permanente no seu “hardware” mental, mas sim de um software de proteção rodando em segundo plano. O problema é que, muitas vezes, esse software continua rodando mesmo quando o perigo real já passou, deixando você com essa sensação persistente de estar flutuando pela vida sem nunca aterrissar de verdade.
Despersonalização: Quando Você é um Estranho para Si Mesmo[1][3][7][8][9][10]
A despersonalização é especificamente a sensação de distanciamento de si próprio.[1][3][4][6][7][8][9] É aqui que entra a frase clássica “parece que saí do meu corpo”. Meus clientes frequentemente descrevem isso como se estivessem flutuando acima de si mesmos, observando suas ações e falas como se fossem comandadas por um piloto automático. Você pode olhar para as suas mãos e saber intelectualmente que elas são suas, mas não sentir que elas pertencem a você. É uma desconexão profunda com a sua fisicalidade e com a sua identidade imediata.
Essa experiência pode vir acompanhada de uma anestesia emocional e física.[1][6] Você pode beliscar a pele e sentir o toque, mas a sensação parece distante, como se estivesse acontecendo com outra pessoa. Em momentos de despersonalização intensa, a própria voz pode soar estranha aos seus ouvidos, como se viesse de um rádio ou de outra sala. O “eu” que pensa e o “eu” que age parecem ter perdido a sincronia, criando um hiato angustiante onde a sua humanidade parece ter sido colocada em pausa.
É crucial entender que, durante esse estado, o seu teste de realidade permanece intacto. Diferente de surtos psicóticos onde a pessoa acredita em uma nova realidade delirante, na despersonalização você sabe que algo está errado. Você tem a consciência dolorosa de que deveria estar sentindo, mas não está. Essa consciência, embora cause sofrimento, é um sinal de saúde mental preservada. É o seu observador interno notando a desconexão, o que é um excelente prognóstico para o tratamento.
Desrealização: Quando o Mundo Parece um Cenário de Filme[4][9][10]
Enquanto a despersonalização é sobre você, a desrealização é sobre o mundo lá fora.[1][4][7] De repente, o ambiente ao seu redor perde a textura de realidade.[1][5][7][10] As pessoas, os prédios, o trânsito, tudo pode parecer bidimensional, artificial ou onírico. É comum ouvir relatos de que o mundo parece estar sendo visto através de um vidro grosso, de uma névoa ou como se fosse um cenário de papelão mal montado. As cores podem parecer mais opacas ou artificialmente brilhantes, e a noção de tempo e espaço pode ficar distorcida.
Imagine estar em um jantar com amigos e, subitamente, sentir que existe uma parede invisível entre você e eles. Você os vê rindo e conversando, mas não consegue acessar a atmosfera do ambiente. O mundo parece estranho, bizarro ou mecanizado.[4] Essa sensação de estranheza pode ser gatilho para muita ansiedade, pois a base de segurança que temos — a solidez do mundo ao nosso redor — parece se dissolver.[8]
A desrealização muitas vezes faz com que lugares familiares pareçam estranhos ou novos, um fenômeno conhecido como jamais vu (o oposto de déjà vu). Você entra na sua própria sala de estar e, por uma fração de segundo, ela parece um lugar que você nunca viu antes. Esse distanciamento do ambiente é outra forma do cérebro dizer: “O mundo lá fora está muito intenso ou perigoso agora, vou diminuir a resolução da imagem para que você não precise processar tantos detalhes”.
Não, Você Não Está Enlouquecendo
Talvez este seja o ponto mais importante de toda a nossa conversa hoje. O medo da loucura é quase universal em quem sofre de transtorno de despersonalização e desrealização. A natureza bizarra dos sintomas — sentir-se um robô, ver o mundo como um sonho — alimenta pensamentos catastróficos. Você começa a se monitorar obsessivamente: “Será que estou ouvindo coisas? Será que vou perder o controle e fazer algo absurdo?”. Esse hipermonitoramento apenas gera mais ansiedade, o que, por sua vez, alimenta a dissociação.
Quero te assegurar, com a tranquilidade de quem já acompanhou muitos casos assim, que a dissociação é, na verdade, uma resposta muito sã a circunstâncias insanas ou a níveis insuportáveis de estresse. Enlouquecer, no sentido clínico de psicose, envolve perder a noção do que é real.[1][5][10] Na dissociação, o seu problema é justamente estar excessivamente consciente de que a sua percepção da realidade mudou. Você está ancorado na realidade, apenas a sua percepção sensorial e emocional dela que foi amortecida.
Validar que você não está ficando louco é parte do tratamento. Quando você entende que isso é “apenas” ansiedade em um nível muito alto ou uma resposta a traumas, o medo diminui. E quando o medo diminui, a necessidade do cérebro de usar esse “disjuntor de emergência” também diminui. Aceitar a sensação sem julgá-la como um sinal de colapso mental iminente é o primeiro passo para quebrar o ciclo vicioso do medo-sintoma-medo.
Por Que Isso Acontece? Os Bastidores da Mente[6][8]
Para lidar com a dissociação, precisamos entender a mecânica por trás dela. Por que o seu cérebro escolheria fazer você se sentir um fantasma na própria vida? A resposta reside na nossa evolução biológica. Nosso sistema nervoso autônomo é projetado para a sobrevivência, não necessariamente para o bem-estar ou felicidade momentânea. Ele prioriza manter você vivo, e a dissociação é uma das ferramentas mais antigas e primitivas desse arsenal de sobrevivência.
Muitas vezes, olhamos para os sintomas como inimigos, mas, neste caso, a intenção original do seu corpo foi heroica. Ele tentou te poupar de uma dor — física ou emocional — que ele calculou ser grande demais para suportar. O problema surge quando esse mecanismo fica “preso” ou se torna a resposta padrão para qualquer tipo de estresse, mesmo aqueles que não ameaçam a sua vida. Vamos investigar o que ativa esse sistema.
O Botão de Emergência do Cérebro (Trauma e Estresse)
A dissociação é classicamente associada ao trauma. Quando passamos por situações de abuso, negligência, acidentes ou violência, especialmente na infância, fugir fisicamente nem sempre é uma opção.[9] Se uma criança está em uma situação assustadora e não pode correr nem lutar, o cérebro dela encontra uma terceira via: fugir para dentro. A mente se desconecta do corpo para que a dor física ou o terror emocional não sejam sentidos em sua totalidade. É uma forma brilhante de autopreservação.
No entanto, essa resposta pode ficar condicionada. Anos depois, mesmo que você esteja seguro, uma situação de estresse no trabalho ou uma discussão com o parceiro pode ser lida pelo seu sistema límbico (o centro emocional do cérebro) como uma ameaça de vida. O cérebro, reconhecendo o padrão de “perigo insuportável”, aperta o botão de emergência novamente. De repente, você está dissociado em uma reunião de negócios, não porque a reunião ameace sua vida, mas porque seu corpo se lembrou de como é se sentir encurralado.
Não é necessário ter um grande trauma único para desenvolver dissociação. O acúmulo de microtraumas, negligência emocional ou viver em um ambiente invalidante por anos pode ter o mesmo efeito. O estresse crônico desgasta a capacidade do sistema nervoso de se autorregular, tornando o limiar para o “desligamento” cada vez mais baixo. Entender isso ajuda a tirar a culpa de si mesmo; não é fraqueza, é uma adaptação biológica a um ambiente que foi, em algum momento, hostil.
A Ansiedade Como Combustível
Embora o trauma seja uma raiz comum, a ansiedade severa e os ataques de pânico são, frequentemente, o gatilho imediato para os episódios de despersonalização no presente. Durante um ataque de pânico, o corpo é inundado por adrenalina e cortisol. O coração dispara, a respiração fica curta e o cérebro entra em alerta máximo. Quando esse nível de excitação fisiológica atinge um pico insustentável, o cérebro pode induzir a dissociação para “esfriar” o sistema.
Muitos pacientes relatam que a primeira vez que sentiram que “saíram do corpo” foi durante uma crise de ansiedade intensa. O susto causado pela sensação estranha gera mais ansiedade, o que mantém a dissociação ativa. É como um incêndio onde o medo é a gasolina. Você fica ansioso porque está dissociado, e continua dissociado porque está ansioso. Quebrar esse ciclo exige tratar a ansiedade subjacente, e não apenas lutar contra a sensação de irrealidade.
A ansiedade nos mantém em um estado de hipervigilância. Estamos o tempo todo escaneando o ambiente e o nosso corpo em busca de ameaças. Esse foco excessivo e constante cansa a mente. A dissociação, nesse contexto, pode ser vista também como uma exaustão mental, um pedido de “tempo” do cérebro que não aguenta mais processar tantos estímulos de perigo.
Outros Gatilhos Comuns que Você Precisa Conhecer
Além do trauma e da ansiedade, existem fatores fisiológicos e ambientais que podem precipitar esses episódios e que muitas vezes são ignorados. O cansaço extremo e a privação de sono são gatilhos poderosos. Um cérebro exausto tem dificuldade em integrar a realidade de forma coesa. Se você não dorme bem há dias, é muito mais provável que sinta a realidade se desfazendo nas bordas.
O uso de substâncias também desempenha um papel significativo.[4][6][9] Álcool, maconha e certas drogas alucinógenas podem induzir estados dissociativos agudos. Para algumas pessoas, uma experiência ruim com maconha (uma “bad trip”) pode desencadear o primeiro episódio de despersonalização/desrealização, que depois persiste alimentado pela ansiedade gerada pela experiência. É importante ser honesto sobre o uso de substâncias, pois elas podem estar fragilizando a barreira química que mantém sua percepção de realidade estável.
Fatores sensoriais também importam. Ambientes com luzes fluorescentes muito fortes (como supermercados ou hospitais), excesso de barulho ou multidões podem sobrecarregar o processamento sensorial de pessoas mais sensíveis, levando a um desligamento defensivo. Identificar esses gatilhos práticos é uma forma de empoderamento, pois permite que você gerencie seu ambiente e suas escolhas para proteger sua estabilidade mental.
O Impacto Invisível na Sua Rotina
Viver com a sensação de que você ou o mundo não são reais é exaustivo. Quem olha de fora não vê gesso, não vê curativos, não vê febre. Aparentemente, você está “normal”. Você continua indo ao trabalho, cuidando da casa, respondendo às perguntas. Mas por dentro, a experiência é de uma solidão profunda. Existe um abismo entre você e a vida que você está vivendo, e tentar transpor esse abismo diariamente consome uma quantidade imensa de energia vital.
Não subestime o impacto que isso tem na sua qualidade de vida. Muitas vezes, tentamos minimizar o sofrimento dizendo “é só uma sensação”, mas essa sensação permeia cada interação e cada tarefa. Reconhecer as dificuldades diárias é uma forma de autocompaixão. Você está carregando um peso invisível, e é natural que se sinta mais cansado ou menos produtivo do que gostaria.
O Desafio de Manter o Foco e a Memória
A dissociação afeta diretamente a cognição. Quando você não está totalmente “presente”, é muito difícil formar novas memórias. Você pode sair de uma aula ou de uma reunião de trabalho e perceber que não absorveu quase nada. As informações parecem ter passado por você sem grudar. Isso não é falta de inteligência, é falta de presença. Seu cérebro estava ocupado demais lidando com a sensação de irrealidade para processar o conteúdo da planilha ou da conversa.
Essa névoa mental (brain fog) torna tarefas simples, como ler um livro ou seguir uma receita, desafiadoras. Você pode se pegar relendo o mesmo parágrafo cinco vezes porque as palavras parecem apenas símbolos sem significado. No trabalho, isso pode gerar erros por distração ou uma lentidão que frustra você e seus colegas. A sensação é de estar tentando correr dentro de uma piscina cheia de água: muito esforço para pouco movimento.
Muitos clientes se queixam de sentir que suas memórias não lhes pertencem. Eles lembram dos fatos — “fui à praia no fim de semana” — mas não conseguem acessar a emoção daquela memória. É como lembrar de uma cena de filme, não de uma vivência pessoal. Isso pode ser doloroso, pois sentimos que estamos perdendo a riqueza da nossa própria história, acumulando fatos sem a textura emocional que dá sentido à vida.[8]
O Isolamento Social por Medo de Ser Julgado
Como explicar para o seu parceiro ou amigo que, embora você esteja ali sentado ao lado deles, você sente que eles são bonecos de cera ou que você mesmo não existe? O medo de não ser compreendido ou de ser rotulado como “louco” leva ao isolamento. Você começa a evitar interações sociais não porque não goste das pessoas, mas porque fingir que está tudo normal enquanto o mundo parece desmoronar é exaustivo.
Além disso, situações sociais costumam ser ricas em estímulos — música, várias vozes, luzes, movimento. Para um sistema nervoso que já está no limite, isso pode ser o gatilho para mais dissociação. Então, você começa a recusar convites, fica mais em casa, se fecha. O problema é que o isolamento tende a piorar a dissociação, pois a interação social segura é uma das formas mais potentes de nos regularmos e nos aterrarmos na realidade (corregulação).
Esse retraimento pode ser interpretado pelos outros como desinteresse, frieza ou depressão.[1] Relacionamentos podem sofrer porque a conexão emocional exige presença, e a dissociação é, por definição, a ausência de presença plena. É importante, quando você se sentir seguro, compartilhar com pessoas de extrema confiança o que está acontecendo, usando termos simples: “Às vezes me sinto um pouco aéreo ou desconectado devido à ansiedade, e preciso de um pouco de paciência”.
A Fadiga de Estar Sempre “Alerta”
Pode parecer contraditório dizer que alguém que está “desligado” (dissociado) está também em “alerta”, mas é exatamente isso que acontece. A parte consciente da sua mente está constantemente checando a realidade (“Isso é real? Minha mão é minha? A voz dele está estranha?”), enquanto o subconsciente está segurando as pontas do medo. Esse processo gasta uma glicose mental imensa.
Ao final do dia, é comum sentir uma exaustão física que não condiz com as atividades realizadas. Você pode não ter corrido uma maratona, mas seu cérebro correu. Essa fadiga torna mais difícil resistir aos sintomas no dia seguinte, criando um efeito bola de neve. Muitas pessoas relatam também dores de cabeça tensionais, tensão na mandíbula e dores no pescoço, reflexos físicos da tensão constante de tentar “segurar” a realidade no lugar.
Respeitar esse cansaço é vital. Tentar “empurrar” a vida e forçar a normalidade quando se está nesse estado apenas drena mais a bateria. Você precisa de pausas, de momentos de “nada”, onde não precise atuar ou checar a realidade. Entender que sua bateria está viciada temporariamente ajuda a ajustar as expectativas sobre o que você consegue fazer em um dia.
Técnicas de Aterramento: Como Colocar os Pés no Chão
Agora que entendemos o “o quê” e o “porquê”, vamos falar sobre o “como”. Como sair desse estado? A resposta principal é o Grounding ou Aterramento. O objetivo dessas técnicas é sinalizar para o seu cérebro, através dos sentidos físicos, que você está aqui, agora, e que está seguro. A dissociação é uma fuga da realidade; o aterramento é um convite gentil para voltar a ela.
Não espere que essas técnicas façam a sensação sumir magicamente em um segundo. Elas são âncoras. Elas impedem que você flutue para longe e, aos poucos, puxam a corda de volta. A prática constante é o que traz resultados. Pense nelas como musculação para o seu nervo vago e sistema de atenção.
Usando os Cinco Sentidos para Voltar
Uma das ferramentas mais clássicas e eficazes é a técnica 5-4-3-2-1. Ela obriga o seu córtex pré-frontal (a parte racional) a trabalhar, tirando o foco do sistema límbico (emocional/medo). Funciona assim: pare onde estiver e identifique em voz alta ou mentalmente:
- 5 coisas que você pode ver (detalhes na parede, a cor de um objeto, a luz);
- 4 coisas que você pode tocar (a textura da calça, a mesa fria, o seu cabelo);
- 3 coisas que você pode ouvir (o ar condicionado, carros distantes, sua respiração);
- 2 coisas que você pode cheirar (café, perfume, o ar);
- 1 coisa que você pode provar (ou uma emoção boa que você gosta de sentir).
Ao forçar a mente a catalogar o ambiente externo, você tira o foco da introspecção obsessiva e dos sintomas estranhos. Você reafirma sua posição no espaço físico. É simples, mas biologicamente potente para reorientar a atenção.
A Importância da Temperatura e do Toque
O sistema nervoso responde muito bem a mudanças bruscas de temperatura, especialmente o frio. Isso ativa o reflexo de mergulho dos mamíferos, que reduz a frequência cardíaca e acalma a ansiedade. Se sentir que está “saindo do corpo”, segure um cubo de gelo na mão até derreter um pouco, ou lave o rosto com água bem gelada. A sensação física intensa e inofensiva “choca” o sistema de volta para o corpo. É difícil ignorar a realidade quando se tem gelo na mão.
O toque firme também ajuda. Tente cruzar os braços e apertar firmemente seus bíceps com as mãos opostas, num autoabraço forte. Ou bata os pés no chão com força, sentindo a vibração subir pelas pernas. Caminhar descalço na grama, na terra ou em um piso frio ajuda a trazer a consciência para as extremidades do corpo, longe da cabeça cheia de névoa. O objetivo é sentir o limite físico do seu corpo, reafirmando onde você termina e onde o mundo começa.
Movimento e Respiração para Regular o Sistema
A dissociação é uma resposta de “congelamento”. Para sair dela, muitas vezes precisamos de movimento. Não precisa ser um exercício intenso. Balançar os braços, alongar-se espreguiçando como um gato, ou fazer polichinelos pode ajudar a metabolizar os hormônios do estresse que estão estagnados. Dançar uma música favorita, mesmo que sem vontade, ajuda a reconectar o ritmo interno com o externo.
A respiração, contudo, deve ser feita com cuidado. Respirar muito rápido pode causar hiperventilação e piorar a sensação de tontura e irrealidade. Foque em expirar. Solte o ar lentamente, como se estivesse soprando uma vela suavemente para não apagá-la. Tente fazer a expiração durar o dobro do tempo da inspiração (inspire em 4, expire em 8). Isso ativa o sistema parassimpático, responsável pelo relaxamento e pela sensação de segurança.
Reconstruindo a Segurança Interna (Extra)
As técnicas de aterramento são o “band-aid” para o momento da crise, mas a cura real vem da reconstrução de uma sensação duradoura de segurança interna. A dissociação acontece porque, em algum nível, seu cérebro não se sente seguro para estar presente.[1][5] O trabalho a longo prazo é mostrar a ele que o “agora” é um lugar habitável.
Esse processo não é linear.[1][3][4][6][7][8][10] Haverá dias bons e dias difíceis. O importante é a direção em que você está caminhando, não a velocidade. Estamos reprogramando anos de padrões defensivos, e isso requer paciência e gentileza consigo mesmo.
Aprendendo a Aceitar a Sensação Sem Pânico
Existe um paradoxo na recuperação da despersonalização: quanto mais você luta contra ela, mais forte ela fica. A resistência gera tensão, e a tensão gera mais sintomas. O segredo, por mais difícil que pareça, é a aceitação flutuante. É a atitude de dizer: “Ok, estou me sentindo estranho agora. É desconfortável, mas não é perigoso. Vou continuar fazendo minhas coisas com essa sensação mesmo, até que ela passe.”
Quando você para de monitorar o sintoma a cada segundo (“Será que passou? E agora, passou?”), você tira o combustível da ansiedade. Você retira o valor de “ameaça” da dissociação. Com o tempo, o cérebro entende que aquele estado não é mais necessário e, naturalmente, começa a baixar as defesas. É como ignorar um alarme de carro disparado falsamente; eventualmente, ele para de tocar.
O Papel do Estilo de Vida na Estabilidade Emocional
Não podemos falar de saúde mental sem falar do básico biológico. Sono regular, alimentação equilibrada e redução de estimulantes (como cafeína e açúcar em excesso) são a base de tudo. A cafeína, especificamente, é um grande inimigo aqui, pois mimetiza os sintomas da ansiedade (taquicardia, agitação), o que pode gatilhar a dissociação em pessoas sensíveis.
A atividade física regular é talvez um dos antidepressivos e ansiolíticos naturais mais potentes. O exercício ajuda a queimar o excesso de adrenalina e libera endorfinas que promovem bem-estar. Além disso, exercícios que envolvem consciência corporal, como Yoga ou Pilates, são excelentes para “costurar” de volta a mente ao corpo, fortalecendo a propriocepção (a noção de onde seu corpo está no espaço).
Construindo uma Rede de Apoio Segura
Você não precisa passar por isso sozinho. Ter pessoas com quem você possa ser autêntico, sem precisar usar a máscara de “estou bem”, reduz a carga emocional. O isolamento alimenta a irrealidade; a conexão nutre a realidade. Olhar nos olhos de alguém em quem confiamos e ter uma conversa sincera libera ocitocina, um hormônio que contrapõe o cortisol do estresse.
Se não houver pessoas próximas com quem se sinta à vontade, grupos de apoio (mesmo online) podem ser valiosos. Saber que outras pessoas sentem exatamente a mesma coisa — que o mundo parece um filme, que as mãos parecem estranhas — é incrivelmente validante e reduz a sensação de ser uma aberração. A vergonha perde força quando é compartilhada.
Caminhos Terapêuticos: O Que Funciona?
Para finalizar, é essencial falar sobre o tratamento profissional.[3][8] Embora as dicas acima ajudem muito, a terapia é o lugar onde vamos à raiz do problema, tratando o trauma ou a ansiedade que ligou esse mecanismo de defesa.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é muito eficaz para lidar com as interpretações catastróficas dos sintomas.[1] Na TCC, você aprende a desafiar pensamentos como “estou enlouquecendo” e a mudar os comportamentos de evitação e checagem que mantêm o transtorno. É um trabalho prático e focado no presente.
Para casos onde o trauma é a base, o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) tem mostrado resultados surpreendentes. Ele ajuda o cérebro a processar memórias traumáticas “congeladas” que continuam disparando o alarme de perigo no presente. Ao reprocessar essas memórias, a necessidade de dissociação diminui drasticamente.
Outra abordagem fantástica é a Experiência Somática (Somatic Experiencing) ou terapias corporais. Como a dissociação é uma separação mente-corpo, terapias que focam nas sensações físicas e na liberação de energia de trauma presa no corpo são muito indicadas. Elas ensinam você a navegar pelas sensações corporais sem medo, aumentando sua “janela de tolerância”.
E, claro, o Mindfulness (Atenção Plena), quando bem orientado (e com cuidado para não induzir mais dissociação no início), ensina a observar os pensamentos e sensações sem se fundir a eles e sem reagir com pânico.
Lembre-se: sentir-se fora do corpo é um pedido de socorro do seu sistema por segurança e descanso. Trate-se com carinho. Você não está quebrado, está apenas temporariamente desconectado. E a conexão é um caminho que se constrói passo a passo, respiração a respiração. Você é real, sua dor é válida, e a recuperação é totalmente possível.
Deixe um comentário