Tratamento Multidisciplinar: Por que você precisa de nutri + psicóloga

Tratamento Multidisciplinar: Por que você precisa de nutri + psicóloga

Entendendo a conexão profunda entre sua mente e seu prato

O impacto direto das emoções nas suas escolhas alimentares

Você já parou para notar que a sua fome muda dependendo do seu dia. Não estou falando daquela fome física, que ronca a barriga e que aceitaria qualquer alimento nutritivo para ser saciada. Falo daquela vontade específica, urgente e que geralmente surge após uma reunião estressante ou uma briga com o parceiro. As emoções funcionam como um filtro poderoso sobre o que decidimos colocar no prato. Quando estamos tristes, buscamos conforto. Quando estamos ansiosos, buscamos alívio rápido. E a comida é a fonte de prazer mais acessível e imediata que temos à disposição desde o dia em que nascemos.

Essa relação não é um defeito seu ou falta de vergonha na cara. É um mecanismo aprendido. Desde a infância, fomos condicionados a receber doces quando nos machucamos ou a celebrar conquistas com grandes banquetes. O alimento carrega afeto, memória e regulação emocional. O problema começa quando comer se torna a única ferramenta que você possui para lidar com o que sente. Se a única forma de você se acalmar é comendo um chocolate, aí temos um sinal de alerta. A nutrição e a psicologia olham juntas para isso não para tirar o chocolate, mas para entender o gatilho.

Identificar esse padrão é o primeiro passo para a mudança. Muitas vezes você acredita que não tem força de vontade, mas na verdade está lutando contra uma gestão emocional ineficiente. Você tenta resolver um problema de ordem sentimental com uma solução mastigável. É como tentar consertar um vazamento no teto trocando o piso da sala. Não resolve a causa. Por isso, entender que suas escolhas alimentares são sintomas de como você está se sentindo internamente é libertador e tira um peso enorme das suas costas.

Quando a comida se torna sua principal válvula de escape

Imagine que você carrega uma mochila pesada o dia inteiro. Trabalho, família, trânsito, boletos. Ao chegar em casa, você precisa soltar essa mochila. Para muita gente, o momento de comer é essa hora de descompressão. É o momento em que o cérebro desliga das preocupações e foca apenas na sensação prazerosa do paladar. O ato de comer libera dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer e recompensa. É químico e funciona na hora. Por isso é tão difícil parar de comer quando estamos usando a comida como anestésico para a vida.

O risco mora na frequência e na intensidade desse comportamento. Se todo dia ruim termina em um episódio de exagero alimentar, você entra em um ciclo perigoso. Você come para aliviar o estresse, mas logo depois vem a culpa por ter comido demais. Essa culpa gera mais estresse, que por sua vez pede mais comida para aliviar. É um looping infinito que drena sua energia e sua autoestima. A comida deixa de ser nutrição e passa a ser uma droga lícita para entorpecer sentimentos que você não quer ou não sabe enfrentar.

Nesse cenário, a dieta sozinha não funciona. Entregar um papel dizendo para você comer salada quando você está desesperado por conforto emocional é ineficaz. Precisamos criar outras válvulas de escape. Outras formas de prazer que não envolvam mastigação. Pode ser um banho quente, ligar para uma amiga, desenhar, caminhar ou apenas chorar o que precisa ser chorado. O trabalho terapêutico aqui é ampliar seu repertório de enfrentamento para que a comida volte ao seu lugar de origem: nutrir o corpo e trazer prazer eventual, não ser sua única terapeuta.

A biologia oculta por trás da fome emocional

Não podemos ignorar que somos seres biológicos. Quando você está sob estresse crônico, seu corpo libera cortisol. Esse hormônio em excesso aumenta a vontade de consumir alimentos ricos em energia, ou seja, gordura e açúcar. É uma resposta de sobrevivência. Seu corpo entende que você está em perigo e precisa estocar energia rápida para lutar ou fugir. O problema é que o nosso “leão” hoje é um boleto ou um e-mail do chefe, e não gastamos essa energia correndo. Ela acaba sendo acumulada, geralmente na região abdominal.

Além do cortisol, temos a questão da privação de sono e da desregulação hormonal. Se você dorme mal, seus hormônios da saciedade despencam e os da fome sobem. Você acorda biologicamente programado para comer mais e pior. Isso valida o quanto é injusto se culpar apenas por “falta de foco”. Existe uma tempestade bioquímica acontecendo dentro de você que empurra suas decisões para o alimento hiperpalatável. Reconhecer isso ajuda a desenvolver autocompaixão. Você não é fraca. Você está com a bioquímica desregulada.

O tratamento multidisciplinar atua justamente para regular esses mecanismos. A nutrição entra com alimentos que ajudam a modular o cortisol e melhorar o sono, como fontes de triptofano e magnésio. A psicologia entra com técnicas de gerenciamento de estresse para diminuir a produção desses hormônios de alerta. É um ataque em duas frentes. Atacamos a causa biológica e a causa comportamental simultaneamente. Sem essa visão dupla, você fica apenas remediando sintomas sem nunca resolver a raiz da sua fome insaciável.

O papel real de cada profissional nessa parceria

O que a nutrição faz muito além de entregar um cardápio

Esqueça a imagem da nutricionista como uma fiscal de prato que apenas proíbe o que você gosta. A nutrição moderna e comportamental vai muito além do cálculo de calorias. O papel desse profissional é ensinar você a voltar a ter autonomia. É educar seu paladar e seu corpo a reconhecerem o que faz bem. Um bom nutricionista investiga sua rotina, suas preferências, sua cultura e seu tempo disponível. A dieta perfeita no papel não serve de nada se não couber na sua vida real de segunda a sexta.

Nós olhamos para a qualidade do que você ingere e como isso conversa com seu metabolismo. Às vezes, a falta de energia e o desânimo que você sente não são depressão, mas sim deficiência de ferro ou vitamina B12. O nutricionista é o detetive que vai analisar se o seu corpo tem a matéria-prima necessária para produzir bem-estar. Ajustar a alimentação melhora a disposição, o sono e a clareza mental, criando uma base sólida para que a terapia psicológica funcione melhor.

Além disso, a nutrição trabalha a organização. Muitas vezes a ansiedade alimentar vem da falta de planejamento. Chegar em casa morrendo de fome e não ter nada pronto é a receita para pedir fast-food. O nutricionista ajuda você a criar estratégias práticas, como ter lanches na bolsa ou pré-preparar refeições, para que a escolha saudável seja a mais fácil e não a mais difícil. É sobre facilitar o seu caminho, removendo barreiras que te impedem de cuidar de si mesma.

Como a psicologia entra na cozinha sem julgar seu prato

A psicóloga não vai contar quantas colheres de arroz você comeu. O foco dela é entender o “porquê” e o “como” você comeu. Ela investiga as crenças que você tem sobre seu corpo e sobre os alimentos. Muitas de nós crescemos ouvindo que “isso engorda”, “aquilo é pecado”, ou que “precisamos ser magras para sermos amadas”. Essas crenças formam regras rígidas na sua cabeça que geram sofrimento toda vez que você se senta à mesa. O trabalho da psicologia é desmontar essas regras antigas e construir uma relação de paz com a comida.

Dentro do consultório, trabalhamos a imagem corporal. É muito comum que a insatisfação com o corpo leve a comportamentos extremos na alimentação. A psicóloga ajuda você a entender que seu valor como ser humano não está atrelado ao número na balança. Trabalhamos a aceitação, não como conformismo, mas como ponto de partida. Você só cuida bem daquilo que você respeita. Se você odeia seu corpo, vai puni-lo com privação ou com excessos. Aprender a respeitar o corpo que você tem hoje é essencial para mudar.

Também abordamos os gatilhos situacionais e relacionais. Talvez você coma mais quando visita sua mãe que critica seu peso. Ou coma escondido do seu marido por vergonha. A psicologia traz luz para essas dinâmicas. Entender que o problema não é o bolo, mas sim a dificuldade de impor limites nas relações ou de expressar o que sente, muda tudo. A terapia oferece um espaço seguro para você chorar suas dores em vez de engoli-las junto com a comida.

A mágica que acontece quando integramos os dois saberes

Quando nutrição e psicologia dão as mãos, o paciente é visto por inteiro. Não existe mais aquela separação entre corpo e mente, porque na prática ela não existe mesmo. Imagine que você teve uma recaída e comeu três caixas de bombom. Se você for só na nutri, ela pode ajustar a dieta. Se for só na psico, ela vai ver a emoção. Juntas, nós entendemos o cenário completo. A nutri ajusta o café da manhã para evitar a fome física que potencializou a compulsão, e a psico trabalha o gatilho emocional que disparou o primeiro bombom.

A comunicação entre os profissionais agiliza o seu resultado. Eu, como terapeuta, posso perceber que você está com uma rigidez excessiva na dieta que está gerando ansiedade. Eu ligo para a sua nutri e alinhamos para flexibilizar o cardápio. Ou a nutri percebe que você relata comportamentos purgativos e me avisa para trabalharmos isso na sessão. Você se sente cuidada e amparada por uma rede de segurança. Não há contradições nas orientações. Todos falam a mesma língua e remam para o mesmo lado: o da sua saúde integral.

Essa abordagem multidisciplinar aumenta drasticamente a adesão ao tratamento. Você para de se sentir uma fracassada porque entende a complexidade do processo. Percebe que emagrecer ou ter saúde não é só “fechar a boca e malhar”. É um processo de autoconhecimento profundo. Ao integrar os saberes, você ganha ferramentas práticas e ferramentas emocionais. É como ir para uma guerra bem armada e com um mapa estratégico, em vez de ir de olhos vendados e sem escudo.

Quebrando o ciclo vicioso das dietas restritivas

Por que a restrição severa quase sempre gera compulsão

Existe uma máxima na psicologia alimentar: toda proibição gera um desejo aumentado. Quando você diz para o seu cérebro “eu nunca mais vou comer pão”, o pão automaticamente se torna a coisa mais interessante do mundo. O cérebro humano não lida bem com a escassez. A mentalidade de dieta restritiva coloca você em estado de alerta. Você aguenta a restrição por um tempo, usando toda sua força de vontade, mas a força de vontade é uma bateria que acaba.

Quando a bateria acaba, vem o efeito rebote. O cérebro, com medo da privação futura, te impulsiona a comer o máximo possível daquele alimento proibido. É aqui que nasce a compulsão. Você não come uma fatia, você come o pacote inteiro, porque lá no fundo, seu inconsciente acredita que aquela é a última oportunidade de comer aquilo. Esse ciclo de restrição-compulsão é biologicamente programado. Não é falta de vergonha na cara, é instinto de sobrevivência mal direcionado pela cultura das dietas.

Para sair disso, precisamos legalizar a comida. Sim, isso dá medo. Parece que se você se permitir comer, nunca mais vai parar. Mas a experiência clínica mostra o contrário. Quando você sabe que pode comer o chocolate amanhã, e depois de amanhã também, você não precisa comer a barra toda hoje. A permissão tira a urgência. A comida deixa de ser esse objeto de desejo inalcançável e se torna apenas comida. O tratamento conjunto ajuda você a navegar por essa fase de “reintrodução” sem surtar, com apoio técnico e emocional.

A culpa como a maior inimiga do seu progresso

A culpa é um sentimento que não serve para nada no processo de mudança alimentar. Ela só serve para te paralisar e te jogar no buraco. Depois de um exagero, o pensamento típico é “já que estraguei tudo, vou comer até passar mal e segunda-feira eu começo de novo”. Esse pensamento de “tudo ou nada” é o grande vilão. A culpa te convence de que você falhou miseravelmente e que precisa de punição. E a punição geralmente vem na forma de mais restrição, reiniciando o ciclo maldito.

Trabalhamos muito para trocar a culpa pela responsabilidade e curiosidade. Em vez de se chicotear porque comeu demais, perguntamos: “O que aconteceu antes? Eu estava com muita fome? Aconteceu algo chato no trabalho? A comida estava muito gostosa?”. Olhar para o episódio com curiosidade de pesquisadora permite aprender com o erro. A culpa fecha as portas do aprendizado. A responsabilidade abre. Responsabilidade é dizer “ok, comi demais, me senti pesada, na próxima refeição volto ao normal”.

Normalizar o erro faz parte do processo. Você vai errar. Você vai exagerar em alguns momentos. Isso é ser humano. A diferença entre quem consegue ter saúde a longo prazo e quem vive na sanfona é a velocidade da retomada. Quem não se culpa, retoma na próxima refeição. Quem se culpa, joga a semana inteira no lixo. Psicóloga e nutricionista ajudam você a desenvolver essa resiliência para lidar com os deslizes sem transformar um tropeço em uma queda do precipício.

Construindo autonomia alimentar de verdade

O objetivo final do tratamento multidisciplinar não é fazer você depender da gente para sempre. É dar alta. E a alta só acontece quando você desenvolve autonomia alimentar. Isso significa conseguir ir a um aniversário, comer bolo, beber um pouco, parar quando estiver satisfeita e voltar para casa sem culpa. Autonomia é saber ouvir os sinais internos do seu corpo de fome e saciedade, em vez de seguir cegamente um papel pregado na geladeira.

Construir isso leva tempo. É um processo de reeducação de instintos que foram abafados por anos de regras externas. Você precisa aprender a confiar no seu corpo de novo. Precisa aprender a diferenciar a vontade de comer (que é mental/emocional) da fome (que é física). Essa sintonia fina é o ouro do tratamento. É o que permite que você viaje, vá a festas e viva socialmente sem que a comida seja um tormento constante na sua cabeça.

Autonomia também é saber fazer escolhas conscientes. É escolher comer a salada porque sabe que ela vai te dar energia para a tarde de trabalho, e escolher comer o brigadeiro porque ele vai te dar prazer naquele momento. E tudo bem. Não existem alimentos bons ou ruins, existem contextos e frequências. Quando você internaliza isso, você se liberta. Você se torna a dona das suas escolhas, e não mais uma escrava dos seus impulsos ou das dietas da moda.

O eixo intestino-cérebro e sua saúde mental

Microbiota intestinal e a fábrica de serotonina

Você sabia que cerca de 90% da sua serotonina é produzida no intestino e não no cérebro? A serotonina é o neurotransmissor do bem-estar, da felicidade e da tranquilidade. Isso significa que a saúde do seu intestino tem um impacto direto e brutal no seu humor. Se você come apenas alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares e pobres em fibras, você está matando as bactérias boas do seu intestino e alimentando as ruins. Isso cria uma disbiose que afeta diretamente sua saúde mental.

Muitos pacientes chegam ao consultório com queixas de ansiedade e depressão e, quando olhamos a alimentação, ela é totalmente inflamatória. Corrigir a dieta, inserindo prebióticos (fibras) e probióticos (bactérias vivas), pode ter um efeito antidepressivo natural. Não estamos dizendo que substitui medicação, mas é um pilar fundamental. É impossível ter uma mente sã com um intestino doente. A conexão é física, através do nervo vago que liga os dois órgãos.

A nutricionista foca em “adubar” esse terreno intestinal. Alimentos como iogurte natural, kombucha, biomassa de banana verde e aveia são remédios poderosos para a sua mente. Quando a microbiota está equilibrada, a produção de neurotransmissores flui melhor, e você sente mais disposição e menos irritabilidade. É a biologia trabalhando a favor da sua psicologia. Cuidar do intestino é, literalmente, cuidar das suas emoções.

Inflamação crônica e a relação com sintomas depressivos

Uma dieta desequilibrada gera um estado de inflamação crônica de baixo grau no corpo. O sistema imunológico fica o tempo todo em alerta, combatendo substâncias estranhas. Estudos recentes mostram que essa inflamação sistêmica pode atingir o cérebro, alterando a produção de dopamina e serotonina, levando a sintomas de apatia, falta de prazer e cansaço mental — quadros muito parecidos com a depressão.

Alimentos ricos em gorduras trans, excesso de glúten para quem tem sensibilidade, excesso de laticínios e aditivos químicos são agentes inflamatórios. Por outro lado, alimentos ricos em ômega-3 (peixes, chia, linhaça), cúrcuma, frutas vermelhas e vegetais verdes escuros são anti-inflamatórios naturais. A estratégia nutricional anti-inflamatória visa “apagar esse fogo” interno.

Ao reduzir a inflamação, é comum que o paciente relate que a “névoa mental” sumiu. O pensamento fica mais claro, a tomada de decisão melhora e a estabilidade emocional aumenta. Muitas vezes, a irritabilidade constante que você sente não é da sua personalidade, é do seu corpo inflamado gritando por socorro. O tratamento conjunto aborda isso: enquanto a terapia lida com os problemas da vida, a nutrição limpa o terreno biológico para você ter força para resolvê-los.

Nutrientes chaves que seu cérebro exige para funcionar bem

O cérebro é um órgão guloso. Ele consome cerca de 20% de toda a energia que ingerimos, mesmo pesando pouco. Mas ele não quer só calorias, ele quer micronutrientes. Deficiências de Magnésio, Zinco, Ferro, Vitaminas do complexo B e Vitamina D estão fortemente associadas a quadros de ansiedade, insônia e depressão. Sem esses tijolinhos, o cérebro não consegue construir os neurotransmissores que regulam seu humor.

Por exemplo, o Magnésio é fundamental para o relaxamento e controle da ansiedade. O Zinco é crucial para a saúde neuronal. A falta de Vitamina B12 pode causar sintomas psiquiátricos graves e falhas de memória. O nutricionista avalia tudo isso através de exames e da análise do seu consumo alimentar. Às vezes, a intervenção mais eficaz para uma crise de ansiedade é garantir que os níveis de magnésio e complexo B estejam adequados.

A suplementação pode ser necessária, mas a prioridade é sempre a comida de verdade. A biodisponibilidade dos nutrientes na comida é melhor. Ensinamos você a montar um prato que não seja só “baixo em calorias”, mas “denso em nutrientes”. Um prato colorido não é frescura, é garantia de diversidade bioquímica para o seu cérebro. Você começa a ver a comida como combustível premium para sua máquina mental, e não como inimiga a ser evitada.

Superando os obstáculos reais do dia a dia

Lidando com a pressão social e os comentários da família

Um dos maiores desafios do tratamento não é você com você mesma, mas você com os outros. O almoço de domingo na casa da avó, o happy hour com o pessoal do escritório, o parceiro que traz chocolate toda noite. A pressão social para comer é imensa. Ouvimos frases como “só um pedacinho”, “você vai fazer essa desfeita?”, “tá de dieta de novo?”. Isso abala qualquer um e muitas vezes leva a comer para agradar o outro, engolindo a própria vontade.

A psicologia trabalha aqui o treino de assertividade. Ensinamos você a dizer “não, obrigada” sem se sentir culpada e sem precisar dar mil explicações. Você não precisa justificar suas escolhas alimentares para ninguém. Aprender a colocar limites é essencial. “Vó, sua comida é maravilhosa, mas hoje eu estou satisfeita”. Ponto. Sem drama. Entender que o amor do outro não está na comida que ele oferece, e que recusar comida não é recusar afeto, é um passo gigante.

Além disso, trabalhamos estratégias de enfrentamento. Se você sabe que no happy hour só vai ter fritura, você pode comer algo nutritivo antes de ir para não chegar lá faminta. Ou você pode comer a fritura, mas em menor quantidade, focando na conversa e na bebida. O importante é não se isolar. A saúde social também importa. O tratamento ajuda você a encontrar o equilíbrio entre participar da vida social e manter seus objetivos de saúde.

Gerenciamento de recaídas e autocompaixão

Vamos ser realistas: você vai ter recaídas. Vai ter dias que você vai comer até doer a barriga. Vai ter semanas que você não vai conseguir planejar nada. Isso faz parte da vida real. O problema não é cair, é quanto tempo você fica no chão. No tratamento tradicional, a recaída é vista como fracasso total. No nosso tratamento multidisciplinar, a recaída é vista como dado, como informação.

Nós analisamos o que aconteceu sem julgamento. Foi uma semana de TPM difícil? Foi um prazo apertado no trabalho? Ok, identificamos a causa. Agora, como voltamos? A autocompaixão entra aqui como ferramenta estratégica. Estudos mostram que pessoas que se tratam com gentileza após um erro retomam os hábitos saudáveis mais rápido do que aquelas que se criticam severamente. Se tratar como você trataria sua melhor amiga é a regra.

Você diria para sua amiga: “Sua gorda inútil, comeu tudo, agora desiste de tudo”? Não. Você diria: “Amiga, tudo bem, foi um dia difícil, amanhã é outro dia, bebe uma água e descansa”. É esse diálogo interno que queremos instalar na sua mente. A constância é feita de uma sucessão de recomeços. O perfeccionismo é inimigo da constância. Aceitar a imperfeição do processo é o que o torna sustentável a longo prazo.

Organização de rotina possível sem neurose ou perfeccionismo

As redes sociais vendem a ideia da rotina perfeita: acordar às 5h, treinar, meditar, fazer um suco verde, ter marmitas lindas prontas. Isso gera uma ansiedade enorme porque a vida da maioria de nós é caótica. O tratamento foca no “feito é melhor que perfeito”. Se não deu para fazer a marmita da semana toda, dá para comprar uma salada pronta? Se não deu para treinar 1 hora, dá para caminhar 15 minutos?

A nutricionista e a psicóloga ajudam a ajustar as metas à sua realidade atual. Se você está com um bebê recém-nascido, a meta não pode ser a mesma de alguém solteira e com tempo livre. Adequamos a expectativa para evitar a frustração. Trabalhamos com o conceito de “redução de danos”. Nos dias caóticos, qual é o mínimo viável para não chutar o balde totalmente? Talvez seja apenas garantir a hidratação e comer uma fruta. E isso já é uma vitória.

A organização deve servir para te libertar, não para te aprisionar. Criamos sistemas simples. Lista de compras padrão, ter vegetais congelados para emergências, deixar frutas lavadas. Pequenos facilitadores que não exigem esforço mental na hora do cansaço. A ideia é automatizar o que for possível para que comer bem não seja mais uma tarefa árdua na sua lista de afazeres, mas sim algo natural e fluido na sua rotina.

Terapias e abordagens aplicadas nesse contexto

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) na mudança de hábitos

A TCC é a abordagem padrão-ouro para mudança de comportamento alimentar e emagrecimento. Ela parte da premissa de que não são os fatos que nos afetam, mas a interpretação que damos a eles. Se você pensa “eu sou fraca”, você se sente triste e come. Se você pensa “eu estou aprendendo”, você se sente motivada e tenta de novo. Na terapia, mapeamos esses pensamentos sabotadores automáticos e os desafiamos.

Usamos registros alimentares não só para ver o que você comeu, mas o que você pensou e sentiu antes e depois de comer. Isso traz para a consciência padrões que eram invisíveis. Ensinamos técnicas de resolução de problemas, controle de estímulos (não deixar o chocolate na mesa do escritório) e reestruturação cognitiva. É uma terapia prática, focada no presente e na resolução de dificuldades específicas.

Você aprende a identificar as distorções cognitivas, como o “pensamento de tudo ou nada”, a “catastrofização” (achar que um bombom arruinou a vida) e a “leitura mental” (achar que todos estão julgando seu prato). Ao mudar a forma como você pensa sobre a comida e sobre si mesma, a mudança de comportamento vem como consequência natural, sem o esforço hercúleo da força de vontade pura.

Mindful Eating ou Comer com Atenção Plena

Mindful Eating não é uma dieta, é uma forma de se relacionar com a comida. É sair do piloto automático. Quantas vezes você comeu um pacote de biscoito na frente da TV e nem sentiu o gosto? O Mindful Eating convida você a estar presente no ato de comer. Sentir o cheiro, a textura, a temperatura e o sabor real do alimento.

Quando comemos com atenção, percebemos a saciedade muito antes. O cérebro precisa de tempo para registrar que o estômago está cheio. Se comemos correndo e distraídas, perdemos esse sinal e comemos além da conta. As técnicas envolvem descansar os talheres entre as garfadas, mastigar devagar e, principalmente, comer sem distrações eletrônicas.

Isso também aumenta o prazer. Você não precisa comer cinco bombons para sentir prazer se você comer um único bombom com atenção total, deixando derreter na boca e apreciando cada nota de sabor. É sobre qualidade, não quantidade. Essa prática reduz drasticamente os episódios de compulsão e traz de volta a alegria de comer, transformando a refeição em um ritual de autocuidado e não apenas de ingestão de calorias.

Entrevista Motivacional e Nutrição Comportamental

A Entrevista Motivacional é uma técnica colaborativa. Nós não impomos o que você deve fazer. Nós ajudamos você a descobrir suas próprias motivações para mudar. Evocamos em você o desejo de mudança, explorando a ambivalência (aquela parte que quer emagrecer e aquela parte que quer continuar comendo pizza todo dia). É um processo de empoderamento. Você decide o ritmo e as metas.

Já a Nutrição Comportamental engloba tudo o que falamos. Ela rejeita a mentalidade de dieta e foca no comportamento. Ela usa ferramentas como o “Diário Alimentar Emocional”, a “Régua da Fome e Saciedade” e exercícios de exposição a alimentos temidos. O objetivo é comer de tudo, mas não tudo. É ter uma relação tranquila com a comida.

Essas abordagens juntas formam a base do tratamento multidisciplinar de sucesso. Elas tratam a pessoa, não a doença. Elas respeitam sua história e seu tempo. Se você está cansada de lutar contra a balança sozinha, entenda: você não precisa. A união da nutrição com a psicologia oferece o caminho do meio, o caminho do equilíbrio, onde é possível ser saudável e feliz ao mesmo tempo, sem neuras e com muito mais leveza.

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