Muitas pessoas chegam ao meu consultório com a queixa de exaustão profunda e uma sensação estranha de que a vida está passando sem que elas estejam realmente nela. Elas relatam que fazem tudo por todos. Cuidam dos parceiros, resolvem os problemas dos pais, assumem as demandas extras dos chefes e estão sempre disponíveis para ouvir o desabafo de um amigo às duas da manhã. A sociedade nos ensinou a olhar para esse comportamento e aplaudir. Chamamos isso de bondade, de altruísmo ou de santidade. Mas aqui no ambiente seguro da terapia precisamos dar o nome correto para essa dinâmica. Isso não é virtude. Isso é um mecanismo sofisticado de autossabotagem que está corroendo a sua saúde mental.
Quando você se coloca sistematicamente em último lugar você não está apenas sendo generoso. Você está comunicando ao seu inconsciente e ao mundo que as suas necessidades são irrelevantes. É um ato de autoagressão silenciosa que se disfarça de caridade. A virtude real exige que estejamos inteiros para poder transbordar para o outro. Quem se esvazia para encher o outro acaba quebrando. E uma pessoa quebrada não consegue ajudar ninguém a longo prazo.
Precisamos desconstruir essa ideia romântica de que o sofrimento silencioso em prol dos outros é nobre. Existe uma linha muito clara onde a ajuda termina e a anulação começa. Se a sua “bondade” custa a sua paz, a sua saúde ou a sua dignidade, ela é cara demais. O objetivo desta conversa não é tornar você uma pessoa fria ou egoísta. O objetivo é trazer equilíbrio para uma balança que está quebrada há muito tempo. Vamos olhar para isso com carinho, mas com a firmeza necessária para a mudança.
A Ilusão do Sacrifício Heroico
O mito da bondade incondicional
Crescemos ouvindo histórias sobre o sacrifício nobre. A cultura, a religião e até os contos de fadas reforçam a ideia de que a pessoa boa é aquela que cede. Aquele que tira o pão da própria boca para dar ao outro é visto como herói. No entanto, na vida adulta e real, essa bondade incondicional muitas vezes esconde um medo profundo de rejeição. A pessoa que diz sim para tudo geralmente não o faz apenas porque é boa. Ela o faz porque morre de medo do que aconteceria se dissesse não. Existe uma fantasia inconsciente de que, se nos sacrificarmos o suficiente, seremos finalmente amados e cuidados em retorno.
Essa é a grande armadilha do mito da bondade. Acreditamos que estamos fazendo um investimento emocional. Pensamos que ao nos anularmos acumulamos “créditos” com as pessoas ao nosso redor. Mas a realidade clínica mostra o oposto. Pessoas que não impõem limites raramente são respeitadas ou cuidadas com a mesma intensidade que cuidam. Elas tendem a atrair perfis narcisistas ou egocêntricos que se aproveitam dessa disponibilidade irrestrita. A bondade sem limites não cria gratidão, ela cria exploração.
É doloroso admitir isso. Dói perceber que muito do que chamamos de nossa “boa natureza” é, na verdade, uma estratégia de sobrevivência. Mas reconhecer isso é o primeiro passo para a liberdade. Você pode ser uma pessoa boa e generosa sem precisar se destruir no processo. A bondade verdadeira inclui a bondade consigo mesmo. Se você não está na sua lista de pessoas a serem cuidadas, a sua bondade é incompleta e insustentável.
A diferença tênue entre altruísmo e anulação
O altruísmo genuíno é uma escolha consciente. Ele vem de um lugar de plenitude. Você ajuda porque quer, porque pode e porque aquilo lhe traz alegria. A anulação, por outro lado, vem de um lugar de medo e obrigação. Você ajuda porque sente que não tem escolha. Você cede porque a ansiedade de desagradar é insuportável. O corpo sente essa diferença. O altruísmo energiza. A anulação drena.
Muitas vezes, a linha entre os dois parece borrada. Você pode pensar que está apenas sendo um bom amigo ao cancelar seu descanso para ajudar em uma mudança. Mas se, no fundo, você está sentindo raiva, ressentimento ou uma exaustão esmagadora, você cruzou a linha para a anulação. O altruísmo respeita os seus recursos internos. Ele entende que você tem um estoque limitado de energia, tempo e saúde emocional. A anulação ignora esses limites e trata você como uma fonte inesgotável, o que é biologicamente impossível.
Identificar em qual lado você está operando exige honestidade brutal. Requer parar antes de responder a um pedido e checar o seu “clima interno”. Se a resposta for um “sim” verbal, mas um “não” visceral, gritado por cada célula do seu corpo, estamos diante de um quadro de anulação. Aprender a respeitar esse sinal interno é fundamental para deixar de se sabotar e começar a viver de forma autêntica.
O custo invisível do “sim” automático
O “sim” automático é um vício. Ele sai da boca antes mesmo que o cérebro processe a pergunta. Parece inofensivo no momento. Afinal, é só um favorzinho. É só mais uma tarefa. Mas o custo acumulado desses “sins” é devastador. Cada vez que você diz sim para o outro quando queria dizer não, você está dizendo não para si mesmo. Você está dizendo não para o seu descanso. Não para os seus projetos. Não para a sua saúde mental.
Esse comportamento cria uma dívida interna impagável. Com o tempo, você se torna um espectador da própria vida, vivendo a agenda dos outros. Seus sonhos ficam engavetados. Suas necessidades básicas de sono e alimentação são negligenciadas. Você perde a conexão com o que realmente gosta e quer. Torna-se uma extensão das vontades alheias. E o pior custo é a perda do autorespeito. É difícil confiar em alguém que nunca nos defende. E quando essa pessoa somos nós mesmos, a autoestima desmorona.
Além disso, o “sim” automático ensina às pessoas como tratar você. Ensina que o seu tempo vale menos que o delas. Ensina que a sua vontade é secundária. Mudar essa dinâmica depois de anos é possível, mas exige trabalho. Exige suportar o desconforto inicial de mudar as regras do jogo. Mas o preço de continuar dizendo sim para tudo é a sua própria vida. E esse é um preço alto demais para se pagar por um pouco de aprovação momentânea.
Raízes Profundas da Autonegligência
Padrões familiares e a criança que precisou ser “boazinha”
Ninguém nasce se colocando em último lugar. Esse é um comportamento aprendido e, geralmente, aprendido muito cedo. Na terapia, frequentemente voltamos à infância para entender onde essa semente foi plantada. Talvez você tenha sido a criança que precisava “não dar trabalho” porque os pais estavam sempre estressados ou ausentes. Talvez você tenha aprendido que só recebia atenção quando era útil ou tirava boas notas.
Muitas crianças assumem o papel de pacificadoras ou cuidadoras dos próprios pais. Chamamos isso de parentificação. A criança aprende a ler o ambiente emocional da casa e a moldar seu comportamento para evitar conflitos ou para animar um genitor deprimido. Ela aprende que as suas necessidades são um fardo e que, para ser amada, precisa ser invisível ou extremamente prestativa. Esse padrão se cristaliza e a criança cresce acreditando que o seu valor reside unicamente no que ela pode fazer pelos outros.
Quebrar esse padrão exige acolher essa criança interior. É preciso olhar para aquela versão pequena de você e dizer que ela não precisa mais trabalhar tanto para ser amada. Hoje, como adulto, você pode oferecer a si mesmo a validação que faltou lá atrás. Entender que a autonegligência foi uma ferramenta de adaptação em um ambiente difícil ajuda a tirar a culpa e abre espaço para a construção de novas formas de se relacionar.
A busca incessante por validação externa
Quando não construímos uma base sólida de autoaceitação, passamos a vida mendigando migalhas de aprovação externa. A pessoa que se coloca em último lugar vive de “parabéns” e “obrigados”. Ela se tornou dependente do olhar do outro para saber se tem valor. É como um balde furado. Não importa o quanto os outros elogiem sua bondade, nunca é o suficiente para preencher o vazio interno.
Essa busca cria uma vulnerabilidade imensa. Você se torna refém do humor e da opinião alheia. Se alguém não reconhece o seu esforço, você se sente destruído. Se alguém critica, é como uma sentença de morte. Por isso, você se esforça cada vez mais, se anula cada vez mais, na esperança de garantir esse suprimento de validação. É um ciclo exaustivo onde você está sempre performando, sempre tentando agradar, com pavor de deixar a máscara cair e ser visto como “egoísta”.
A cura para isso envolve mudar a fonte de validação. Precisamos mover o centro de avaliação de fora para dentro. Você precisa aprender a ser a autoridade sobre o seu próprio valor. Reconhecer suas qualidades e conquistas sem precisar que alguém carimbe o passaporte da sua autoestima. Quando você aprende a se validar, o elogio do outro se torna um bônus agradável, e não mais o oxigênio necessário para sua sobrevivência.
Crenças limitantes sobre merecimento e valor pessoal
No fundo do poço da autossabotagem, encontramos quase sempre uma crença raiz: “eu não mereço”. Muitas pessoas acreditam, em um nível inconsciente, que não são dignas de coisas boas, de descanso ou de prioridade. Sentem-se culpadas quando gastam dinheiro consigo mesmas ou quando tiram um tempo para não fazer nada. Acreditam que precisam “pagar aluguel” por ocuparem espaço no mundo.
Essas crenças são como vírus no sistema operacional da sua mente. Elas ditam suas escolhas sem que você perceba. Elas fazem você aceitar relacionamentos medíocres, salários baixos e tratamentos desrespeitosos. Afinal, se você não acredita que merece mais, aceitará qualquer coisa que lhe oferecerem. O “não merecimento” é uma profecia autorrealizável. Quanto menos você se dá, menos o mundo lhe dá, confirmando a crença de que você não merece.
O trabalho terapêutico consiste em desafiar e reescrever essas crenças. Precisamos questionar a origem dessa ideia de falta de valor. Quem disse que você não merece? Essa voz é sua ou é o eco de alguém do passado? Substituir a crença de “eu tenho que agradar para ter valor” pela crença de “eu tenho valor intrínseco pelo simples fato de existir” é revolucionário. É um processo diário de reafirmação e de ações coerentes com esse novo valor.
Sinais Claros de que Você Está se Sabotando
Exaustão emocional e o ressentimento acumulado
O corpo é o primeiro a denunciar a autossabotagem. A exaustão de quem se coloca em último lugar não é apenas física, é uma fadiga da alma. Você acorda já cansado. Sente um peso nos ombros que massagem nenhuma resolve. Mas, além do cansaço, existe um sinal ainda mais revelador: o ressentimento. Sabe aquela raiva surda que aparece quando alguém te pede mais um favor? Aquele pensamento de “ninguém faz nada por mim”? Isso é ressentimento.
O ressentimento é o resultado matemático da equação: eu dou muito menos do que recebo. Ele é um sinal de alerta vermelho piscando no seu painel. Ele indica que seus limites foram violados repetidamente, muitas vezes com a sua permissão. Em vez de ver o ressentimento como algo feio ou errado, olhe para ele como um mensageiro. Ele está gritando que você precisa parar. Que a balança está desequilibrada e que você está se roubando para dar aos outros.
Ignorar esse ressentimento leva à amargura e a explosões emocionais desproporcionais. De repente, você grita por causa de uma toalha no chão, mas a raiva real é de anos de autoabandono. Reconhecer essa exaustão e esse ressentimento não faz de você uma pessoa má. Faz de você um ser humano que atingiu o limite da sua capacidade de se anular. É hora de ouvir esses sinais e começar a recuar.
A paralisia diante da tomada de decisões pessoais
Quem passa a vida decidindo com base no que os outros querem atrofia o “músculo” da decisão própria. Quando pergunto a esses pacientes “o que você quer jantar?” ou “o que você quer fazer nas férias?”, muitas vezes recebo um olhar vazio. A resposta padrão é “tanto faz” ou “o que você preferir”. A capacidade de identificar e escolher o próprio desejo fica paralisada.
Essa indecisão não é apenas sobre coisas triviais. Ela se espalha para escolhas de carreira, de moradia e de relacionamentos. Você fica esperando que alguém decida por você ou que as circunstâncias o empurrem, porque a responsabilidade de escolher por si mesmo parece aterrorizante. O medo de errar e desagradar é tão grande que a paralisia se instala. Você vive a vida no banco do passageiro, deixando que outros peguem no volante.
Recuperar a capacidade de decisão é um treino. Começa com escolhas pequenas e de baixo risco. Escolher o sabor do sorvete sem perguntar a opinião de ninguém. Escolher a roupa baseada no seu conforto e não na moda ou na aprovação alheia. Cada pequena decisão tomada baseada no seu desejo genuíno é um passo para retomar a direção da sua vida. É sair da paralisia e entrar em movimento em direção a si mesmo.
Somatização e o corpo gritando o que a boca cala
A psique e o corpo não são entidades separadas. Quando você cala suas necessidades emocionais, o corpo encontra uma forma de falar. E ele geralmente fala através da dor. Enxaquecas frequentes, gastrites, dores nas costas, problemas de pele, insônia. A lista é imensa. Muitas vezes, esses sintomas não têm uma causa orgânica clara nos exames médicos. São o que chamamos de somatização.
É como se o seu corpo dissesse: “já que você não diz não, eu vou ficar doente para que você seja obrigado a dizer não”. A doença torna-se a única desculpa socialmente aceitável para você descansar ou para recusar um pedido. É triste que precisemos chegar ao ponto do adoecimento físico para nos darmos permissão de parar. O corpo é sábio e brutalmente honesto. Ele não aceita a mentira de que “está tudo bem” quando você está se violentando internamente.
Ouvir o corpo é essencial no processo de cura. Quando aquela dor de estômago surge antes de um encontro familiar, ou quando a garganta fecha antes de uma reunião, preste atenção. Seu corpo está detectando ameaças e desconfortos que sua mente racional tenta ignorar. Respeitar esses sinais físicos é uma forma poderosa de autocuidado e de prevenção contra danos maiores à saúde.
O Mecanismo Neuropsicológico da Agradabilidade
O vício cerebral em aprovação e dopamina
Precisamos entender que o comportamento de agradar tem uma base química. Quando você faz algo por alguém e recebe um sorriso, um elogio ou uma validação, seu cérebro libera dopamina. A dopamina é o neurotransmissor do prazer e da recompensa. É a mesma substância envolvida em vícios por jogos ou substâncias. Você se torna, literalmente, viciado em ser bonzinho.
O problema é que, como qualquer vício, a tolerância aumenta. Você precisa de doses cada vez maiores de sacrifício para obter o mesmo nível de reconhecimento. E quando o reconhecimento não vem, a queda na dopamina gera ansiedade e disforia. Você se sente mal, inquieto e inadequado. O cérebro interpreta a falta de aprovação como uma ameaça, impulsionando você a buscar desesperadamente uma nova oportunidade de agradar.
Entender esse mecanismo biológico ajuda a diminuir a culpa. Você não é “bobo” por agir assim; seu cérebro está buscando recompensa e segurança. O processo de mudança envolve “desmamar” o cérebro dessa fonte externa de dopamina e começar a encontrar recompensa em outras atividades: na realização pessoal, no autocuidado, em hobbies que não envolvem servir a ninguém. É reeducar a química cerebral para o prazer de ser, e não apenas de fazer pelo outro.
A resposta de “fawning” (adulação) como defesa ao trauma
Na psicologia do trauma, conhecemos bem as respostas de luta, fuga e congelamento. Mas existe uma quarta resposta, muitas vezes ignorada: o fawning, ou adulação. Essa é a resposta de tentar apaziguar o agressor ou a ameaça sendo extremamente complacente e útil. É uma estratégia de sobrevivência evolutiva. Se eu for útil e agradável, não serei machucado.
Para muitas pessoas, colocar-se em último lugar é uma resposta de fawning crônica. O cérebro está constantemente escaneando o ambiente em busca de perigo (rejeição, conflito, gritos) e ativando o modo “agradador” para neutralizar a ameaça. Isso significa que, muitas vezes, você não está sendo gentil por escolha, mas sim reagindo a um estado de medo fisiológico. Seu sistema nervoso está desregulado, preso em um estado de alerta onde agradar é a única forma de se sentir seguro.
Tratar isso envolve regulação do sistema nervoso. Aprender a sentir segurança no próprio corpo, mesmo quando alguém está desagradado. Exercícios de respiração, aterramento e terapias que focam no corpo ajudam a desativar esse alarme interno. Quando o sistema nervoso entende que dizer “não” não resulta em morte ou abandono total, a compulsão por agradar diminui.
Quebrando o ciclo químico da submissão
Sair desse ciclo exige suportar a abstinência. Quando você começa a impor limites, vai sentir um desconforto físico intenso. O coração vai acelerar, as mãos podem suar, a culpa vai bater forte. Isso é o seu cérebro em abstinência da aprovação e em alerta de perigo. O segredo é não ceder a esse desconforto. É sentir a ansiedade e fazer o que é certo para você mesmo assim.
Com o tempo e a repetição, o cérebro aprende novos caminhos. Chama-se neuroplasticidade. Cada vez que você prioriza a si mesmo e o mundo não acaba, você cria uma nova trilha neural que diz: “é seguro cuidar de mim”. É preciso consistência. No começo é forçado, parece antinatural. Mas é como aprender a escrever com a mão não dominante. Com treino, torna-se a nova normalidade.
Não espere ter vontade de mudar para começar. A vontade muitas vezes não vem, porque o padrão antigo é confortável e conhecido. A ação deve preceder a motivação. Aja como a pessoa que você quer ser, e eventualmente o seu cérebro e as suas emoções se alinharão com essa nova realidade.
Reconstruindo a Identidade Pós-Abandono de Si
O resgate dos próprios gostos e aversões
Depois de anos focando no outro, é comum não saber mais quem você é. Se perguntarem sua cor favorita, seu filme preferido ou o que você gosta de comer, talvez você precise pensar muito. O processo de recuperação envolve uma investigação quase arqueológica de si mesmo. É preciso escavar sob as camadas de “o que os outros esperam” para encontrar o que “eu prefiro”.
Comece a observar suas reações no dia a dia. Quando assiste a um filme, você gosta mesmo ou está rindo porque todos estão rindo? Aquela roupa é confortável ou é apenas socialmente aceitável? Volte a experimentar coisas sozinho. Saia para caminhar, vá a uma livraria, cozinhe algo só para você. Perceba o que lhe traz alegria genuína e o que lhe causa tédio ou aversão.
Redescobrir seus gostos é empoderador. Define seus contornos. Você deixa de ser uma massa moldável e passa a ser um indivíduo com bordas definidas. E ter preferências claras torna mais fácil estabelecer limites. Quando você sabe o que gosta, fica mais fácil dizer não ao que não gosta. É o alicerce da sua nova identidade.
A tolerância ao desconforto alheio
Aqui está uma verdade dura: quando você começar a mudar, as pessoas vão reclamar. Aqueles que se beneficiavam da sua submissão não vão gostar nada da sua nova postura. Eles podem acusar você de ter mudado, de estar egoísta, de não ser mais a mesma pessoa. E você precisará desenvolver uma pele mais grossa para tolerar esse desconforto alheio.
Aprender a tolerar que o outro fique chateado, frustrado ou decepcionado com você é uma habilidade de vida crucial. A decepção do outro não é uma ordem para você mudar de ideia. É apenas um sentimento que pertence a ele, e que ele terá que lidar. Não é sua responsabilidade gerenciar as emoções dos adultos ao seu redor. Se você diz não e a pessoa fica brava, isso diz mais sobre a capacidade dela de ouvir não do que sobre a sua bondade.
Sustentar o seu limite diante da cara feia do outro é o teste final da recuperação. É nesse momento que você afirma para si mesmo que a sua paz é mais importante que a aprovação momentânea. Respire fundo, mantenha a calma e lembre-se: você não está fazendo nada de errado ao se cuidar. Deixe o outro lidar com a frustração dele.
O luto necessário pela versão que agradava a todos
Mudar dói porque envolve uma morte simbólica. Você terá que matar a “pessoa boazinha” que todos amavam explorar. Essa versão de você tinha uma função, ela protegia você, ela garantia um lugar no grupo. Despedir-se dela pode trazer tristeza e sensação de perda. Você pode perder “amigos” que só gostavam da sua utilidade. A dinâmica familiar pode mudar.
Permita-se viver esse luto. É normal sentir medo de quem você será sem essa armadura de agradabilidade. Mas confie que a versão que vai nascer é muito mais autêntica e vibrante. Você vai trocar quantidade de relações por qualidade. Vai trocar aprovação superficial por respeito profundo. As pessoas que ficarem na sua vida serão aquelas que amam você por quem você é, e não pelo que você faz por elas.
Esse processo de reconstrução é solitário em alguns momentos, mas é o caminho para a integridade. Você vai se olhar no espelho e reconhecer quem está ali. Vai sentir orgulho da sua capacidade de se bancar. O luto passa, e o que fica é a liberdade de ser, finalmente, o protagonista da própria história.
Estratégias Terapêuticas para a Mudança
A arte de estabelecer limites sem justificativas longas
Uma das maiores armadilhas de quem está aprendendo a se priorizar é a superjustificativa. Você vai dizer não e sente que precisa dar uma explicação detalhada, com três parágrafos, atestado médico e firma reconhecida em cartório. Não precisa. “Não” é uma frase completa. Quanto mais você justifica, mais brecha dá para o outro argumentar e tentar convencer você do contrário.
Experimente usar frases curtas e diretas. “Não poderei ir hoje”, “Infelizmente não tenho disponibilidade”, “Isso não funciona para mim agora”. Note que não há pedidos de desculpas excessivos nem mentiras elaboradas. A honestidade simples é poderosa. Se o outro pressionar, use a técnica do disco arranhado: repita a mesma frase calmamente, sem adicionar novas informações. “Entendo que você precise, mas realmente não tenho disponibilidade”.
Isso exige prática. Comece com pessoas menos íntimas, como vendedores ou conhecidos distantes. Treine o “não” sem o “desculpa” no final. Perceba como isso economiza energia. Você não precisa convencer o outro de que o seu não é válido. Ele é válido simplesmente porque você decidiu. A sua vontade é motivo suficiente.
Comunicação assertiva de necessidades negligenciadas
Ninguém tem bola de cristal. As pessoas ao seu redor se acostumaram com você não precisando de nada. Para mudar isso, você vai precisar verbalizar. A comunicação assertiva é a chave. Não é ser agressivo, nem passivo. É ser claro. É dizer: “Eu preciso de ajuda com a louça hoje porque estou cansada”, em vez de bufar pela casa esperando que alguém adivinhe sua raiva.
Use a estrutura “Eu sinto… quando… porque… e eu preciso…”. Exemplo: “Eu me sinto sobrecarregada quando chego do trabalho e a casa está bagunçada, porque preciso descansar, e eu preciso que você assuma essa tarefa à noite”. Isso tira o tom de acusação e foca na sua necessidade.
Falar o que precisa pode parecer egoísta no início, mas na verdade é um favor aos seus relacionamentos. Evita que o ressentimento cresça. Dá ao outro a chance de contribuir e de cuidar de você. Relacionamentos saudáveis são vias de mão dupla. Permita que as pessoas saibam como amar você e como atender às suas necessidades. Se elas se recusarem sistematicamente, aí você tem uma informação valiosa sobre o futuro dessa relação.
Pequenos exercícios diários de priorização
Não tente virar a mesa da sua vida em um dia. A mudança sustentável acontece em microssucessos. Estabeleça pequenos rituais inegociáveis de priorização. Pode ser tomar seu café da manhã com calma antes de checar o celular. Pode ser bloquear 15 minutos na agenda para não fazer nada. Pode ser comprar o tipo de pão que você gosta, mesmo que os outros prefiram outro.
Pergunte-se várias vezes ao dia: “O que eu quero agora?”. Se estiver cansado, sente-se por cinco minutos. Se estiver com sede, beba água antes de terminar o relatório. Esses pequenos atos enviam mensagens constantes ao seu cérebro de que você importa. De que suas necessidades biológicas e emocionais são legítimas.
Comemore essas pequenas vitórias. Quando conseguir dizer um não difícil, parabenize-se. Quando escolher seu conforto, sinta o prazer disso. A soma desses momentos constrói uma nova autoimagem. Você deixa de ser a vítima das circunstâncias e passa a ser o guardião do seu próprio bem-estar. Lembre-se: colocar-se em primeiro lugar não é abandonar os outros, é garantir que você exista para poder compartilhar a vida com eles com qualidade.
Como a Terapia Online Pode Ajudar
Para encerrar nossa conversa, acho fundamental fazermos uma análise sobre como a terapia pode ser o divisor de águas nesse processo. Mudar padrões de uma vida inteira sozinho é extremamente difícil, pois nossos pontos cegos nos sabotam. A terapia online surge como uma ferramenta poderosa e acessível para esse resgate.
Existem abordagens específicas que funcionam muito bem para quem sofre de autossabotagem e excesso de “bondade”. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é excelente para identificar e reestruturar as crenças de “não merecimento” e treinar habilidades sociais de assertividade. Ela trabalha com tarefas práticas que ajudam você a testar novos comportamentos no dia a dia. Já a Terapia do Esquema vai mais fundo, acessando as feridas emocionais da infância que criaram a necessidade de agradar, trabalhando o “modo criança vulnerável” e fortalecendo o “modo adulto saudável”.
Outra vertente interessante é a Psicanálise, que oferece um espaço de escuta livre para investigar o desejo inconsciente e entender por que você se coloca nessa posição de objeto do outro. E não podemos esquecer das abordagens corporais ou focadas no trauma, como o EMDR ou a Experiência Somática, que ajudam a regular o sistema nervoso daquelas pessoas que sentem medo físico ao dizer não. A terapia online facilita o acesso a especialistas dessas diversas áreas, permitindo que você faça esse mergulho no conforto e segurança do seu próprio espaço, o que já é, por si só, um ato de priorização do seu tempo e conforto