Automutilação em adultas: Por que a dor física alivia a dor emocional

Automutilação em adultas: Por que a dor física alivia a dor emocional

Automutilação em adultas: Por que a dor física alivia a dor emocional

Você já sentiu uma dor tão profunda, tão avassaladora e difusa, que precisou torná-la visível para conseguir suportar? Se você chegou até aqui, é provável que carregue cicatrizes — visíveis ou não — que contam uma história de luta silenciosa. Existe um mito social muito forte de que a automutilação é “coisa de adolescente”, uma fase rebelde que passa com a idade. Mas, na privacidade do meu consultório, vejo diariamente mulheres adultas, profissionais competentes, mães dedicadas e esposas amorosas que ainda recorrem à lâmina ou à autoagressão para regular suas emoções.

Quero começar dizendo algo fundamental: o que você sente é real e o seu sofrimento é válido. A automutilação na vida adulta carrega uma camada extra de culpa e vergonha, justamente porque a sociedade diz que você “já deveria saber lidar com isso”. Mas a regulação emocional não é uma habilidade que magicamente aparece quando completamos 18 anos. Ela precisa ser aprendida, e muitas vezes, nossas histórias de vida não nos deram as ferramentas certas.

Neste artigo, vamos conversar de mulher para mulher, de terapeuta para cliente, sobre o que acontece no seu cérebro e no seu coração. Vamos desmontar a lógica por trás desse alívio imediato que a dor física traz e, o mais importante, vamos construir juntas caminhos para que você não precise mais se ferir para conseguir respirar. Você não está sozinha nessa jornada e existe, sim, uma saída compassiva e possível.

O grito silencioso da pele: Entendendo a automutilação na vida adulta[1][2][3]

Quando falamos de automutilação em mulheres adultas, estamos falando de um mecanismo de sobrevivência, não de uma “tentativa de chamar atenção”. Na verdade, a maioria das mulheres que atendo faz de tudo para esconder suas marcas, usando mangas longas no verão ou maquiagem corretiva. A pele se torna o rascunho de uma dor que não consegue ser verbalizada.[1] É como se o corpo gritasse o que a boca não consegue articular.

A automutilação serve, paradoxalmente, como uma tentativa de se manter viva e funcional.[1] Parece contraditório, eu sei. Mas para muitas adultas, o caos interno da ansiedade, da depressão ou do estresse pós-traumático é tão desorganizador que a dor física funciona como uma âncora. Ela traz a pessoa de volta para a realidade, interrompendo ciclos de dissociação onde você se sente “fora do corpo” ou anestesiada demais para interagir com o mundo.

Além disso, a vida adulta traz pressões que a adolescência desconhece: a necessidade de performance no trabalho, a gestão da casa, a maternidade e as complexidades dos relacionamentos amorosos. Quando a panela de pressão apita e não temos uma válvula de escape saudável, o corpo acaba pagando a conta. Entender isso não é justificar o ato, mas é o primeiro passo para retirar o peso do julgamento moral que só atrapalha a sua recuperação.

Muito além de uma “fase rebelde”: Quebrando estereótipos[2]

É exaustivo ouvir que “você já é grande demais para isso”, não é? Esse estereótipo de que o cutting (corte) é exclusivo de adolescentes góticos ou emocionalmente imaturos causa um dano imenso. Na vida adulta, a automutilação pode mudar de forma.[1][2][3][4] Talvez não sejam mais cortes nos braços; podem ser queimaduras, beliscões severos, socos em si mesma ou até a sabotagem médica, como não tomar remédios necessários ou cutucar feridas até que não cicatrizem.

Mulheres adultas muitas vezes usam a automutilação como uma punição secreta. Se você sente que falhou como mãe, como profissional ou como parceira, a ferida física pode surgir como uma forma distorcida de expiação. “Eu mereço essa dor”, diz uma voz crítica interna. Diferente da adolescente que muitas vezes busca pertencimento ou identidade, a adulta busca silenciar essa voz crítica ou, pelo contrário, sentir alguma coisa em meio a um vazio existencial devorador.

Romper com esse estereótipo é vital para buscar ajuda. Enquanto você acreditar que isso é “bobeira” ou “frescura”, não vai se permitir ser cuidada. A verdade é que a dor emocional não tem idade. Traumas não tratados na infância podem ficar adormecidos e despertar com força total diante de um divórcio, de uma demissão ou do luto na vida adulta. Reconhecer que o comportamento persiste é um ato de coragem, não de fraqueza.

A neurociência por trás da lâmina: O cérebro e a dor[5][6]

Vamos falar de biologia de uma forma simples. Por que, afinal, machucar o corpo acalma a mente? Nosso cérebro não é tão bom em diferenciar a dor emocional da dor física.[6] As áreas ativadas quando você leva um “fora” ou sente rejeição são muito parecidas com as áreas ativadas quando você quebra uma perna. No entanto, a dor emocional é abstrata, sem bordas, sem fim previsível. Já a dor física tem local, intensidade e, principalmente, uma causa clara.

Quando você se fere, o cérebro recebe um sinal de alerta máximo. A prioridade biológica muda instantaneamente: “temos uma lesão, precisamos resolver isso”. Esse foco súbito na integridade física “desliga” momentaneamente o ruído mental da angústia. É como se você puxasse o freio de emergência de um trem desgovernado. O cérebro libera uma cascata de substâncias para lidar com o ferimento, e isso gera uma sedação química natural.

Entender isso tira a mística de que você é “louca”. Você não é. Seu cérebro aprendeu um atalho neuroquímico para regulação. O problema é que esse atalho cobra um preço altíssimo. Com o tempo, o cérebro desenvolve tolerância, e você precisa de ferimentos mais graves ou mais frequentes para obter o mesmo alívio. É um mecanismo de vício muito similar ao uso de substâncias, só que a droga aqui é a própria dor.

O ciclo vicioso do alívio e da culpa

O ciclo da automutilação é uma armadilha perfeita. Tudo começa com um gatilho: uma discussão, um erro no trabalho, uma memória dolorosa. A tensão sobe, sobe, sobe. A ansiedade aperta o peito, a garganta fecha. A ideia de se ferir surge como uma promessa de alívio, uma luz no fim do túnel daquela agonia insuportável. Você resiste, mas a tensão se torna intolerável.

Então, acontece o ato. E, imediatamente após, vem a calma. A respiração volta ao normal, a mente clareia, o corpo relaxa. É a fase do alívio.[7] Mas ela dura muito pouco. Minutos ou horas depois, a realidade volta com um peso ainda maior. Agora, além do problema original (que não foi resolvido), você tem uma ferida para esconder, o medo de alguém descobrir e uma tonelada de vergonha e culpa.

Essa culpa gera mais estresse, mais autocrítica e mais dor emocional. E adivinha? Esse novo acúmulo de dor emocional reinicia o ciclo, fazendo com que você sinta necessidade de se ferir novamente. Como terapeuta, meu trabalho é ajudar você a identificar o momento exato antes do ato, inserindo um “pausa” entre a tensão e a ação, para que possamos quebrar essa roda gigante destrutiva.

A química do alívio: Por que funciona momentaneamente?

Você já se perguntou por que, racionalmente, você sabe que não deve fazer, mas fisicamente o impulso é quase incontrolável? A resposta está na farmácia interna do seu corpo. A automutilação não é apenas um comportamento psicológico; é um evento fisiológico intenso. O alívio que você sente não é imaginação, é química pura circulando nas suas veias.

Para muitas das minhas pacientes, explicar esse mecanismo ajuda a diminuir o autojulgamento. Elas percebem que não são “pessoas ruins” ou “fracas”, mas que estão lutando contra um sistema de recompensa biológico que foi sequestrado pelo trauma ou pela desregulação emocional. O corpo humano é programado para sobreviver à dor, e ele usa ferramentas poderosas para isso.

Vamos mergulhar um pouco mais fundo nesses componentes químicos e psicológicos que criam essa sensação de “falso bem-estar”. É importante que você conheça o seu “inimigo” íntimo para que possamos, juntas, desarmá-lo com estratégias que não deixem cicatrizes na sua pele.

Endorfinas e a anestesia emocional[6]

As beta-endorfinas são opioides naturais produzidos pelo nosso corpo. Elas são primas químicas da morfina e da heroína. Quando você se corta ou se queima, o corpo libera uma dose maciça dessas endorfinas para bloquear a dor física e permitir que você continue “funcionando” (pense num soldado ferido que continua correndo).

Essa injeção de endorfina não bloqueia apenas a dor do corte; ela gera uma sensação de calma, de paz e, às vezes, até de euforia leve. Para uma mulher que estava, minutos antes, mergulhada em um poço de desespero ou pânico, essa súbita calmaria é extremamente sedutora. É uma anestesia emocional rápida e eficaz.

O perigo reside justamente na eficácia. O seu cérebro registra: “Quando doer a alma, machuque o corpo que a paz vem”. Desfazer essa associação neural exige tempo e paciência. Precisamos ensinar ao seu cérebro outras formas de liberar essas substâncias calmantes — como através de exercícios intensos, banhos gelados ou respiração profunda — sem que você precise se agredir para isso.

A necessidade de tangibilizar a dor invisível

A dor emocional é confusa. A tristeza não tem cor, a angústia não tem forma, a rejeição não sangra. Para muitas mulheres adultas, viver com essa dor “fantasma” é enlouquecedor. Você sente que está morrendo por dentro, mas por fora, tudo parece normal. O espelho não reflete o caos interno. Isso gera uma sensação de invalidação muito grande.

Ao se ferir, você transforma o sofrimento subjetivo em algo objetivo. “Aqui está a dor. Eu posso vê-la. Eu posso cuidar dela. Eu posso colocar um curativo”. O sangue ou a marca na pele validam o sofrimento. É uma prova física de que algo está errado. Transformar a dor em matéria traz uma estranha sensação de organização para o caos psíquico.

Além disso, cuidar da ferida física pode ser, ironicamente, um ato de autocuidado distorcido. Muitas mulheres relatam que o momento de limpar o ferimento e fazer o curativo é o único momento em que elas são gentis consigo mesmas. Na terapia, trabalhamos para que você possa validar sua dor emocional sem precisar materializá-la, aprendendo a acolher o sentimento abstrato como algo real e digno de atenção por si só.

O controle sobre o incontrolável

A vida adulta é cheia de variáveis que não controlamos: a economia, o humor do chefe, a saúde dos filhos, a fidelidade do parceiro. Quando tudo ao redor parece estar desmoronando e você se sente impotente, o seu próprio corpo é o último território sob seu comando.

A automutilação oferece uma ilusão poderosa de controle. Você decide quando vai doer, onde vai doer, quanto vai doer e quando vai parar. É você quem segura a lâmina. Em um mundo onde você se sente vítima das circunstâncias, esse ato pode parecer uma retomada de poder, ainda que destrutiva.[2] É uma forma de dizer: “Eu sou dona da minha dor”.

Esse aspecto é muito comum em mulheres que sofreram abusos ou que vivem em ambientes invalidantes. Retomar o controle de forma saudável envolve aprender a dizer “não”, a estabelecer limites nas relações e a fazer escolhas que protejam sua saúde mental, para que você não precise usar o próprio corpo como campo de batalha para exercer sua autonomia.

Gatilhos e a vida da mulher moderna: O peso invisível

Se olharmos para a rotina da mulher contemporânea, veremos um terreno fértil para o estresse crônico. A expectativa de sermos “mulheres maravilha” cobra um preço alto. Você precisa ser bem-sucedida, magra, gentil, ótima mãe, sexualmente interessante e emocionalmente equilibrada. Essa conta não fecha.

Os gatilhos para a automutilação na vida adulta são, muitas vezes, mais sutis e insidiosos do que na adolescência. Não é apenas uma briga com os pais. É a pressão constante de um boleto que vence, a sensação de estagnação na carreira, ou a solidão profunda de um casamento que já acabou, mas ninguém admite.

Precisamos identificar o que, no seu dia a dia, está acionando o botão de emergência. Muitas vezes, não é um grande evento traumático, mas o acúmulo de pequenas frustrações e negligências consigo mesma. É a gota d’água que faz o copo transbordar. Vamos olhar para três grandes vilões modernos que alimentam esse comportamento.

Sobrecarga, perfeccionismo e a síndrome da impostora

O perfeccionismo é um carrasco cruel. Ele diz que, se você não for perfeita, você não vale nada. Muitas mulheres que se automutilam são, para o mundo exterior, exemplos de sucesso e organização. Mas, internamente, elas vivem com o medo constante de serem “descobertas” como fraudes. A síndrome da impostora gera uma ansiedade vibrante e contínua.

Quando você comete um erro mínimo — esquece um prazo, queima o jantar, fala algo “errado” numa reunião — a punição interna é desproporcional. A automutilação entra aqui como uma forma de autopunição para “corrigir” essa falha ou aliviar a tensão insuportável de ter que manter a máscara da perfeição o tempo todo.

Aprender a aceitar a mediocridade em algumas áreas da vida é libertador. Você não precisa ser excelente em tudo. Humanizar a si mesma, aceitar que errar é parte do processo e baixar a régua da exigência são passos fundamentais na terapia.[8] A sua pele não precisa pagar o preço pela sua humanidade.

Traumas não processados e a dissociação

Muitas mulheres adultas carregam histórias de abuso sexual, físico ou emocional que nunca foram tratadas. Elas trancaram essas memórias em um quarto escuro da mente e tentaram seguir a vida. Mas o corpo tem memória. Situações do presente que lembram vagamente o trauma passado podem desencadear uma resposta emocional avassaladora.[1]

Nesses momentos, a dissociação é comum.[2][7] Você se sente aérea, anestesiada, como se estivesse assistindo à vida através de um vidro. A automutilação serve, muitas vezes, para “acordar” desse estado.[1] A dor aguda rompe a névoa da dissociação e faz você sentir que habita seu corpo novamente.

O trabalho aqui é delicado. Precisamos processar esses traumas antigos com segurança, para que eles deixem de assombrar o seu presente. Quando curamos a raiz, a necessidade de usar a dor física para lidar com as memórias intrusivas diminui drasticamente. Você aprende a se sentir segura no próprio corpo sem precisar agredi-lo.

A solidão mesmo estando cercada de gente

A solidão da mulher adulta é um tema pouco falado. Você pode estar rodeada de colegas de trabalho, ter família, filhos, e ainda assim se sentir profundamente desconectada. É uma solidão de compreensão, de sentir que ninguém realmente vê quem você é ou entende o peso que você carrega.

Essa falta de conexão genuína impede a co-regulação emocional. Quando não temos com quem desabafar, com quem chorar sem julgamentos, a emoção fica represada. A automutilação se torna a sua “companheira” secreta, o único lugar onde você pode ser vulnerável, ainda que de forma destrutiva.

Construir uma rede de apoio real é parte do tratamento. Isso pode envolver se abrir com uma amiga de confiança, participar de grupos de apoio ou fortalecer o vínculo terapêutico. A cura acontece na relação. Quando você compartilha a dor com outra pessoa que a acolhe, a necessidade de usar a lâmina perde força.

Identificando e nomeando o “Monstro”: A Alexitimia

Muitas vezes, quando pergunto “o que você estava sentindo antes de se ferir?”, a resposta é um silêncio ou um simples “não sei, me senti mal”. Existe um termo técnico para essa dificuldade de identificar e descrever emoções: alexitimia. Não é que você não sinta; você sente demais, mas não tem o vocabulário ou a conexão neural para traduzir essa sensação em palavras.

Imagine tentar explicar uma cor para quem nunca viu. É assim que a emoção aparece para você: um borrão intenso e assustador. Como você não consegue dizer “estou frustrada” ou “estou com medo”, o corpo assume o comando e age. A automutilação é uma linguagem primitiva para emoções não nomeadas.

O trabalho de “alfabetização emocional” é essencial.[8] Precisamos começar a dar nome aos bois. Transformar aquele nó na garganta em “tristeza”, aquele calor no rosto em “vergonha”, aquele tremor nas mãos em “raiva”. Quando nomeamos o monstro, ele diminui de tamanho.

O corpo como mapa das emoções

As emoções não moram apenas na cabeça; elas moram no corpo. A ansiedade pode ser um aperto no peito; a tristeza, um peso nos ombros; o medo, um frio na barriga. Mulheres que se automutilam muitas vezes estão desconectadas dessas pistas físicas sutis até que elas se tornem insuportáveis.

Aprender a rastrear essas sensações é uma habilidade de prevenção. Se você notar que seu maxilar está travado (sinal de raiva) antes de chegar ao ponto de explosão, você pode agir de forma construtiva. O corpo dá sinais o tempo todo. A automutilação acontece quando ignoramos esses sinais até que eles se tornem um alarme ensurdecedor.

Na terapia, fazemos exercícios de escaneamento corporal. Parar, respirar e perguntar: “onde eu sinto tensão agora?”. Reconectar-se com o corpo de forma gentil, e não apenas através da dor, é revolucionário. É fazer as pazes com a casa onde você mora.

A diferença entre dor e sofrimento[4][6]

Existe uma máxima budista que diz: “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Na psicologia, adaptamos isso. A dor é a emoção primária (a tristeza da perda, a raiva da injustiça). O sofrimento é a nossa reação a essa dor, a não aceitação, a luta contra ela.

A automutilação é uma tentativa desesperada de não sentir a dor primária, o que acaba gerando um sofrimento secundário muito maior. A adultas muitas vezes acham que “não deveriam” sentir certas coisas. “Não posso ter inveja”, “não posso ter raiva do meu filho”. Essa negação aumenta a pressão interna.

Aceitação radical é o conceito chave aqui. Aceitar que você está sentindo ódio ou desespero naquele momento, sem julgar, sem tentar mudar imediatamente. A emoção é uma onda; ela sobe, quebra e passa. Se você se permite “surfar” a onda sem se cortar, descobre que ela não dura para sempre. A lâmina tenta parar o mar, mas você pode aprender a boiar.

O papel do “Diário de Emoções”

Uma ferramenta prática e poderosa que uso é o monitoramento. Não é um diário adolescente de “querido diário”, mas um registro quase científico. Data, hora, situação, pensamento, emoção, intensidade (0-10) e o que você fez.

Ao colocar isso no papel, você tira a emoção do domínio do caos e a coloca no domínio da lógica. Você começa a ver padrões. “Ah, eu sempre tenho vontade de me ferir nas tardes de domingo quando me sinto sozinha”. Ou “Sempre acontece depois de falar com minha mãe”.

Essa consciência é metade da cura. Quando você prevê o gatilho, você pode preparar uma estratégia de enfrentamento.[1][8][9] Você deixa de ser refém das suas reações automáticas e passa a ser uma observadora da sua própria mente. Escrever organiza a psique.[1][9]

O “Kit de Emergência”: Estratégias práticas para o calor do momento

Eu sei que, na hora que o sangue ferve e a angústia bate, filosofar sobre emoções é difícil. Você precisa de algo que funcione agora. Por isso, trabalhamos na construção de um “Kit de Sobrevivência”. São estratégias sensoriais que “hackeiam” o seu sistema nervoso, oferecendo o alívio intenso que você busca, mas sem causar dano físico.

Essas técnicas não são a cura definitiva (essa vem com a terapia a longo prazo), mas são os extintores de incêndio. Elas compram tempo. E muitas vezes, tudo o que você precisa é ganhar 10 ou 15 minutos para que a onda mais forte do impulso passe.

A ideia é substituir a sensação intensa da dor por outra sensação intensa, porém segura.[1] Precisamos “chocar” o sistema sensorial para tirar o foco do looping mental negativo. Vamos ver algumas das técnicas mais eficazes usadas na Terapia Dialética Comportamental (DBT).

A técnica do Gelo (TIPP)

Essa é a campeã de eficácia. Quando a vontade de se ferir for avassaladora, pegue uma pedra de gelo e segure-a na mão fechada o máximo que conseguir. Ou, melhor ainda, encha uma bacia com água gelada e mergulhe o rosto por 30 segundos (prendendo a respiração).

O que isso faz? O frio extremo ativa o “reflexo de mergulho” dos mamíferos. Seu coração desacelera imediatamente, e o sangue é redirecionado para órgãos vitais. Fisiologicamente, é impossível manter um estado de alta ansiedade ou raiva sob esse estímulo. O “choque” térmico “reseta” o seu sistema nervoso.

Além disso, a dor do gelo na mão é real e intensa, mas não deixa feridas e não causa danos. Ela satisfaz aquela necessidade de sentir algo físico forte, mas de uma maneira segura. Experimente. É simples, acessível e funciona biologicamente.

O elástico e a estimulação sensorial

Outra técnica clássica é usar um elástico de borracha no pulso. Quando o impulso vier, puxe e solte o elástico contra a pele. Dá um estalo, arde um pouco, mas não corta, não sangra e não deixa cicatriz permanente. É uma forma de redução de danos.[1][8]

Mas podemos ir além da dor. Use outros sentidos. Coma um limão inteiro com casca ou morda uma pimenta. O sabor extremo sequestra a atenção do seu cérebro. Coloque uma música extremamente alta e dance até a exaustão. Tome um banho de choque (quente/frio).

O objetivo é mudar a fisiologia. Você não pode pensar seu caminho para fora de uma crise intensa; você precisa sentir seu caminho para fora dela. Use o corpo para acalmar a mente, mas faça isso com gentileza ou com intensidade segura, não com violência.

A caixa de acalento

Para momentos em que a dor é mais ligada à tristeza e solidão do que à raiva, tenha uma “Caixa de Acalento”. É uma caixa física (de sapato, por exemplo) onde você guarda itens que te aterram e confortam.

Pode conter: um perfume que você ama, fotos de momentos felizes, uma carta de alguém querido, um tecido macio para tocar, chocolate, um fidget toy. Quando a crise vier, o acordo com você mesma é: “Antes de me machucar, vou abrir a caixa e interagir com cada item por 2 minutos”.

Muitas vezes, ao final desse processo, o impulso diminuiu o suficiente para você conseguir ligar para alguém ou simplesmente ir dormir. É uma forma de autocuidado preventivo, deixando a “boia salva-vidas” pronta antes da tempestade chegar.

O caminho da cura: Terapias e abordagens que transformam

Chegar ao final deste artigo é um sinal de que você busca mudança. E a boa notícia é que a automutilação tem tratamento e o prognóstico é muito positivo quando a abordagem correta é utilizada. Não se trata apenas de “parar de se cortar”, mas de construir uma vida que valha a pena ser vivida, onde se cortar não faça mais sentido.

A medicação (antidepressivos, estabilizadores de humor) pode ajudar a baixar o volume dos sintomas, mas não ensina habilidades de vida. É aí que entra a psicoterapia especializada. Existem abordagens que foram desenhadas especificamente para lidar com desregulação emocional severa e comportamentos autodestrutivos.[8]

Vou apresentar as três principais abordagens que, na minha prática clínica e na literatura científica, mostram os melhores resultados para casos como o seu.

Terapia Dialética Comportamental (DBT): O padrão ouro

Desenvolvida pela Dra. Marsha Linehan (que, ela mesma, sofreu com problemas similares), a DBT é considerada o padrão ouro para tratamento de automutilação e transtorno de personalidade borderline (embora sirva para qualquer pessoa com desregulação emocional).

A DBT é extremamente prática. Ela não fica apenas analisando o passado; ela foca no presente e no futuro. Você aprende quatro módulos de habilidades: Mindfulness (atenção plena), Regulação Emocional, Tolerância ao Mal-estar e Efetividade Interpessoal.

Na DBT, validamos que sua dor é insuportável, mas trabalhamos dialeticamente a ideia de que você precisa mudar para conseguir viver. Você aprende, literalmente, passo a passo, como sobreviver a uma crise sem piorar a situação. É um “treinamento de vida” intenso e transformador.

Terapia do Esquema: Curando a criança ferida

A Terapia do Esquema é excelente para entender as raízes profundas dos seus padrões. Ela parte do princípio de que temos “modos” de funcionamento. Quando você se automutila, talvez esteja operando no modo “Criança Vulnerável” (que precisa de ajuda) ou sob o chicote do “Pai/Mãe Crítico” (que exige punição).

O terapeuta trabalha para fortalecer o seu modo “Adulto Saudável”. É essa parte de você que vai aprender a acolher a Criança Vulnerável e a calar a boca do Crítico Interno. Usamos técnicas vivenciais, como reescrita de imagens e diálogos com cadeiras vazias, para “reparentar” (dar novos pais) a sua criança interior.

Para mulheres adultas que sentem que carregam traumas de infância mal resolvidas, essa abordagem é profundamente curativa, pois vai na origem da ferida emocional, promovendo uma reparação afetiva que a lâmina nunca conseguirá fazer.

EMDR e o processamento de traumas

Se a sua automutilação é gatilhada por memórias traumáticas específicas (abuso, acidentes, violência), o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) é uma ferramenta poderosa. Ele usa a estimulação bilateral do cérebro (através do movimento dos olhos ou toques) para ajudar o cérebro a “digerir” memórias travadas.

Muitas vezes, a memória do trauma está “viva” no sistema límbico, causando dor como se estivesse acontecendo agora. O EMDR ajuda a mover essa memória para o córtex, onde ela se torna apenas uma história do passado, sem a carga emocional explosiva.

Ao processar o trauma, a necessidade de dissociação ou de alívio imediato através da dor diminui, pois a fonte da dor (a memória traumática) perde a sua voltagem.

Lembre-se: pedir ajuda não é desistir, é recusar-se a desistir de si mesma. Você merece uma pele cicatrizada e, mais importante ainda, uma alma em paz. Vamos começar?

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