O fantasma da devolução: O trauma do abandono duplo
Imagine uma criança que carrega uma mochila invisível. Dentro dessa mochila não existem cadernos ou brinquedos. Existem pedras pesadas chamadas rejeição. Quando essa criança entra em um novo lar pela via da adoção ela sente que finalmente poderá soltar esse peso. Ela começa a acreditar que encontrou um lugar seguro para descansar. Mas então o impensável acontece. A devolução ocorre. O peso volta em dobro para as costas dela. E agora a mochila está tão pesada que ela mal consegue ficar em pé.
Precisamos conversar muito sério sobre o que chamamos de devolução. Na prática clínica e na vida real isso é um novo abandono. É a confirmação do pior medo de qualquer ser humano. O medo de não ser amável. Quando falamos sobre esse tema entramos em um terreno doloroso e cheio de arestas. Não estamos aqui para julgar quem não conseguiu manter o vínculo. Estamos aqui para olhar para a criança que ficou no meio desse processo.
Você precisa entender a profundidade desse abismo. Não se trata apenas de uma mudança de endereço ou de um processo judicial que não deu certo. Trata-se da quebra fundamental da psique de um indivíduo em formação. Estamos falando de uma ferida que se abre exatamente no lugar onde uma cicatriz tentava se formar. Vamos mergulhar juntos nessa realidade complexa e entender o que acontece na mente e no coração de quem vivencia o abandono duplo.
A Anatomia do Abandono Duplo
Quando olhamos para a história de uma criança disponível para adoção já estamos olhando para uma história de ruptura. A primeira grande dor já aconteceu. O laço biológico foi desfeito. Isso por si só já gera uma marca profunda na alma. Chamamos isso de ferida primária. A criança entende desde muito cedo que aqueles que deveriam protegê-la não puderam ou não quiseram fazê-lo. Ela cresce com essa lacuna existencial.
A ferida primária cria uma base de insegurança. A criança opera no mundo com a sensação de que o chão pode sumir a qualquer momento. Mesmo que ela seja muito pequena quando a separação ocorre o corpo registra a perda. O sistema nervoso guarda a memória da falta de toque da falta de cheiro e da falta de presença. É sobre essa base frágil que a adoção tenta construir uma nova casa. A esperança da criança é depositada inteiramente nessa nova chance.
Quando a devolução acontece ocorre o que chamamos de retraumatização. A criança não perde apenas uma segunda família. Ela perde a esperança na própria capacidade de ser amada. O raciocínio infantil é egocêntrico por natureza. A criança não pensa que os adultos não estavam preparados. Ela pensa que há algo de errado com ela. Ela acredita que é defeituosa. Essa crença se instala como um vírus no sistema operacional da mente dela e passa a ditar todas as suas ações futuras.
A ferida primária da família biológica
Você precisa compreender que a separação da família de origem nunca é um evento neutro. Mesmo em casos de negligência ou abuso a criança tem um vínculo de lealdade e identidade com seus genitores. Romper isso é doloroso. É como arrancar uma planta do solo com raiz e tudo. Ficam buracos. Ficam dúvidas. A criança se pergunta por que ela não foi suficiente para que eles mudassem.
Essa primeira rejeição deixa a criança hipervigilante. Ela passa a observar o mundo procurando sinais de perigo. Ela aprende que adultos não são confiáveis. Ela aprende que promessas podem ser quebradas. Quando ela vai para um abrigo ou família acolhedora ela carrega essa desconfiança. É um mecanismo de sobrevivência. Não é maldade nem manipulação. É apenas uma forma desesperada de tentar não sofrer de novo.
Muitos pais adotivos ignoram essa bagagem inicial. Eles acham que o amor deles vai apagar o passado como uma borracha mágica. Mas o passado não se apaga. Ele se integra. Se ignoramos a dor da primeira perda não conseguimos construir um vínculo sólido. A criança precisa saber que sua história é respeitada. Se tentamos fazer de conta que a vida dela começou no dia da adoção estamos negando uma parte vital de quem ela é.
A ilusão da salvação e o choque de realidade
Existe uma narrativa perigosa de que a adoção é um ato de caridade ou salvamento. Você já deve ter ouvido isso. Pessoas dizendo que fulano é um anjo por ter adotado. Isso cria uma expectativa irreal. Os pais entram no processo esperando gratidão. Eles esperam uma criança dócil que vai agradecer todos os dias por ter sido resgatada. Mas a criança não estava procurando um salvador. Ela estava procurando um pai e uma mãe.
O choque de realidade acontece quando a criança não corresponde a essa fantasia. A criança real tem traumas. A criança real chora e grita e testa limites. Ela pode rejeitar o abraço. Ela pode quebrar objetos. Ela pode dizer que odeia os pais adotivos. Isso não é falta de amor. Isso é medo. Mas os pais despreparados leem isso como ingratidão. Eles se sentem traídos. Eles acham que fizeram tudo certo e receberam o mal em troca.
Essa discrepância entre a criança idealizada e a criança real é o principal combustível para a devolução. Os pais não conseguem lidar com a frustração das suas próprias expectativas. Eles olham para aquela criança e não se reconhecem nela. O vínculo não se forma porque ele estava condicionado a uma performance que a criança não pode entregar. O amor não pode ser uma troca comercial onde eu te dou casa e comida e você me dá obediência e sorrisos.
A devolução como carimbo de defeito
No momento em que a devolução é concretizada a criança recebe uma sentença. Para ela aquilo é a prova final de que ela não serve. Imagine a devastação interna. Ela tentou se adaptar. Talvez ela tenha tentado ser boazinha. Ou talvez ela tenha mostrado sua dor da única forma que sabia. E o resultado foi a expulsão. Ela é devolvida como um produto que veio com defeito de fábrica.
Esse sentimento de ser descartável é avassalador. A criança volta para o abrigo ou para o sistema de acolhimento completamente quebrada. Os cuidadores e técnicos percebem a mudança imediata. O brilho no olhar desaparece. Algumas crianças param de falar. Outras se tornam agressivas. Elas vestem uma armadura impenetrável. Elas decidem internamente que nunca mais vão permitir que ninguém chegue perto o suficiente para machucá-las.
O rótulo de criança devolvida pesa também socialmente. Outros pretendentes à adoção olham para o histórico dela com desconfiança. Eles perguntam o que ela fez de errado. O estigma persegue a criança. Ela se torna o problema a ser evitado. E ela sente isso. Ela percebe os olhares e os cochichos. Isso reforça a crença de que ela é indigna de pertencer a qualquer lugar. É um ciclo de desvalorização que corrói a identidade.
Por que a Devolução Acontece
Entender os motivos da devolução exige coragem para olhar para as falhas dos adultos. Raramente a responsabilidade é da criança. A criança está apenas reagindo ao ambiente e à sua história. O problema quase sempre reside na incapacidade do sistema familiar de conter e processar as angústias trazidas por esse novo membro. Falta preparo emocional. Falta rede de apoio. Falta realidade.
Muitas famílias entram na fila de adoção para preencher seus próprios vazios. Lutos não elaborados de infertilidade ou a solidão da casa vazia. A criança chega com a missão impossível de curar os pais. Quando ela falha nessa missão porque ela é apenas uma criança e não uma terapeuta ela se torna um estorvo. A dinâmica familiar colapsa porque a fundação estava errada desde o início.
Também precisamos falar sobre a falta de acompanhamento pós-adoção. O estado muitas vezes falha em dar suporte quando os problemas começam. As famílias se sentem sozinhas e julgads. Elas não têm ferramentas para lidar com crises de comportamento severas. O desespero toma conta. A devolução aparece então como uma saída de emergência para aliviar a tensão insuportável dentro de casa. Mas o custo dessa saída é a alma da criança.
O despreparo para lidar com traumas prévios
Você não adota apenas uma criança. Você adota uma história. E muitas vezes essa história contém capítulos de violência e negligência e fome. O cérebro de uma criança que passou por isso funciona de forma diferente. Ela pode ter reações desproporcionais a coisas simples. Um tom de voz mais alto pode disparar um gatilho de terror. A falta de comida na mesa por cinco minutos pode gerar um pânico de inanição.
Pais despreparados tentam educar essa criança com métodos tradicionais. Eles usam castigos e palmadas e gritos. Isso não funciona com uma criança traumatizada. Isso apenas confirma que o mundo é hostil. O comportamento piora. Os pais aumentam a rigidez. A criança aumenta a defesa. Vira uma guerra dentro de casa. Os pais interpretam o trauma como má índole ou rebeldia. Eles não conseguem ver a dor por trás do comportamento.
A falta de conhecimento sobre trauma é fatal para a adoção. Se os pais soubessem que aquele grito é um pedido de socorro eles agiriam com compaixão e não com raiva. Mas sem esse entendimento a convivência se torna um campo de batalha. A criança precisa de corregulação. Ela precisa que o adulto empreste a calma dele para ela se acalmar. Se o adulto entra no caos junto com a criança o naufrágio é certo.
A solidão das famílias adotivas
A sociedade romantiza a adoção mas abandona os adotantes. Quando uma família começa a enfrentar dificuldades ela muitas vezes encontra portas fechadas. A escola não entende as dificuldades de aprendizagem da criança e pressiona os pais. Os familiares criticam a forma como a criança é educada. Os amigos se afastam porque a criança é difícil de lidar. A família se isola.
Nesse isolamento os problemas crescem. A vergonha impede que os pais peçam ajuda cedo. Eles querem manter a imagem de família feliz. Eles sofrem em silêncio até não aguentarem mais. Quando buscam ajuda a situação já está insustentável. O vínculo já está tão desgastado que parece impossível de recuperar. A solidão potencializa o estresse parental e diminui a paciência necessária para lidar com os desafios.
Você precisa de uma aldeia para criar uma criança. E precisa de uma aldeia especializada para criar uma criança que sofreu traumas. Grupos de apoio são fundamentais. Trocar experiências com outros pais que passam pelo mesmo valida as dores e traz soluções. Sem essa rede a família entra em exaustão emocional. A decisão de devolver muitas vezes é tomada num momento de burn-out parental absoluto onde os pais sentem que não têm mais nada a oferecer.
O comportamento teste da criança
Existe um fenômeno que confunde muito os pais. Quando a criança começa a se sentir um pouco segura ela piora o comportamento. Parece contraditório mas faz sentido na lógica do trauma. Ela precisa testar se aquele amor é real. Ela inconscientemente pensa que precisa fazer a pior coisa possível para ver se eles vão mandá-la embora. É o teste do amor incondicional.
Ela provoca. Ela desobedece. Ela rejeita. Ela está perguntando através de suas atitudes se você vai ficar mesmo quando ela for insuportável. Se os pais devolvem nesse momento eles confirmam a hipótese da criança. Eles provam que ela estava certa em não confiar. A criança pensa que sabia que isso ia acontecer. É uma profecia que ela mesma ajudou a cumprir por medo.
Se os pais conseguem suportar essa tempestade a criança eventualmente entende que está segura. O teste acaba quando a segurança é estabelecida. Mas muitos processos de devolução acontecem exatamente no pico desse teste. Os pais desistem na hora em que a criança mais precisava que eles ficassem. É trágico porque a cura estava logo ali depois daquela arrebentação. Faltou fôlego para atravessar a última onda.
O Impacto Neurológico e Emocional
Não estamos falando apenas de sentimentos abstratos. Estamos falando de biologia. O trauma altera a estrutura física do cérebro. Uma criança que passa por rejeição repetida vive banhada em hormônios de estresse como o cortisol. Isso é tóxico para o desenvolvimento cerebral. Áreas responsáveis pelo controle de impulsos e regulação emocional ficam subdesenvolvidas.
O cérebro prioriza a sobrevivência em detrimento do aprendizado e da conexão social. É difícil para essa criança se concentrar na escola quando o cérebro dela está ocupado escaneando o ambiente por ameaças. É difícil para ela ter empatia quando ela está lutando para se manter inteira. A devolução agrava esse estado de alerta. O cérebro entende que o perigo é real e constante.
As conexões neurais relacionadas ao apego e à confiança são podadas. O cérebro aprende que se vincular é perigoso. Ele fortalece as vias neurais do isolamento e da defensiva. Reverter essa arquitetura cerebral exige tempo e experiências repetidas de segurança. Cada abandono torna essa reversão mais difícil e demorada. O dano é cumulativo e profundo.
O cérebro em estado de alerta constante
Imagine viver com uma arma apontada para a sua cabeça o tempo todo. É assim que o cérebro da criança devolvida se sente. A amígdala que é o centro de detecção de perigo do cérebro fica hiperativa. Ela dispara alarmes falsos o tempo todo. Um olhar de reprovação é interpretado como uma ameaça de morte iminente. O corpo reage com luta ou fuga antes mesmo que a criança consiga pensar.
Esse estado de hipervigilância é exaustivo. A criança vive cansada e irritada. Ela não consegue relaxar para brincar ou aprender. O sono costuma ser perturbado. O sistema nervoso simpático está sempre ligado no máximo. Isso gera problemas de saúde física e mental a longo prazo. A criança está presa em um loop de medo.
Para quem olha de fora parece que a criança é agitada ou desatenta. Diagnósticos errados de TDAH são comuns nesses casos. Mas a raiz não é um déficit de atenção. É um excesso de medo. Medicar a criança sem tratar o trauma do abandono é como colocar um curativo em uma fratura exposta. Precisamos acalmar o sistema de alarme interno dela antes de exigir qualquer outra coisa.
A regressão de comportamentos
Diante da dor insuportável da devolução é comum a criança regredir. Uma criança que já falava volta a balbuciar. Uma que já usava o banheiro volta a fazer xixi na cama. Ela volta para estágios anteriores de desenvolvimento onde se sentia mais segura ou onde busca o cuidado que lhe faltou. É uma tentativa inconsciente de ser bebê de novo e receber o colo que foi negado.
Essa regressão assusta os cuidadores. Mas você deve olhar para isso como um pedido de socorro. A criança está mostrando que não tem recursos emocionais para lidar com a situação atual como alguém da idade dela. Ela precisa recuar para tentar se reorganizar. É um mecanismo de defesa psíquica.
Punir a regressão é cruel e ineficaz. A criança não faz xixi na cama de propósito. Ela não fala como bebê para irritar. Ela está colapsando internamente. Ela precisa ser acolhida nesse lugar infantilizado até que recupere a força para crescer novamente. É preciso ter paciência para acolher a criança na idade emocional que ela apresenta e não na idade cronológica que ela tem.
A neurobiologia da desconfiança crônica
A confiança é química. Ela depende de ocitocina e de sistemas de recompensa no cérebro que são ativados na interação positiva com o cuidador. No abandono duplo esse sistema quebra. A criança deixa de sentir prazer na conexão social. O rosto humano deixa de ser uma fonte de segurança e passa a ser uma fonte de ansiedade.
A desconfiança se torna a lente através da qual ela vê a vida. Mesmo que alguém seja gentil com ela o cérebro dela rejeita essa informação. Ela pensa que é mentira. Ela pensa que é um truque. Ela sabota relacionamentos bons porque a familiaridade com a rejeição é mais confortável do que o terreno desconhecido do amor.
Reconstruir essas vias neurais é um trabalho de formiguinha. Exige milhares de repetições de interações positivas. O cérebro precisa de provas concretas e constantes de que a realidade mudou. Cada vez que você cumpre uma promessa você coloca um tijolinho nessa reconstrução. Mas uma única mentira pode derrubar o muro todo. A margem de erro com essas crianças é quase zero.
O Ciclo Vicioso dos Vínculos Rompidos
Quando o vínculo é rompido repetidamente a criança desenvolve padrões de relacionamento disfuncionais. Ela aprende a se relacionar através da dor ou da indiferença. Isso cria um ciclo vicioso que ela tende a repetir em todas as suas relações futuras inclusive na vida adulta. Ela se torna o adulto que abandona antes de ser abandonado.
Esse ciclo é devastador porque perpetua a solidão. A criança deseja desesperadamente ser amada mas faz tudo para afastar o amor. É um paradoxo doloroso. Ela grita “vai embora” enquanto o coração implora “fique”. Poucas pessoas conseguem ler essa legenda oculta. A maioria das pessoas se afasta confirmando a crença da criança de que ela não merece afeto.
Quebrar esse ciclo exige uma intervenção externa forte. A criança sozinha não consegue sair dessa dinâmica. Ela precisa de alguém que aguente o tranco. Alguém que não se assuste com os espinhos e consiga ver a flor que existe lá dentro. É um trabalho de resgate emocional que exige uma estrutura psíquica muito sólida por parte dos adultos envolvidos.
O desenvolvimento do apego desorganizado
O apego desorganizado é o mais grave dos estilos de apego. Acontece quando a figura de cuidado é também a fonte de medo. A criança quer ir em direção ao cuidador para buscar conforto mas tem medo dele. Ela fica paralisada. Ela entra em conflito interno constante. O abandono duplo é uma fábrica de apego desorganizado.
A criança desenvolve comportamentos bizarros e contraditórios. Ela pode correr para abraçar um estranho e ignorar o cuidador. Ela pode parecer “congelada” quando os pais entram na sala. Isso é a desorganização interna se manifestando. Não há uma estratégia coerente para lidar com o estresse. O caos interno transborda.
Lidar com uma criança com apego desorganizado é desafiador. Ela não responde à lógica convencional do afeto. O amor tradicional não chega nela da forma esperada. Ela precisa de uma abordagem terapêutica específica para reorganizar sua forma de se vincular. Sem isso ela crescerá com sérias dificuldades de manter relacionamentos saudáveis e estáveis.
A sabotagem como mecanismo de defesa
A sabotagem é a arma preferida da criança duplamente abandonada. Quando as coisas começam a dar certo o alarme de perigo dispara. A felicidade parece suspeita. A calma parece o prelúdio da tempestade. Então ela provoca o caos para voltar ao ambiente que ela conhece e controla. A dor é familiar. A paz é assustadora.
Ela pode ir bem na escola e de repente parar de estudar. Ela pode fazer um amigo e depois brigar com ele sem motivo. Ela destrói as coisas boas antes que elas sejam tiradas dela. É uma forma distorcida de manter o controle. “Se eu estragar tudo eu decido quando acaba e não sou pego de surpresa”. É uma lógica triste mas eficaz para evitar a dor da perda súbita.
Você precisa entender que ela não faz isso porque é má. Ela faz isso porque está aterrorizada. A sabotagem é um escudo. Para desarmar essa defesa você não pode atacar a criança. Você precisa mostrar que ela não precisa mais do escudo. Você precisa mostrar que a felicidade é segura e que ela tem permissão para desfrutar das coisas boas sem medo de retaliação.
A profecia autorrealizável da rejeição
A criança acredita que será rejeitada. Ela age de forma rejeitável. As pessoas a rejeitam. A crença se fortalece. Esse é o ciclo da profecia autorrealizável. O abandono duplo grava essa profecia a fogo na alma da criança. Ela entra em qualquer nova relação já esperando o fim. Ela já está com as malas prontas emocionalmente.
Isso cria uma barreira invisível. As pessoas sentem que não conseguem acessar a criança de verdade. Ela parece distante ou superficial. Ela não se entrega. E essa falta de entrega dificulta a criação de laços profundos o que eventualmente leva ao afastamento das pessoas. A criança olha para isso e diz “eu sabia”.
Interromper essa profecia exige que alguém mude o roteiro. Alguém precisa reagir de forma diferente ao comportamento da criança. Alguém precisa ficar quando a lógica diria para ir embora. É preciso surpreender o sistema de crenças da criança com uma persistência teimosa e amorosa. Só assim a profecia perde sua força e uma nova história pode ser escrita.
A Reconstrução após os Destroços
Apesar de todo o cenário sombrio existe esperança. O cérebro é plástico e a alma humana é resiliente. Crianças que sofreram abandono duplo podem se recuperar e ter vidas plenas. Mas o caminho da reconstrução não é uma linha reta. É uma estrada sinuosa cheia de altos e baixos. Exige um compromisso inabalável da nova família ou da rede de apoio.
A reconstrução começa com a aceitação incondicional da dor da criança. Não podemos apressar a cura. Não podemos exigir que ela esqueça. Precisamos sentar com ela nos escombros e ajudá-la a juntar os pedaços um por um. É um processo artesanal de tecer novos vínculos fio a fio.
O ambiente precisa ser previsível e seguro. A rotina é a melhor amiga da criança traumatizada. Saber o que vai acontecer em seguida diminui a ansiedade. A constância dos cuidadores é o remédio para a inconstância do passado. A reconstrução é feita de pequenos momentos diários de segurança e afeto repetidos incansavelmente ao longo dos anos.
O desafio da nova vinculação para quem fica
Para a família que recebe uma criança após uma devolução ou para os técnicos do abrigo o desafio é gigantesco. Vocês estão lidando com alguém que aprendeu que adultos mentem. Vocês terão que trabalhar o dobro para conquistar metade da confiança. É injusto mas é a realidade. Vocês pagarão a conta que outros deixaram em aberto.
Vocês precisarão de uma blindagem emocional forte. Não levem os ataques para o lado pessoal. Quando a criança grita “você não é minha mãe” ela está gritando a dor da perda das outras mães. Vocês são o alvo da raiva mas não são a causa. Manter essa distinção é vital para a saúde mental de quem cuida.
O amor aqui precisa ser uma decisão e não apenas um sentimento. Haverá dias em que o sentimento de amor estará escondido sob o cansaço e a frustração. Nesses dias a decisão de amar e cuidar precisa prevalecer. É esse compromisso ético e afetivo que vai sustentar a relação nos momentos de crise até que o vínculo se estabeleça de verdade.
A importância crucial da transparência
Não minta para essa criança. Nunca. Nem mentiras brancas. A confiança dela é um cristal trincado. Qualquer inverdade pode estilhaçar o pouco que restou. Fale a verdade sobre a história dela. Fale a verdade sobre o que vai acontecer. Se você vai sair diga que vai sair e que horas vai voltar. E volte na hora exata.
A transparência cria segurança. Explique os porquês das coisas. “Estamos fazendo isso porque queremos cuidar de você”. “Aconteceu aquilo porque os adultos falharam não porque você é ruim”. Nomear as coisas tira o poder fantasmagórico delas. A verdade por mais dura que seja é melhor do que a incerteza para quem tem trauma de abandono.
Valide a percepção dela. Se ela estiver triste diga “eu vejo que você está triste e tudo bem”. Não tente distraí-la da dor. A transparência emocional ensina a criança a confiar nos seus próprios sentimentos e na honestidade da relação. É a base para qualquer intimidade saudável no futuro.
O papel da rede de apoio e da escola
A reconstrução não acontece apenas dentro de casa. A escola tem um papel fundamental. Professores precisam ser informados e treinados para lidar com essas crianças. A escola deve ser um lugar de acolhimento e não mais uma fonte de pressão e exclusão. Adaptações pedagógicas e comportamentais muitas vezes são necessárias.
A família estendida tios e avós também precisa entrar no circuito de cura. Eles precisam entender que não podem criticar os pais na frente da criança ou questionar os métodos de educação terapêutica. Todos precisam falar a mesma língua. A coerência entre os diferentes ambientes ajuda a criança a se organizar internamente.
Grupos de apoio terapeutas e médicos formam o cordão de segurança. Ninguém recupera uma criança de um abandono duplo sozinho. Busquem ajuda especializada. Troquem experiências. A cura é um processo comunitário. Quando a rede segura a família a família consegue segurar a criança.
Terapias e Caminhos de Cura
Como terapeuta vejo todos os dias que o amor é fundamental mas muitas vezes não é suficiente sozinho. Precisamos de técnica. Existem abordagens clínicas específicas que ajudam o cérebro e o coração a processar o trauma do abandono. Não adianta apenas conversar. O trauma vive no corpo e nas emoções profundas onde a palavra racional às vezes não alcança.
A terapia não é mágica. É um processo. Exige tempo e consistência. Mas os resultados são transformadores. Ver uma criança recuperar o brilho no olhar e a capacidade de confiar é uma das coisas mais bonitas que existem. Vamos falar sobre o que funciona de verdade para esses casos.
Você deve procurar profissionais que tenham especialização em trauma e vínculo. A terapia tradicional onde a criança fica desenhando sozinha pode não ser suficiente. Precisamos de intervenções que foquem na relação e na regulação emocional. Aqui estão as abordagens mais indicadas para lidar com o fantasma da devolução.
EMDR e Processamento de Trauma
O EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) é uma das terapias mais eficazes para trauma. Ele ajuda o cérebro a processar memórias dolorosas que ficaram “enroscadas”. Através de estímulos bilaterais ajudamos a criança a digerir o que aconteceu de forma que a memória deixe de ser uma ferida aberta e vire apenas uma história do passado.
Para crianças que sofreram devolução o EMDR pode ajudar a diminuir a carga emocional das lembranças da separação. Ajuda a reduzir os pesadelos e as reações explosivas. É como fazer uma limpeza naquelas pastas mentais que estão bagunçadas e causando travamento no sistema.
O mais interessante é que não exige que a criança fale detalhadamente sobre tudo se ela não quiser. Trabalhamos com as sensações e imagens. É muito respeitoso com o tempo da criança e traz alívio sintomático rápido e duradouro. É uma ferramenta poderosa para destravar o desenvolvimento.
Terapia Familiar Sistêmica
O problema nunca é apenas da criança. O problema é da relação. A Terapia Familiar Sistêmica trata o vínculo. O terapeuta atende a família toda junta. Observamos como vocês conversam como se olham e onde estão os nós na comunicação. O objetivo é fortalecer a família como um time.
Nessas sessões trabalhamos a narrativa da adoção e da devolução. Ajudamos os pais a entenderem o comportamento da criança e ajudamos a criança a entender as intenções dos pais. Criamos um espaço seguro para falar coisas difíceis que em casa gerariam briga. O terapeuta atua como um mediador e tradutor de sentimentos.
Essa abordagem tira a culpa da criança de ser o “problema” e distribui a responsabilidade da cura para todos. Isso empodera os pais e alivia a criança. Fortalecer o sistema familiar é a melhor forma de garantir que não haverá novas rupturas.
Ludoterapia e Expressão Simbólica
Crianças não falam “estou sentindo uma angústia existencial devido ao meu abandono”. Elas brincam. A ludoterapia usa o brincar como linguagem. Na sala de terapia a criança encena o que viveu. Ela pega bonecos e recria a cena da separação. Ela enterra brinquedos. Ela luta. É no brincar que ela elabora e resolve seus conflitos.
O terapeuta brinca junto e ajuda a dar novos desfechos para as histórias traumáticas. Se na vida real ela foi abandonada na brincadeira o bonequinho pode ser resgatado. Isso traz uma sensação de controle e cura para a psique infantil. O simbólico tem força de realidade para o inconsciente.
É um espaço onde ela pode ser agressiva ou regredida sem julgamento. Tudo é permitido no espaço do brincar. Essa liberdade ajuda a drenar a energia represada do trauma e abre espaço para sentimentos mais leves e criativos. É a cura através da linguagem nativa da infância.
Referências
- BOWLBY, John. Apego e Perda. Vol. 1, 2 e 3. São Paulo: Martins Fontes.
- LEVINE, Peter A.; KLINE, Maggie. Trauma através dos olhos da criança. São Paulo: Summus.
- WEBER, Lidia Natalia Dobrianskyj. Laços de Ternura: Pesquisas e histórias de adoção. Curitiba: Juruá.
- CNJ – Conselho Nacional de Justiça. Relatórios do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.
- VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: Cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante.
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