Fome Física vs. Fome Emocional: Aprenda a diferenciar em 3 passos

Fome Física vs. Fome Emocional: Aprenda a diferenciar em 3 passos

Você já se pegou abrindo a geladeira sem saber exatamente o que estava procurando? Ou talvez tenha sentido uma vontade incontrolável de comer algo específico, como um chocolate ou uma pizza, logo após um dia estressante no trabalho? Se você respondeu sim, saiba que não está sozinho nessa jornada. A relação que temos com a comida vai muito além da simples necessidade de nutrientes. Muitas vezes, comemos para alimentar sentimentos, e não o corpo.

Entender a diferença entre a fome física e a fome emocional é uma das ferramentas mais poderosas que você pode ter para retomar o controle da sua saúde e do seu bem-estar. Não se trata de força de vontade ou de seguir dietas restritivas que deixam você frustrado. Trata-se de autoconhecimento e de aprender a escutar os sinais sutis que seu corpo e sua mente enviam o tempo todo.

Neste artigo, vamos conversar como se estivéssemos no meu consultório, tomando um chá. Vou te explicar como esses mecanismos funcionam, por que eles acontecem e, o mais importante, vou te ensinar um método simples de três passos para que você nunca mais confunda uma necessidade de afeto ou descanso com a necessidade de um hambúrguer. Vamos juntos desvendar esse mistério do comportamento humano.

Entendendo a Fome Física: O Chamado Natural do Corpo

A fome física é a maneira mais primitiva e honesta que o seu corpo tem de se comunicar com você. Ela não joga jogos mentais e não tenta te enganar. Pense nela como um carro que acende a luz de reserva no painel quando o combustível está acabando. Fisiologicamente, é uma resposta à queda dos níveis de glicose no sangue e ao aumento de hormônios como a grelina, que sinalizam ao cérebro que é hora de reabastecer a energia para manter as funções vitais operando corretamente.

Uma das características mais marcantes da fome física é a sua paciência. Ela não exige que você coma agora, neste exato segundo, sob pena de um colapso emocional. Ela surge de forma gradual. Talvez comece com um pequeno ronco no estômago, seguido de uma leve queda de energia ou dificuldade de concentração. Ela te dá tempo para preparar uma refeição ou escolher um restaurante. Ela permite que você termine a tarefa que está fazendo antes de se alimentar, sem gerar ansiedade ou pânico.

Outro ponto crucial sobre a fome física é a sua flexibilidade. Quando seu corpo precisa de nutrientes, ele não é exigente. Uma maçã, um prato de arroz com feijão, uma salada ou um sanduíche parecem opções viáveis e atraentes. O objetivo é a saciedade e a nutrição. Após comer a quantidade necessária para preencher o estômago, o corpo envia sinais de satisfação e o desejo de comer cessa naturalmente. Você se sente bem, energizado e pronto para seguir o dia, sem pesos na consciência.

Sinais fisiológicos claros

Quando falamos de fome física, o corpo fala alto e em bom som através de sintomas físicos inegáveis. O mais clássico deles é o ronco estomacal, aquela sensação de vazio físico na barriga que pode até doer levemente se for ignorada por muito tempo. Mas os sinais vão além da barriga. Você pode sentir uma leve dor de cabeça, tontura ao se levantar rápido ou uma sensação de fraqueza nas pernas.

Esses sintomas acontecem porque seu cérebro está tentando economizar energia. Ele começa a desligar funções não essenciais para preservar glicose para os órgãos vitais. É por isso que, quando estamos com muita fome física, ficamos irritados ou com o “pavio curto” – é o famoso “hangry” (fome + raiva). No entanto, perceba que essa irritação é um subproduto da falta de energia, e não a causa da vontade de comer, diferentemente do que acontece na fome emocional.

Aprender a reconhecer esses sinais é como aprender uma nova língua. No começo, pode parecer confuso, especialmente se você passou anos ignorando seu corpo ou seguindo horários rígidos de alimentação externa. Mas com a prática, você começa a perceber que seu corpo é um relógio biológico perfeito. Ele sabe exatamente quando precisa de combustível e avisa você com clareza, desde que você esteja disposto a prestar atenção nas sensações físicas reais, e não apenas nos pensamentos sobre comida.

A progressão natural da fome

A fome física respeita uma curva de crescimento previsível. Ela não aparece do nada como um raio em céu azul. Imagine uma onda no mar que começa pequena no horizonte e vai crescendo à medida que se aproxima da areia. Primeiro, é apenas uma ideia distante de que “daqui a pouco seria bom comer”. Passada uma hora, o estômago dá um sinal. Mais tarde, a concentração falha. É um processo contínuo e escalonado.

Essa gradualidade é o que nos permite ter controle sobre nossas escolhas alimentares. Porque ela não é uma emergência imediata, você tem a clareza mental para decidir o que vai comer. Você consegue pensar: “Estou com fome, vou preparar um frango grelhado com legumes”. O córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo planejamento e decisões racionais, continua no comando. Você não é sequestrado pelos seus impulsos mais primitivos instantaneamente.

Comparar essa progressão com a urgência da fome emocional é a chave. Se você estava bem há cinco minutos e, de repente, sente que precisa comer algo ou vai explodir, desconfie. A biologia humana não funciona em saltos quânticos de necessidade energética, a menos que você esteja correndo uma maratona. No dia a dia, a fome real dá avisos prévios. Se a vontade de comer atropelou todos os sinais e apareceu gritando, provavelmente não é o seu estômago que está falando.

A satisfação pós-refeição

O momento que sucede a refeição é o veredito final sobre o tipo de fome que você sentiu. Na fome física, o ato de comer traz uma sensação de alívio e contentamento. O corpo recebeu o que precisava, os níveis de açúcar no sangue se estabilizaram e a grelina baixou. Existe uma sensação física de preenchimento gástrico que diz ao cérebro “pronto, trabalho feito”. Você consegue parar de comer quando está cheio e não sente necessidade de continuar beliscando.

Mais importante ainda é a ausência de sentimentos negativos. Comer por fome física não gera culpa, vergonha ou arrependimento. É um ato biológico tão natural quanto dormir quando se tem sono ou ir ao banheiro. Você não se recrimina por ter almoçado. Pelo contrário, você sente que cuidou de si mesmo, fornecendo ao seu organismo os tijolos necessários para reconstruir suas células e a energia para viver sua vida.

Se, ao terminar de comer, você sente que ainda “falta alguma coisa”, mesmo estando com a barriga cheia, isso é um forte indício de que a fome não era física. A fome física acaba com a comida. A fome emocional não, porque a comida não resolve o problema que a originou. Se você come para aliviar o tédio, ao terminar o prato, o tédio continua lá. Se come por tristeza, a tristeza permanece. A saciedade física é o ponto final da fome real; na fome emocional, a comida é apenas uma vírgula em uma frase que continua sem sentido.

Desvendando a Fome Emocional: Quando o Coração Pede Comida

A fome emocional é um impostor habilidoso. Ela se veste de necessidade física, mas suas raízes estão plantadas no sistema límbico, a parte do cérebro que gerencia nossas emoções, memórias e recompensas. Ela surge quando não sabemos lidar com o que estamos sentindo e buscamos uma ferramenta externa para mudar nosso estado interno. A comida, por ser acessível, prazerosa e culturalmente associada ao afeto, torna-se a droga de escolha mais comum para anestesiar dores emocionais.

Diferente da fome física, a fome emocional é específica e teimosa. Ela não quer “comida”, ela quer “aquela” comida. Geralmente são alimentos hiperpalatáveis, ricos em açúcar, gordura e sal. Isso não é coincidência. Esses alimentos provocam uma liberação rápida de dopamina e serotonina no cérebro, causando uma sensação momentânea de prazer e alívio. É uma automedicação inconsciente para sentimentos de estresse, solidão, tédio ou ansiedade.

O grande problema da fome emocional é que ela cria um ciclo vicioso. Você se sente mal, come para se sentir melhor, sente-se culpado por ter comido, e essa culpa gera mais sentimentos negativos, que te levam a comer novamente. Quebrar esse ciclo exige compaixão e a coragem de olhar para o que está realmente incomodando você, em vez de tentar cobrir o problema com uma camada de chocolate ou massa.

O desejo repentino e urgente

A fome emocional não bate na porta; ela a arromba. Ela aparece de repente, muitas vezes desencadeada por um evento específico: uma crítica do chefe, uma discussão com o parceiro, ou até mesmo o silêncio de uma casa vazia num domingo à tarde. Num momento você está focado em outra coisa, e no segundo seguinte, seu cérebro é invadido por uma obsessão por comida que parece impossível de ignorar.

Essa urgência cria uma falsa sensação de emergência. Você sente que precisa comer agora. É uma compulsão que desliga sua capacidade de raciocínio lógico. Você pode até saber que não deveria comer aquilo, ou que acabou de almoçar, mas a voz da fome emocional é alta e imperativa. Ela diz que só aquela comida vai te acalmar, que você merece aquele prêmio, que é a única forma de suportar o momento.

Reconhecer essa velocidade de ataque é fundamental. Se a vontade de comer veio do zero a cem em poucos segundos, pare e respire. Pergunte a si mesmo: “O que acabou de acontecer?”. Identificar o gatilho externo que disparou essa urgência interna é o primeiro passo para desarmar a bomba. A fome real nunca é uma emergência que coloca sua vida em risco se não for atendida nos próximos cinco minutos. A fome emocional tenta te convencer de que é.

A busca por conforto específico

Você já percebeu que nunca tem ataques de fome emocional por alface ou brócolis cru? A fome emocional tem um paladar muito específico e geralmente nostálgico. Ela busca “comidas de conforto” (comfort foods). Isso acontece porque buscamos replicar sensações de segurança e prazer que, muitas vezes, foram registradas na nossa infância. O bolo que a avó fazia, o macarrão dos domingos em família, o chocolate que você ganhava quando se comportava bem.

Além da memória afetiva, existe a busca por texturas específicas dependendo da emoção. Quando estamos com raiva ou frustrados, tendemos a buscar alimentos crocantes e duros, que exigem mastigação forte, como uma forma de liberar a tensão da mandíbula (batatas fritas, castanhas, pipoca). Quando estamos tristes ou carentes, buscamos texturas cremosas e macias, que remetem ao colo e ao carinho, como sorvetes, purês e chocolates que derretem na boca.

Essa especificidade é uma grande delatora. Se você diz “estou com fome”, mas recusa uma fruta oferecida dizendo “não, eu queria algo salgado, crocante, tipo um salgadinho”, você não está com fome. Você está com vontade. E vontade é desejo mental, não necessidade fisiológica. Entender que seu desejo por uma textura específica é, na verdade, um desejo por aliviar uma emoção específica, muda completamente o jogo.

O ciclo da culpa e do vazio

O final da refeição emocional é, quase sempre, marcado por sentimentos negativos. Enquanto a fome física termina em satisfação, a fome emocional termina em culpa, vergonha e arrependimento. Você olha para o pacote vazio e pensa: “Por que eu fiz isso? Eu não tenho controle. Eu sou fraco”. Esse diálogo interno destrutivo apenas alimenta mais a ansiedade, criando o terreno fértil para o próximo episódio de compulsão.

Além da culpa, existe a persistência do vazio. Como a comida foi usada para tratar um problema que não era a falta de calorias, o problema original continua lá. Se você comeu porque estava solitário, a pizza acabou, mas a solidão continua. Se comeu porque estava estressado, o chocolate acabou, mas o prazo do trabalho continua apertado. A comida funcionou como um band-aid em uma fratura exposta: cobriu a ferida, mas não curou nada.

É doloroso perceber que a promessa de alívio que a comida fez não foi cumprida. O prazer durou apenas o tempo que o alimento esteve na boca. Assim que engolimos, a realidade volta, muitas vezes agravada pelo desconforto físico de ter comido em excesso. Reconhecer esse padrão não serve para se julgar, mas para entender que a comida é uma ferramenta ineficaz para resolver problemas emocionais. Você precisa de outras ferramentas para essas outras fomes.

Fome Física vs. Fome Emocional: Aprenda a diferenciar em 3 passos

Agora que você já entende a teoria por trás dos dois tipos de fome, vamos para a prática. No calor do momento, quando você está diante da geladeira ou do aplicativo de entrega, é difícil lembrar de conceitos complexos. Por isso, desenvolvi um método simples de três passos que funciona como um filtro de decisão.

Esses passos devem ser aplicados com curiosidade, não com julgamento. Encare-os como uma investigação científica sobre o seu próprio corpo. O objetivo não é proibir você de comer, mas garantir que, se você comer, seja uma escolha consciente e não uma reação automática e desesperada. Vamos transformar o impulso em escolha.

Lembre-se de que a pausa é o segredo. Entre o estímulo (vontade de comer) e a resposta (comer), existe um espaço. É nesse espaço que reside a sua liberdade de escolha. Esses três passos servem para alargar esse espaço e te dar tempo de retomar o controle do volante da sua vida.

Passo 1: O Teste da “Maçã” e a Localização da Sensação

Este é o teste mais antigo e eficaz dos terapeutas alimentares. Quando a vontade de comer surgir, pare e pergunte a si mesmo: “Eu comeria uma maçã inteira agora, com casca e tudo?”. Se a resposta for “Sim, eu comeria qualquer coisa”, é muito provável que seja fome física. Se a resposta for “Não, maçã não… eu queria mesmo era um biscoito”, então é fome emocional. A fome física não é seletiva; a fome emocional é elitista.

Junto com o teste da maçã, faça um escaneamento corporal rápido. Onde você sente a fome? A fome física se localiza do pescoço para baixo: no estômago roncando, na fraqueza das pernas, no vazio abdominal. A fome emocional se localiza do pescoço para cima: é uma “fome de boca”, uma agitação mental, uma imagem fixa de um alimento na sua cabeça, uma tensão na mandíbula.

Se a sensação está na sua mente e na sua boca, e não no seu estômago, respire fundo. Você acabou de identificar que seu corpo não precisa de comida. Ele precisa de dopamina ou alívio. Só de perceber isso, a urgência já diminui, pois você tira a máscara da “necessidade de sobrevivência” que a fome emocional tenta usar.

Passo 2: A Análise da Urgência e do Gatilho

O segundo passo é olhar para o relógio e para o contexto. Pergunte-se: “Quando foi a minha última refeição?”. Se você almoçou um prato completo há duas horas, fisiologicamente é improvável que seu corpo precise de mais energia agora. A digestão de uma refeição completa leva tempo. Se a vontade apareceu logo após uma reunião tensa ou ao chegar em casa exausto, o gatilho é situacional, não biológico.

Analise a velocidade. Essa vontade apareceu gradualmente ou foi um “boom”? Se foi repentina, tente rebobinar a fita dos últimos 30 minutos. O que aconteceu? Você viu algo nas redes sociais que te chateou? Recebeu uma notícia ruim? Sentiu-se entediado? Identificar o gatilho (“Estou querendo comer porque estou irritado com meu chefe”) tira o poder da comida. Você nomeia o verdadeiro problema.

Ao nomear a emoção (“Isso é ansiedade”, “Isso é tédio”), você valida o que sente. Muitas vezes, comemos para não sentir. Quando você diz “Eu estou triste e tudo bem estar triste”, a necessidade de anestesiar essa tristeza com comida diminui. A emoção quer ser sentida, não alimentada.

Passo 3: O “Check-in” da Pausa Consciente

O terceiro passo é a negociação. Se você identificou que é fome emocional, você não precisa necessariamente proibir a comida, mas deve impor uma condição: a pausa. Diga para si mesmo: “Ok, eu posso comer esse chocolate, mas vou esperar 15 minutos. Se daqui a 15 minutos eu ainda quiser, eu como”. Na maioria das vezes, a urgência da fome emocional passa como uma onda. Ela tem um pico alto, mas dura pouco.

Durante essa pausa, saia do ambiente onde a comida está (cozinha). Beba um copo de água – muitas vezes confundimos sede com fome. Mude o foco. Vá dobrar uma roupa, regar uma planta ou responder uma mensagem. Ao tirar o foco da comida, o cérebro muitas vezes “esquece” aquela urgência.

Se passados 15 minutos a vontade persistir e você decidir comer, faça-o com consciência plena. Sente-se, coloque no prato, coma devagar, saboreando cada pedaço, sem celular ou TV. Muitas vezes, a fome emocional pede volumes enormes porque comemos distraídos. Se você der atenção total ao alimento, uma quantidade pequena pode ser suficiente para satisfazer o desejo hedônico (de prazer) sem gerar o exagero e a culpa subsequente.

A Ciência por Trás do “Comer Emocional”

Para lidar com a fome emocional, precisamos deixar de vê-la como uma falha de caráter e passar a vê-la como um mecanismo biológico e neuroquímico. Seu cérebro foi projetado para garantir sua sobrevivência e buscar prazer. Em tempos ancestrais, o estresse significava perigo físico iminente (um predador), e o corpo pedia energia rápida para lutar ou fugir. Hoje, o “predador” é um boleto vencido, mas a resposta biológica é a mesma.

Entender a química do seu cérebro tira o peso da culpa. Você não é guloso ou sem força de vontade; você está lutando contra neurotransmissores potentes que evoluíram ao longo de milhares de anos. A indústria alimentícia sabe disso e projeta alimentos para explorar exatamente essas falhas do nosso sistema de recompensa, criando a “tempestade perfeita” de açúcar, gordura e textura.

Vamos mergulhar um pouco no que acontece “nos bastidores” do seu cérebro quando você sente aquele desejo incontrolável. Conhecimento é poder, e saber como a máquina funciona é o primeiro passo para assumir o controle manual dela.

O Papel da Dopamina e do Sistema de Recompensa

A dopamina é o neurotransmissor do “quero mais”. Ela é responsável pela motivação e pela busca de recompensa. Quando você come açúcar ou gordura, seu cérebro libera uma enxurrada de dopamina, criando uma sensação de euforia temporária. O cérebro registra: “Ação X (comer doce) = Resultado Y (sentir-se bem)”. Isso cria uma via neural reforçada.

Com o tempo, em momentos de baixa dopamina (tristeza, tédio, apatia), seu cérebro automaticamente sugere a solução mais rápida e fácil que ele conhece para elevar esses níveis: comida. Não é que você queira o alimento em si, você quer a dopamina que ele traz. Você está buscando uma mudança química no seu estado mental.

O problema é que o sistema de recompensa se adapta (downregulation). Com o tempo, você precisa de mais açúcar para sentir o mesmo prazer, gerando o ciclo de compulsão. Entender isso ajuda a buscar outras fontes de dopamina que não sejam comestíveis, como exercícios, música, completar tarefas ou abraçar alguém que você gosta.

Cortisol: Como o Estresse Sequestra seu Apetite

O cortisol é o hormônio do estresse. Quando estamos estressados cronicamente, os níveis de cortisol ficam elevados. O cortisol tem um efeito direto no apetite: ele aumenta a vontade por alimentos ricos em energia (calorias) e facilita o acúmulo de gordura na região abdominal (uma reserva estratégica de energia para tempos difíceis).

Além disso, o estresse desliga o córtex pré-frontal, a parte racional do cérebro. É por isso que é tão difícil “manter a dieta” quando estamos estressados. A parte do cérebro que se preocupa com metas de longo prazo e saúde está “offline”, enquanto o sistema límbico, que quer alívio imediato, assume o comando.

Gerenciar a fome emocional é, essencialmente, gerenciar o estresse. Se você não tratar a fonte do cortisol – seja através de terapia, mudanças no estilo de vida ou técnicas de relaxamento – o impulso biológico de comer para estocar energia continuará forte. A luta não é contra a comida, é contra o estado de alerta constante em que vivemos.

A Conexão Intestino-Cérebro e as Emoções

Hoje sabemos que o intestino é nosso “segundo cérebro”. Cerca de 90% da serotonina (hormônio do bem-estar) é produzida no intestino. A composição da sua microbiota (as bactérias que vivem no seu intestino) pode influenciar seus desejos alimentares e seu humor. Uma dieta rica em processados alimenta bactérias que “pedem” mais açúcar, criando um ciclo biológico de desejo.

Quando estamos ansiosos, sentimos “frio na barriga”. Isso é a comunicação direta entre cérebro e intestino via nervo vago. Muitas vezes, interpretamos esse desconforto intestinal causado pela ansiedade como fome. A sensação de “vazio” na barriga pode ser apenas ansiedade física, não necessidade de comida.

Cuidar da saúde intestinal com probióticos, fibras e alimentos reais pode, surpreendentemente, diminuir a fome emocional. Ao melhorar a produção de serotonina e estabilizar a microbiota, você reduz os sinais químicos que o intestino envia ao cérebro pedindo por “junk food”, facilitando o processo de regulação emocional.

Ferramentas de Regulação Emocional (Além da Comida)

Se tiramos a comida como principal fonte de consolo, precisamos colocar outra coisa no lugar. Deixar um vazio onde antes havia um mecanismo de enfrentamento (coping mechanism) é a receita para a recaída. Precisamos construir uma “caixa de ferramentas” emocional que seja tão acessível e eficaz quanto a comida, mas sem os efeitos colaterais negativos.

Essas ferramentas precisam ser praticadas quando você não está em crise, para que estejam disponíveis quando a tempestade chegar. É difícil aprender a nadar durante um naufrágio. Comece a testar essas estratégias em momentos de leve desconforto para criar novas conexões neurais.

O objetivo é diversificar suas fontes de prazer e alívio. Hoje, para muitas pessoas, a comida é o único prazer do dia. Isso é um fardo muito pesado para um hambúrguer carregar. Vamos distribuir esse peso entre outras atividades e práticas de autocuidado.

A Técnica do Acalmar-se através dos 5 Sentidos

Quando a emoção está muito forte, precisamos “sair da cabeça” e “voltar para o corpo”. Uma técnica excelente é o aterramento sensorial. Tente estimular seus sentidos de forma prazerosa sem usar o paladar:

  • Visão: Olhe para algo bonito (uma paisagem, fotos de uma viagem, arte).
  • Olfato: Acenda uma vela aromática, cheire um óleo essencial de lavanda ou o cheiro de chuva.
  • Audição: Coloque sua música favorita, ouça sons da natureza ou até mesmo o silêncio.
  • Tato: Tome um banho quente, vista uma roupa confortável de tecido macio, faça uma automassagem nos pés ou abrace seu animal de estimação.
    Esses estímulos enviam sinais de segurança para o cérebro, baixando o cortisol e diminuindo a necessidade de “conforto” via comida.

Nutrição Comportamental: Mudando o Diálogo Interno

Pare de se chamar de “gordo”, “fraco” ou “sem vergonha”. A autocrítica excessiva gera mais estresse, que gera mais fome emocional. Mude o diálogo para um tom de curiosidade e cuidado. Em vez de “Eu não deveria comer isso”, tente “Eu estou percebendo que estou ansioso e querendo comer. O que mais eu posso fazer por mim agora?”.

Entenda que nenhum alimento é proibido. Quando você proíbe, você aumenta o desejo. A permissão incondicional para comer (com atenção plena) paradoxalmente diminui a compulsão. Se você sabe que pode comer o chocolate a hora que quiser, você não precisa comer a caixa toda agora “antes que a dieta comece amanhã”.

Trate-se como você trataria uma criança pequena que está chorando. Você não daria um chocolate para calar a boca da criança; você perguntaria o que houve, daria um abraço. Faça isso com sua criança interior. Acolha o sentimento antes de decidir se vai alimentar o corpo.

Construindo um “Menu de Dopamina” sem Calorias

Crie uma lista física, escrita no papel, de coisas que te dão prazer e que não envolvem mastigar. Cole essa lista na geladeira. Quando a fome emocional bater, você tem um “cardápio” de opções. Exemplos:

  • Ligar para um amigo divertido.
  • Assistir a um episódio de uma série de comédia (rir libera endorfina).
  • Dar uma volta no quarteirão (o movimento muda a química cerebral).
  • Praticar um hobby manual (tricô, pintura, jardinagem) – manter as mãos ocupadas é ótimo.
  • Dormir (muitas vezes comemos por cansaço, para tentar obter energia falsa).
    Ter esse menu pronto poupa seu cérebro de ter que pensar em soluções criativas no momento do estresse, quando ele está menos apto a fazer isso.

Tratamentos e Terapias Indicadas

Para finalizar nossa conversa, é importante dizer que se você sente que a fome emocional é uma constante que atrapalha sua vida e saúde, buscar ajuda profissional é um ato de coragem e inteligência. Não é “frescura”. Existem abordagens terapêuticas fantásticas para isso.

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é o padrão ouro para lidar com transtornos alimentares e comer emocional. Ela ajuda a identificar os pensamentos distorcidos (“Eu preciso comer para ser feliz”) e a mudar os comportamentos reativos, criando novas rotinas.

Mindful Eating (Comer com Atenção Plena) não é uma dieta, mas uma prática terapêutica que ensina a reconectar com os sinais internos de fome e saciedade, que muitas vezes foram “desligados” por anos de dietas restritivas.

Nutrição Comportamental é uma abordagem onde o nutricionista não entrega apenas um papel com o que pode e não pode comer, mas trabalha o comportamento alimentar, a relação com a comida e as questões emocionais envolvidas no ato de comer.

Em alguns casos, terapias focadas em trauma, como o EMDR, podem ser úteis se a comida estiver sendo usada para suprimir memórias dolorosas do passado. O importante é saber que existe saída e que você pode reconstruir uma relação de paz e liberdade com a comida. Você merece se alimentar para viver bem, e não viver para se alimentar.

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